Entre a legalidade e a legitimidade

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Claudemir Pereira

Até quando a imprensa esportiva de Pernambuco vai esconder essa discussão? Até quando os clubes permanecerão inertes diante da possibilidade de não mais mandarem os clássicos ou jogos importantes nos seus estádios? Até quando a sociedade vai engolir esse desperdício de recursos públicos? E, até quando o governo insistirá em tamanha irresponsabilidade?

Comecei assim esse texto para lembrar que não existe pessoa ou instituição isenta nesse projeto de construção de um novo estádio de futebol em Pernambuco em detrimento a uma reforma no estádio do Arruda.

A imprensa, que recebe royalties, ou melhor, dinheiro, do Governo do Estado, em forma de propagandas se omite em questionar, de fato, o porquê da construção da Cidade da Copa. Quando menciona o assunto o faz através de uma discussão inócua, como fez, meses atrás, um blog esportivo de um dos jornais da capital, quando convidou alguns excelentíssimos conhecedores de nada para discutir o assunto, e aí foi um tal de “eu acho” que não teve fim. Um dos convidados, inclusive, chegou a dizer que o Arruda era inviável por não ter como a imprensa estacionar seus veículos de transmissão. Essa afirmação mostra o total despreparo desse senhor em debater o tema, pois, na realização do jogo da seleção no Arruda a imprensa falada, escrita, televisada e outras mais, puderam estacionar seus veículos tranquilamente e realizarem seu trabalho – ah! Mas não foi uma copa? Podem perguntar. Sim! Mas foi num jogo de eliminatória para a Copa do Mundo que tem tanta importância como a própria copa.

E por falar em jogo da seleção no Arruda, foi vergonhoso o tratamento dado pela imprensa local à reforma realizada no estádio. Enquanto a imprensa nacional elogiava e questionava o porquê da não opção pelo Arruda para sediar os jogos da Copa, a mídia local fazia campanha contra afirmando que o pacote acertado com a CBF não ficaria pronto, mas ficou. Insatisfeita com a campanha de difamação que teimava em não repercuti como desejado, ela publicou, no dia seguinte ao jogo, fotos de pequenas falhas para justificar o que havia anteriormente falado. Aí, cabe-nos uma pergunta. Até quando a imprensa local vai trocar uma discussão séria por alguns trocados em propaganda?

E os clubes? Alguns dizem que se o governo pensasse em reformar o Arruda, os outros dois clubes da capital, Náutico e Sport, se posicionariam contrários e até romperiam com a FPF. Mas será que os outros dois clubes prefeririam mandar seus clássicos e jogos importantes em outro estádio que não o seu e, ainda, pagar a taxa de uso e manutenção dessa nova praça futebolística? Será também que esses clubes desejam ver seus torcedores gastarem mais para chegar e sair dos jogos? Será que se essa praça já existisse, os jogos da Copa Libertadores da América teriam acontecido no estádio do Sport? Acho que só os clubes podem responder.

E outra, para receber as seleções e dar uma infra-estrutura compatível às suas necessidades, além da reforma no Arruda, haveria, também, necessidade de melhoramentos nos estádios dos outros clubes da capital, pois, eles seriam utilizados como apoio às seleções que aqui viessem jogar.

Acredito que a sociedade, mesmo sendo o futebol um assunto, para muitos, irrelevante, acordará para discutir com responsabilidade e sensatez a aplicação do erário público que as autoridades pretendem fazer na obra de São Lourenço da Mata. O montante, dizem, chega a mais de 1 bilhão e meio de reais para construir a Cidade da Copa, que é composta de um estádio (mais ou menos 800 milhões de reais) e mais um conjunto habitacional (mais ou menos 700 milhões de reais). Em contra posição a ARENA CORAL custaria, algo em torno de, 280 milhões de reais.

E a diferença? Essa poderia ser aplicada em benefícios sociais para a população que reside nas proximidades, pois, essa população é uma das mais pobres da cidade segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Recife de 2005. Um projeto urbanístico viria muito bem a calhar naquela região. Essa sobra também poderia ser usada para levar uma linha do metrô até a zona norte, uma das áreas mais habitada da Região Metropolitana do Recife, construindo um ramal de Camaragibe até o bairro da Guabiraba, em Casa Amarela, o quê beneficiaria milhares de famílias. Projetos, com certeza, não faltaria, mas para isso acontecer faz-se imperioso pensar no legado que um evento como a Copa do Mundo de Futebol pode deixar para a cidade e para as pessoas que nela vivem e não numa marca personalista.

Por ultimo eu gostaria fazer uma discussão em relação à autoridade de aplicar recursos públicos. Quando elegemos os nossos governantes lhes entregamos o exercício legal e legítimo da governança, que lhes dá o poder de decidir sobre a aplicação de recursos públicos. Max Weber discorre sobre isso em Economia e Sociedade, quando explica os três tipos de Dominação Legítima. Mas será que quando esses governantes decidem aplicar recursos em uma obra de custo elevado e baixo retorno social ele não perde a legitimidade? A legalidade para tomar tais decisões, eu acredito que não, pois, isso só aconteceria ao fim do mandato, entretanto, a legitimidade é conquistada dia-a-dia com aprovação e apoio dos cidadãos e cidadãs e creio que essa iniciativa do Governo do Estado está longe de receber o carimbo da legitimidade. Portanto, é fundamental que se dê, em Pernambuco, uma discussão sensata e respeitosa sobre o investimento para receber os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 2014.

Com a palavra, o POVO DE PERNAMBUCO.

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10 comentários

  1. Paulo Aguiar
    1

    Muito bom, Claudemir. Mais claro do que seu texto, impossível.
    No Brasil, as coisas são diferentes. Enquanto a Inglaterra resolve transformar um “bairro pobre”, no Brasil as olimpiadas serão em uma área “nobre”.
    O Recife teria muito mais a ganhar com a reforma da Arena Coral, não restam dúvidas. Mas, somos “culpados” por termos três “clubes grandes”… o que eu mais lamento é a consequencia negativa que terá para os clubes de Pernambuco, que esqueçam que não são mais “grandes”…

  2. Claudemir,

    Grande texto. Vai direto em algumas feridas.

    Demorei a chegar, pois hoje tive uma crise reumática – parece que estou ficando velho – e ainda por cima estou anestesiado do dentista. Ô vidinha!

    Saudações corais,

    Dimas Lins

  3. Geraldo Tricolor da Iputinga
    3

    Perfeito, perfeito, perfeito. O comentário está perfeito pois consegue abordar claramente os vários aspectos que envolvem a questão.
    No que se refere à provável discordancia de alguns torcedores dos outros dois clubes da capital, com certeza só o fazem em razão de não conseguirem analizar claramente sem colocar a paixão clubistica, e aí opinam contráriamente sobre a Arena Coral, mesmo que isso traga prejuizos aos seus proprios clubes.
    A construção de mais um estádio deixará uma herança muito ruim para o povo pernambucano, e uma conta altissima para os clubes provocando aínda mais o enfraquecimento dos mesmos.

  4. Hélio Mattos
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    Estou gostando muito de ver que a tecla da Arena Coral continua sendo batida por aqui e em muitos outros lugares.

    Se existe uma possibilidadae de reverter este projeto faraônicomegalomaníaco e sugador do dinheiro público, esta possibilidade se dá justamente com a dicurssão sendo mantida viva.

    Discordo veementemente de quem falou que não adianta falarmos porque não vai dar em nada e viraremos chacota pública.
    Chacota vai virar, isto sim, o elefante depois de passada a euforia da copa.
    Infelizmente uma chacota não tão engraçada.

    E vamos levantar mais ainda esta bola gente!

  5. Robson/Piauí
    5

    Concordo com plenamente com as fundamentações que levam a conclusão sobre a inviabilidade da construção do novo estádio. Mas, pra ser sincero, sou pessimista com a futura Arena Coral caso ela saia do papel. Lembremos que uma arena deste porte exige uma administração dinâmica, honesta, eficiente, profissional. Isto existe ou algum dia existiu em nosso clube? O Mais Querido, nos anos 70 dispunha de um estádio recém inaugurado, lindissimo, orgulho de todo tricolor. Nos últimos anos parecia uma favela, sem energia, totalmente decadente. Temos que arrumar nossa cozinha primeiro.

  6. Na verdade, seja lá quem for o investidor que entrar na Arena Coral, ele deverá ter um período à frente da administração do estádio, para tirar o investimento.

    Pelo que tenho lido, este período gira entre 20 e 30 anos.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

  7. Marcos Costa
    7

    Ano que vem tem eleição. E um candidato a governador só terá meu voto se for contrário a esse desperdício de dinheiro público: o elefante branco chamado Cidade da Copa.

    Assim, não votarei no atual governador enquanto ele insistir nesse projeto megalomaníaco!

    Os tricolores e população pernambucana temos as urnas de 2010 para protestar contra o mais dispendioso e inútil projeto para abrigar um jogo da copa. Arena Coral já por Pernambuco!

  8. André Tricolor Virtual
    8

    “Claudemir”

    Parabéns meu amigo pelo texto … E estranho seria, se nós “Tricolores Corais” não estivéssemos discutindo essa assunto tão pertinente para o Estado!

  9. Ótimo texto de Claudemir.

    Dimas, sobre a questão do relacionamento dos blogs (e da torcida em geral) com o clube, li agora um interessante texto no blog Observatório Verde, da toricida do Palmeiras.

    Um trecho:
    http://www.observatorioverde.net/2009/09/11/a-historia-sendo-feita/

    A história sendo feita
    Por Tiago Soares

    “Em 2004, o Partido Democrata dos EUA abriu a cobertura de sua Convenção Nacional para dezenas de blogueiros independentes, entre militantes, analistas e repórteres.

    O gesto do partido, que colocou no mesmo pé imprensa oficial e independente, deu o que falar à época. A Convenção Democrata é um dos eventos centrais à política estadunidense, é de lá que saem boa parte dos arranjos e diretrizes que guiarão as ações do partido pelos próximos quatro anos. E, num cenário político bipolar como o deles, dividido no eterno derby Democratas x Republicanos, isso significa muito. Muito MESMO.

    Não à toa, esse gesto dos Democratas, esse reconhecimento, cinco anos atrás, da relevância, da produção e do alcance dos blogs independentes, é considerado por alguns estudiosos da cibercultura como uma espécie de marco zero. Como o ponto inicial da legitimação, no grande cenário, da blogosfera como formadora de opinião.

    Em 2009, a diretoria de futebol do Palmeiras convidou representantes de veículos independentes palestrinos para uma apresentação sobre o estado de coisas do clube.

    Reunidos numa sala de reuniões, os coordenadores e dirigentes palmeirenses proveram editores da Mídia Palestrina com informações brutas sobre as condições estruturais do clube em vários níveis, além de apresentações sobre os métodos e sistemas de gestão implantados ao longo dos últimos dois anos, e de um panorama da situação financeira em relação ao cenário nacional e global.”

    (…) “Lógico, há quem pense (e diga) que o clube pretende aparelhar os veículos palestrinos, e que é tudo um grande jabá, e que andamos todos a nos dar as mãos num grande complô chapa branca-e-verde. Eu prefiro acreditar que há nisso um tanto de estratégia, e um bocado de reconhecimento do novo cenário da comunicação.”

    (…) “O convite do clube, assim como seu reconhecimento de que os veículos independentes palmeirenses configuram uma força legítima e formadora de opinião, dão mostra de um pioneirismo que, entranhado ao DNA palestrino, ainda há de ser estudado. Porque extrapola o futebol e a torcida e a paixão e o fanatismo, e entra no campo das novas mídias e sua análise.

    Em 2008, os Democratas elegeram Barack Obama surfando em boa parte na agenda construída pelas redes online, no emaranhado de blogs, twitters, facebooks e tal.

    Em 2009, o Palmeiras briga pela ponta do campeonato. Pode ganhar, pode perder, é do jogo. O que importa é que, independente disso, estamos bem encaminhados.”

  10. Claudemir Pereira
    10

    Como disse Dimas a instituição que financiar a construção da Arena Coral vai ter um tempo de administração para retirar o que investiu e, claro, o lucro.
    Quanto à questão da discussão desse tema ser de responsabilidade dos tricolores eu, particularmente, discordo, acho que isso é de responsabilidade de cada cidadão e cidadã de Pernambuco, independente de que times tenham, pois, o investimento que o Governo do Estado pretende fazer em São Lourenço é dinheiro de todos os pernambucanos.
    É muito estranho, enquanto na Arena Coral a reforma seria 100% bancada pela iniciativa privada e o investimento público se daria apenas nas ações de urbanização dos bairros e comunidades circunvizinhas do Arruda, que é papel do Estado. Na obra da cidade da copa tem-se uma previsão de 100% de aplicação de recursos públicos, inclusive para a construção do estádio. Uma pergunta, isso é papel do Estado, construir estádio de futebol?

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