Primavera entre os dentes

Primavera entre os dentes

Desde a primeira derrota para o Sport nesta temporada que não piso no Arruda. Mais que isso, fiquei absolutamente alheio ao Santa Cruz. As conversas, os símbolos e as cores já não me seduziam como antes. Menos ainda o desejo de ir a campo, assistir a um jogo e torcer por uma vitória. O Santa Cruz — não é fácil admitir — já não movia tanto os meus passos. Já não associava o domingo aos jogos do meu time, nem acompanhava as partidas pelo rádio ou televisão ou torcia fervorosamente pelas vitórias que longe levam nossos sonhos corais. No Arruda, fez-se inverno. Nunca fui torcedor de resultados e sempre estive com o Santa nos bons e maus momentos, por isso, pode parecer estranho tão visível apatia. Esta indolência formou-se, contudo, na oscilação do time, na falta de perspectivas de mudança a curto e médio prazos, no risco de fracasso no ano do centenário, no retrocesso. Consolidou-se, por fim, na série de derrotas para o Sport nesta temporada. Não se pode ganhar todas, é verdade, mas é preciso ter brio sempre. Há na apatia uma forma indireta de discordância, como uma oposição passiva; no silêncio, um meio de recusa, quando a resignação é quase uma revolta. A omissão, em certas circunstâncias, apontam que algo se quebrou. No caso do Santa Cruz, a queda na média de público no Arruda era proporcional ao desencontro no futebol. O protesto silencioso das arquibancadas escancarou, assim, tremenda insatisfação. O Santa Cruz de ontem reencontrou seu futebol. Jogou com dignidade, superou a adversidade do retrospecto recente e deu sinais de que por aí pode vir bom tempo. O público ainda não foi bom, mas já deu sinais de que a torcida quer se reencontrar com seu time. Também aguardo ansioso esse reencontro. Basta o time mostrar que para sair desse inverno é preciso segurar a primavera entre os dentes. Primavera nos dentes Secos e Molhados Quem tem consciência para ter coragem Quem tem a força de saber que existe E no centro da própria engrenagem Inventa a contra-mola que resiste   Quem não vacila mesmo derrotado Quem já perdido nunca desespera E envolto em tempestade, decepado Entre os dentes segura a...

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Breve perspectiva do centenário

Breve perspectiva do centenário

Finalmente, o ano do centenário começou para o Santa Cruz. Cem anos de história, de muitas histórias para contar. Casos pitorescos, como o primeiro adversário, o Rio Negro, que impôs a condição inusitada de barrar o atacante coral Silvio Machado, autor de cinco dos sete a zero marcados no jogo de ida, que de nada adiantou, já que o seu substituto, Carlindo, marcou seis dos nove a zero na revanche. Infelizmente, são poucas as perspectivas que esses cem anos sejam revividos e celebrados do jeito que o clube merece. Tenho a impressão que as comemorações do nosso centenário não serão pintadas em cores vivas, pois se me permitem uma avaliação pessoal, as festividades organizadas pela diretoria coral não estão à altura de nossa história. O momento atual de dificuldades financeiras, que perdura, aliás, por várias décadas, explica, apesar das ótimas campanhas nas últimas temporadas, o acanhamento na programação do clube. Jogos dos amigos de um contra os amigos de outro aconteceram de rodo nas férias de fim de ano por todo o país e, olhando para o nosso próprio umbigo, nunca atraiu o torcedor. Como tricolor, estou mais interessado e aguardo, sem grandes esperanças, notícias mais estruturadoras, como o início das obras do Centro de Treinamento e a prometida reforma do Arruda que até agora não saiu do papel. Além do mais, embora o contrato com a Penalty vigore até o final do ano, pela insatisfação de alguns diretores e especulações em torno de outros fornecedores de materiais esportivos, esperava uma mudança para uma marca ainda mais forte por conta do centenário. O silêncio, exceto se imposto por cláusulas de confidencialidade, indica que não há nada de novo no front e na retaguarda também. O marketing do Santa Cruz não passa de uma piada de mau gosto e sua profissionalização reside apenas nos sonhos da torcida. Também nos sonhos do torcedor residem as mudanças modernizadoras na administração do clube. Se no futebol, conquistamos três campeonatos e dois acessos nos últimos anos, administrativamente, o Santa é o mesmo de trinta ou quarenta anos atrás. Os dirigentes corais não perceberam, e sabe-se lá se algum dia perceberão, que sem modernização na forma de fazer futebol, não há perspectivas para o futuro. O Santa Cruz, no contexto atual, ganhará um título sazonal e jamais encostará nos grandes clubes do país e, por que não dizer, do mundo. No campo de jogo, fiquei...

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O Sr. sabe lá o que é Santa Cruz?

O Sr. sabe lá o que é Santa Cruz?

Dando uma olhada nas redes sociais, buscando a repercussão do Título do Santinha, não foi incomum encontrar vários comentários dos nossos irmãos bicolores diminuindo nossa conquista. Fazendo graça com ela e conosco. Foram coisas do tipo: “Série C? Que merda! Sou elite!” ou “Os banguelos (mundiça) estão em festa”, ou ainda “Hoje não haverá crimes no Recife”. Enfim, toda sorte de humor do mais alto padrão Danilo Gentile de ser. Perdoai-vos, ó Pai, eles não sabem o que dizem! Não sabem mesmo. Um dos bicolores, cujos simpatizantes costumam abrir a boca pra gritar “Eu sou elite!” é o mesmo que repete o mantra, numa tola tentativa de acreditar em si mesmo, que é campeão brasileiro de 87. O curioso é que esta mesma elite a qual ele diz pertencer, esta mesma elite, é a que lhe põe o dedo na cara e mostra a verdade incontestável. O verdadeiro campeão é outro bicolor, o carioca. Pouco importa o que a credibilíssima CBF diga. O mundo sabe a verdade! O outro bicolor, coitado, vive de um tal hexa do passado. Sua maior glória é ser um clube de brancos e riquinhos da gloriosa aristocracia recifense. Seu mais importante título é o de ser o último clube do país a aceitar jogadores negros. Como cantava Cazuza, eu uma das suas piores canções, “são caboclos querendo ser ingleses”! O que eles não entendem, nem nunca vão entender, é que nós não precisamos de nenhum título pra provar nossa grandeza. Não precisamos da tal razão instrumental criada pelo mercado que usa como medida a quantidade em ouro, neste caso troféu, que cada um tem. Nós não precisamos ter nada. Nós somos poesia, eles são como bandas de forró de plástico. A nossa grandeza é simplesmente existir. A nossa grandeza reside na atrevimento daqueles garotos pobres e pretos, proibidos de entrar nos clubes ingleses do Recife, que ousaram criar um clube de futebol diferente de tudo o que era permitido nas altas rodas. A nossa maior grandeza é a capacidade de chorar e de sorrir mostrando todos os dentes. Os que existem e os que faltam! A nossa grandeza é a nossa própria história. Nós somos o que eles mais temem. Somos o povo! Pretos, pobres, desdentados, dos morros, das favelas, das empregadas domésticas… Somos o clube da inclusão social. Foi graças a nossa história que não acabamos. Eles, se tivessem passado pelo que nós...

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Hamlet embriagado

Hamlet embriagado

Foi depois de mais uma indecifrável partida de Siloé, que eu assumi um ar compenetrado, como Hamlet na famosa peça de Shakespeare. Atravessei o olhar no amarelo-ouro de meu copo, como se em minhas mãos estivesse o crânio desnudo de Yorick, e refleti, tanto quanto pode refletir um homem em estágio avançado de turbação passageira das faculdades. Se estivesse menos sob o efeito etílico, talvez ensaiasse um profundo embate filosófico sobre a ressurreição coral e sua perspectiva para o ano do centenário, mas nesse estado para lá de Bagdá, me concentrei, reparem bem, em matéria mais prosaica. Por isso, olhando o borbulhar de minha cerveja, disparei sem pestanejar: — Siloé ou Dênis Marques sem treinar? A pergunta era capciosa, porque não se discutia apenas quem era melhor jogador, mas, principalmente, penetrava-se no cerne da questão ética que envolve o atacante coral. Escolher Dênis Marques seria o mesmo que aceitar sua indisciplina autorizada pelo alto escalão do clube e consentir privilégios não oferecidos aos seus colegas de time e de profissão. Seria descredenciar a autoridade do treinador, que, em tese, tenta fazer o que é certo. As respostas dos companheiros de mesa não vieram de pronto. Os goles de cerveja se seguiam como se assim fosse possível desembaraçar o pensamento. Ao contrário, a cada gole os cérebros ficavam mais nublados e os raciocínios mais turvos. O fato é que há um istmo entre o certo e o errado,  quando os feitos incontáveis de um jogador estão no meio da discussão. Principalmente quando o desejo de perdoar vem de uma necessidade urgente, no jogo decisivo, antes que o ano acabe. O perdão condicionado, é forçoso reconhecer, não é sincero e não perdura por tempo mais alongado. Bastarão alguns meses para que, por três vezes, como na bíblia, se negue a defesa do indefensável. Afinal, a questão central permanece inatacada: é algum jogador maior que o clube? — Dênis Marques! – enfim, responderam todos em uníssono. Tomei mais um gole e tentei por fogo na discussão buscando comparações extremas. — Siloé ou Dênis Marques depois de comer uma feijoada? O silêncio reflexivo foi mais breve e logo veio a resposta a confirmar a tendência inicial. — Dênis Marques! – Dispararam todos mais uma vez em uma só voz. — Siloé ou Dênis Marques depois de tomar um Lexotan? — Dênis Marques! A partir daí o que se viu foi uma repetição embriagada...

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Santinha, espaço e tempo da resistência do povo

Santinha, espaço e tempo da resistência do povo

Pensei que desapareceríamos. Sério. Foram seis anos, pensando o pior. Sempre no limite, sempre por um triz. E o poço não tinha fundo; a queda, sem fim, e as letras das malditas divisões inferiores do futebol brasileiro, tampouco — alfabeto interminável. E o cansaço chegando, ninguém aguentava mais. O Santinha acabou? Cadê minha história? Fico sem. Sou eu que acabo também. É uma vida no Arruda. Tô lá direto desde antes de nascer. Não era apenas o clube que acabaria, era um mundo inteiro — meu mundo. Todo tricolor sentiu isso na pele. Seríamos zumbis sem história pra contar. Guardar tudo na memória e ficar, feito uma máquina mnemônica, lembrando o passado glorioso? Nunca! Apagaria a lembrança, se preciso fosse. Prefiro o conformismo do esquecimento. Lembrar para sofrer? Porque o presente não existe mais? Jamais! Mil vezes a amnésia! Com a morte do Santinha, não faria luto e viraria um melancólico. Como substituir a perda? Por que e por quem? Não, não, mudaria de nome e de cidade. E, claro, de bar; talvez, de bebida. Virava black bloc e quebrava a CBF, a máfia dos 13, o escambau. Pensei que não fôssemos eternos. Sei, sei, confesso. O que podia fazer? Pensei nisso mesmo. Não minto. Vamos morrer — e disse essa frase maldita num bar, depois da queda à série D. Uma mesa de deprimidos e de desolados, de malditos e de fantasmas. Ali, só via cemitério, túmulos, passado e… muita saudade. Curioso, era uma saudade imensa de um ente querido. Sufocava meu coração. Nunca foi falta. Não era bile que azedava a vida. Nada de vazio. Perda? Sim, senti logo no início; depois, outros sentimentos. O que fui sentindo ainda era um mistério. Foi mesmo saudade. O sentimento me acompanhou em toda nossa saga. Sentia, mas não sabia defini-lo. Não tinha ainda nome — sabia que tinha lirismo, nostalgia e ausência, tudo misturado como se fosse uma feijoada poética. Descobri finalmente do que se tratava no gol de Caça-Rato quando olhei um senhor de idade em lágrimas ao meu lado. — Aaah, era saudade, falei, já olhando o passado — todo nosso sofrimento, com aquele gol, tinha virado história e pretérito. E olhava o velhinho chorando miúdo, choro calmo, sem escândalo, choro sábio. Eu não chorei, só meus olhos. Somente a saudade torna presente a ausência — a mais forte, a mais irredutível, a mais fiel das presenças. Talvez,...

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