Breve perspectiva do centenário

Breve perspectiva do centenário

Finalmente, o ano do centenário começou para o Santa Cruz. Cem anos de história, de muitas histórias para contar. Casos pitorescos, como o primeiro adversário, o Rio Negro, que impôs a condição inusitada de barrar o atacante coral Silvio Machado, autor de cinco dos sete a zero marcados no jogo de ida, que de nada adiantou, já que o seu substituto, Carlindo, marcou seis dos nove a zero na revanche. Infelizmente, são poucas as perspectivas que esses cem anos sejam revividos e celebrados do jeito que o clube merece. Tenho a impressão que as comemorações do nosso centenário não serão pintadas em cores vivas, pois se me permitem uma avaliação pessoal, as festividades organizadas pela diretoria coral não estão à altura de nossa história. O momento atual de dificuldades financeiras, que perdura, aliás, por várias décadas, explica, apesar das ótimas campanhas nas últimas temporadas, o acanhamento na programação do clube. Jogos dos amigos de um contra os amigos de outro aconteceram de rodo nas férias de fim de ano por todo o país e, olhando para o nosso próprio umbigo, nunca atraiu o torcedor. Como tricolor, estou mais interessado e aguardo, sem grandes esperanças, notícias mais estruturadoras, como o início das obras do Centro de Treinamento e a prometida reforma do Arruda que até agora não saiu do papel. Além do mais, embora o contrato com a Penalty vigore até o final do ano, pela insatisfação de alguns diretores e especulações em torno de outros fornecedores de materiais esportivos, esperava uma mudança para uma marca ainda mais forte por conta do centenário. O silêncio, exceto se imposto por cláusulas de confidencialidade, indica que não há nada de novo no front e na retaguarda também. O marketing do Santa Cruz não passa de uma piada de mau gosto e sua profissionalização reside apenas nos sonhos da torcida. Também nos sonhos do torcedor residem as mudanças modernizadoras na administração do clube. Se no futebol, conquistamos três campeonatos e dois acessos nos últimos anos, administrativamente, o Santa é o mesmo de trinta ou quarenta anos atrás. Os dirigentes corais não perceberam, e sabe-se lá se algum dia perceberão, que sem modernização na forma de fazer futebol, não há perspectivas para o futuro. O Santa Cruz, no contexto atual, ganhará um título sazonal e jamais encostará nos grandes clubes do país e, por que não dizer, do mundo. No campo de jogo, fiquei...

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O Sr. sabe lá o que é Santa Cruz?

O Sr. sabe lá o que é Santa Cruz?

Dando uma olhada nas redes sociais, buscando a repercussão do Título do Santinha, não foi incomum encontrar vários comentários dos nossos irmãos bicolores diminuindo nossa conquista. Fazendo graça com ela e conosco. Foram coisas do tipo: “Série C? Que merda! Sou elite!” ou “Os banguelos (mundiça) estão em festa”, ou ainda “Hoje não haverá crimes no Recife”. Enfim, toda sorte de humor do mais alto padrão Danilo Gentile de ser. Perdoai-vos, ó Pai, eles não sabem o que dizem! Não sabem mesmo. Um dos bicolores, cujos simpatizantes costumam abrir a boca pra gritar “Eu sou elite!” é o mesmo que repete o mantra, numa tola tentativa de acreditar em si mesmo, que é campeão brasileiro de 87. O curioso é que esta mesma elite a qual ele diz pertencer, esta mesma elite, é a que lhe põe o dedo na cara e mostra a verdade incontestável. O verdadeiro campeão é outro bicolor, o carioca. Pouco importa o que a credibilíssima CBF diga. O mundo sabe a verdade! O outro bicolor, coitado, vive de um tal hexa do passado. Sua maior glória é ser um clube de brancos e riquinhos da gloriosa aristocracia recifense. Seu mais importante título é o de ser o último clube do país a aceitar jogadores negros. Como cantava Cazuza, eu uma das suas piores canções, “são caboclos querendo ser ingleses”! O que eles não entendem, nem nunca vão entender, é que nós não precisamos de nenhum título pra provar nossa grandeza. Não precisamos da tal razão instrumental criada pelo mercado que usa como medida a quantidade em ouro, neste caso troféu, que cada um tem. Nós não precisamos ter nada. Nós somos poesia, eles são como bandas de forró de plástico. A nossa grandeza é simplesmente existir. A nossa grandeza reside na atrevimento daqueles garotos pobres e pretos, proibidos de entrar nos clubes ingleses do Recife, que ousaram criar um clube de futebol diferente de tudo o que era permitido nas altas rodas. A nossa maior grandeza é a capacidade de chorar e de sorrir mostrando todos os dentes. Os que existem e os que faltam! A nossa grandeza é a nossa própria história. Nós somos o que eles mais temem. Somos o povo! Pretos, pobres, desdentados, dos morros, das favelas, das empregadas domésticas… Somos o clube da inclusão social. Foi graças a nossa história que não acabamos. Eles, se tivessem passado pelo que nós...

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Alívio

Alívio

Queria escrever uma crônica que representasse este momento. Que fosse capaz de traduzir sentimentos, descrever alívios e transformar imagens, sons e emoções em palavras. Queria ter a capacidade de narrar o que domingo vi e ouvi na mesma intensidade em que senti e explicar que as lágrimas que agora caem não são de tristeza, mas de alegria. Lágrimas que não cessam, enquanto desabafo a minha humanidade e despejo todo o sofrimento com os anos de penúria, que ainda não se foram, mas os vindouros certamente nos possibilitarão torcer com um pouquinho mais de dignidade, pois desejar um calendário que ocupe um time o ano inteiro não é pedir demais. Queria botar para fora o medo que senti, lá na pior fase de vacas magras da nossa centenária história, que o Santa Cruz, profetizado que viveria eternamente, poderia um dia se acabar. Gostaria de arrancar as maldades do nosso futebol que, com o poder da grana, egoísta e centralizado, decide impiedosamente quem sobreviverá. Queria muito abraçar a todos os tricolores, homens, mulheres e crianças, milhões de heróis da resistência, que nos trouxeram de volta do fundo do poço e fizeram renascer um clube centenário. Reconhecer também a desportividade de outros torcedores, de tantos outros times, de todos os cantos deste país, que viram em nossa torcida o verdadeiro amor incondicional. Queria gritar bem alto: “eu voltei dos mortos!”, porque agora me sinto bem vivo, ainda que saiba que o abismo entre nós e nossos adversários persistirá por quanto tempo eu não sei. Andei cansado, andei. Tanto que meu corpo ainda dói. É a dor de quem agora descansa e que, por muito tempo, carregou peso demais sobre os ombros. É a dor tardia de quem, por seis longos anos, esteve febril. Que em nosso centenário, enfim, se inicie a...

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Ao pé do rádio

Ao pé do rádio

Começo essas mal traçadas linhas reconhecendo que ouvir um jogo do Santa Cruz pelo rádio é uma grandíssima merda. A locução acelerada nos dá sempre a impressão que a partida transcorre em altíssima velocidade e contribui significativamente para causar distúrbios cardíacos. Se no estádio sempre mantenho uma tranquilidade budista, ao pé do rádio, morro de ansiedade e tenho constantes crises de taquicardia. Quando o locutor narra a jogada de maneira alucinante, fico com a impressão que o time adversário parte sempre com a bola, do goleiro ao atacante, na velocidade de um Fórmula 1. — Viu o pique que o atacante deu? — Não. Só ouvi o barulho do motor. Enquanto penso que a bola ronda perigosamente a área do meu time, lá atrás, o goleiro adversário ainda troca passes com o zagueiro. É a chamada ilusão auditiva, corolária da ilusão de ótica. É caso de ouvir para crer. Todo jogo decisivo, penso eu, deveria ser transmitido pelas emissoras de televisão. Haveria, em meu modo de ver, intervenção do Ministério da Saúde na programação da TV para minimizar os riscos de morte súbita no sofá. Afinal, a televisão é ou não concessão do Estado? — Interrompemos a nossa programação normal para transmitir o jogo entre Betim e Santa Cruz, de acordo com a Lei nº 5.860/2013 e Portaria nº 2536/2013 do Ministério da Saúde. Não morri neste domingo, porque não era dia de morrer. Ficava imaginando as bolas sobrevoando nossa área, o gol perdido por Siloé e a defesa milagrosa de Tiago Cardoso. — Corta essa porra! Atacante fela da puta! Ão, ão, ão, meu goleiro é paredão! Seja lá como for, com ou sem sofrimento, o fato é que vencemos. Um a zero, placar miudinho, aos dois minutos de jogo. Não teve pressão que tirasse a nossa vantagem. Vica, é bem verdade, criticou a atuação do time. Teria sido, segundo suas próprias palavras, o pior jogo sob o seu comando. Fico feliz com esse discernimento. Estava acostumado a ver o time jogar uma porcaria e ouvir o técnico tapar o sol com a peneira insistindo que tudo tinha sido uma beleza. Melhor assim. Autocrítica e bom senso não fazem mal a ninguém. Domingo largarei o rádio de mão, pois é dia de estádio lotado. Sessenta mil é pouco, se o Arruda não encolher. Serão sete anos decididos em um só jogo, o mais importante desde a nossa sequência...

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Passaporte

Passaporte

Ainda hoje tenho dificuldades em acreditar que aquele time de algumas rodadas atrás terminou a fase em primeiro lugar. Olho para trás com tristeza e para a frente com alegria. O responsável por essa nova atitude todos sabem, não preciso dizer. A emoção da arquibancada venceu a razão da diretoria, já dizia Artur Perrusi. Agora começa nova fase. Um reinício. Todo o esforço do clube nos últimos sete anos resume-se a duas partidas. Nosso destino não é a Série B, mas a saída da Terceira Divisão é o caminho necessário. Caímos por quatro anos consecutivos, em velocidade supersônica, e estamos voltando em doses homeopáticas. É como a corrida da lebre e da tartaruga, só que a primeira vai e a segunda vem. Para o Santa Cruz nada é fácil, estamos carecas de saber e cansados de repetir. Contudo, ainda estamos no buraco do futebol brasileiro. Não se sai daqui de salto alto, crente e abafando que já estamos lá. O Fortaleza de Vica sabe bem como é. O Santa Cruz de Vica não quer nem saber. O confronto não é de um time só. Do outro lado, eles também querem subir. Subestimar ou menosprezar o adversário é a coisa estúpida a fazer. Felizmente, este não é um defeito do Santa Cruz. Somos humildes até demais. Nunca estivemos tão perto de sair da Série C. Esta é a primeira vez que passamos de fase. Temos um grupo equilibrado, que hoje joga com raça e determinação. É preciso guardar na memória o último jogo da primeira fase, onde a acomodação com o resultado trouxe um castigo no final. O Santa precisa entrar em campo, contra o Betim, como quem tem fome de vencer e sede de chegar. É preciso ter humildade e sabedoria; força de vontade e garra. Futebol também ajuda. Time e torcida precisam tornar-se um só. A sinergia é fundamental. Está em jogo mais que uma partida de futebol. A classificação é o passaporte para sair da UTI. É a chance de acreditar que ainda temos um futuro. Que podemos fazer mais. Que podemos ser mais. É a oportunidade de mostrar que, apesar do esmagamento que o futebol brasileiro no impôs, com a conivência de administrações incapazes, ainda estamos vivos. Bem...

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