Identidade e identificação

Identidade e identificação

É comum ouvirmos de aficionados do futebol expressões inapropriadas quando atribuem mais ou menos personalidade a atletas e times. Todas as pessoas têm personalidade (conjunto de traços ou características) e tal conceito não pode ser mensurado em maior ou menor grau. O que às vezes não se tem claro dentro cabeça é a identidade, ou seja, a consciência de si, com suas possibilidades e limites. A identidade faz o ser humano se tornar singular no universo. É a identidade que diferencia uns dos outros, porque ela é construída exatamente em contraposição ao outro. Exemplo: quando digo eu sou eu, você é você, sei exatamente o que nos diferencia ou aproxima; cada um do seu jeito, ao seu modo.  Assim como as pessoas tem suas identidades, times também têm a sua marca, seu modo de ser e agir. A identidade da instituição Santa Cruz, historicamente, tem sido o modo contínuo de lutar, angariando força que leva ao alcance dos objetivos, ultrapassando barreiras e obstáculos, com marchas e contramarchas, porém, com sucesso ao final. Milhares de equipes que já representaram esta instituição fracassaram ou tiveram sucesso, dependendo da sua identificação, ou não, com o clube. A identificação, portanto, se traduz em alinhamento, convergência de ações, pensamentos semelhantes, por vezes, juntos e misturados a caminhar na mesma direção. Melhor explicando: as equipes santacruzenses que foram vencedoras, em suas épocas, tiveram a seu favor um conjunto de circunstâncias que as ajudaram a criar sua própria identidade, alinhadas à identidade do clube. Assim, times aguerridos, batalhadores, com jogadores unidos, cooperativos e integrados entre si e com os torcedores foram aqueles que obtiveram mais sucesso, em todos os aspectos. Não são poucos os jogadores do Santa Cruz que já estiveram na Seleção Brasileira, com grande brilho. Outros se projetaram no cenário nacional e internacional, alguns aqui permaneceram arraigados ao povo e ao lugar que os acolheu com carinho, no qual construíram suas famílias. No entanto, quando a torcida coral olha para o campo e vê um time amarelado, lento, desarticulado, sem sentido de equipe, sem objetividade, tem dificuldade de se identificar com ele, ou seja, fica dificuldade de se ver nele, então, abre-se um abismo entre as quatro linhas e as arquibancadas. Contudo, ao menor sinal de reação, luta e obstinação os olhos apaixonados brilham, as mágoas desaparecem e a esperança de vencer volta. Todavia, isto não deve ser uma iniciativa pontual ou extemporânea, precisa...

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Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar dos jogos do Santa Cruz na Série B. Nosso índice é de quase 100% de… erro. Mesmo assim, a gente não desiste. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e cronistas e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Estou perdido na mata e de repente vejo um clarão. Na minha direção, uma samambaia corre com as mãos para cima. Não sei se é o sol a pino ou se botaram alguma coisa na minha clorofila. A samambaia se aproxima, mas não é uma samambaia, apenas um torcedor do América/MG vestido com o uniforme do clube e correndo com a mão na cabeça para não perder o juízo. Sim, tive uma visão. Placar: América/MG 1 x 2 Santa Cruz Paulo Aguiar Mais lúcido em campo, o craque do pernambucano, João Paulo, evita a derrota coral. Placar: América/MG 1 x 1 Santa Cruz Artur Perrusi Ricardinho escala um cachorro, pensando que era um cavalo e ganha o jogo. Placar: América/MG 0 x 2 Santa Cruz Nó Cego Isso é um lote de frouxos! Vão se cagar todinho jogando fora de casa! Bando de fuleiros! Placar: América/MG 2 x 0 Santa Cruz Manoel Valença, o Manequinha Imagino o Arruda gritando ensandecido: “Ão, ão, ão, meu atacante é cachorrão!”. A dupla Cachorrino (Cachorrão e Anderson Aquino) deslancha orquestrada por João Paulo. O Santa vence depois de tomar um gol besta e perder uns quatro gols de cego. Placar: América/MG 1 x 2 Santa Cruz Santana Moura O Santa é uma constelação: brilha mais que uma estrela! Placar: América/MG 1 x 2 Santa...

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Com a corda toda

Com a corda toda

Os editores e cronistas do Torcedor Coral, por vontade própria — todos sabem — exilaram-se. Foram tantos anos pisando e repisando as coisas do Santa Cruz, que se criou um oco mental e se instalou uma enorme preguiça nas mãos. Poucos têm essa capacidade de deixar a mente vazia, reconhecemos. Eis nossa melhor virtude. Primeiro, veio a desaceleração, depois, enfim, a parada total. Por um bom tempo respiramos por aparelhos. O resultado dessa paralisia reflete-se agora no tempo em que escrevo: falta ritmo, os dedos entrevaram e, no cérebro, só teias de aranha. Fisioterapia e voltar ao Arruda ajudaram a reacender a velha chama. Escrever, como tudo na vida, requer exercício. A prática vem da repetição; as ideias, de usar a cabeça em coisas úteis, ou inúteis, como no nosso caso. Estalo os dedos, enquanto espremo uma gota de pensamento e uma voz sussurra que ainda há muito o que dizer do Santa Cruz. Imagino fantasmas do passado cobrando a conta da vadiação, mas logo soube que não podíamos escapar da verdade, que crescemos venerando essas cores numa mistura secular entre o profano e o sagrado, entre a farra e a devoção. Não há como, então, desvencilharmo-nos daquilo que nos impregna. Por isso, a ociosidade termina agora. O TC hoje retorna ao universo virtual para fazer o que sabe: falar do Santa Cruz. O retorno, que amadurecia aos poucos, foi praticamente selado no final do campeonato pernambucano. Se não cansamos do Santa Cruz nos piores momentos de sua história, por que cargas d’água cansaríamos agora que voltamos a ganhar competições? É melhor ser alegre que ser triste, já dizia o poeta. Há muito o que fazer nas Repúblicas Independentes do Arruda e o TC quer meter a colher. É preciso provocar, reformular, modernizar. É preciso confundir para então esclarecer. Nosso papel está na primeira parte desta oração subordinada. Também é preciso brincar. Por isso, o nosso retorno aconteceu num encontro etílico de editores, cronistas e amigos no Paraíso Tricolor, jardim da nossa querida Santana Moura e de Toy, o casal mais acolhedor do universo, como bem disse Perrusi já com a língua engrolada. Os encontros anuais, é justo dizer, aconteciam próximo ao 06 de dezembro, data do aniversário do TC, mas, em 2014, passou batido, sintoma de que algo estava mesmo fora de ordem. Em dado momento, foi Artur, confundindo uma samambaia com Santana, reflexo das mudanças químicas na corrente sanguínea, quem filosofou...

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Os verdadeiros inimigos

Os verdadeiros inimigos

Firme na minha decisão de manter o TC parado até reavaliação no início da Série B, recuei, momentaneamente, provocado por uma entrevista de Alírio Moraes ao Superesportes. Provocado no melhor sentido, pois o tenho visto com bons olhos, apesar das dificuldades e das falas em demasia. O mandatário coral, no final da entrevista, lamentou o desdenho da torcida pelas metas que traçou para o triênio 2015 a 2017. “A gente fica sendo taxado de delirante, porque quer mudar a realidade do clube. Algo que a torcida mesmo cobra, ela quer uma melhoria, mas ela própria não acredita que possa acontecer.” Alírio Moraes Matutei sobre a fala presidencial, dei razão a Alírio, mas compreendo bem a torcida. Impossível não compreendê-la depois de tantos anos de esculhambação administrativa, que nem mesmo o aclamado Fernando Bezerra Coelho ou o sortudo Antônio Luiz Neto conseguiram — ou mesmo tentaram — minimamente dar um jeito. Alírio Moraes tem, na conta de quem apenas observa de longe, a vantagem de olhar para frente. Enxerga o clube como qualquer torcedor bem informado, e sabe que o Santa Cruz tem uma estrutura medieval e precisa entrar no século em que vive. Contudo, qualquer tricolor também reconhece que são ousadas as metas traçadas, como construção do Centro de Treinamento em três meses, modernização do Arruda, conquista da Copa do NE, do Brasil e vaga na Libertadores. Nenhum dos projetos saiu do papel, desde o tempo de Edinho, o diminutivo que reduziu o Santa Cruz a cinzas. Claro, bem explicou o presidente, que não há como garantir a conquista de nada, mas apenas de montar um time capaz de atingir as metas. Ganhar ou perder são coisas do futebol. Metas, porém, são fáceis de traçar e difíceis de alcançar. E quanto maior for a glória prometida, maior também será o tombo, em caso de frustração. Em tempos de descrédito, na perda da fé, cujo reflexo principal é o desaparecimento do torcedor das arquibancadas do Arruda, o silêncio cauteloso talvez seja o melhor caminho até que as coisas, enfim, tenham condição reais de materialização. Ainda assim, é preciso dizer que o presidente Alírio Moraes tem um diferencial dos seus antecessores. Enquanto todos miraram primeiro o futebol, ele identificou como principal alvo uma reforma administrativa, a tal profissionalização que todos nós sonhamos. E já fez o que nenhum outro presidente conseguiu nos últimos trinta anos, reduzir significativamente a dívida do clube, essencial...

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Primavera entre os dentes

Primavera entre os dentes

Desde a primeira derrota para o Sport nesta temporada que não piso no Arruda. Mais que isso, fiquei absolutamente alheio ao Santa Cruz. As conversas, os símbolos e as cores já não me seduziam como antes. Menos ainda o desejo de ir a campo, assistir a um jogo e torcer por uma vitória. O Santa Cruz — não é fácil admitir — já não movia tanto os meus passos. Já não associava o domingo aos jogos do meu time, nem acompanhava as partidas pelo rádio ou televisão ou torcia fervorosamente pelas vitórias que longe levam nossos sonhos corais. No Arruda, fez-se inverno. Nunca fui torcedor de resultados e sempre estive com o Santa nos bons e maus momentos, por isso, pode parecer estranho tão visível apatia. Esta indolência formou-se, contudo, na oscilação do time, na falta de perspectivas de mudança a curto e médio prazos, no risco de fracasso no ano do centenário, no retrocesso. Consolidou-se, por fim, na série de derrotas para o Sport nesta temporada. Não se pode ganhar todas, é verdade, mas é preciso ter brio sempre. Há na apatia uma forma indireta de discordância, como uma oposição passiva; no silêncio, um meio de recusa, quando a resignação é quase uma revolta. A omissão, em certas circunstâncias, apontam que algo se quebrou. No caso do Santa Cruz, a queda na média de público no Arruda era proporcional ao desencontro no futebol. O protesto silencioso das arquibancadas escancarou, assim, tremenda insatisfação. O Santa Cruz de ontem reencontrou seu futebol. Jogou com dignidade, superou a adversidade do retrospecto recente e deu sinais de que por aí pode vir bom tempo. O público ainda não foi bom, mas já deu sinais de que a torcida quer se reencontrar com seu time. Também aguardo ansioso esse reencontro. Basta o time mostrar que para sair desse inverno é preciso segurar a primavera entre os dentes. Primavera nos dentes Secos e Molhados Quem tem consciência para ter coragem Quem tem a força de saber que existe E no centro da própria engrenagem Inventa a contra-mola que resiste   Quem não vacila mesmo derrotado Quem já perdido nunca desespera E envolto em tempestade, decepado Entre os dentes segura a...

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