Pérolas do dia seguinte

Pérolas do dia seguinte

Acabou a centésima edição do Campeonato Pernambucano, justo em nosso centésimo aniversário e estávamos em casa vendo os intrusos na festa. Bem, não adianta em nada lamentar o passado, quero apenas pontuar algumas coisas que observei e que merecem ser ditas no dia depois do fim. 1. O pior Pernambucano dos últimos muitos anos Em minha opinião, o campeão moral desse campeonato é o Salgueiro, que com regulamento correto teria eliminado seus dois adversários na fase final. A desculpa desse regulamento ridículo é que foi decidido democraticamente pelos integrantes do campeonato no conselho arbitral. Sou a favor da democracia, mas, são 9 pequenos contra 3 grandes (aliás, 10 pequenos já que a barbie votou a favor desse regulamento), sempre os pequenos serão maioria da votação. Imaginem se ano que vem colocam as seguintes propostas: Vitória de time pequeno contra grande vale 5 pontos Derrota de time pequeno para time grande ganha 3 pontos Se a maioria votasse a favor valeria? Não seria democrático? Nove contra três. Agora imagina se a Odebrecht / Governo do Estado participassem e propusessem: Quem jogar na Arena PE ganha um ponto extra de bônus Quem colocar mais de 25 mil na Arena ganha outro ponto extra de bônus Ironias a parte, vocês me entenderam não foi? 2. Vergonha de atitude O pior que vi esse campeonato não foi a falta do título, do futebol convincente, da garra, da raça. O pior de tudo é o motivo disso e as justificativas dadas. Motivo? Todos já sabem: ruindade. Desde o começo do ano, todos os tricolores, sejam em redes sociais, blogs, mesas de bar, sociais, geral e arquibancada sabiam que um time que tem jogadores do naipe de Oziel, Memo e Pingo não iria a lugar nenhum. O único jogador contratado que considero um reforço foi Gamalho. O resto pode mandar embora. Justificativas? Bem, em me sinto enojado e feito de otário com escuto pérolas tipo: “Nosso elenco tem qualidade!” – Provou. Tem tanta qualidade que foi quarto no estadual “Estamos buscando nomes no mercado.” – Só se for no Mercado da Madalena depois das 2 da manhã! “O problema do time é psicológico.” – Que psicólogo do mundo faz o time não tomar 12 gols em clássicos? Sendo 10 de bola cruzada “Temos que resgatar nosso maior patrimônio, a torcida!” – Essa merece um vá tomar no cú bem grande. Patrimônio tratado feito gado nos...

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Hamlet embriagado

Hamlet embriagado

Foi depois de mais uma indecifrável partida de Siloé, que eu assumi um ar compenetrado, como Hamlet na famosa peça de Shakespeare. Atravessei o olhar no amarelo-ouro de meu copo, como se em minhas mãos estivesse o crânio desnudo de Yorick, e refleti, tanto quanto pode refletir um homem em estágio avançado de turbação passageira das faculdades. Se estivesse menos sob o efeito etílico, talvez ensaiasse um profundo embate filosófico sobre a ressurreição coral e sua perspectiva para o ano do centenário, mas nesse estado para lá de Bagdá, me concentrei, reparem bem, em matéria mais prosaica. Por isso, olhando o borbulhar de minha cerveja, disparei sem pestanejar: — Siloé ou Dênis Marques sem treinar? A pergunta era capciosa, porque não se discutia apenas quem era melhor jogador, mas, principalmente, penetrava-se no cerne da questão ética que envolve o atacante coral. Escolher Dênis Marques seria o mesmo que aceitar sua indisciplina autorizada pelo alto escalão do clube e consentir privilégios não oferecidos aos seus colegas de time e de profissão. Seria descredenciar a autoridade do treinador, que, em tese, tenta fazer o que é certo. As respostas dos companheiros de mesa não vieram de pronto. Os goles de cerveja se seguiam como se assim fosse possível desembaraçar o pensamento. Ao contrário, a cada gole os cérebros ficavam mais nublados e os raciocínios mais turvos. O fato é que há um istmo entre o certo e o errado,  quando os feitos incontáveis de um jogador estão no meio da discussão. Principalmente quando o desejo de perdoar vem de uma necessidade urgente, no jogo decisivo, antes que o ano acabe. O perdão condicionado, é forçoso reconhecer, não é sincero e não perdura por tempo mais alongado. Bastarão alguns meses para que, por três vezes, como na bíblia, se negue a defesa do indefensável. Afinal, a questão central permanece inatacada: é algum jogador maior que o clube? — Dênis Marques! – enfim, responderam todos em uníssono. Tomei mais um gole e tentei por fogo na discussão buscando comparações extremas. — Siloé ou Dênis Marques depois de comer uma feijoada? O silêncio reflexivo foi mais breve e logo veio a resposta a confirmar a tendência inicial. — Dênis Marques! – Dispararam todos mais uma vez em uma só voz. — Siloé ou Dênis Marques depois de tomar um Lexotan? — Dênis Marques! A partir daí o que se viu foi uma repetição embriagada...

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Papo rápido, antes do jogo

Papo rápido, antes do jogo

Digo logo que simpatizei com Vica. Nada demais, só mesmo empatia, até porque acho a função de técnico um mal necessário para o futebol. Mas, cá entre nós, chegamos a um ponto no qual sentimos, na carne, a falta de um treinador no nosso time — o mal virou um bem necessário. Aliás, fiquei convencido da sua absoluta necessidade, vendo o Santinha sem um por várias rodadas no inferno da C. Nos últimos tempos, assistir a um time sem comando foi pedagógico. Divago, nesse momento, se não foi uma tentativa revolucionária, embora malograda, de nossos dirigentes, ao formar uma equipe sem técnico. ALN e Tininho são revolucionários, sem dúvida. Confesso que tenho uma tendência para perdoar adeptos radicais da inovação. Boa parte das mudanças, nesse mundo velho e enfadado, seria produto de mentes alucinadas, como as de nossos dirigentes. A loucura é o motor da existência, caros amigos. Queriam um futebol sem treinadores, imaginem. Não existe utopia mais bonita do que imaginar um futebol tendo como base a amizade. Nossos cartolas suspiraram por uma equipe boa-praça, cujos laços afetivos seriam constitutivos da eficiência e dos bons resultados. Posso imaginar que nossos dirigentes, ao acreditarem na Amizade, têm confiança, assim, na força do Amorrr. Bonito, hein?! Enfim, queriam um mundo melhor. Mas não deu certo, e mudo de assunto. Pois bem, simpatizo com Vica. Tem um jeitão sem frescura. Não sei ainda se é um bom técnico. Pelo menos, até agora, está se saindo razoavelmente bem. Deu um jeito, por exemplo, na epidemia de chinelinhos que grassava no Arruda. Conseguiu a proeza de fazer DM9 frequentar treinamentos. Certamente, aprendeu técnicas hipnóticas com a consagrada Santana Moura — de fato, só na base da hipnose para conseguir tal intento. E olhe que o time está correndo e jogando com raça, mesmo nessa situação de atrasos salariais — parabéns ALN pelo planejamento! Vejam vocês, Vica conseguiu, até agora, controlar a inclinação de alguns jogadores para se queixarem de lesões na parte posterior do bolso ou no adutor financeiro (expressão formidável, utilizada pelo melhor cronista esportivo de Pernambuco, Carlos Lopes). Vica sabe variar taticamente o time e, principalmente, parece entender a partida, organizando a equipe no intervalo de jogo — mesmo assim, ainda acho que gosta em demasia de volantes. Na última partida, perdeu praticamente todo o time dito titular (Renan, Tiago Costa, Ramires, Dedé, Luciano Sorriso, Renatinho e Natan — não é...

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A volta do recalcado

A volta do recalcado

Tenho que escrever algo… Ordens de Dimas. Mas escrever é um ócio muito trabalhoso. E meu salário só vale uma merreca. Enfim… Acordei, espreguicei e fui ao banheiro. É praxe, talvez de muita gente. Olho, aponto e me desafogo. A manhã começa com um alívio. Foi meu primeiro pensamento filosófico do dia. E não errei a pontaria. Quem erra é machista? Faço a primeira pergunta das 24 horas. E parece feminista. Tô inspirado. Saio, entro na cozinha e bebo um copo d’água em jejum. Faz bem aos rins, segundo algumas crenças mágicas da medicina. Aproveito e tomo pantoprazol. Escutei que faz bem. E sou aditivo. Botou um comprimido na minha frente, engulo imediatamente. Sou dos poucos zerumanos do planeta, por exemplo, que tem barato com aspirina. Se não me causasse gastrite, seria viciado no acetilsalicílico. A “Marcha da Aspirina” — é meu primeiro pensamento político do dia. Realmente, tô bem, tô bem… Sento à mesa, como pão, ovos e tomo café. Preciso da cafeína e de seus efeitos espasmódicos, senão não cago. Sair de casa, ir ao trabalho, mas sem cagar, não é comigo. Sem o gesto banal, passo o dia tapado do cu e do entendimento (desculpe a linguagem chula, mas minha avó dizia isso quando eu fazia alguma burrice). Tem amigo meu que passou 10 anos na análise e, hoje em dia, caga pela manhã que é uma beleza. Sua prisão de ventre matinal era produto do seu Complexo de Édipo, ou seja, a culpa era da mãe. Mas não preciso de análise. Sou psiquiatra, logo, tecnicamente, louco são os outros. Além do mais, se tenho constipação, tomo o famoso chá “Bateu-Cagou”, indicação de Ducaldo — embora especialista em caldinhos, o dito-cujo seria um apreciador de infusões exóticas. Pois bem, levantei-me do trono e olhei o espelho. O reflexo me inquiria. O que é, porra?! O espelho ficou calado, pois o silêncio faz parte de sua natureza. Os americanos inventaram um que fala. São phodas, os americanos. Sabem de tudo, esses caras. Olhei o reflexo. Será que os doidos estão me espionando lá da América? Óia aqui pra tu, Obama! E mandei uma dedada. Era bom começar o dia com um gesto anti-imperialista. Ideologiaaa, eu quero uma pra viver, cantava pro espelho — começar o dia com Cazuza é boiolice; mas, paciência, ninguém escolhe o dia ou a vida. Minha imagem não era muito boa. De manhã,...

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De volta ao batente

De volta ao batente

Não foi planejado, mas a parada do futebol local em razão da Copa das Confederações provocou férias voluntárias no Torcedor Coral. Por mais que alguns, por devoção ao Santa Cruz, considerem que não há vida interessante fora do Arruda, penso o contrário. Tirar o olho do próprio umbigo é salutar para aprender, crescer e espairecer. Espero que esta competição, inclusive, tenha ensinado alguma lição para todos nós e, especialmente, para o Santa Cruz. A Copa das Confederações foi importante para o país dentro e, principalmente, fora dos campos. O título incontestável diante da Espanha, indiscutivelmente a melhor seleção do planeta, abre melhores perspectivas para a Copa do Mundo, embora não possa criar a ilusão que de que agora somos a equipe a ser batida. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém. Talvez a soberba, típica de rubro-negros e agora alvirrubros, tenha cegado os espanhóis. Não deixemos que esse ufanismo tome conta de nós. Acredito no trabalho antes da celebração, não no contrário. Do lado de fora dos gramados, uma lição de cidadania. Houve manifestações para todos os gostos. O povo brasileiro ignorou os partidos, as lideranças políticas, as instituições e a mídia e fez um protesto sem intermediários, não apenas contra a corrupção, como querem alguns, mas contra todo o sistema. Nossos vícios não estão apenas no meio político, com a corrupção secular correndo solta, mas contra os serviços públicos com educação e saúde, por exemplo, e, ainda as concessões ao setor privado com os transportes de má qualidade, as ruas engarrafadas, as estradas esburacadas, os gastos superfaturados das obras de infra-estrutura, as administrações terceirizadas dos estádios, onde é proibido à iniciativa privada correr os riscos inerentes ao capitalismo que levam ao lucro ou prejuízo, típico de quem explora qualquer atividade econômica, a cartolagem nociva ao futebol, simbolizada por Marin, e, por fim, a mídia brasileira, cuja parcialidade na cobertura dos acontecimentos políticos do país a fez ser expulsa sistematicamente das manifestações. O brasileiro aprendeu a se comunicar pela internet e o sistema foi posto em cheque. Não sobrou ninguém. Tudo está ruim, tudo precisa ser mudado. Eis o recado que vem das ruas. Baderneiros e bandidos são casos de polícia. O resto é o pleno exercício da democracia. Quem sabe, não daremos uma lição ao mundo e esta Copa seja um divisor de águas e acabe com a prática ignóbil onde o país-sede arca com todos...

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