Cobra Venenosa

Cobra Venenosa

“Se Antônio Luiz Neto ganhar as eleições, eu fico para dar sequência ao trabalho.” Zé Teodoro, após a desclassificação do Santa Cruz na Série C diante do Águia/PA, na ânsia para manter a estabilidade no emprego, sem perceber que atuou como um cabo eleitoral de peso da...

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A bola não entra por acaso

A bola não entra por acaso

Ainda menino, costumava ouvir nas resenhas esportivas das rádios um rosário de frases prontas que pretendiam se aplicar a todas as situações do futebol. No fundo, era o mesmo artifício de que se utilizava o homem-da-cobra para vender no mercado de São José os unguentos que curavam desde frieira até câncer de pele (quem é da minha geração para cima sabe bem do que falo). Dos tempos em que mamãe gritava “É hora do almoço, menino!” aos dias atuais, onde sou eu quem chama as minhas crianças para comer, em qualquer estação, ouvia, e ouço, que não há mais bobo no futebol. Bastava, como ainda basta, girar para outro lado e o dial cravava justo na hora em que o comentarista soltava a pérola de que o futebol é muito dinâmico. Mas o que acho mesmo batido são as frases que atribuem o sucesso ou insucesso ao acaso e vibro, quase como um gol, quando o radialista dispara que a disputa de pênaltis é loteria ou que o futebol é uma caixinha de surpresas. Ainda farei um bingo só com esses clichês. Repetidos à exaustão pela crônica esportiva, além de pouco criativos, os chavões passaram a ter força de lei. Nessa lógica, dois momentos distintos da derrocada do Santa Cruz – um em 1981 e outro em 2006 – como a derrota para o Bahia por cinco a zero, quando o Santa poderia perder por diferença de até quatro gols, e o pênalti desperdiçado por Lecheva na final do Campeonato Pernambucano, que levou o clube a uma sucessão de descensos, a mais dramática da nossa história, seriam obra e arte dos deuses do futebol. Melhor seria imputar essas vicissitudes aos diabos, já que de uma dessas eventualidades criou-se o mito da Maldição de Lecheva, que serviu de escudo para a incompetência de dirigentes, treinadores e jogadores de futebol e de consolo para grande parte dos tricolores. Em A bola não entra por acaso – Estratégias inovadoras de gestão inspiradas no mundo do futebol (título original La pelota no entra por azar, Editora Larousse, 1ª Edição, 2010), Ferran Soriano Compte, vice-presidente do Barcelona no período de 2003 a 2008, responsável por levar o clube aos patamares atuais, mostra com grande maestria que no futebol existe bobo, sim, e são aqueles que apostam na sorte. O que há, de fato, é apenas competência e que um time bem gerido e com dinheiro...

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O repórter cara-de-pau!

O repórter cara-de-pau!

Depois da desclassificação do Santinha na Copa do Brasil, da distribuição de tapas na torcida, durante o treinamento do time profissional, e da declaração de Zé Teodoro de que Léo não estava comprometido, o Torcedor Coral despachou o despachado Paulo Peroba, o repórter cara de pau, para o Arruda, a fim de apurar os fatos da semana para, em seguida, enviá-lo à agradável cidade de Belo Jardim, com o objetivo de acompanhar a equipe coral na cobertura de mais uma rodada do campeonato pernambucano. Sobre as lapadas no toutiço de que foi alvo um grupo de tricolores na realização de um protesto nas sociais, durante o treinamento comandado por Zé Teodoro, nosso repórter cara de madeira apurou que o presidente está em São Paulo, onde acompanha a esposa em tratamento de saúde, alheio, portanto, à troca de gentilezas entre torcedores e seguranças. Apesar disso, considerou oportuno ouvir a declaração de algum dirigente sobre o assunto e saber quais providências foram tomadas pelo clube. Vários diretores conseguiram escapar de Peroba, mas ele pegou na carreira Rodolfo de Orleans, Diretor Musical do Santa Cruz, que, forçado, deu a seguinte declaração: “Nossa torcida não é a mais apaixonado do Brasil? Então… tapa de amor não dói, não é verdade?” Para testar a teoria do dirigente, Peroba deu-lhe um tabefe no pé do ouvido e depois perguntou com carinho se, além de vermelha e inchada, sua cara também doía. “ Tá doendo, não, porra!”, declarou amavelmente o dirigente. Peroba também ouviu o agressor do Arruda, pois, como bom repórter, quis publicar a sua versão dos fatos, por mais idiotice que pudesse parecer. Depois de dar-lhe um peteleco na orelha, deu início a seguinte entrevista: Paulo Peroba — De onde vem essa mania esquisitona de bater? Agressor do Arruda — Ah, desde criança sempre tive vontade de bater em gente, mas mamãe não deixava. Como não consegui entrar para a polícia, por causa do exame psicotécnico, vim dar a minha humilde colaboração ao Santa Cruz. No Arruda, realizei meu sonho. Peroba — Mal elemento, você é ou não é funcionário do clube? Agressor do Arruda – Mais ou menos… Peroba — Se explica melhor, corno velho. Agressor do Arruda — Sou e não sou… é que estou mais para amigado. Nosso repórter aproveitou a visita ao clube para ouvir Léo, volante metrossexual, cujo técnico o acusou de descomprometido. O jogador não queria falar, mas...

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DEFCON 1

DEFCON 1

O Torcedor Coral teve acesso a um documento ultra-secreto que transita no Santa Cruz e foi elaborado pelas mãos de especialistas em segurança patrimonial, alguns deles com formação em Harvard. O objetivo é garantir a paz e harmonia entre dirigentes, comissão técnica, jogadores, torcedores e cambistas nas Repúblicas Independentes do Arruda, custe o que custar, e evitar a instalação de uma crise que possa abalar as estruturas e as finanças do clube. O documento é, na verdade, uma minuta endossada por uma alta patente coral, que, infelizmente, não pode ser revelada em garantia ao sigilo da fonte. O TC espera que os procedimentos adotados pelo clube, a partir desse documento crucial, possam trazer a paz de volta ao Arruda e evitem cenas com as dos vídeos abaixo. Código de conduta aplicado a torcedores e outros subversivos Em virtude dos últimos acontecimentos, que envolveram torcedores, jogadores e comissão técnica, o Santa Cruz Futebol Clube resolve elevar a segurança para DEFCON 1, nível de alerta máximo, de maneira que o pau poderá cantar, sem a necessidade de autorização prévia, se houver vaias, protestos, xingamentos, arremesso de cuspe em direção ao banco de reservas ou a tribuna de honra, agressão física ou qualquer outro movimento suspeito que seja considerado apupo. Será considerada vaia a emissão de qualquer som monossilábico que se pareça com as vogais A, E, I, O e U pronunciadas de maneira que possa transparecer forma pouco amistosa de comunicação ou falta de modos do torcedor. Entende-se por protestos as manifestações contrárias à diretoria, comissão técnica, jogadores, funcionários e cambistas sob qualquer forma, de maneira que fica autorizada a segurança do clube recolher bandeiras, cartazes, folhas de caderno, embrulhos de padaria e lencinhos de papel que possam caracterizar infração a este código de conduta. São exceções à regra prevista no item anterior os cartazes que contenham dizeres similares a “Galvão ou Rembrandt ou Globo, filma nóis!”, de maneira que não comprometa a nossa boa relação com a referida emissora de TV. Serão considerados xingamentos os palavrões, como filho da puta, frango, fresco e suas derivações, entre outros, ou palavras com significados incompreensíveis aos ouvidos dos seguranças, de maneira que não podem ser pronunciados nem mesmo nos banheiros do clube. Cão sarnento e burro, entre outros, são equiparados a palavrões, de maneira que também não podem ser pronunciados dentro do estádio. Não serão consideradas palavras incompreensíveis aos ouvidos dos seguranças aquelas...

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Entre a ágora e o agora

Entre a ágora e o agora

A palavra política vem do grego pólis, que significa cidade, pois é do surgimento das cidades, por volta dos séculos VIII e VII a.C. que aconteceram grandes alterações na vida social e nas relações humanas. A pólis se fez da autonomia da palavra, do conflito, da discussão, da argumentação; e a política, do debate nas ágoras[1]. Na ágora ateniense, por exemplo, os cidadãos livres, ricos ou pobres, tinham acesso à Assembleia, onde exerciam a democracia diretamente, pois cada um participava das decisões de interesse comum, sem a necessidade de representantes, como acontece nas democracias modernas. Li outro dia num livro de filosofia, que embora a democracia seja a antítese de todo poder autocrático, o exercício do poder muitas vezes perverte-se nas mãos de quem o detém[2]. Assim, se a transparência – que pode ser vista como a publicidade do poder, um meio de controle social – representa uma das virtudes da democracia, a sua ausência é encarada como uma fragilidade democrática, pois o poder tem uma irresistível tendência a esconder-se[3]. Da ágora para o agora, os dirigentes do Santa Cruz, intencionalmente ou por desleixo, resolveram marcar uma Assembleia Geral para o dia 30 ou 31 de janeiro com o objetivo de referendar as alterações propostas pelo Conselho Deliberativo do Clube, mas esqueceram de dar ampla divulgação aos sócios. Vejamos, por exemplo, o que diz o Artigo 29 do Estatuto em vigor: A Assembleia Geral será convocada pelo Presidente do Executivo, ou por seu substituto legal […] mediante edital publicado 3 (três) vezes em jornal de grande circulação e na internet na página oficial do clube, com antecedência de 20 (vinte), 30 (trinta) e 45 (quarenta e cinco) dias da data prevista para a sua realização. Pessoalmente, tive o cuidado de procurar o edital de convocação desta Assembleia Geral nos três maiores jornais em circulação na Capital, além da Coralnet, a página oficial do Clube (ao menos até o dia 03 de fevereiro, quando será lançado o novo site oficial do Santa Cruz), e não encontrei nenhum vestígio. Também tive o cuidado de procurá-lo no Diário Oficial do Estado (DOE) – que considero, aliás, um bom periódico para ocultar um edital de convocação de um clube de futebol, já que ele não é acessado pela população em geral e é voltado para a publicação de atos de governo, seja dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, ou ainda do Tribunal de Contas...

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