Alívio

Alívio

Queria escrever uma crônica que representasse este momento. Que fosse capaz de traduzir sentimentos, descrever alívios e transformar imagens, sons e emoções em palavras. Queria ter a capacidade de narrar o que domingo vi e ouvi na mesma intensidade em que senti e explicar que as lágrimas que agora caem não são de tristeza, mas de alegria. Lágrimas que não cessam, enquanto desabafo a minha humanidade e despejo todo o sofrimento com os anos de penúria, que ainda não se foram, mas os vindouros certamente nos possibilitarão torcer com um pouquinho mais de dignidade, pois desejar um calendário que ocupe um time o ano inteiro não é pedir demais. Queria botar para fora o medo que senti, lá na pior fase de vacas magras da nossa centenária história, que o Santa Cruz, profetizado que viveria eternamente, poderia um dia se acabar. Gostaria de arrancar as maldades do nosso futebol que, com o poder da grana, egoísta e centralizado, decide impiedosamente quem sobreviverá. Queria muito abraçar a todos os tricolores, homens, mulheres e crianças, milhões de heróis da resistência, que nos trouxeram de volta do fundo do poço e fizeram renascer um clube centenário. Reconhecer também a desportividade de outros torcedores, de tantos outros times, de todos os cantos deste país, que viram em nossa torcida o verdadeiro amor incondicional. Queria gritar bem alto: “eu voltei dos mortos!”, porque agora me sinto bem vivo, ainda que saiba que o abismo entre nós e nossos adversários persistirá por quanto tempo eu não sei. Andei cansado, andei. Tanto que meu corpo ainda dói. É a dor de quem agora descansa e que, por muito tempo, carregou peso demais sobre os ombros. É a dor tardia de quem, por seis longos anos, esteve febril. Que em nosso centenário, enfim, se inicie a...

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Tempo de ser feliz

  Qual poderia ser o debate provocado pelo TC neste momento histórico vivenciado pelo Santa Cruz, se quase tudo está sendo tão bem encaminhado pelos profissionais que lidam com os jogadores do Mais Querido? Creio que caberia comentar apenas o arremate, a moldura da obra de arte – a nobre arte do futebol coral. Que ela se agigante nos momentos de grande expectativa. Aos jogadores, coube até agora a elaboração da pintura, em estágio de finalização. Falta apenas uma pincelada no tom dourado, a vários pés, cabeças e corações. A moldura que dá o toque de classe, que sustenta e realça a obra de arte somos nós. Assim, cabe-nos reinventar tudo o que estamos acostumados a fazer e de maneira ainda mais inteligente, visando um novo tempo – tempo de ser feliz. Foi em busca da felicidade que nossas vozes gritantes anunciaram o treinador que queríamos à frente do nosso elenco. Vica é uma realidade concretizada a partir de nós. Acreditamos na sua capacidade de fazer sempre mais e melhor. Torcemos para que continue nos surpreendendo positivamente. Compreendemos que torcedores não entram em campo nem jogam, por certo, mas, ao mesmo tempo, entendemos que isto tem sido uma falácia de nossos adversários, pois a história do Santa Cruz demonstra o protagonismo e importância de sua torcida. Sempre estivemos presentes nos momentos cruciais e definitivos do clube das três cores. A energia circundante na panela de concreto do Arrudão sempre foi contagiante, levando bons fluidos aos artistas da bola, soerguendo quem se encontra cansado e inspirando quem sabe aonde quer chegar. O nosso papel continua sendo o mesmo: aplaudir nossos jogadores e vaiar os opositores. Erro de estratégia, diriam os pessimistas, pois isto poderia motivá-los por algum tempo. Porém, não o tempo todo. Chega uma hora em que a belicosidade cede espaço ao amor e o nosso é o maior, mais seguro e perene, se espalha por todos os espaços por onde passamos e contagia pessoas até no além mar. Almejamos que a temperança e a cordialidade, em nossa segunda casa, possam neutralizar pensamentos e desejos negativos de quem quer que seja. Atitudes boas atraem o bem, sem dúvida. Desejamos que os atletas corais respeitem o adversário, pois isto significa reconhecer nele a chama em busca de vida; nunca se pode subestimar suas forças. Sabemos o quanto os oponentes se esforçam para calar nossas vozes. Todavia, o jeito coral de...

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Ao pé do rádio

Ao pé do rádio

Começo essas mal traçadas linhas reconhecendo que ouvir um jogo do Santa Cruz pelo rádio é uma grandíssima merda. A locução acelerada nos dá sempre a impressão que a partida transcorre em altíssima velocidade e contribui significativamente para causar distúrbios cardíacos. Se no estádio sempre mantenho uma tranquilidade budista, ao pé do rádio, morro de ansiedade e tenho constantes crises de taquicardia. Quando o locutor narra a jogada de maneira alucinante, fico com a impressão que o time adversário parte sempre com a bola, do goleiro ao atacante, na velocidade de um Fórmula 1. — Viu o pique que o atacante deu? — Não. Só ouvi o barulho do motor. Enquanto penso que a bola ronda perigosamente a área do meu time, lá atrás, o goleiro adversário ainda troca passes com o zagueiro. É a chamada ilusão auditiva, corolária da ilusão de ótica. É caso de ouvir para crer. Todo jogo decisivo, penso eu, deveria ser transmitido pelas emissoras de televisão. Haveria, em meu modo de ver, intervenção do Ministério da Saúde na programação da TV para minimizar os riscos de morte súbita no sofá. Afinal, a televisão é ou não concessão do Estado? — Interrompemos a nossa programação normal para transmitir o jogo entre Betim e Santa Cruz, de acordo com a Lei nº 5.860/2013 e Portaria nº 2536/2013 do Ministério da Saúde. Não morri neste domingo, porque não era dia de morrer. Ficava imaginando as bolas sobrevoando nossa área, o gol perdido por Siloé e a defesa milagrosa de Tiago Cardoso. — Corta essa porra! Atacante fela da puta! Ão, ão, ão, meu goleiro é paredão! Seja lá como for, com ou sem sofrimento, o fato é que vencemos. Um a zero, placar miudinho, aos dois minutos de jogo. Não teve pressão que tirasse a nossa vantagem. Vica, é bem verdade, criticou a atuação do time. Teria sido, segundo suas próprias palavras, o pior jogo sob o seu comando. Fico feliz com esse discernimento. Estava acostumado a ver o time jogar uma porcaria e ouvir o técnico tapar o sol com a peneira insistindo que tudo tinha sido uma beleza. Melhor assim. Autocrítica e bom senso não fazem mal a ninguém. Domingo largarei o rádio de mão, pois é dia de estádio lotado. Sessenta mil é pouco, se o Arruda não encolher. Serão sete anos decididos em um só jogo, o mais importante desde a nossa sequência...

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De canalhice em canalhice, a gente vai tomando na jaca

De canalhice em canalhice, a gente vai tomando na jaca

Começaria a crônica anunciando maldições, o escambau. É muito azar, diria e levantaria as mãos aos céus — Eloi Eloi lama sabachthani? Mas estou com o medo terrível de que, uma vez pronunciado nomes em vão, as contingências sem limites do Destino destruam o mistério da transcendência tricolor. Portanto, nesse momento, prefiro alguns caminhos seculares para entender essa confusão na qual os sacanas do futebol colocaram o Clube do Santo Nome. Porque só pode ser sacanagem, vamos combinar. Uma dívida de 2008 tira seis pontos do Betim no meio de uma competição em 2013. É a FIFA, caros amigos, a gerontocracia mais safada do planeta. E imaginaríamos, aqui, um efeito dominó infernal no futebol brasileiro, tirando pontos de todos os clubes endividados e colocando o Flamengo na série Z. Não, isso não aconteceu, imaginem, era apenas uma pegadinha. Como o Betim perdeu pontos na fase de classificação do mata-mata, cujo adversário é o Santinha, pensaríamos que nosso clube estivesse automaticamente classificado — e na série B. Que nada, a CBF impôs o time de Rivaldo, o Mogi-Mirim. Qual foi a lógica dessa decisão? Aparentemente, nenhuma, segundo o Coronel Peçonha (leia aqui). Se a lógica jurídica não embasou a justiça, qual foi aquela que pôs o Mogi-Mirim na disputa? Desconfio que tenha sido a política, uma lógica que pode, segundo a modalidade, engabelar a justiça. Ora, alguém põe a mão no fogo pela CBF? Digamos que estamos diante de um consenso absoluto da cidadania brasileira: ninguém torrará a mão, porque a CBF não presta. Vejam que escrevi “cidadania brasileira”, pois queria decência no argumento. Evidentemente, existem pessoas com as mãos em chamas pela CBF, a começar pelo presidente de uma federação muito bem conhecida dos habitantes da terra dos altos coqueiros. Nesse caso, qual seria o interesse em impor o Mogi-Mirim? Confesso que não saberia responder. Interesse do vice paulista em proteger um clube conterrâneo? É uma possibilidade, pois a dita federação nacional de futebol sempre agiu segundo seus interesses, alguns bem explícitos, outros nem tanto — “agir segundo seus interesses” é uma maneira diferente de dizer “agir segundo suas relações de poder”. A CBF não está nem aí com os clubes brasileiros. Só agora, vejam só, discutirá um calendário decente. E tudo por causa de um movimento de jogadores. Pois seu foco é a seleção. Por meio dela, ganha milhões, explorando jogadores de clubes. A canarinha é uma mercadoria...

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A volta do Brasil velho

A volta do Brasil velho

Não houve nenhuma surpresa no cancelamento do jogo de agora a pouco entre Santa Cruz e Mogim Mirim. Na verdade, desde a decisão proferida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que retirou seis pontos do Betim, qualquer tricolor já desconfiava que era mais fácil um furacão classe 5, de ventos de mais de 249 km/h e altura maior que 5,5 metros, atravessar e destruir toda a costa nordestina do que nosso clube entrar em campo hoje. No final desta tarde, uma liminar impetrada na justiça comum pelo Betim impediu a realização da partida entre os clubes pernambucano e paulista. O Santa Cruz ainda chegou a entrar em campo para o aquecimento, mas ficou só nisso. Com o imbróglio jurídico, o Santa Cruz, que teve sua classificação em primeiro lugar em seu grupo, assegurada dentro de campo, bom que se diga, é o clube mais prejudicado na competição. Primeiro, pela incerteza de quando, onde e contra quem jogará; segundo, pelo desgaste físico e técnico, já que, ao invés de treinar, se desloca de um lado para outro do país para enfrentar um adversário proibido de entrar em campo; terceiro, e principalmente, porque perde o embalo, já que o time vinha em bom ritmo na competição; quarto, e último, pelo risco de prejuízo financeiro de passar um tempo sem jogar e, consequentemente, sem arrecadar dinheiro. Para um clube que não tem participação nas cotas de TV, bilheteria é tudo. Seja lá qual for o resultado desta disputa judicial, o problema já tem um culpado: a CBF, que costuma meter os pés pelas mãos nas competições nacionais das divisões inferiores. Gostaria de saber o tamanho da revolução no país, se uma dessas trapalhadas afetasse a Série A. Na cozinha, infelizmente, ninguém dá importância. Nem mesmo a imprensa nacional. Entra ano sai ano e a CBF dá vexame. Quem não lembra das paralisações das séries C e D, no ano passado, quando os clubes passaram cerca de dois meses sem jogar? O prejuízo financeiro foi enorme e o dano jurídico ainda tem reflexos em 2013, já que o Brasiliense ameaça entrar na justiça contra o rebaixamento, já que em seu grupo caem três, ao invés de dois, em razão do Treze/PB ter conseguido participar da competição pela janela, graças a uma batalha de liminares. O problema da CBF, como se não bastassem as investigações que envolvem Ricardo Teixeira, exilado confortavelmente no Estados Unidos,...

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