O jogo da estratégia

O jogo da estratégia

Arnildo Ananias, nosso dileto amigo e leitor, através da seção de comentários do artigo anterior, pediu que eu escrevesse um texto novo e cativante. Algo para cima, alto astral. Infelizmente, caro Arnildo, não consigo pensar em nada muito estimulante, mesmo com o aguardado bi-campeonato, pois entrei em campo hoje pelo TC para jogar no sacrifício. De fato, estou tão pra baixo quanto o sujeito que farrapa na hora do vamos ver. A causa, esclareço antes que pensem que tenho alguma disfunção erétil ou me acusem de anti-tricolor, não tem absolutamente nada que ver com raparigagem ou com o Santinha, que ultimamente tem nos dados muitas alegrias. O fato é que estou acamado desde a última terça, uma semana, portanto. E também antes que associem a minha convalescência com uma monumental ressaca pós-título e o desabastecimento de bebidas alcóolicas nos supermercados locais, deixo claro que para pagar a promessa do bi, parei de beber por tempo indeterminado e que meu problema de saúde está relacionado a uma infecção das vias aéreas superiores que, segundo um amigo rubro-negro, originou-se do fato de agora eu andar com o nariz empinado. Não é nada disso. Sou tricolor, portanto, manso de coração. Seja lá como for, a doença provocou sinusite, faringite, renite alérgica, dor de garganta, dor de cabeça, dores no corpo e uma ligeira diarreia. A diarreia, esclareço, foi causada pelo antibiótico e não por algum sarapatel estragado durante as comemorações. Peço desculpas, pois não queria falar em merda, mas não posso enganar meus leitores. Tenho passado mais tempo no banheiro do que em repouso na cama. Está bem, exagero. Mesmo assim, por isso tudo, não fui ao jogo, mas a família Lins botou dois ingressos na minha conta e depois ligou para avisar. Vou propor o pagamento em duas vezes no cartão ou então no Cred-Pio, que é em 30, 60 e 90, sem entrada e sem juros. Não fosse a doença, estaria por aí com a camisa do Santinha fazendo inveja aos nossos adversários. Contudo, não sou do tipo de pisotear, pois tenho coração mole e choro por qualquer motivo. Para se ter uma ideia, chorei ao assistir Superman – O Retorno, na cena em que o Homem-de-Aço leva uma surra lascada de Lex Ludor e seus capangas. Está certo que os capangas me fizeram lembrar de algumas eleições no Santa Cruz, quando o clube era cercado de funcionários de um dos candidatos...

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Bi-Campeão!

Bi-Campeão!

A Chegada A Casa dos Festejos O Rei de Pernambuco O Artilheiro O Operário A Mamãe da Cidade Parabéns pra Você Parabéns pra você Nesta data querida Muitas felicitadas Muitos anos de vida! Hino dos vice-campeões O...

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O maior amor do mundo

O maior amor do mundo

Finalmente chegamos. Tomei a dianteira e abri a porta do consultório para a minha mãe entrar. Era uma consulta de rotina para saber como andava a sua vista, que tempos atrás havia sido perseguida por uma discreta opacidade do cristalino. Tratei de conduzi-la a um dos assentos da sala de espera para, em seguida, me dirigir à recepção, onde trataria da burocracia que se impõe antes de qualquer atendimento médico. Depois retornei e sentei-me ao seu lado. Em nosso canto, me punha a assistir à TV, menos pelo interesse que a programação me despertava e mais pela falta do que fazer, enquanto mamãe acompanhava o movimento de entra-e-sai dos pacientes. O filme não prendeu a minha atenção por muito tempo e parei para observar minha mãe. Ela mantinha uma quietude pouco habitual e sua fisionomia aparentava cansaço. Embora os cabelos, sem a cor branca natural, buscassem deliberadamente enganar a idade, seu rosto e suas mãos já não disfarçavam tão bem a passagem do tempo. Apesar disso, mamãe conservava, quase intacta, a beleza da juventude. Mamãe sorriu, tão logo segurei a sua mão. Depois iniciamos uma conversa sobre o meu avô, um homem de generosidade extraordinária e de coração bom. À medida que ela falava, eu sentia no peito, quase me sufocando, uma saudade imensa e concluía que, em vida, talvez pela exagerada juventude, não lhe dera o valor necessário. Por isso, senti nascer em mim naquele mesmo instante o medo de acontecer o mesmo em relação à minha mãe, depois que ela se for. Com ela, não haverá o conforto de pôr a culpa na juventude excessiva, pois, desde muito moço, trago comigo, sem deixar margens à imprecisão, a gratidão por tudo quanto ela fez por mim, mas também carrego a certeza inabalável de não ter lhe dado em retribuição nem sombra do que recebi. Por isso, levado por uma força irresistível, lembrei-me dos tempos de criança, de meter-me em febre de quarenta graus e de tê-la ao meu lado durante toda a madrugada velando e cuidando de mim. De atravessar a cidade sobre os seus ombros, apesar do peso dos meus nove anos, em busca de um cirurgião-dentista que retirasse a raiz de um dente mal extraído, que de tanta dor não me deixava pisar o chão. De vê-la enfrentar condições adversas para me guiar e me dar a educação que jamais tivera. De ver suas mãos divinas...

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Pelas ruas que andei

Pelas ruas que andei

Pobre Recife. Quem viu um dia suas ruas alegres e festeiras que se enfeitavam para uma partida de futebol, agora convive com a irracionalidade humana, que se sobrepõe aos valores supremos da vida. Tenho saudade de um tempo em que as torcidas se misturavam e viviam em harmonia dentro e fora dos estádios de futebol. A rivalidade ficava por conta das brincadeiras, da greia da rapaziada, dos sarros dos vencedores contra os vencidos.  E tudo permanecia assim, em tom de brincadeira, como deve ser. Não há como esquecer que na primeira vez que pisei no Arruda, ainda criança, fui levado pelas mãos de um rubro-negro no Clássico das Multidões. Torcidas misturadas, vibrava com os gols do meu time e ele e seu neto, com os do seu. No final do jogo, voltávamos para casa com a certeza de que chegaríamos bem. Nos tempos de menino, passei em paz pelas ruas que andei. Hoje, o Recife já não é mais o mesmo. Já não piso nas arquibancadas dos estádios de nossos rivais, nem vou a um clássico no Arruda com a camisa do meu time. As ruas antigas da cidade, palco dos nostálgicos carnavais, tornaram-se praça de guerra. A violência não nasce em um estádio de futebol. Ela é reflexo de um país escravocrata que ainda hoje não reparou os erros do passado. Não há oportunidade para pobres e negros e a miséria de uns representa a riqueza de outros. A violência, em seu estado mais bruto, nasce da falta de educação e de perspectiva. O futebol pernambucano é de morte. Dois torcedores morreram depois do clássico. Não importa seus clubes, nem suas cores. Importava suas vidas. O futebol não vale tanto. Estou amargurado e sem esperanças que um dia o nosso futebol volte a ser como...

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A vitória da covardia

A vitória da covardia

Meu vizinho de garagem veio me mostrar, todo orgulhoso, um gigantesco adesivo magnético com o escudo do Santa Cruz. O adorno se destaca em seu não menos gigantesco carro preto e chama a atenção de quem cruza o seu caminho. Disse que havia comprado por uma pechincha e sugeriu que eu fizesse o mesmo, mas embora tudo que tenha as cores do Santa Cruz me hipnotize, recusei a sua gentil oferta. A culpa, respondi, está na violência gratuita que inviabiliza demonstrações amáveis de preferências esportivas nas ruas da cidade. Ontem, por exemplo, fui ao jogo sem a camisa d’O Mais Querido, com receio de alguma confusão depois da partida. Não deu outra, uma briga se formou nos arredores da Avenida Norte e só não sei dizer se foi um encontro de torcidas ou se envolveu apenas torcedores de um dos clubes. Contudo, volto à conversa com o meu vizinho. Dias antes do clássico, perguntei-lhe se estava confiante na vitória. Apesar de toda a empolgação com os símbolos corais e a fase atual, respondeu que qualquer placar era possível, mesmo com o time dos Aflitos descendo a ladeira. Em primeiro lugar, disse ele, por razões óbvias: clássico é clássico, seja lá em que circunstâncias os dois times se encontrem. Em segundo, porque, a despeito do melhor momento do Santa Cruz, tudo dependeria da formação e da postura que o time de Zé Teodoro iria adotar diante do Náutico em sua própria casa. Meu vizinho tinha razão. Ontem, assisti à vitória da covardia. Vi, em campo, um time que se propôs, desde o primeiro segundo de jogo, a ficar no zero a zero e, por sorte, achou um gol. Até compreendo a opção tática de jogar nos contra-ataques, já que, na teoria, o Náutico, na Série A do campeonato brasileiro e com mais dinheiro, portanto, teria uma elenco mais forte do que o nosso. Entretanto, não foi isso o que vi. Assisti ao meu time basicamente abdicar de jogar. Não me recordo do meio-campo ganhar um rebote sequer ou de uma jogada trabalhada ou ainda nada que se parecesse minimamente com futebol. Não sei quanto tempo o adversário ficou com a bola nos pés, sei que não perdemos o jogo pela inegável eficiência do sistema defensivo – desconsiderando, é claro, o risco de um gol iminente, através do jogo aéreo em nossa área – e também pela total incapacidade ofensiva do...

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