Ei, você aí…

Ei, você aí…

Da séria série A bola não entra por acaso (inspirada no livro homônimo de Ferran Soriano Compte, Editora Larousse) A principal resposta à questão crucial que teria levado o Santa Cruz à bancarrota é praticamente uma unanimidade. Ao menos nove entre dez tricolores apontarão a exclusão do Clube dos 13 como maior responsável pela escassez de títulos e participações importantes nas competições nacionais. Não é para menos, desde a criação dessa entidade, o Santa Cruz assistiu a um de seus principais rivais disparar na hegemonia local e se viu cada vez mais longe do principal campeonato do país. Contudo, para entender a mudança no cenário esportivo é preciso voltar no tempo para conhecer a composição das receitas do futebol daquela época e comparar com o modelo atual. Até os anos 80 o futebol possuía um apelo local com uma característica comum a todos os clubes: a maior parte da receita resultava da venda de ingressos, das mensalidades dos sócios e, eventualmente, da negociação de algum jogador. Para se ter uma ideia, Nunes, um dos grandes nomes do time daquela época, foi comprado em 1975 por Cr$ 320 mil e vendido em 1979 por Cr$ 9 milhões ao Flamengo. O clube possuía uma saúde financeira invejável e esse modelo de negócio permitiu que o Santa Cruz tivesse em Evaristo Macedo o segundo maior salário entre os técnicos de futebol da América Latina, atrás apenas de César Luis Menotti, campeão do mundo pela Argentina no ano anterior (leia aqui). A lenta transformação desse cenário esportivo com a chegada da televisão privada, que passou a enxergar o futebol como entretenimento, transformando-o em negócio rentável, não mudou a lógica do Santa Cruz, que ainda hoje tem na venda de ingressos a sua maior fonte de receita. Assim, apesar de seu potencial de crescimento, o clube não conseguiu ampliar suas fronteiras além do Estado de Pernambuco. Esta situação causou uma acomodação na condição de força local, enquanto outras agremiações se consolidaram como força nacional. Contudo, o futebol brasileiro, de uma maneira geral, também perdeu espaço no cenário internacional. Alguns clubes europeus, os principais beneficiados com a chegada da TV privada no meio esportivo, alcançaram o status de potências globais e ganharam mercados promissores, além de suas fronteiras, como o americano e o asiático. O estrangulamento financeiro dos dias atuais se relaciona diretamente com a escolha involuntária do Santa Cruz, através dos desmandos administrativos e...

Leia Mais

A bola não entra por acaso

A bola não entra por acaso

Ainda menino, costumava ouvir nas resenhas esportivas das rádios um rosário de frases prontas que pretendiam se aplicar a todas as situações do futebol. No fundo, era o mesmo artifício de que se utilizava o homem-da-cobra para vender no mercado de São José os unguentos que curavam desde frieira até câncer de pele (quem é da minha geração para cima sabe bem do que falo). Dos tempos em que mamãe gritava “É hora do almoço, menino!” aos dias atuais, onde sou eu quem chama as minhas crianças para comer, em qualquer estação, ouvia, e ouço, que não há mais bobo no futebol. Bastava, como ainda basta, girar para outro lado e o dial cravava justo na hora em que o comentarista soltava a pérola de que o futebol é muito dinâmico. Mas o que acho mesmo batido são as frases que atribuem o sucesso ou insucesso ao acaso e vibro, quase como um gol, quando o radialista dispara que a disputa de pênaltis é loteria ou que o futebol é uma caixinha de surpresas. Ainda farei um bingo só com esses clichês. Repetidos à exaustão pela crônica esportiva, além de pouco criativos, os chavões passaram a ter força de lei. Nessa lógica, dois momentos distintos da derrocada do Santa Cruz – um em 1981 e outro em 2006 – como a derrota para o Bahia por cinco a zero, quando o Santa poderia perder por diferença de até quatro gols, e o pênalti desperdiçado por Lecheva na final do Campeonato Pernambucano, que levou o clube a uma sucessão de descensos, a mais dramática da nossa história, seriam obra e arte dos deuses do futebol. Melhor seria imputar essas vicissitudes aos diabos, já que de uma dessas eventualidades criou-se o mito da Maldição de Lecheva, que serviu de escudo para a incompetência de dirigentes, treinadores e jogadores de futebol e de consolo para grande parte dos tricolores. Em A bola não entra por acaso – Estratégias inovadoras de gestão inspiradas no mundo do futebol (título original La pelota no entra por azar, Editora Larousse, 1ª Edição, 2010), Ferran Soriano Compte, vice-presidente do Barcelona no período de 2003 a 2008, responsável por levar o clube aos patamares atuais, mostra com grande maestria que no futebol existe bobo, sim, e são aqueles que apostam na sorte. O que há, de fato, é apenas competência e que um time bem gerido e com dinheiro...

Leia Mais

Nem tudo é ouro

Nem tudo é ouro

Heraldo Ferreira, tricolor e produtor cultural Vencer no futebol é mais do que o céu. Para muitos torcedores, ver o time do coração ganhar é melhor do que uma bela trepada, daquelas com sexo oral e beijo grego. E ai de quem ousar falar algo contra o time campeão. Será apedrejado, enforcado e esquartejado em praça pública. Ou enrabado sem dó. A verdade é que fomos campeões aos trancos e barrancos. O título veio pro Arruda, muito mais porque do outro lado existia um adversário fraco comandado por um sujeito esquizofrênico, do que pelo fato de termos uma grande equipe. Cegou de paixão quem não viu a quantidade de lambanças da nossa defesa e do goleiro Thiago Cardoso. Não fossem os deuses do futebol que cuidam de organizar o quesito sorte, teríamos levado uma sonora enfiada e as estruturas haveriam de balançar. Se aquelas bolas tivessem entrado, hoje a confusão era grande e com certeza Zé Pardal iria pegar o beco. Mas… se a mãe de vocês tivessem uma carreira de peitos, não seria uma mulher. Ela era uma porca. Por falar em pegar o beco, o que não falta é peladeiro nesse time campeão que já deveria ter sido mandado embora. Não sei o motivo de tanto pantim pra botar essas desgraças pra fora. Pra começar a brincadeira, os seguintes perronhas já deviam estar longe do Arruda, são eles: – Carlinhos Bala; – Eduardo Arroz; – Jéferson Maranhão; – Geílson; – André Oliveira; – Diogo. Não serei injusto com Maisena e Edér Túlio, pois, não tiveram oportunidade de mostrar se sabem jogar bola. Qualquer torcedor do Santa Cruz, por mais abilolado que seja, sabe que o time carece de pelo menos, um zagueiro, um lateral direito, um lateral esquerdo, um meia-armador e um centroavante, com um detalhe, que venham para brigar por titularidade, pois de figurante e ator coadjuvante o elenco já está cheio. Neste ponto, tenho minhas dúvidas se a dupla dinâmica Zé Pardal e Sandro vão conseguir contratar um lateral-direito(ala, para os mais modernos!) que saiba jogar bola. Faz quase um ano e meio que nós torcedores do Santa esperamos pela chegada de um lateral-direito decente, mas só trazem perna-de-pau. Escuto falar em Paulista e Victor Hugo como novas contratações. Me desculpe o senhor Antônio Luiz Neto, mas só pode ser brincadeira. Eu queria ouvir de Sandro e de Zé Pardal, ou de quem foi responsável...

Leia Mais

O repórter cara-de-pau!

O repórter cara-de-pau!

Depois da desclassificação do Santinha na Copa do Brasil, da distribuição de tapas na torcida, durante o treinamento do time profissional, e da declaração de Zé Teodoro de que Léo não estava comprometido, o Torcedor Coral despachou o despachado Paulo Peroba, o repórter cara de pau, para o Arruda, a fim de apurar os fatos da semana para, em seguida, enviá-lo à agradável cidade de Belo Jardim, com o objetivo de acompanhar a equipe coral na cobertura de mais uma rodada do campeonato pernambucano. Sobre as lapadas no toutiço de que foi alvo um grupo de tricolores na realização de um protesto nas sociais, durante o treinamento comandado por Zé Teodoro, nosso repórter cara de madeira apurou que o presidente está em São Paulo, onde acompanha a esposa em tratamento de saúde, alheio, portanto, à troca de gentilezas entre torcedores e seguranças. Apesar disso, considerou oportuno ouvir a declaração de algum dirigente sobre o assunto e saber quais providências foram tomadas pelo clube. Vários diretores conseguiram escapar de Peroba, mas ele pegou na carreira Rodolfo de Orleans, Diretor Musical do Santa Cruz, que, forçado, deu a seguinte declaração: “Nossa torcida não é a mais apaixonado do Brasil? Então… tapa de amor não dói, não é verdade?” Para testar a teoria do dirigente, Peroba deu-lhe um tabefe no pé do ouvido e depois perguntou com carinho se, além de vermelha e inchada, sua cara também doía. “ Tá doendo, não, porra!”, declarou amavelmente o dirigente. Peroba também ouviu o agressor do Arruda, pois, como bom repórter, quis publicar a sua versão dos fatos, por mais idiotice que pudesse parecer. Depois de dar-lhe um peteleco na orelha, deu início a seguinte entrevista: Paulo Peroba — De onde vem essa mania esquisitona de bater? Agressor do Arruda — Ah, desde criança sempre tive vontade de bater em gente, mas mamãe não deixava. Como não consegui entrar para a polícia, por causa do exame psicotécnico, vim dar a minha humilde colaboração ao Santa Cruz. No Arruda, realizei meu sonho. Peroba — Mal elemento, você é ou não é funcionário do clube? Agressor do Arruda – Mais ou menos… Peroba — Se explica melhor, corno velho. Agressor do Arruda — Sou e não sou… é que estou mais para amigado. Nosso repórter aproveitou a visita ao clube para ouvir Léo, volante metrossexual, cujo técnico o acusou de descomprometido. O jogador não queria falar, mas...

Leia Mais

Entre a ágora e o agora

Entre a ágora e o agora

A palavra política vem do grego pólis, que significa cidade, pois é do surgimento das cidades, por volta dos séculos VIII e VII a.C. que aconteceram grandes alterações na vida social e nas relações humanas. A pólis se fez da autonomia da palavra, do conflito, da discussão, da argumentação; e a política, do debate nas ágoras[1]. Na ágora ateniense, por exemplo, os cidadãos livres, ricos ou pobres, tinham acesso à Assembleia, onde exerciam a democracia diretamente, pois cada um participava das decisões de interesse comum, sem a necessidade de representantes, como acontece nas democracias modernas. Li outro dia num livro de filosofia, que embora a democracia seja a antítese de todo poder autocrático, o exercício do poder muitas vezes perverte-se nas mãos de quem o detém[2]. Assim, se a transparência – que pode ser vista como a publicidade do poder, um meio de controle social – representa uma das virtudes da democracia, a sua ausência é encarada como uma fragilidade democrática, pois o poder tem uma irresistível tendência a esconder-se[3]. Da ágora para o agora, os dirigentes do Santa Cruz, intencionalmente ou por desleixo, resolveram marcar uma Assembleia Geral para o dia 30 ou 31 de janeiro com o objetivo de referendar as alterações propostas pelo Conselho Deliberativo do Clube, mas esqueceram de dar ampla divulgação aos sócios. Vejamos, por exemplo, o que diz o Artigo 29 do Estatuto em vigor: A Assembleia Geral será convocada pelo Presidente do Executivo, ou por seu substituto legal […] mediante edital publicado 3 (três) vezes em jornal de grande circulação e na internet na página oficial do clube, com antecedência de 20 (vinte), 30 (trinta) e 45 (quarenta e cinco) dias da data prevista para a sua realização. Pessoalmente, tive o cuidado de procurar o edital de convocação desta Assembleia Geral nos três maiores jornais em circulação na Capital, além da Coralnet, a página oficial do Clube (ao menos até o dia 03 de fevereiro, quando será lançado o novo site oficial do Santa Cruz), e não encontrei nenhum vestígio. Também tive o cuidado de procurá-lo no Diário Oficial do Estado (DOE) – que considero, aliás, um bom periódico para ocultar um edital de convocação de um clube de futebol, já que ele não é acessado pela população em geral e é voltado para a publicação de atos de governo, seja dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, ou ainda do Tribunal de Contas...

Leia Mais
3 de 14...234...10...