O Estatuto, Frederico e o Bonde da História

O Estatuto, Frederico e o Bonde da História

  Digo logo minha conclusão: não há reforma do estatuto. Afinal, “propostas para alteração e aperfeiçoamento” (aqui) não fazem uma reforma. E serei sincero: não gostei. Acho que esse “novo” estatuto facilitará a preponderância de um pequeno grupo no poder, isto é, tem cheiro de oligarquia. Parece o velho bordão de Lampedusa: “as coisas precisam mudar para continuar as mesmas”. Será que, além de ofídios, temos também gattopardos no Arruda? Acho fundamental a reforma do nosso estatuto.  É o bonde da modernização de nosso clube, e temos que pegá-lo, senão some e só volta não-sei-quando. Vejam, o estatuto é a nossa constituinte. É o documento-mestre que regula a vida do clube. Um estatuto democrático e participativo sinalizaria mudanças profundas na gestão e na estrutura do Santinha. E, aqui, marco posição: antes mesmo de uma gestão profissionalizada e empresarial, julgo que o mais fundamental é a participação democrática, em todas as instâncias, direta ou indiretamente, da torcida no clube. (Por isso, inclusive, uma campanha maciça de sócios não serve apenas para arrecadar fundos, mas também para incorporar o maior número de tricolores no clube) Por que defendo isso? Ora, o Santinha é o clube do povo. E a noção de “povo”, da forma que a emprego aqui, não é demográfica e sim política. O que a crise atual mostrou foi que o clube é, decididamente, a e da torcida. Foi ela que salvou o Santinha. Na adversidade, a torcida manteve o clube. E não faço apologia. Só estou dizendo a verdade. O povo no poder? Sim, admito que minha proposta é assustadora. É bem antiga e nada original, na verdade. Admito até que seja a pior solução, excetuando todas as outras, para parodiar um velho conservador. Nossa torcida não é homogênea — longe disso. É diversa e plural, política e culturalmente. Ela representa uma quantidade imensa de recursos para o clube. E não falo apenas de recursos financeiros. A torcida tem de tudo: camelô, biscateir@s, polític@s, administrador@s, gestor@s, economistas, auditor@s, marqueteir@s, jornalistas, psicólog@s, professor@s, blogueir@s, poetas e poetisas, carroceir@s e vendedor@s de amendoim. E, pasmem, tem até psiquiatras (função essencial, e que deveria ser mais valorizada). Sim, claro, tem muito mala no meio, mas faz parte – os canalhas (por enquanto, só conheço homens), pelo seu exemplo, ensinam-nos a tomar o sentido inverso de suas sacanagens. A canalhice indica o caminho da virtude, caros amigos. Como não aproveitar esse manancial de competências e qualificações? Pois...

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De volta aos trilhos

De volta aos trilhos

Em meio ao imbróglio que impediu o início da Série C, foi o observador e filósofo Gerrá da Zabumba quem vaticinou, ao notar a tendência dos blogues corais em escrever putarias as mais diversas, que na falta de futebol o tricolor vai levando a vida na punheta. Assim, a raparigagem correu solta e o Torcedor Coral virou casa de mãe Joana. Contudo, sou um homem pudico, daqueles que tem dificuldade em chamar palavrão até mesmo sozinho trancado no banheiro, por causa da minha paranóia de achar que aonde eu for, Deus vai atrás. Está bem, exagero, pois como todo cronista, sou de exagerar, já que é difícil ouvir, por exemplo, o nome do time da ilha da fantasia sem pensar num palavrão cabeludo, ou melhor, de peruca. Ainda assim, achei por bem trazer o blog de volta aos trilhos, deixar mulheres e crianças menos acanhadas e tratar de coisa séria. Por isso, vou falar da CBF. Não creia, caro leitor, que faço piada infame ou tripudio de sua inteligência ao associar seriedade à Confederação Brasileira de Futebol. Longe de mim. Quis apenas enfatizar a urgência do assunto, a necessidade de solução imediata, as ações que foram ou deveriam ser tomadas, a responsabilidade das partes, a tolerância dos clubes legitimamente qualificados para disputar a Série C e, é claro, a minha declaração solene de que essa mixórdia toda já encheu o saco faz tempo. Assim, abro essa humilde crônica esportiva com a boa notícia de bastidores que dá conta do início da Série C no próximo final de semana. A informação foi levantada por nosso leitor Fábio Lucas, que fez um precioso trabalho de garimpagem na internet e desde já foi eleito pelos nossos editores e cronistas, por unanimidade e antecipação, como melhor repórter investigativo de 2012. Segundo as boas línguas – ou más, nunca se sabe – a CBF e o STJD já teriam montado a estratégia para dar início a competição, qual seja, punir o Treze e ignorar a ignorante justiça paraibana. O Treze – clube brasileiro que possui a maior quantidade de doido de pedra por metro quadrado, tanto no corpo diretivo quanto na torcida – do dia para noite, virou o bode expiatório do futebol nacional. Eu mesmo, devo confessar, não vejo a hora de vê-los todos tomar no papeiro, com perdão da expressão chula. Afinal, o clube entrou na justiça comum para brigar por uma...

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O alfa e o ômega

O alfa e o ômega

Continuaria minha pegada mística, mas houve reação dos leitores, em particular do grande Hélio Mattos. Tudo indica, não aguentavam mais esse meu proselitismo sobre a relação ambígua entre os deuses do futebol e o Santinha. É uma pena, pois, se continuasse com o tema, escreveria agora sobre fadas-madrinhas tricolores — uma crônica pornô (mais picante do que as do nosso escritor erótico, Gerrá) com duendes, gnomos, ogros e dirigentes do clube, todos numa suruba divina! Assim, escreverei sobre outras questões, sem misticismo e erotismo. Aproveitarei, inclusive, essa famigerada suspensão da C para tratar de outros assuntos, indiretamente relacionados ao futebol. Bora lá. Num texto (aqui) do final do ano passado, abordei as relações entre a lógica esportiva e a econômica no futebol brasileiro e defendi que a primeira está completamente subordinada à segunda. Minhas conclusões eram pessimistas, mas prometia abordar o assunto novamente e discutir algumas soluções. Para vocês terem noção das minhas posições, aqui vão alguns trechos: – Dadas as condições do mercado futebolístico brasileiro, sejamos realistas: nós somos, no máximo, um clube de série B que, raramente, vive uma série A. Atualmente, é impossível um clube do naipe econômico do Santa Cruz passar muito tempo na elite do futebol nacional. – A economia do futebol brasileiro é excludente e clubicida — é pior do que a extinção das espécies, do que o aquecimento global; clubes e mais clubes morrendo ou se tornando insignificantes… Não há espaço econômico para muitos clubes grandes no Brasil. Para clubes nordestinos, há uma pequena janela econômica para três ou quatro clubes na séria A, e só, e sempre em rodízio… Ou temos um patrocinador da Arábia Saudita, ou um gestor genial como Steves Jobbs, ou jamais sairemos de nossa mediocridade (a estrutura do mercado futebolístico brasileiro impõe nosso limite de “torcida mais apaixonada do Brasil”). Sim, como é fácil verificar, sou muito pessimista. Bem, o que fazer, como perguntava Lênin? Não temos um xeique saudita ou um Abramovich no horizonte. Já insisti com Dimas para que seus contatos com a máfia ucraniana, aquela que paga nossos salários em merrecas, redundassem em apoio financeiro ao Santinha. Mas Dimas muda de assunto, mostra as fotos de algumas vítimas das máfias do leste europeu e se cala – de fato, são fotos assustadoras. Eu me calo, também. Sem árabes e sem máfia, portanto. Há saída? Falar com Cachoeira? Tornar Gilmar Dantas um benemérito do clube?...

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Plano de mídia

Plano de mídia

Recebemos de Anderson Seabra, nosso assíduo leitor, um e-mail pedindo espaço para a publicação de um Plano de Mídia, que ele havia desenvolvido para o Santa Cruz. Sua intenção é ampliar em 20% (vinte por cento), no mínimo, as receitas do clube. “Sempre pecamos por não saber capitalizar a força da torcida”, dizia ele em sua mensagem eletrônica. De fato, apesar da exposição na mídia nacional, o clube nunca soube aproveitar a força e o marketing natural de seus aficionados, que se tornaram conhecidos como a torcida mais apaixonada do Brasil. Anderson Seabra, 30 anos, acompanha o Santa Cruz desde 1990 e participou da diretoria da Associação dos Amigos Tricolores do Santa Cruz – ATASC. Formado em Geografia pela UFPE, com diversos trabalhos com temas na área de futebol em congressos e obcecado pela profissionalização do Santa Cruz, tornou-se estudante de Marketing, de onde surgiu a ideia de fazer algum projeto para o Santa Cruz. “Em 2004, apresentamos o presente projeto de forma embrionária ao então presidente da época; recentemente, no início da gestão de Antônio Luiz Neto, tivemos um contato rápido com a atual diretoria e apresentamos o atual projeto, tendo resultado a relocação das placas publicitárias do estádio do Arruda”. Como qualquer torcedor, cujo envolvimento vai além das arquibancadas, Seabra deseja a profissionalização do Santa Cruz. “Tenho como sonho vê o clube com uma gestão profissionalizada e explorando toda a força de sua torcida, com uma equipe competitiva que nos represente com dignidade”, diz. Acostumado a apresentar propostas que considera relevantes para uma mudança de visão na administração do clube, Seabra pretende, mais na frente, ter uma colaboração mais ativa no Santa Cruz. “Desejo, mais adiante, fazer parte, como colaborador, da diretoria do clube”, sonha, nosso leitor. Enquanto o sonho não se realiza, ficamos com o Plano de Mídia de Anderson Seabra. Que ele possa contribuir com o engrandecimento do Santa Cruz. Plano de mídia doc.doc Ganhadores da promoção Camisa da Minha Cobra 1. Ricardo Cavalcanti; 2. Caroline; 3. Rubem Jr.; 4. Emanuel Moraes. Pedimos a Emanuel Moraes que entre rapidamente em contato conosco, através do e-mail contato@torcedorcoral.com. Utilidade Pública O leitor Leonardo Lima adquiriu recentemente esta camisa do Santa e gostaria de saber o ano exato em que ela foi utilizada pelo clube. Quem puder ajudá-lo, por gentileza, deixe a resposta na seção de comentários....

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Entre a ágora e o agora

Entre a ágora e o agora

A palavra política vem do grego pólis, que significa cidade, pois é do surgimento das cidades, por volta dos séculos VIII e VII a.C. que aconteceram grandes alterações na vida social e nas relações humanas. A pólis se fez da autonomia da palavra, do conflito, da discussão, da argumentação; e a política, do debate nas ágoras[1]. Na ágora ateniense, por exemplo, os cidadãos livres, ricos ou pobres, tinham acesso à Assembleia, onde exerciam a democracia diretamente, pois cada um participava das decisões de interesse comum, sem a necessidade de representantes, como acontece nas democracias modernas. Li outro dia num livro de filosofia, que embora a democracia seja a antítese de todo poder autocrático, o exercício do poder muitas vezes perverte-se nas mãos de quem o detém[2]. Assim, se a transparência – que pode ser vista como a publicidade do poder, um meio de controle social – representa uma das virtudes da democracia, a sua ausência é encarada como uma fragilidade democrática, pois o poder tem uma irresistível tendência a esconder-se[3]. Da ágora para o agora, os dirigentes do Santa Cruz, intencionalmente ou por desleixo, resolveram marcar uma Assembleia Geral para o dia 30 ou 31 de janeiro com o objetivo de referendar as alterações propostas pelo Conselho Deliberativo do Clube, mas esqueceram de dar ampla divulgação aos sócios. Vejamos, por exemplo, o que diz o Artigo 29 do Estatuto em vigor: A Assembleia Geral será convocada pelo Presidente do Executivo, ou por seu substituto legal […] mediante edital publicado 3 (três) vezes em jornal de grande circulação e na internet na página oficial do clube, com antecedência de 20 (vinte), 30 (trinta) e 45 (quarenta e cinco) dias da data prevista para a sua realização. Pessoalmente, tive o cuidado de procurar o edital de convocação desta Assembleia Geral nos três maiores jornais em circulação na Capital, além da Coralnet, a página oficial do Clube (ao menos até o dia 03 de fevereiro, quando será lançado o novo site oficial do Santa Cruz), e não encontrei nenhum vestígio. Também tive o cuidado de procurá-lo no Diário Oficial do Estado (DOE) – que considero, aliás, um bom periódico para ocultar um edital de convocação de um clube de futebol, já que ele não é acessado pela população em geral e é voltado para a publicação de atos de governo, seja dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, ou ainda do Tribunal de Contas...

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