Na arena, entre feras

Li semana passada nos jornais que o Náutico apresentou um projeto para a construção de seu novo estádio. A Arena Recife, como será chamada – caso saia do chão – ficará dentro dos padrões da FIFA, terá capacidade para 30 mil lugares, ampla estrutura de serviço e lazer e um estacionamento para quatro mil vagas. O início de sua construção está previsto para 2010 e término para 2012. Os investidores Camargo Correia, Patrimonial Investimentos e CONIC aguardam apenas a liberação do IBAMA, já que o terreno de 140 hectares no bairro de Jardim Uchoa está situado numa área de proteção ambiental. Por fim, o projeto independe da Copa de 2014 para sair do papel. Os tricolores mais fanáticos podem perguntar o que nós temos a ver como isso. Em minha opinião, tudo. Em primeiro lugar, porque a Arena Coral está na rua faz tempo e, mesmo sendo um projeto que também independe da Copa de 2014, não sai do canto. Em segundo, porque, embora seja legítimo cada clube buscar a construção ou reforma do seu estádio, não acredito que em Recife caibam tantas arenas com todos os serviços que elas oferecem. Em terceiro, porque, caso o projeto alvirrubro saia mesmo do papel, já parte na frente do nosso, mesmo tendo sido lançado depois. Em quarto e último, pelo que leio nos jornais, não duvido nada o Governo botar areia em qualquer projeto que surja para atrapalhar a incompreensível Cidade da Copa. O que me intriga é a reviravolta que a notícia do projeto do Náutico traz no cenário. Raciocinem comigo. Corria a boca miúda que a Arena Capibaribe – o maior elefante branco no meio do mato do Brasil – cairia no colo do clube de Rosa e Silva. Com a apresentação pública de seu projeto, o Náutico deixa claro ao Governo que não tem interesse na Cidade da Copa. É verdade, tudo pode ser um blefe dos alvirrubros, mas, não sendo, o Governo ficaria novamente numa sinuca de bico quanto ao que fazer com o elefante depois da Copa de 2014. Assim, sobram apenas dois outros clubes para ocupar o lugar do Náutico. Foi aí que bateu um medo sem tamanho da Cidade da Copa cair no colo do Santa Cruz, afinal, o presidente coral é, ao mesmo tempo, Secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado. Nessas circunstâncias, é difícil dizer onde termina o secretário e começa o presidente...

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A competição desigual

Existe competição no futebol brasileiro? Sem maiores delongas, responderei à la Caetano: sim, não, mas sim, mas não… nem isso! Fiquei pensando nesse assunto, vendo a festa do Vasco, quando de sua subida à primeira divisão. Olhava a festa dos paraibanos com a vitória do clube de Eurico Miranda, esse fundador da Máfia dos 13. Olhava e pensava sobre a ironia da traição futebolística, essa deslealdade no campo dos valores e do orgulho regional, tão ostentada pelos nossos vizinhos: torcer por clubes cujos torcedores da gema são do estado da federação, e que têm a mania de xingar os nordestinos de… paraíba. É curioso, né?… Voltando ao clube da colina: não nego o mérito de seu desempenho — mas foi justo? Ou, colocando de uma forma diferente: a competição esportiva, na segunda divisão, é justa, isto é, as oportunidades são iguais, ou ainda, o ponto de partida, no campeonato, é o mesmo para todos os participantes? Claro que não. O Vasco, afinal, é da Máfia dos 13, o cartel que domina o futebol brasileiro. Inclusive, podemos ampliar a pergunta: a competição esportiva é justa no futebol brasileiro? Claro que não, afinal, existem, além do truste referido acima, a CBF, a Rede Globo, as federações esportivas, os tribunais desportivos, a corrupção de árbitros, e por aí vai. Mas, mesmo sem tais sacanagens, como supor uma competição esportiva justa, num espaço futebolístico regrado completamente pelo poder econômico? E, sendo negativa a resposta, ou seja, a competição não é justa, pode-se perguntar se há alguma competição no futebol brasileiro. Eu respondo que sim: há competição no nosso futebol. É uma muito bem conhecida por todo brasileiro, principalmente daqueles provenientes dos setores populares de nosso país. É uma competição baseada na desigualdade, no jeitinho e na manutenção do status quo. É um tipo de disputa alicerçada na chamada “ilusão meritocrática”: pensa-se que todos são iguais, que todos têm a mesma oportunidade, mas se descobre que, atrás do discurso igualitário, do discurso baseado no mérito, esconde-se uma abissal desigualdade. O futebol brasileiro, mutatis mutandis, parece o vestibular: quem é negro e pobre entra na competição de uma forma completamente desigual. Pois bem, como existir uma competição justa num país campeão da desigualdade social? Ora, o futebol não é um espaço neutro e à parte da realidade social brasileira; na verdade, ele reproduz muito das mazelas da nossa histórica desigualdade. O que estou defendendo, assim,...

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Um dia morto

Passei aproximadamente uma hora na frente do computador, pesquisando de um lado para o outro, até perceber que não tinha assunto para falar do Santa Cruz. Sobra tédio, faltam palavras. Perdoem-me o trocadilho infame, mas hoje é um dia morto, como serão todos os dias até o Santinha tornar a entrar em campo. Sei que alguns dos leitores costumam acompanhar a Copa Pernambuco, ir aos jogos, comentar sobre este e aquele jogador, mas eu não consigo. Juro que não. Não quero saber, não sei de nada, não me interessa. Não vou a campo, nem incentivo ninguém a ir lá. Mas isso é uma coisa minha. Cada um sabe a dor e a delícia de ser tricolor. Nos últimos dias, só tive um pouco de ânimo para falar da Arena Coral e do maior elefante branco no meio do mato do Brasil, mas hoje, nem isso. Prazer nenhum. O fato é que nove entre dez blogueiros corais não têm o que falar sobre o Santa. O Santa não gera mais assunto, não movimenta as rodas de boteco, não sai mais nos jornais. Vamos falar de quê? Aceito sugestões de pauta. De todo esse vazio, o que sinto mais saudade é da camaradagem que gira em torno dos jogos do Santinha. Nada está em seu lugar. Hoje não tem dança, não tem mais menina de trança, nem cheiro de lança no ar. Sinto falta dos encontros com os amigos do TC, antes e depois das partidas no Arruda. De ouvir os gritos de Josias nas sociais, de bater um papo com Perrusi, de tomar um caldinho com Ducaldo, das ligações de Anizio querendo saber onde vamos tomar uma depois do jogo. Essas coisas que orbitam em torno de uma partida do Santinha, e que parecem pequenas, no fundo, são a alma do negócio. São esses encontros, essas conversas, que fazem circular o nome do Santa Cruz de boca em boca, de pai para filho. Observador atento, de olhos abertos e orelhas em pé, há tempos não percebo qualquer sinal de vida vindo do Arruda. Só um vazio. Será que é o silêncio que vem depois que morre a...

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A Arena Coral volta ao páreo

Os pernambucanos somos mesmo megalomaníacos. Entre outras coisas, temos – ou tínhamos, não sei – orgulho de ter o maior Shopping Center da América Latina, a maior avenida em linha reta do país, que é a Caxangá,o maior carnaval do mundo e outras coisas do gênero. Agora, por causa da Copa do Mundo de 2014, o governo do Estado de Pernambuco pretende aumentar esse rol ao construir o maior elefante branco no meio do mato do Brasil. Eita, mania de grandeza! Creio que neste caso especificamente o projeto esteja alinhado principalmente a interesses políticos, afinal, são as obras que ficam mais visíveis em qualquer administração pública, seja ela federal, estadual ou municipal. Eu, que não tenho nada a ver com a política oficial, fico imaginando o que acontecerá depois da copa, quando a vida voltar ao normal e nem clubes nem torcedores quiserem botar os pés no meio do nada. Felizmente, de uns dias para cá, ressurgiu com força a possibilidade de retomada do projeto Arena Coral. O jornal Estado de São Paulo publicou uma matéria no dia 02 de outubro deste ano, onde Felipe Jens, presidente da Odebrecht Investimentos em Infra-estrutura – OII, afirma que a empresa avalia as reformas dos estádios do Maracanã (Rio de Janeiro), Pituaçu (Bahia), Arruda (Pernambuco) e Verdão (Mato Grosso) para a Copa do Mundo de 2014. O detalhe é que nem o Pituaçu, nem o Arruda fazem parte dos planos oficiais para a copa no Brasil. Embora a própria Odebrecht, através de sua assessoria de imprensa, tenha enviado nota oficial para desmentir o conteúdo da matéria publicada no Estadão, a notícia caiu como uma bomba na imprensa pernambucana. Em minha opinião, há uma boa chance de ter havido uma saia justa do governo estadual com a Odebrecht, entre o tempo decorrido com a entrevista de Felipe Jens e a nota oficial da construtora, pois geralmente onde há fumaça, há fogo. E há mesmo fumaça. Tanto assim que Eduardo Esteves, responsável juntamente com seu pai, Reginaldo Esteves, pelo projeto da Arena Coral, declarou ao jornal Folha de Pernambuco, em 20/10, que “o projeto Arena Coral é independente, mas acaba sendo mais uma opção (…) inclusive, dois diretores da Odebrecht, designados pelo próprio Felipe (Jens), estão vindo ao Recife para realizar uma reunião conosco”. Alguns rubro-negros e alvirrubros, segundo o mesmo jornal Folha de Pernambuco, admitem que a reforma do Arruda seja a melhor...

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Se conselho fosse bom…

Desde a semana passada estive fora de Recife, resultado de compromissos profissionais nos dias úteis misturados a uma boa oportunidade de descanso no feriadão. Por isso, só ontem pude ler o convite para a reunião solene de comemoração de um ano do Conselho Deliberativo e da Diretoria Executiva. Não fui à reunião – aliás, uma das raras vezes que estive ausente – por questões pessoais, pois minha esposa tinha prova na faculdade e eu fiquei em casa cuidando da minha filha. Mesmo assim, fiquei em casa matutando com meus botões tricolores: comemorar o quê, afinal? Não sei dizer. Está bem, está bem, estou sendo muito severo. Afinal, voltamos a ter a voz ativa no Conselho. Comparado a um passado recente onde o presidente do órgão deliberativo costumava agir com a sutileza de um tiranossauro numa loja de cristais e mantinha os conselheiros longe da tribuna, isto, sem dúvida, é um avanço e tanto. Também, é preciso que se reconheça, que o atual presidente deu seguimento – e sempre foi atendido pelo Executivo – aos pedidos de esclarecimento dos conselheiros sobre os atos daquele poder. Ainda assim, não é difícil chegar à conclusão que, tal qual o Executivo, o Conselho Deliberativo também deixou a desejar. O órgão político do clube vem perdendo sistematicamente a oportunidade de cumprir seu principal papel neste ano, qual seja a modernização do estatuto. Possivelmente até dezembro não haverá um novo regulamento institucional aprovado, o que significa dizer, entre outras coisas, que a transparência do próximo pleito dependerá mais uma vez da boa vontade do Executivo. Embora não haja razão para acreditar que FBC, por suas virtudes democráticas, siga a mesma linha de seus antecessores e só publique a lista de sócios às vésperas da eleição, nada disto minimiza a atuação do Conselho, que não fez – e não vem fazendo – a parte que lhe cabe. Entre as razões, podemos citar a ausência de boa parte dos conselheiros nas reuniões ordinárias. O desaparecimento dos membros do órgão deliberativo ocorreu na mesma medida em que o time coral apresentou resultados pífios dentro de campo. Tenho a impressão que se o Santa ainda estivesse jogando a Série D, o auditório continuaria lotado. A última reunião do conselho, por exemplo, contou com um pouco mais de vinte participantes. Além disso, diante de tanto trabalho a fazer, não faz sentido insistir em apenas uma reunião mensal. O próprio presidente...

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