Tabus existem para ser quebrados

Tabus existem para ser quebrados

Santana Moura, especialista em psicologia do Esporte Outro dia lá íamos nós, eu e minha amiga Valéria (Assistente Social), por uma comunidade da periferia, ladeira abaixo acompanhando o curso de um córrego à procura do difícil endereço de uma família, que deveria ser atendida por nós (equipe Psicossocial). Enquanto nos equilibrávamos por entre as pedras eu ia dizendo: “estás vendo Valéria, qual é a pesquisa ou pesquisador que passa por uma área assim pra saber qual o time que a pessoa torce? Também não vai aos morros, nem alagados onde repousa, com muita força, grande parte da torcida coral.”. Pois bem, até algum tempo atrás se presumia que a imensa torcida tricolor seria formada apenas pelos menos favorecidos. Esta crença se espalhou em nosso meio, tendo se acentuado quando meu conterrâneo o também tricolor, José Nivaldo Junior, ao microfone de uma grande emissora de TV, defendeu a tese de que Pernambucano não comportava três forças clubísticas a competirem entre si no mercado futebolístico. No dia seguinte, começaram as piadas e pragas, alegando que o Santa Cruz iria desaparecer e sua torcida se reuniria com a do Náutico para formar a “Triconáutico”. Na época, era tempo de fusões em meio às reengenharias de empresas nacionais e internacionais, instigadas pelo capitalismo. Tudo indicava que seria este o nosso destino. Pouco a pouco sem apoios, sem patrocínios, alijado de participar do bolo de benesses do Clube dos 13 e, diferentemente dos pseudo-irmãos, O Mais Querido acelerou a queda de série em série, até chegar ao fundo do poço. Nosso estádio foi encolhido e interditado, começava, então, a tentativa de exclusão mais cruel do nosso futebol. Para deixar bem claro, aqui, o conceito de exclusão de que falamos nos reportamos a Pablo Gentilli, ferrenho crítico do mercantilismo na educação. Esse autor argumenta que há três modalidades mais comuns de exclusão: 1) Supressão completa de uma comunidade por expulsão ou extermínio (Colonização – holocausto). 2) Exclusão por mecanismo de confinamento e reclusão (Leprosos, loucos, anciãos, deficientes, até algum tempo atrás), uma crueldade sem precedente. 3) Segregar, incluindo (sem-teto, inimpregáveis, crianças de rua, etc.). Esses podem conviver com os incluídos, só que em condições inferiorizadas, sendo esta uma forma invisível de excluir. Nesses termos, não tenhamos dúvidas de que sofremos uma tentativa de extermínio. Não se via notícia nas manchetes de jornais ou destaques nos programas de rádio ou TV sobre o nosso clube, mas...

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Na final, afinal!

Na final, afinal!

Combinamos, Paulinho e eu, de assistir ao jogo do Santinha juntos no Arruda. Temos características similares, conversamos pouco e observamos muito a partida. Por isso, quando Nó Cego me ligou se convidando para ir conosco, considerei a sua companhia indesejada, pois tenho me esforçado para ver o trabalho de Zé Teodoro com bons olhos – o esquerdo é bem melhor do que o direito, pois é com ele que, depois da cirurgia de miopia, passei a enxergar longe – e queria ir a campo para dar o meu sincero apoio à equipe coral, pois, por amor ao Santa Cruz, intuí que havia chegado a hora de dar uma chance à paz, ao menos na reta final do Campeonato Pernambucano. Com Nó Cego por perto, é impossível agir como um genuíno torcedor de arquibancada, apoiar incondicionalmente o time e vibrar com a vitória, ainda que magra, com um gol de mão do juiz. Além de tudo, com ele, corro perigo. Nó Cego sempre se mete em confusão e, invariavelmente, sou eu quem paga o pato. Saí de casa arrastando, pela coleira, Dalila – uma cachorra de rua da raça Chihuahua que peguei para criar e que tem complexo de superioridade, mas morre de medo de cobra – porque Nó Cego queria utilizá-la como cão-guia, já que o seu morrera acidentalmente em um jogo do Santinha no Arruda, depois que seu dono foi tirar satisfação com integrantes de uma torcida organizada. Provavelmente esta tenha sido a razão para que Dalila, quando soube do papel que lhe caberia, tenha dado um pique lascado para debaixo da cama e só tenha saído de lá tão logo eu enfiei um mastro de uma vassoura no seu rabo. Contornado o problema, Dalila pôs-se a andar toda arreganhada em direção à porta e seus olhos quase saltaram da cara assim que Nó Cego, ao avistá-la, fez-lhe um carinho com a gentileza de um estivador. Depois de Nó Cego chamar de ridícula a peruca da minha cachorra e rirmos um bocado, saímos em direção ao Arruda. Nó Cego me chamou de fresco assim que eu comprei um ingresso de cadeira cativa – “É por causa do meu reumatismo”, expliquei inutilmente – e exigiu que, por causa do inconveniente, eu comprasse um para ele também. Comprei o ingresso contrariado, me sentindo com cara de trouxa, e partimos para as cadeiras. Nó Cego arrastava Dalila em rédea curta, enquanto...

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Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar do jogo do Santa Cruz no Campeonato Pernambucano de 2012. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e convidados e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Zé Teodoro viverá uma crise existencial: tem que botar o time para frente, mas prefere jogar na retranca. Assim, o time entrará com três zagueiros, quatro volantes, um meia e dois atacantes. Para resolver a equação, botará a defesa no ataque e o ataque na defesa.  Dênis Marques jogará no gol e ganharemos o jogo com um gol de mão de Thiago Cardoso aos quarenta e oito do segundo tempo, obviamente, depois de uma jogada confusa na área adversária. Placar: Santa Cruz 1 x 0 Salgueiro Artur Perrusi O jogo estava 2×0 para o Santa. Faltando 10 minutos, o desastre, falha do goleiro e do zagueiro (não preciso dizer os nomes). Pena. Placar: Santa Cruz 2 x 2 Salgueiro Paulo Aguiar O Santa jogará o futebol de sempre. Confuso, sem esquema tático, chutões da zaga para o ataque. O retrato da série D se repetirá. Mau futebol e um resultado milagroso. Em um lance fortuito, na metade do primeiro tempo, um jogador prata-de-casa fará o gol da vitória. Placar: Santa Cruz 1 x 0 Salgueiro Nó Cego A gente tem tudo para tomar na jaca: um técnico retranqueiro, uma defesa que é uma baba e um goleiro mão de lodo. Vamos ser desclassificados pelo Salgueiro e ainda ter que aturar Zé Teodoro na Série C. Placar: Santa Cruz 1 x 2 Salgueiro Ducaldo Pitaco de quem tentou adivinhar a escalação, entender o raciocínio teodoriano e não sabe absolutamente o que está escrevendo. Placar: Santa Cruz 3 x 1...

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Se conselho fosse bom…

Se conselho fosse bom…

Santana Moura, especialista em Psicologia do Esporte …Não se dava, se vendia. É o que diz um ditado popular. Pensando nisto escrevi estas considerações, que não são conselhos, pois as dicas que tenho postado nos espaços tricolores parecem que estão sendo seguidas pelos nossos contendores. No calor de uma reta final de decisões, onde nos deparamos com o mesmo filme (situação de pressão) queremos pelo menos mudar o final da fita. Neste caso, a palavra de ordem é frieza e não paciência como temos ouvido. Para ilustrar a inoperância de certos conceitos em determinados eventos, lembro-me de uma olimpíada na qual um treinador de boxe dizia para seu atleta – exímio nocauteador – que esperasse o tempo certo para aplicar um golpe que colocaria na lona o adversário; o tempo foi passando, o oponente se defendendo e o coitado do atleta esperando com paciência que o outro abrisse a guarda para ele aplicar-lhe um direto no queixo, talvez. Enquanto isto o concorrente ia batendo no seu corpo e marcando pontos, marcando pontos. Passaram-se os rounds, o nocauteador abdicando de boxear não encontrou espaço para o nocaute e, assim, perdeu a luta e a medalha de ouro por pontos. Historia como essa nos ensina que às vezes não é tão salutar ter tanta paciência, melhor mesmo é ter prontidão decisória e frieza para definir a partida no menor espaço de tempo. No elenco do Santa Cruz tem jogadores com esta capacidade (por motivos óbvios não vou citar nomes). A melhor defesa é o ataque efetivo, não vale a inépcia. Já vimos muitos adversários do Santinha chegarem num momento de pressão e catimbar o jogo, com a conivência da arbitragem, tanto da casa como de fora. Afinal dentro do vestiário todos os gatos são pardos.  Então, melhor aniquilar logo o adversário sem piedade. O que faz a diferença, nessas horas, é realmente o aspecto psicológico, pois já se sabe que cor de camisa não assusta mais ninguém nos dias de hoje. Que cada jogador faça sua meditação particular encontre seus pontos fortes e os aproveite durante a partida. Nunca se deixem intimidar por palavras que os coloquem para baixo, corram em busca dos sonhos junto com os companheiros. Sonho que se sonha junto torna-se realidade. Ficar agoniado como Náutico esteve na partida contra o Sport não resolve nada, pois começa a faltar oxigênio no cérebro comprometendo a cognição, o pensamento, o raciocínio...

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A vitória da covardia

A vitória da covardia

Meu vizinho de garagem veio me mostrar, todo orgulhoso, um gigantesco adesivo magnético com o escudo do Santa Cruz. O adorno se destaca em seu não menos gigantesco carro preto e chama a atenção de quem cruza o seu caminho. Disse que havia comprado por uma pechincha e sugeriu que eu fizesse o mesmo, mas embora tudo que tenha as cores do Santa Cruz me hipnotize, recusei a sua gentil oferta. A culpa, respondi, está na violência gratuita que inviabiliza demonstrações amáveis de preferências esportivas nas ruas da cidade. Ontem, por exemplo, fui ao jogo sem a camisa d’O Mais Querido, com receio de alguma confusão depois da partida. Não deu outra, uma briga se formou nos arredores da Avenida Norte e só não sei dizer se foi um encontro de torcidas ou se envolveu apenas torcedores de um dos clubes. Contudo, volto à conversa com o meu vizinho. Dias antes do clássico, perguntei-lhe se estava confiante na vitória. Apesar de toda a empolgação com os símbolos corais e a fase atual, respondeu que qualquer placar era possível, mesmo com o time dos Aflitos descendo a ladeira. Em primeiro lugar, disse ele, por razões óbvias: clássico é clássico, seja lá em que circunstâncias os dois times se encontrem. Em segundo, porque, a despeito do melhor momento do Santa Cruz, tudo dependeria da formação e da postura que o time de Zé Teodoro iria adotar diante do Náutico em sua própria casa. Meu vizinho tinha razão. Ontem, assisti à vitória da covardia. Vi, em campo, um time que se propôs, desde o primeiro segundo de jogo, a ficar no zero a zero e, por sorte, achou um gol. Até compreendo a opção tática de jogar nos contra-ataques, já que, na teoria, o Náutico, na Série A do campeonato brasileiro e com mais dinheiro, portanto, teria uma elenco mais forte do que o nosso. Entretanto, não foi isso o que vi. Assisti ao meu time basicamente abdicar de jogar. Não me recordo do meio-campo ganhar um rebote sequer ou de uma jogada trabalhada ou ainda nada que se parecesse minimamente com futebol. Não sei quanto tempo o adversário ficou com a bola nos pés, sei que não perdemos o jogo pela inegável eficiência do sistema defensivo – desconsiderando, é claro, o risco de um gol iminente, através do jogo aéreo em nossa área – e também pela total incapacidade ofensiva do...

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