Ensaio sobre o desgosto

Não é de hoje, nem de ontem, que ando desgostoso com o futebol. Meu desgostar é bem mais antigo e bem mais profundo. Quarenta e três anos é idade pouca, mas também é muita. E talvez venha da idade a minha dificuldade em arrancar um novo artigo desde o meu último. Preferi parar um pouco, deixar passar. Melhor escrever alguma coisa mais leve para o Estradar, meu blog de contos e crônicas de uma gente brasileira, que já havia passado da hora. É que há momentos que é praticamente impossível ouvir, ver, falar ou escrever algo sobre o Santa. Sou torcedor de arquibancada, como qualquer outro, o que posso fazer, camaradas? Não há mal nenhum em desgostar. O desgosto traz, às vezes, uma serenidade assombrosa. É que o desgosto atua como uma camisa de força na paixão desenfreada que a gente sente por um clube de futebol. Com a paixão trancafiada a sete chaves, as idéias envelhecem e tornam-se mais claras. Um pensamento velho, ao contrário do que parece, é o que há de mais inovador. Quem pensa há mais tempo, enxerga mais longe. Que o digam nossos leitores Cláudio Guimarães e Jânio, que conseguem ver de suas janelas o mundo melhor do que eu. Sendo assim, a gente pensa duas, ou mais vezes, em entrar nesta ou naquela discussão. Mas vou entrar, ainda que só por um instantinho na questão da efetivação de Dado Cavalcanti, porque meu desgosto também vem do presente e entendo o debate como uma das coisas mais esplêndidas da democracia. Mas não vou com muita sede ao pote, que não carece, que minha opinião não mudará as pessoas, nem o mundo. Mas antes de falar em Dado, tratarei de outras coisas, pois no Santa há muito por desgostar. Tenho, por exemplo, desgostado cada vez mais de ser conselheiro do clube. Não há nada mais apático, mais emperrado e menos funcional que o Conselho Deliberativo. Lá, não acontece nada. Ultimamente, nem reunião. E não adianta espernear, nem pedir por favor. A julgar pela despreocupação de todos, tudo deve andar as mil maravilhas no Santa Cruz. Por isso, com o andar da carruagem, dificilmente terei ânimo em sê-lo novamente na próxima gestão. Desgosto também dos nossos uniformes. Achei-os de um mau gosto tremendo. No uniforme coral, a linha branca é tão tênue que me lembra outro time, além do quê o preto toca o vermelho na...

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Quando a água faz falta

João Lins Para torcer pelo Santa Cruz, precisamos possuir uma série de atributos, tais como: amor incondicional, perseverança, paciência, excelente memória para recordar o passado, acreditar que é possível mudar o presente, apesar dos fatos mostrarem o contrário. O conjunto desses atributos são componentes que fazem da torcida tricolor algo inexplicável perante os simples mortais, ou seja, a torcida mais apaixonada do Brasil. Não existe explicação para tanto amor e fidelidade a um time que nos últimos anos só tem sido motivo de decepção. Somos uma espécie em extinção, do tipo que ainda acredita, apesar de tudo. Porém, o fato do torcedor ser tolerante e paciente não implica que ele seja um desconhecedor do futebol e que aceite passivamente tantos erros cometidos ao longo dos anos, na administração do departamento de futebol do Santa Cruz, com contratações de jogadores que, em sua maioria, seriam reservas em qualquer time de pelada da nossa cidade. Sabemos e entendemos a falta de recursos para contratações de alto nível, porém, com os recursos existentes, daria pelo menos para formar um time de melhor qualidade. O que se constata é um time formado por um bando de peladeiros (de baixo nível), um treinador superado, que não faz treinamento específico e um diretor de futebol que chegou falando muito e tem feito pouquíssimo para formar um time capaz de sair da série D. Se continuar dessa forma, corremos o risco de não disputar a série D, pela péssima classificação no Pernambucano. Não obstante todos esses problemas, temos ainda que escutar nosso superado treinador dando entrevistas desastradas, como falta de chuteiras adequada ao estado do gramado e que os jogadores tiveram que tomar banho com água da piscina, pois não havia água nos chuveiros do vestiário. Independente do que tenha ocorrido, não podemos aceitar esses acontecimentos e, principalmente, a divulgação pelo treinador, o que deixa bem claro seu despreparo e falta de respeito com o clube. Somos uma torcida paciente e compreensiva, mas tudo na vida tem um limite e acredito que esse limite chegou. Querer desviar as atenções do péssimo rendimento do time para falta de água, além do desrespeito com o clube e sua torcida, demonstra que o Santa Cruz está sem comando. Se não tiver outra alternativa, vamos processar a Compesa! Nota da redação: Pierre Lucena, Doutor em Finanças, publicou no blog Acerto de Contas um texto bastante duro sobre FBC. Independente de...

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Ignorância

Efeito cartoon: Dimas Lins Estive fora de Recife. Involuntariamente, deixo claro. Esclareço logo, antes que condenem um pobre tricolor por não ter acompanhado o Santa Cruz nesse início de campeonato pernambucano, que fui seqüestrado por uma tribo de hábitos estranhos e levado para o sul. Lá, no cativeiro, não tinha direito à água. Era forçado a tomar vinho e cerveja artesanal. A comida também era formada por iguarias estranhas. Fui obrigado, por exemplo, a comer avestruz – sem conotações sexuais, por favor – ao molho de amoras acompanhado de Linguine Al Pesto. Também comi joelho de porco. Talvez eu tenha passado por algum ritual macabro da Mancha Verde, aquela torcida organizada do Palmeiras. No final, paguei o resgate com cartão de crédito. Parcelei em três vezes sem juros. Mas isso não importa. O que importa mesmo é que durante todo esse tempo fiquei sem acesso à internet e também sem notícias do Santa Cruz. No máximo, me deixavam ligar para casa para pedir o resgate. Era quando aproveitava para perguntar sobre o resultado dos jogos. Vivi, durante todos esses dias, na mais pura ignorância futebolística. Esta, aliás, foi a primeira vez que deixei de acompanhar o Santinha numa competição oficial. Também não acompanhei a Copa Pernambuco, mas essa não conta, pois não falo, obviamente, de campeonatos de brincadeirinha. Por isso, à vera mesmo, foi a primeira vez. O mais interessante disso tudo foi perceber o quanto a ignorância pode fazer bem. É incrível como uma cabeça oca pode tornar-se absurdamente saudável. Depois do clássico, por exemplo, não senti nenhuma sensação desagradável de que o mundo iria acabar no dia seguinte, apesar dos sinais advindos das enchentes em São Paulo e do terremoto no Haiti. A única coisa menos aprazível na ignorância é o de apresentar um aspecto um tanto apalermado diante de um tricolor mais bem informado. ― Marcos Mendes é ruim que dói. ― O cantor? ― Não, o cantor é Fernando Mendes. Falo do volante. ― E ele dirige o quê? ― Ele não dirige nada. Também não joga nada, assim como Robinho. Não sei como o Santa contrata um jogador dessa qualidade. ― O Santa contratou Robinho?! Com que dinheiro?! Já vi que FBC vai aumentar nossa dívida trabalhista! ― Estou falando do lateral esquerdo. O homem é uma avenida. ― Avenida?! Já ouvi falar que pra jogador bom o clube manda fazer estátua, mas essa...

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O Chamado

Faz tempo que não escrevo… Fiquei tão chocado com a eliminação da série D que meu cérebro, talvez por medida de segurança, desligou-me do futebol. Entendo sua posição; afinal, queria me proteger. Além do mais, meu cérebro queria também se proteger. O risco de pane geral era eminente, diante do absurdo do fracasso na série maldita. Meu cérebro não é besta, podem ter certeza. Acho-o até mais inteligente do que eu, para vocês verem. E, sinceramente, não senti tanta falta de meu hemisfério esquerdo. Não estava servindo pra nada. Uma vez, uma tomografia mostrou que todo o meu hemisfério esquerdo era dominado pelo futebol. Para o bem ou para o mal, anos de jogo de bola levaram a essa situação. Já existiam neurônios especializados no ludopédio, com circuitos sinápticos alimentados por neurotransmissores parecidos com uma bola. Parte de meu miolo, inclusive, parecia o Arruda. O exame causou constrangimento no meu médico. Havia certa perplexidade no ar. E, sei muito bem disso, médico perplexo nunca é bom sinal. Um tanto inquieto, fiz uma observação idiota: _Mas meu hemisfério direito está normal, né?! O médico ficou calado. Preferi acompanhá-lo na sua mudez. Pior do que um médico perplexo, somente um silencioso. E, assim, nunca soube sobre meu hemisfério direito, e nem quero saber. Não tenho certeza se, de fato, ele existe, o que explicaria algumas estranhezas no meu comportamento. Não tenho vergonha de admitir essa lacuna. Vejo como um fato banal da vida. Dessa forma, depois da série D, fiquei com um hemisfério esquerdo nulo e um direito… bem, como já disse, não sei pra que serve. Foi um período muito imbecil da minha vida, confesso a todos. Embora praticamente sem cérebro, fui dando conta do cotidiano. É impressionante descobrir que a burrice não atrapalha a gente, muito pelo contrário. Mas não nego que fui feliz, afastado que estava do futebol. Sim, sei que essa situação é um tanto paradoxal, mas a vida é muito estranha. Lá estava eu, desligado do futebol, sem hemisfério esquerdo, profundamente imbecil, e feliz. Foi quando recebi uma ligação no meu celular. A voz era cavernosa. Diria até assustadora. _Venha ao jogo, venha ao jogo… Era um Chamado. Era o Nosso Presidente. Seu imperativo ficou ecoando na minha cabeça. Era uma repetição infernal. Os dois neurônios, que sobraram do meu hemisfério esquerdo, começaram a se agitar. O futebol voltava aos poucos à minha mente. Tinha que...

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O ano da zebra coral

O ano do futebol começa no dia 13 de janeiro. E, assim como nos últimos, a torcida coral se refaz na esperança de que a lógica do futebol não ocorra dentro das quatro linhas. Dos prováveis 11 jogadores que começarem jogando contra o Sete de Garanhuns, nenhum deles iniciou o campeonato do ano anterior. Fato normal, quando não existe planejamento. O treinador coral é o mesmo que esteve há 25 atrás e que não deixou saudades. As poucas informações que temos sobre o time, com base nos amistosos e treinos, equiparam-se a dos últimos sofridos anos. Enfim, a lógica do futebol não nos parece favorável. Mas, ainda bem, que o futebol não é uma ciência exata. É claro que existe certa racionalidade no futebol fruto da competência profissional dos seus gestores. Mas também é sabido que outros fatores, às vezes externos à vontade do gestor, podem modificar o resultado do futebol, somando-se o fato de que o planejamento não ocorre de forma imediata. Embora muito aquém do que se esperava, não se pode negar que melhorias foram feitas. As esperanças estão depositadas no trabalho de quem já provou que entende de futebol profissional (Raimundo Queiroz), respaldadas pelo apoio financeiro que o presidente FBC conseguiu para o Santa Cruz. Estes, somados à força da torcida coral, podem modificar qualquer previsão. Afinal, quem não tem uma história pra contar sobre futebol? Quem não conhece a palavra superação em um elenco limitado? Ao longo de sua história, poucos foram os títulos ganhos pelo Santa “de forma antecipada”. Os mais marcantes, em geral, foram frutos da nossa superação. É isto que me motiva ao ponto de deixar o meu lado racional de lado e acreditar que o campeonato pode nos trazer boas surpresas. A maior delas, ver o Santa Cruz ser campeão. Todos nós sabemos que o campeonato se inicia com a taça de campeão bem longe do Arruda, mas este caminho, hoje natural, pode se modificar. Temos que acreditar, confiar e apoiar. Criticar na hora certa e aplaudir nos passes errados. Já passou da hora do clube coral mostrar sua força nos gramados. Já passou da hora de termos um time pra torcer e não apenas uma torcida pra se orgulhar. Quem sabe 2010 seja o ano em que adotaremos um segundo mascote: a Zebra Coral. A zebra que na sua constituição genética guarda resquícios de nossa origem. Preta e branca são suas...

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