The quenguers

The quenguers

Sou um “quenguer” ou, pelo menos, faço parte dessa gangue. Seria um termo anglo-saxão que significa: “o tricolor que está puto e não aguenta vexame e humilhação, e que jura que não vai mais ao jogo, nem a pau, não vai pra essa porra nem a porra, etc e tal, e finda indo ao… jogo”. Tecnicamente, sofre de ato falho, tem falha de caráter, uma dependência mórbida, uma fixação passional, e por aí vai. Sim, sou um quenguer. E somos legião, o que é muito doido, cá entre nós. Depois do segundo gol do esquadrão do Baraúnas, eu me mandei do estádio. Não quis nem saber. Não fui o único, podem ter a certeza. Foi a massa coral inteira. Aliás, um espetáculo fúnebre, ver aquela masssa silenciosa e cabisbaixa saindo do Arruda. Felipe mesmo, o irmão falante de Dimas, já no intervalo do primeiro tempo, estava enfurecido. Foi mijar naqueles banheiros nauseabundos, pegou o beco e findou foi mijando no banheiro de casa. Eu saí chutando lata e dizendo que não voltava ao Arruda, enquanto SB estivesse no cargo. No domingo, era um juramento sagrado. Peguei até uma faca e fiz um risco de sangue no pulso. E jurei com sangue: nem morto! Não vou, não vou, e priu! Na segunda, era uma promessa; terça, ainda resmungava e notava que o risco já cicatrizara, não dando nem pra notar — o sangue parecia ketchup; na quarta, estava meio apático, sem saber o que fazer. Não tinha vontade de ir ao jogo. Ou tinha?! Não sei… Só sei que estava sorumbático e alheado do mundo. Foi então que recebi um telefonema. Era Dimas. _Vai ao jogo? _Jogo? Você não disse que não ia mais? _Pois vou… Dimas é um “raipariguer”, uma facção radical dos quenguers. Diante do desafio, era-me impossível não aceitá-lo. Sim, vou ao jogo. Por motivos insondáveis, fiquei feliz feito pinto na merda. Já ficara com o baile que a Coisa tinha levado dos coelhos. Era só sorriso, embora nutrisse a esperança de que Dedé fosse escalado no time. Mas o fato, aquela alegria toda, chamou a atenção de minha mulher, uma anarquista da Barbie. _Vai ao jogo, amoreco? No equilíbrio conjugal, “amoreco” é uma expressão bem irônica, do tipo “ah, é?”. Não tente, caro amigo, pois só as mulheres têm a arte de dizer “amoreco” com ironia. _Vou, sim! E enchi o peito de orgulho. Aliás, não...

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Justiça, ora, a justiça!

Justiça, ora, a justiça!

Não existe justiça no futebol. Talvez o esporte imite a arte, como a arte imita a vida. Na vida nem sempre prevalece o justo e muitos são os atalhos para se tomar o certo por errado. Tem-se a impressão, aqui e acolá, que mais vale a destreza do advogado do que a verdade dos fatos ou a interpretação do juiz que o texto da lei. A lei, me ressinto em dizer, não serve à justiça. Serve, quando muito, à própria lei. Não. Não existe justiça no futebol. Se houvesse, algum tribunal desportivo daria, por unanimidade, a vitória ao Santa Cruz no Clássico das Multidões. O resultado final não valeria, porque não seria justo, nem verdadeiro. Ontem, o Santa Cruz pôs o rival sob seu jugo. Foi soberano. Saiu de um primeiro tempo equilibrado para um segundo absoluto. Sobrou em campo. Foi tamanha a superioridade que o empate serviu à torcida adversária como um título de copa do mundo. O Santa, apesar da empáfia do lado de lá, mandou no jogo. Tanto que abusou. No final da partida, eu gritava em vão para o time segurar a bola no ataque. Minha voz foi abafada pelos gritos de olé! Grita-se olé!, quando muito, numa goleada, onde não mais é possível dar chances ao azar. Em um clássico, tudo pode acontecer até o apito final. Cada jogo do passado está aí para provar. Dizia a Paulinho, segundos antes do lance capital, que só um milagre tiraria a vitória. O milagre nasceu de um tolo desejo de vingança dos que, em campo, engoliram calados, durante toda a semana, o outro lado cantar de galo. Deixaram, então, de fazer justiça para serem justiçados. Da vingança fez-se a soberba, que tombou castigada nos minutos finais. Eis a justiça no futebol. O pênalti não foi cometido por um só jogador, mas por todo o grupo. Começou no ataque com uma tentativa de drible desnecessária, passou por um vácuo na lateral direita até terminar na área, desmantelado no chão. O correto seria prender a bola e gastar o tempo. O tempo, ah!, o tempo, compositor de destinos e regente de movimentos precisos. Faltava uma réstia de momento, um triz de minuto. Que os segundos passassem com a bola em nossos pés. Na arquibancada, explodi impaciente e demorei a me acalmar. Não se pode contar com a vitória antes do fim. A soberba nos tirou a liderança e...

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Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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O corvo

O corvo

Versos baseados na tradução de Fernando Pessoa do poema O corvo do poeta e escritor americano Edgar Allan Poe. Numa noite sombria e inquieta, enquanto eu lia, lento e triste, As notícias do meu time, tantos pesadelos reais, E sem sono ou alegria, ouvi o que parecia, Alguém que à porta batia com pancadas tão brutais. “Mal agouro”, eu me disse, “Vá de retro, Satanás!”   E de fora a voz dizia: “Não saio daqui nunca mais.”   E o peso da ventania, em noite tão densa e fria, Deitou a porta abaixo e invadiu os meus umbrais. Roguei, pedi silêncio, um pouco de paz no aposento, Gritei, mergulhado em tormento: “Vá embora, Barrabás!” E um corvo preto e graúdo interrompeu meus rituais.   “Não saio daqui nunca mais.”   Um corvo preto e graúdo, ave de agouro e de luto, Pousou na minha varanda, enviando seus sinais. “Que merda é essa?!”, eu lhe disse, “Deixa logo de tolice, Volte por onde saíste, parta e não venha mais. Suma, desapareça, não mande carta ou postais!”   E o corvo repetia: “Não saio daqui nunca mais.”   “Sou o profeta das sombras e trago notícia ruim. Esse teu time chinfrim, não jogará bola mais. Será sempre essa mesmice, vence uma; noutras, vice, Viverá eterna crise, não levantará jamais.” Que corvo filho da puta, jogando pragas demais.   E repetiu insolente: “Não levanta nunca mais.”   “Não vou mais pra Série A?!”, perguntei muito assustado, É triste ficar fadado a competições locais. Revê essa tua vidência, encontra outra evidência, Que desfaça com urgência tuas previsões boçais.” E o corvo muito sério, sem gestos sentimentais:   “Não levanta nunca mais.”   “Não abandono o meu time, seja o que for que aconteça, A não ser que eu padeça de algumas doenças mentais.” “Pois antes que o dia amanheça”, disse o corvo infeliz, “Debaixo do meu nariz, confessarás muito mais. Não pisarás no Arruda, lá não voltarás jamais.”   E repetiu insistente: “Nunca mais.”   “Corvo agourento e maldito, ave má e traiçoeira, Covarde, vil e rasteira, volta pros canaviais! Nada que dizes aceito, um dia daremos jeito, Ouvirás os nossos feitos, seremos os maiorais! Foge, ave sinistra, voa pros teus umbrais!”   E o corvo respondeu: “Nunca mais.”   “Ouve bem tuas palavras”, disse-me a ave, enfim, “Estás mais perto do fim, que de glórias ancestrais. Em trinta anos, tu bem lembras,...

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Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar do jogo do Santa Cruz na Série C do Campeonato Brasileiro de 2012. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e convidados e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Chegamos aqui, neste momento decisivo, do jeito errado. Sofremos sem necessidade, nos emputecemos à toa. Viver nesse mundo é difícil, eu acho que são os ossos do ofício. Pet Shop, mundo cão, diria Zeca Baleiro. Mas a vida segue e se o tempo não pára, no entanto ele nunca envelhece. Não sei bem o que quis dizer com isso, apenas senti uma enorme vontade de citar letras do nosso cancioneiro popular, como fazia Mário Fofoca. Seja lá como for, amanhã vai ser outro dia. E vamos vencer. Pro dia nascer feliz. Placar: Águia/PA 1 x 2 Santa Cruz Paulo Aguiar Dois anos depois, Zé Teodoro volta ao mesmo estádio enfrentar o mesmo time que o desclassificou com um empate quando treinava o Fortaleza. Novamente, a história quis se repetir. O mesmo treinador, o mesmo adversário e o mesmo resultado. Desta vez porém, o time era outro: Santa Cruz. E o resultado classificou a cobra coral. Placar: Águia/PA 1 x 1 Santa Cruz Artur Perrusi Já dizia um velho barbudo que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Que tudo seja diferente, agora. Que o santinha ganhe e se classifique. Que se acabe, de uma vez por todas, com a farsa in extremis. Placar: Águia/PA 0 x 1 Santa Cruz Nó Cego Vão jogar ou afrouxar? Placar: Águia/PA 1 x 1 Santa Cruz Murilo Lins Agora é a hora da cobra beber água. Contra todas as evidências, contra tudo e contra todos: Placar: Águia/PA 1 x 3 Santa...

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