Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Sentava-me no sofá quando aconteceu o primeiro gol. Achei estranho, até culpei o sofá. Foi então que calhou o segundo gol. Pedi desculpa ao sofá, nitidamente inocente na história, e fui à cozinha comer alguma coisa. Santana, a psicóloga de todos os tricolores, comentara comigo que banana combate a frustração. _ A banana, Artur, a banana, Freud comia banana, dissera Santana. Precisava de potássio, pois era o responsável para escrever a crônica do jogo e publicá-la no TC. Só potássio na veia podia me inspirar. Maldade de Dimas, claro; maldição do cabra, provavelmente. Ele é mau feito um pica-pau. Certamente, imaginara que o jogo fosse uma desgraça e deu a tarefa ingrata ao pobre coitado aqui . E foi, justamente, quando comia a banana, que aconteceu o terceiro gol. Foi inevitável, nesse momento, filosofar sobre o sentido da vida. Talvez, sacrificando tudo à volúpia, o pobre escriba, justamente aquele que vos escreve, jogado a contragosto neste triste universo, conseguirá semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Pensei em Scarlett, toda viúva negra nos Vingadores, e a volúpia se alumiou. Aproveitei e comi uma bolacha cream craker, aquela da Marilan, especial e bem tostada. Crunch, crunch, crunch… (para quem não sabe, esse sou eu comendo bolacha cream craker) E bebi um copo d’água e me senti empachado. _Cuidado com a mistura entre cream craker e água. É pior do que manga com leite. _Santana? Maldição, só faltava isso, escutava vozes, com nítido sotaque de clorofila. Sofria os efeitos delirantes de uma goleada no Santinha. Mas, de fato, estava empachado. Soltei um pum. Ri comigo mesmo. Para um time merda, nada como soltar um peido. E ainda é uma terapia eficiente contra o empachamento. E nem precisei tomar luftal. Aí que ia peidar mesmo. Voltei à filosofia e pensei em quanto os seres humanos são nojentos, com suas secreções e seus gases. Especulando os recônditos da metafísica, comecei a voltar ao Real e me aproximei, bem devagarinho, da TV. Passo a passo, para evitar um novo gol. Vai ver que dava azar. Se antes delirava, agora estava místico, uma condição logicamente posterior ao delírio. Não houve gol. Abri um sorriso de esperança. Porra, sou tricolor, torcida do carai, bradei aos quatro ventos e soltei outro pum. Recitei um mantra: “talvez, muito pior seria se pior fosse”. Gosto dele. Mistura poliana com rivotril. Olhei enfim o jogo. Era uma coisa de nunca mais se ver,...

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The quenguers

The quenguers

Sou um “quenguer” ou, pelo menos, faço parte dessa gangue. Seria um termo anglo-saxão que significa: “o tricolor que está puto e não aguenta vexame e humilhação, e que jura que não vai mais ao jogo, nem a pau, não vai pra essa porra nem a porra, etc e tal, e finda indo ao… jogo”. Tecnicamente, sofre de ato falho, tem falha de caráter, uma dependência mórbida, uma fixação passional, e por aí vai. Sim, sou um quenguer. E somos legião, o que é muito doido, cá entre nós. Depois do segundo gol do esquadrão do Baraúnas, eu me mandei do estádio. Não quis nem saber. Não fui o único, podem ter a certeza. Foi a massa coral inteira. Aliás, um espetáculo fúnebre, ver aquela masssa silenciosa e cabisbaixa saindo do Arruda. Felipe mesmo, o irmão falante de Dimas, já no intervalo do primeiro tempo, estava enfurecido. Foi mijar naqueles banheiros nauseabundos, pegou o beco e findou foi mijando no banheiro de casa. Eu saí chutando lata e dizendo que não voltava ao Arruda, enquanto SB estivesse no cargo. No domingo, era um juramento sagrado. Peguei até uma faca e fiz um risco de sangue no pulso. E jurei com sangue: nem morto! Não vou, não vou, e priu! Na segunda, era uma promessa; terça, ainda resmungava e notava que o risco já cicatrizara, não dando nem pra notar — o sangue parecia ketchup; na quarta, estava meio apático, sem saber o que fazer. Não tinha vontade de ir ao jogo. Ou tinha?! Não sei… Só sei que estava sorumbático e alheado do mundo. Foi então que recebi um telefonema. Era Dimas. _Vai ao jogo? _Jogo? Você não disse que não ia mais? _Pois vou… Dimas é um “raipariguer”, uma facção radical dos quenguers. Diante do desafio, era-me impossível não aceitá-lo. Sim, vou ao jogo. Por motivos insondáveis, fiquei feliz feito pinto na merda. Já ficara com o baile que a Coisa tinha levado dos coelhos. Era só sorriso, embora nutrisse a esperança de que Dedé fosse escalado no time. Mas o fato, aquela alegria toda, chamou a atenção de minha mulher, uma anarquista da Barbie. _Vai ao jogo, amoreco? No equilíbrio conjugal, “amoreco” é uma expressão bem irônica, do tipo “ah, é?”. Não tente, caro amigo, pois só as mulheres têm a arte de dizer “amoreco” com ironia. _Vou, sim! E enchi o peito de orgulho. Aliás, não...

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Justiça, ora, a justiça!

Justiça, ora, a justiça!

Não existe justiça no futebol. Talvez o esporte imite a arte, como a arte imita a vida. Na vida nem sempre prevalece o justo e muitos são os atalhos para se tomar o certo por errado. Tem-se a impressão, aqui e acolá, que mais vale a destreza do advogado do que a verdade dos fatos ou a interpretação do juiz que o texto da lei. A lei, me ressinto em dizer, não serve à justiça. Serve, quando muito, à própria lei. Não. Não existe justiça no futebol. Se houvesse, algum tribunal desportivo daria, por unanimidade, a vitória ao Santa Cruz no Clássico das Multidões. O resultado final não valeria, porque não seria justo, nem verdadeiro. Ontem, o Santa Cruz pôs o rival sob seu jugo. Foi soberano. Saiu de um primeiro tempo equilibrado para um segundo absoluto. Sobrou em campo. Foi tamanha a superioridade que o empate serviu à torcida adversária como um título de copa do mundo. O Santa, apesar da empáfia do lado de lá, mandou no jogo. Tanto que abusou. No final da partida, eu gritava em vão para o time segurar a bola no ataque. Minha voz foi abafada pelos gritos de olé! Grita-se olé!, quando muito, numa goleada, onde não mais é possível dar chances ao azar. Em um clássico, tudo pode acontecer até o apito final. Cada jogo do passado está aí para provar. Dizia a Paulinho, segundos antes do lance capital, que só um milagre tiraria a vitória. O milagre nasceu de um tolo desejo de vingança dos que, em campo, engoliram calados, durante toda a semana, o outro lado cantar de galo. Deixaram, então, de fazer justiça para serem justiçados. Da vingança fez-se a soberba, que tombou castigada nos minutos finais. Eis a justiça no futebol. O pênalti não foi cometido por um só jogador, mas por todo o grupo. Começou no ataque com uma tentativa de drible desnecessária, passou por um vácuo na lateral direita até terminar na área, desmantelado no chão. O correto seria prender a bola e gastar o tempo. O tempo, ah!, o tempo, compositor de destinos e regente de movimentos precisos. Faltava uma réstia de momento, um triz de minuto. Que os segundos passassem com a bola em nossos pés. Na arquibancada, explodi impaciente e demorei a me acalmar. Não se pode contar com a vitória antes do fim. A soberba nos tirou a liderança e...

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Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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O corvo

O corvo

Versos baseados na tradução de Fernando Pessoa do poema O corvo do poeta e escritor americano Edgar Allan Poe. Numa noite sombria e inquieta, enquanto eu lia, lento e triste, As notícias do meu time, tantos pesadelos reais, E sem sono ou alegria, ouvi o que parecia, Alguém que à porta batia com pancadas tão brutais. “Mal agouro”, eu me disse, “Vá de retro, Satanás!”   E de fora a voz dizia: “Não saio daqui nunca mais.”   E o peso da ventania, em noite tão densa e fria, Deitou a porta abaixo e invadiu os meus umbrais. Roguei, pedi silêncio, um pouco de paz no aposento, Gritei, mergulhado em tormento: “Vá embora, Barrabás!” E um corvo preto e graúdo interrompeu meus rituais.   “Não saio daqui nunca mais.”   Um corvo preto e graúdo, ave de agouro e de luto, Pousou na minha varanda, enviando seus sinais. “Que merda é essa?!”, eu lhe disse, “Deixa logo de tolice, Volte por onde saíste, parta e não venha mais. Suma, desapareça, não mande carta ou postais!”   E o corvo repetia: “Não saio daqui nunca mais.”   “Sou o profeta das sombras e trago notícia ruim. Esse teu time chinfrim, não jogará bola mais. Será sempre essa mesmice, vence uma; noutras, vice, Viverá eterna crise, não levantará jamais.” Que corvo filho da puta, jogando pragas demais.   E repetiu insolente: “Não levanta nunca mais.”   “Não vou mais pra Série A?!”, perguntei muito assustado, É triste ficar fadado a competições locais. Revê essa tua vidência, encontra outra evidência, Que desfaça com urgência tuas previsões boçais.” E o corvo muito sério, sem gestos sentimentais:   “Não levanta nunca mais.”   “Não abandono o meu time, seja o que for que aconteça, A não ser que eu padeça de algumas doenças mentais.” “Pois antes que o dia amanheça”, disse o corvo infeliz, “Debaixo do meu nariz, confessarás muito mais. Não pisarás no Arruda, lá não voltarás jamais.”   E repetiu insistente: “Nunca mais.”   “Corvo agourento e maldito, ave má e traiçoeira, Covarde, vil e rasteira, volta pros canaviais! Nada que dizes aceito, um dia daremos jeito, Ouvirás os nossos feitos, seremos os maiorais! Foge, ave sinistra, voa pros teus umbrais!”   E o corvo respondeu: “Nunca mais.”   “Ouve bem tuas palavras”, disse-me a ave, enfim, “Estás mais perto do fim, que de glórias ancestrais. Em trinta anos, tu bem lembras,...

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