Expectativa

Expectativa

Estive sem motivação para ir ontem ao Arruda, mas cedi aos apelos de Artur Perrusi. Não seria possível a minha ausência em jogo tão decisivo, disse ele. Que eu fosse então por uma boa conversa, por nossa amizade e, suprema apelação, pelo caldinho do Bar do Bonitão. Não cria na vitória, faltava-me expectativa. No Santa de hoje, mais que futebol, falta vontade de vencer. Não há torcida que empurre um time sem coração, ainda mais eu, que não costumo despender a minha energia em vão. Expectativa. Mais cedo encontrei na fila de um caixa eletrônico um tricolor. Há, entre quem usa nossas cores, uma sensação aparente de que estamos todos no mesmo barco. Não é bem assim. Percebi rapidamente que estávamos em lados opostos no campo das ideias. Para ele, era preciso confiar; para mim, apenas torcer. Confiar é outro papo, requer algum grau de esperança baseada em retrospecto positivo, numa evolução visível. Confiança, justamente o que me falta. Se muito, persiste o insofrimento, porquanto a ansiedade é a expectativa da dúvida e o momento atual, infelizmente, não deixa margem a incertezas. A base, o passado recente representado por nossa campanha na Série C. O passado aponta para a frente e, para o futuro, a meteorologia prevê dias nublados e nuvens de chuva. No mais puro breu, não enxergo um palmo à frente do nariz, devo dizer. Apesar da falta de chutes a gol, depois de um bom primeiro tempo, o time desmoronou. Há quem enxergue culpa em Chicão, que, ensanguentado, agarrou o adversário pela camisa e esfregou sangue em sua cara. Talvez tenham razão. Faltou-lhe, é verdade, inteligência emocional, pois se outra fosse a sua reação, o Santa voltaria ao segundo tempo com vantagem numérica. Ainda sim, não vou queimá-lo em praça pública. É difícil não perder o controle diante de tamanha agressão. Aos nossos tranquilos torcedores, serenos, como o orvalho da noite e seguros, como uma rocha, mas que ocasionalmente costumam atacar a moral alheia com a agressividade de um cão, desafio a atirar a primeira pedra aquele que mantiver os nervos de aço em semelhante situação. Já arranquei com o carro sob a mira de um revólver, coisa, para mim, inimaginável até então. Nem tudo, caros leitores, é passível de racionalização. A culpa está em outra parte. Está na comissão técnica, que desmantelou o time no intervalo e durante todo o campeonato, e adentra o gabinete...

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O ópio do futebol

O ópio do futebol

Passou da hora de publicar um novo artigo, mas, mais de uma vez, não me animei a escrever coisa alguma. Revolvi aqui e acolá, saiu alguma coisa mequetrefe, porém, por sorte, depois de pronto, pingou um e outro artigos e retirei o meu, o mais desimportante. Demorei a escrever, fi-lo por dever de ofício, por falta de opção, já que, em circunstâncias como essa, pesa-me a obrigação de manter o blog atualizado, apesar dos pesares. Não sei o que me dá, talvez seja tudo, talvez não seja nada e nem mesmo tenha a ver com a situação atual do time na Série C. Não há abatimento, nem frustração, tampouco desesperança, pois o time bicampeão pernambucano nunca me deslumbrou e quando não há deslumbramento, pouco se espera e quase não se sofre. Sob o efeito peculiar dessa anestesia geral, resta-me a possibilidade do inefável cansaço — passageiro, espero eu. Também não descarto que começo a enxergar o futebol como um extraterrestre que, caso aqui chegasse, não compreenderia tamanho alvoroço em redor de uma bola. Igualmente, principia a ocupar-me a estranheza do sofrimento que causam onze marmanjos a preencher o campo de jogo, pois se não fosse o envoltório de pele de cobra coral que lhes cobrem os corpos durante as partidas, seria eu completamente à prova de dor. Assim, concluo que o que me prende ao time que se aventura nesta Série C é, e sempre foi, tão-somente a camisa, símbolo de identidade social. E já que comecei a escrever sem vontade, serei franco. Não tenho lá muito a virtude de esperar com calma o que tarda, nem tampouco me animo a apontar e a reapontar os erros desse time, da comissão técnica, do presidente. Creio até que os comentários dos nossos leitores tenham-me influenciado a ponto de não tolerar sequer ler ou ouvir o nome de Zé Teodoro e seus derivativos, apelidos denotativos de um sentido pejorativo. Em tudo há limites, menos aqui, neste canto do mundo, onde reina a censura áspera. Entediado, tornei-me intolerante à intolerância, assim como ao elogio fácil e desmedido, por isso, torço com grande fervor para que, seja lá qual o for o desfecho do Santa Cruz nesta Série C, Zé Teodoro vá para bem longe do Arruda. Quem sabe isso nos trará de volta um pouco da sanidade que perdemos. Aqui só se fala de futebol, bem sei, mas há outras vertentes desse...

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Sem rumo

Sem rumo

Adoeci no início da noite de domingo e me encontro ainda em convalescença, nada grave, uma virose que afetou a garganta, que contraí de meu filho pequeno e se alastrou por toda a família. Por isso, na segunda-feira de manhã, da minha janela observava as nuvens pesadas que ameaçavam desabar sobre o Arruda, apesar do dia de sol no resto da cidade. Com jeitão de sócio majoritário do Santa Cruz, Zé Teodoro, que havia declarado que daria um crédito de confiança à diretoria para quitar os salários atrasados dos jogadores (sic), surpreendeu-se com uma reunião para tratar de seu futuro. A falta de padrão de jogo, os resultados pífios e a insatisfação da torcida, tudo obrigava o pacato presidente coral a sair de sua zona de conforto para tratar da possível demissão do técnico. É bem verdade que em todas as entrevistas concedidas às emissoras de rádio locais, Antonio Luiz Neto negou categoricamente que sequer chegara a cogitar a saída do treinador, mas foram tantas as fontes dentro e fora do clube que confirmaram o teor da reunião, que é quase impossível acreditar no contrário. Todavia, o presidente goza da credibilidade de sua palavra, ainda que, neste caso, signifique uma enorme tolice administrativa confiar cegamente em um técnico que já não rende o esperado e compromete o futuro do clube na competição e o objetivo de chegar à Série A no ano do centenário. Seja como for, Zé Teodoro permanece até contra-ordem, que pode ocorrer logo ali, no próximo jogo, se não houver uma mudança radical de atitude e, obviamente, de resultados. Na versão que contraria a lógica oficial, Sandro teria sido convidado para assumir o time em lugar do técnico, mas recusou gentilmente a oferta e pediu nova oportunidade para Zé Teodoro, de quem é fiel escudeiro, apesar dos rumores de alguma insatisfação na armação do time. Alguns jogadores retornariam do Departamento Médico, o time se ajustaria em questão de tempo, tempo, aliás, cada vez mais escasso para uma volta por cima. A versão não-oficial, caso verdadeira, preocupa tanto ou mais que a permanência do treinador. Além de não ter a experiência necessária para tirar o time da crise — o Assistente Técnico tenta, pela primeira vez, novo passo em sua carreira profissional — é a opinião de Sandro, segundo Joaquim Bezerra, vice-Presidente e ex-Diretor Financeiro, em sua carta de afastamento, que prevalece sobre qualquer outro diretor, sob...

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Futebol de várzea

Futebol de várzea

Escrevo este artigo com a alma pura e o coração sereno. Não carrego comigo sinais de irritação corrosiva, sentimento de repugnância invencível ou elevação de um rancor profundo capaz de incitar as massas a queimar em praça pública técnico, jogadores e dirigentes, como se o TC fosse um tribunal da inquisição e julgasse homens acusados de praticar bruxarias ou cometer atos de heresia. Somos, felizmente, menos do que isso, insignificantes mesmo, e incapazes, bom que se diga, de alterar, minimamente que seja, os desígnios do nosso amado clube. Sou movido e motivado por minha percepção, minha vista cansada, meu coração tricolor. Portanto, peço perdão antecipado aos amigos corais que defendem o apoio incondicional, o aplauso envergonhado diante de um futebol sofrível, a mansidão política e a fé inabalável de que a sorte nos guiará, pois sou um humilde torcedor, com direito a chutar o pau da barraca, se me convier. Assim, começo a dizer, senhor das minhas faculdades mentais e do meu equilíbrio emocional, que foi um ato de bravura assistir ao jogo do Santa Cruz contra o Salgueiro. Considero esta partida, apesar de não haver o apelo da derrota, uma das dez piores da história do nosso clube. Foi ultrajante ver um time perdido em campo, sem espírito de luta, com baixa qualidade técnica, desarticulado, sem padrão de jogo, mal treinado e escalado. Foi desanimador assistir a um técnico perdido no banco de reservas a atender aos pedidos da torcida de substituição de jogadores, como forma de minimizar o seu processo de desgaste, a sua fritura numa assadeira gigante que vem lá da arquibancada. Bom conselheiro, sugiro aos torcedores que ao pedir a entrada de um, indiquem também a saída do outro, para evitar mal entendidos, pois, às vezes, a incompreensão do técnico – são tantas vozes simultâneas e atravessadas num estádio de futebol – pode piorar ainda mais o que já é ruim. Não acompanho os bastidores do clube, não procuro nem possuo informações privilegiadas, portanto, considero-me incapaz de julgar o grau de influência do atraso dos salários – fartamente divulgado na mídia esportiva – no rendimento dos jogadores. Esse efeito, certamente, deve ser subtraído da conta do treinador. Todavia, não tenho como descartar o peso da mão do técnico, a prima responsabilidade pelo desempenho da equipe, no futebol de várzea pouco convincente reiteradamente apresentado dentro ou fora do Arruda durante toda a competição. Raramente, vimos um...

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Síndrome do peru

Síndrome do peru

Síndrome do Peru foi um termo engraçado que eu encontrei para falar com atletas sobre ansiedade, antes de períodos competitivos. No entanto, não discorrerei sobre os sintomas e implicações deste mal em desportistas. Falarei sobre a “Síndrome do Peru” que há muito tempo vem acometendo a torcida do Santa Cruz, uma vez que ela sofre às vésperas dos jogos, durante os jogos e após os mesmos. O desgaste emocional é imenso, levando parte desta mesma torcida a enveredar para as agressões verbais às pessoas que protagonizam os motivos da agonia. Melhor, então, que frustrações, medos e angústias que levam à síndrome do peru possam ser enfrentados de uma maneira menos desgastante, do ponto de vista psicológico, senão vejamos: (a) Não adianta sofrer antes do jogo, pois se o time ganhar o sofrimento terá sido à toa e se perder, será em dose dupla; (b) não é recomendável sofrer durante o jogo já que a aflição da massa coral não vai mudar a face do resultado. Assim, se o time ganhar, mais uma vez, ter-se-á sofrido em vão; (c) não adianta sofrer depois do jogo imaginando qual a formação que será montada para perder a próxima partida (não é assim que acontece?); provavelmente os comandantes não se sensibilizarão com as preocupações dos apaixonados e continuarão a escalar o time à sua maneira, pois eles são os responsáveis por esta tarefa. Portanto, se na contenda seguinte o time vencer, apesar de todos os prognósticos contrários, pessoas terão adoecido sem necessidade. Salutar mesmo é economizar energia psíquica para só morrer no dia (se for o caso) e não na véspera, como acontece com o peru. Vocês podem até pensar que eu estou pregando o conformismo com a situação em que nos encontramos, mas é justamente o contrário. Estou tentando demonstrar que, apesar de toda incerteza que permeia o futebol do Santa, é preciso permanecer vivo e não sucumbir de véspera como a ave do Natal, pois os torcedores que patrocinam do clube das três cores, são os únicos que não fogem da raia diante dos maus resultados, mas não são ouvidos, absolutamente, em nada por parte da elite dirigente do Arruda. Embora do lado de cá existam inúmeros tricolores que desejam o melhor para a nação coral e ofereçam ideias e sugestões para ajudar são, literalmente, ignorados (aqui mesmo e em outros blogs corais proliferaram sugestões e ideias, inclusive, para gerar receita…...

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