Um dia de sábado pela manhã

Um dia de sábado pela manhã

Acordei. A mesma boa e velha ressaca que sempre me acompanha nas manhãs de sábado.  Pulo da cama e vou dar a cagadinha matinal. Durante o nobre ato, pego meu celular para a velha inspeção de blogs, sites e twitter para saber as notícias do Santa Cruz e ver a escalação para o jogo de 16h20minh. Depois de ler seletivamente o que me interessa, ainda com smartphone em mãos e sentado no trono, acesso o aplicativo oficial do Santa Cruz. Nele está a escalação, últimas notícias, conteúdos exclusivos, meu extrato de pagamentos das mensalidades de sócio e meu saldo de pontos no Santa Cruz Fidelidade. Quando conferi meu saldo, fiquei feliz pra cacete por ter pago minhas mensalidades em dia, comprado produtos oficiais e consumido muita cerveja no bar oficial do clube. Consegui assim juntar 50.000 pontos Santa Cruz Fidelidade, o que me garantiu um upgrade de categoria para Torcedor Coral Diamante e me permitiu trocar esses pontos por uma linda camisa alusiva ao fato. Que alegria da peste. Durante uma cagadinha matinal, descubro que sem gastar nada, sendo apenas fiel ao meu clube do coração, fui premiado com esse upgrade e posso trocar meus pontos por uma camisa. Tomo meu banho e meu telefone toca. É meu pai, perguntando o que sempre pergunta: “Mané, você vai pro jogo hoje meu filho? Estou pensando em ir, mas as sociais estão muito cheias e fico com medo de me sentir mal”. Imediatamente, resolvo o problema. No mesmo aplicativo oficial para Android e IOs, compro o ingresso de meu pai que, no mesmo segundo, recebe um SMS, confirmando que o ingresso foi creditado em sua carteirinha de sócio, com chip para dificultar clonagem. Ainda faço mais pelo aplicativo, uso 20.000 dos meus 50.000 pontos do programa Santa Cruz Fidelidade e, como num passe de mágica, eu e meu pai recebemos novamente um SMS, informando que meu ingresso agora tinha sofrido um upgrade para ingresso de cadeiras. Aperto resolvido por míseros 20.000 pontos. Mas eu mereço, afinal, o clube dá conforto a quem mais se fideliza e gasta com ele. Já estou pronto. Chinelo no pé, bermuda jeans surrada e vem a dúvida: Que camisa do Santa eu vou usar hoje pro jogo? A azul deu azar ano passado, a coral tá meio suja. A alusiva ao centenário já usei semana passada. A alusiva ao acesso à série B deixei na casa...

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Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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Onde vive a democracia

Onde vive a democracia

A imagem no canto superior direito do site indica que chegou o período de eleições no Santa Cruz e com ele, além do debate sadio e necessário, infelizmente, virá também a briga de foices entre as chapas e a discussão desqualificada em nossa seção de comentários. Não só de bons pensamentos e boas ideias vivem os homens, menos ainda os torcedores, mais sujeitos aos desenfreados arroubos que movem as paixões. Nem a filosofia ou a consciência moral e social foi capaz de nos livrar, ao longo da história humana, de instintos primitivos que geram violência, ainda que restrita ao universo das palavras. Não é demais lembrar que o verbo, inúmeras vezes, tem ação mais devastadora que a força do braço. Não é de hoje que reluto em escrever alguma coisa sobre o Santa Cruz. Essa falta de estímulo tem-se estendido além do normal e não dá sinais de refresco. Ainda mais quando percebo que, com raras e boas exceções, parte de nossos leitores, e os torcedores de uma maneira geral, não enxergam um palmo além das quatro linhas. Não que o futebol não seja importante, longe disso, refiro-me ao que está por trás e lhe dá sustentação. A nossa visão precisa ser mais ampla do que apenas a de vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola em busca de um gol. Por isso, desestimulado, considero inútil escrever sobre gestão, negócio, responsabilidades e impedimentos dos principais cargos diretivos do clube, processo eleitoral transparente, estatuto, Conselho Deliberativo, Comissão Patrimonial — essa coisa esdrúxula que divide o Santa Cruz em duas entidades distintas — ou ainda discutir o que é necessário fazer hoje para que possamos ser novamente grandiosos amanhã. A verdade, se querem saber, na maioria das vezes, somos iguais aos torcedores pés-de-rádio, que costumeiramente criticamos; a diferença é que utilizamos outra forma de comunicação para dizer as mesmíssimas coisas. A sensação de não ter vontade de escrever é estranha para mim, que vi alguns de nossos colaboradores legitimamente descerem do barco ou, no mínimo, perder temporariamente o estímulo. Desde que criei o blog, no final de 2006, nunca havia perdido o pique, o embalo, a disposição nessa magnitude. O que leio, ouço ou vejo não me tem atraído a atenção. Além do mais, odeio patrulhamento e o blog se transforma, a cada dia, numa bizarra caça às bruxas. Prefiro discutir ideias, exigir eleições imaculadas como regra básica da...

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Enquete

Enquete

Qual o seu voto para presidente do Santa Cruz? Joaquim Bezerra (51%, 139 Votos) Antônio Luiz Neto (39%, 107 Votos) Indecisos (5%, 13 Votos) Brancos e nulos (4%, 12 Votos) Total de votos: 271  Carregando...

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Expectativa

Expectativa

Estive sem motivação para ir ontem ao Arruda, mas cedi aos apelos de Artur Perrusi. Não seria possível a minha ausência em jogo tão decisivo, disse ele. Que eu fosse então por uma boa conversa, por nossa amizade e, suprema apelação, pelo caldinho do Bar do Bonitão. Não cria na vitória, faltava-me expectativa. No Santa de hoje, mais que futebol, falta vontade de vencer. Não há torcida que empurre um time sem coração, ainda mais eu, que não costumo despender a minha energia em vão. Expectativa. Mais cedo encontrei na fila de um caixa eletrônico um tricolor. Há, entre quem usa nossas cores, uma sensação aparente de que estamos todos no mesmo barco. Não é bem assim. Percebi rapidamente que estávamos em lados opostos no campo das ideias. Para ele, era preciso confiar; para mim, apenas torcer. Confiar é outro papo, requer algum grau de esperança baseada em retrospecto positivo, numa evolução visível. Confiança, justamente o que me falta. Se muito, persiste o insofrimento, porquanto a ansiedade é a expectativa da dúvida e o momento atual, infelizmente, não deixa margem a incertezas. A base, o passado recente representado por nossa campanha na Série C. O passado aponta para a frente e, para o futuro, a meteorologia prevê dias nublados e nuvens de chuva. No mais puro breu, não enxergo um palmo à frente do nariz, devo dizer. Apesar da falta de chutes a gol, depois de um bom primeiro tempo, o time desmoronou. Há quem enxergue culpa em Chicão, que, ensanguentado, agarrou o adversário pela camisa e esfregou sangue em sua cara. Talvez tenham razão. Faltou-lhe, é verdade, inteligência emocional, pois se outra fosse a sua reação, o Santa voltaria ao segundo tempo com vantagem numérica. Ainda sim, não vou queimá-lo em praça pública. É difícil não perder o controle diante de tamanha agressão. Aos nossos tranquilos torcedores, serenos, como o orvalho da noite e seguros, como uma rocha, mas que ocasionalmente costumam atacar a moral alheia com a agressividade de um cão, desafio a atirar a primeira pedra aquele que mantiver os nervos de aço em semelhante situação. Já arranquei com o carro sob a mira de um revólver, coisa, para mim, inimaginável até então. Nem tudo, caros leitores, é passível de racionalização. A culpa está em outra parte. Está na comissão técnica, que desmantelou o time no intervalo e durante todo o campeonato, e adentra o gabinete...

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