Entre o silêncio e a voz ativa

A decisão da Copa do Brasil, na última quarta-feira, ainda que não pareça, deixou a cidade abatida, sem viço e sem alegria. E esse sentimento veio, infelizmente, do lado de cá. Do nosso lado. Para muitos de nós, o sentimento surgido após esta decisão lembra, ainda que de longe, uma dor similar àquela sentida nos consecutivos rebaixamentos para as séries B e C nos últimos dois anos. Mas como explicar esse sentimento ruim, se o título não diz respeito ao nosso clube? A questão é que o título conquistado na semana passada fortaleceu um de nossos oponentes, daí a sensação de abatimento. Creiam-me, é ainda mais difícil reconhecer-se tão por baixo quando nossos adversários estão por cima. Enquanto um acaba de assegurar vaga na Libertadores do próximo ano e o outro faz uma boa campanha na Série A, nós convivemos, mais uma vez, com o medo de um novo rebaixamento. A distância que atualmente há entre nossos adversários e nós se apresenta como uma fratura exposta, que escancara a nossa nova condição. Tornamo-nos pequenos no cenário nacional e medianos em nosso próprio Estado. Mais ainda. Não há nenhum sinal, no céu ou na terra, que indique uma mudança de rumo. A tendência – que fique claro, tendências podem ser revertidas – é que essa distância aumente ainda mais, pois, por tudo o que vivemos na atual gestão, nosso medo da Série D não é infundado. Mas nosso maior problema está em outra questão. Nos últimos anos, a torcida tricolor se habituou à humilhação pública. A tristeza solitária contida no peito de cada um de nós, ao que parece, estancou o sangue que corre em nossas veias e nos transformou em seres resignados. Nem de longe parecemos herdeiros da tradição revolucionária pernambucana. Em nada lembramos os antepassados que construíram uma nova Roma de bravos guerreiros e fizeram desta terra imortal, imortal. Estamos vivendo o período mais tenebroso de nossa história e, ao invés de botarmos a boca no trombone e de maneira contundente exigir mudanças, melancolicamente nos resignamos. Tanto assim que menos de 200 votantes compareceram à Assembléia Geral Extraordinária convocada para decidir sobre o afastamento do presidente. Descrença no processo? Talvez. Mas esta não parece ser a única razão e nem mesmo a mais importante. Para mim, a resposta está no conformismo. Se não é assim, onde estão, por exemplo, os protestos, as passeatas e as pressões políticas da torcida tricolor...

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Em algum lugar do passado

Revista Placar Nº 490, de 09/1979 Não sou saudosista, mas respeito o nosso passado. Além do mais, convém às vezes entendê-lo para melhor se preparar para o futuro. Em 1979, o mundo estava em ebulição. A revolução iraniana transformou a monarquia autocrática pró-ocidente do país, um regime corrupto do xá Reza Pahlevi, em uma república teocrática islâmica, sob o comando do aiatolá Khomeini. No mesmo ano, Estados Unidos e China estabeleceram relações diplomáticas. O presidente do Paquistão, Zulfikar Ali Bhutto, foi executado, Idi Ami Dada foi deposto em Uganda e Margaret Tatcher tornou-se a dama de ferro na Inglaterra. Ainda na política, o presidente do Egito, Anwar Sadat, e o primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, assinaram um histórico acordo de paz entre as duas nações, enquanto unidades militares da antiga União Soviética tomavam a capital do Afeganistão e Mikhail Gorbachev era eleito para o Politiburo. Ainda em 1979, a sonda Voyager 1 passou por Júpiter e a Pioneer 11 se tornou a primeira espaçonave a visitar Saturno. A ESPN iniciou sua transmissão na TV, François Truffaut filmou Amor em Fuga e Madre Teresa de Calcutá recebeu o prêmio Nobel da paz. No Brasil, o sul do Mato Grosso se emancipou e tornou-se o Estado do Mato Grosso do Sul e o general João Baptista Figueiredo substituiu Ernesto Geisel no comando da ditadura militar estabelecida no país desde 1964. No mesmo ano, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB foi fundado e morreram o ator e diretor Procópio Ferreira, vítima de enfisema pulmonar e Santos Dias, ativista do movimento operário brasileiro, assassinado por um militar. O ano de 1979 também foi movimentado no futebol. O Internacional foi o vencedor do último campeonato organizado pela Confederação Brasileira de Desportos – CBD, desmembrada em CBF e outras entidades dedicadas aos demais esportes, por exigência da FIFA. Mas se no Brasil o Internacional do técnico Ênio Andrade era o campeão daquele ano, no Nordeste o Santa Cruz reinava absoluto. Éramos superiores dentro e fora das quatro linhas. Evaristo, o segundo maior salário da AL Já fomos um oásis no Nordeste, tivemos nossas finanças em ordem, pagávamos em dia e pagávamos muito bem. O ano de 1979 espelhava com fidedignidade a era de ouro do Santa Cruz. Apenas para se ter uma idéia, Evaristo de Macedo, técnico coral, recebia o segundo maior salário da América Latina, atrás apenas de César Luis Menotti, treinador da seleção...

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O legado político do Colegiado

Sylvio Ferreira Das últimas duas décadas para cá, estabeleceram-se duas linhas de força e ação política no Santa Cruz: aparentemente antagônicas entre si e procurando manter a máxima distância uma da outra, como se a peste houvesse acometido uma delas. Cada uma das linhas atribui à outra a razão de ser do débâcle do Clube após o Colegiado. O que tem feito com que as duas forças em jogo comumente se digladiem a céu aberto ou em qualquer recinto que se faça necessário. Uma das referidas forças é remanescente direta da época do Colegiado – e é capitaneada por um dos seus membros e ex-presidente do Clube. A outra força, surgida após o fim do Colegiado, também é capitaneada por um ex-presidente e emergiu no vácuo político aberto quando o Colegiado chegou ao seu término. Em tendo bastado a si mesmo, o Colegiado entregou o Clube à sua própria sorte ou ao deus dará. Por conta dos diversos títulos conquistados, o Colegiado ainda hoje consiste numa espécie de vaca sagrada dentro do Santa Cruz. Poucos são aqueles que a ele se referem sem deixar de exaltar o seu sucesso dentro dos gramados. E não é para menos! Da perspectiva futebolística, o Colegiado se constituiu na era de ouro do Santa Cruz. Contudo, sob o prisma político o Colegiado não passou de um sistema antidemocrático ao extremo. A sua criação, por exemplo, se fez inteiramente condizente com a “época de chumbo” característica do regime militar que governou o país por mais de duas décadas. Em conseqüência, enquanto o Santa Cruz se revelava praticamente imbatível dentro dos gramados, o Colegiado, a revelia da grande massa coral, fazia da prática política no Clube um jogo de cartas marcadas; apenas e tão-somente jogado entre os seus membros. Do mesmo modo que assim acontecia na cúpula do regime militar. Tal política antidemocrática posta em prática pelo Colegiado acabou alijando a massa coral da participação na vida política do Clube. E suas conseqüências ainda hoje se fazem sentir. Mas o Colegiado não obteve êxito apenas dentro dos gramados. O antigo “alçapão do Arruda”, como o estádio era conhecido, acabou sendo transformado num Colosso (graças ao “milagre econômico” que se deu à época do “Brasil – Ame-o ou deixe-o!”). Em grandessíssima parte, o Alçapão se transformou em Colosso devido aos cofres públicos. Para os que não sabem, houve uma época em que o Santa Cruz e...

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