Ao pé do rádio

Ao pé do rádio

Começo essas mal traçadas linhas reconhecendo que ouvir um jogo do Santa Cruz pelo rádio é uma grandíssima merda. A locução acelerada nos dá sempre a impressão que a partida transcorre em altíssima velocidade e contribui significativamente para causar distúrbios cardíacos. Se no estádio sempre mantenho uma tranquilidade budista, ao pé do rádio, morro de ansiedade e tenho constantes crises de taquicardia. Quando o locutor narra a jogada de maneira alucinante, fico com a impressão que o time adversário parte sempre com a bola, do goleiro ao atacante, na velocidade de um Fórmula 1. — Viu o pique que o atacante deu? — Não. Só ouvi o barulho do motor. Enquanto penso que a bola ronda perigosamente a área do meu time, lá atrás, o goleiro adversário ainda troca passes com o zagueiro. É a chamada ilusão auditiva, corolária da ilusão de ótica. É caso de ouvir para crer. Todo jogo decisivo, penso eu, deveria ser transmitido pelas emissoras de televisão. Haveria, em meu modo de ver, intervenção do Ministério da Saúde na programação da TV para minimizar os riscos de morte súbita no sofá. Afinal, a televisão é ou não concessão do Estado? — Interrompemos a nossa programação normal para transmitir o jogo entre Betim e Santa Cruz, de acordo com a Lei nº 5.860/2013 e Portaria nº 2536/2013 do Ministério da Saúde. Não morri neste domingo, porque não era dia de morrer. Ficava imaginando as bolas sobrevoando nossa área, o gol perdido por Siloé e a defesa milagrosa de Tiago Cardoso. — Corta essa porra! Atacante fela da puta! Ão, ão, ão, meu goleiro é paredão! Seja lá como for, com ou sem sofrimento, o fato é que vencemos. Um a zero, placar miudinho, aos dois minutos de jogo. Não teve pressão que tirasse a nossa vantagem. Vica, é bem verdade, criticou a atuação do time. Teria sido, segundo suas próprias palavras, o pior jogo sob o seu comando. Fico feliz com esse discernimento. Estava acostumado a ver o time jogar uma porcaria e ouvir o técnico tapar o sol com a peneira insistindo que tudo tinha sido uma beleza. Melhor assim. Autocrítica e bom senso não fazem mal a ninguém. Domingo largarei o rádio de mão, pois é dia de estádio lotado. Sessenta mil é pouco, se o Arruda não encolher. Serão sete anos decididos em um só jogo, o mais importante desde a nossa sequência...

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Passaporte

Passaporte

Ainda hoje tenho dificuldades em acreditar que aquele time de algumas rodadas atrás terminou a fase em primeiro lugar. Olho para trás com tristeza e para a frente com alegria. O responsável por essa nova atitude todos sabem, não preciso dizer. A emoção da arquibancada venceu a razão da diretoria, já dizia Artur Perrusi. Agora começa nova fase. Um reinício. Todo o esforço do clube nos últimos sete anos resume-se a duas partidas. Nosso destino não é a Série B, mas a saída da Terceira Divisão é o caminho necessário. Caímos por quatro anos consecutivos, em velocidade supersônica, e estamos voltando em doses homeopáticas. É como a corrida da lebre e da tartaruga, só que a primeira vai e a segunda vem. Para o Santa Cruz nada é fácil, estamos carecas de saber e cansados de repetir. Contudo, ainda estamos no buraco do futebol brasileiro. Não se sai daqui de salto alto, crente e abafando que já estamos lá. O Fortaleza de Vica sabe bem como é. O Santa Cruz de Vica não quer nem saber. O confronto não é de um time só. Do outro lado, eles também querem subir. Subestimar ou menosprezar o adversário é a coisa estúpida a fazer. Felizmente, este não é um defeito do Santa Cruz. Somos humildes até demais. Nunca estivemos tão perto de sair da Série C. Esta é a primeira vez que passamos de fase. Temos um grupo equilibrado, que hoje joga com raça e determinação. É preciso guardar na memória o último jogo da primeira fase, onde a acomodação com o resultado trouxe um castigo no final. O Santa precisa entrar em campo, contra o Betim, como quem tem fome de vencer e sede de chegar. É preciso ter humildade e sabedoria; força de vontade e garra. Futebol também ajuda. Time e torcida precisam tornar-se um só. A sinergia é fundamental. Está em jogo mais que uma partida de futebol. A classificação é o passaporte para sair da UTI. É a chance de acreditar que ainda temos um futuro. Que podemos fazer mais. Que podemos ser mais. É a oportunidade de mostrar que, apesar do esmagamento que o futebol brasileiro no impôs, com a conivência de administrações incapazes, ainda estamos vivos. Bem...

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Déjà Vu!

Déjà Vu!

Cheguei em casa atrasado por causa das crianças e perdi os primeiros vinte e cinco minutos do jogo. Considerando que ainda fui botar um na cama e organizar o outro para que não atrapalhasse a minha atrasada programação, o restante do primeiro tempo praticamente passou batido. O gol, ouvi ainda no rádio a caminho de casa. Elogios dos comentaristas, vitória bem encaminhada. Tudo corria bem, mas só me larguei no sofá pra valer no segundo tempo. Quando prestei atenção no jogo, percebi de imediato que havia algum problema técnico na transmissão. — Mulher, liga aí pra TV Brasil, que eles estão passando o jogo do Santa de 2011! Ela tinha mais o que fazer, então, liguei eu mesmo para a TV e reclamei do gato por lebre. Convicto do equívoco, jurava que cheguei a ver, meio de banda, a sombra de Zé Teodoro no banco de reservas. Um engraçadinho do outro lado da linha deu uma gaitada e bateu o telefone na minha cara. “Tem um cara passando trote pra cá!”, disse ele para alguém antes de desligar. Emputecido, liguei para a Anatel. — Sabia que trote dá cadeia? — respondeu uma voz enfezada. Sabia, mas e eu com isso?! Cinco minutos depois ligou um agente da Polícia Federal, do Departamento de Combate ao Trote. Expliquei tudo tintim por tintim, para evitar um inquérito policial. Em meio a crise de riso do agente, caí na real. — Que merda é essa?! — disse de mim para mim, depois de desligar o telefone com uma péssima sensação de Déjà Vu. O time jogava acuado, feito animal caçado, pregado na barra, como se houvesse onze goleiros e nenhum jogador de linha. Em pouco tempo, vi o CRB virar o jogo e surgir, não sei bem de onde, uma dor forte no estômago. Suei frio com medo de o passado mal-assombrado bater à minha porta. Não sou supersticioso, mas tratei de pregar uns ramalhetes de alho na porta e passei a noite dando pulinhos na sala e gritando desconjuros, além de beijar incessantemente o meu pé de coelho e fazer figa com os dedos das mãos. Por via das dúvidas, ainda rezei doze Ave, Maria! antes de dormir, mas passei mesmo a noite olhando para o nada, com cara de abobado. Já de manhã, li e reli que Sandro jurava de pés juntos que não mandou o time recuar e não sabe...

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Justiça, ora, a justiça!

Justiça, ora, a justiça!

Não existe justiça no futebol. Talvez o esporte imite a arte, como a arte imita a vida. Na vida nem sempre prevalece o justo e muitos são os atalhos para se tomar o certo por errado. Tem-se a impressão, aqui e acolá, que mais vale a destreza do advogado do que a verdade dos fatos ou a interpretação do juiz que o texto da lei. A lei, me ressinto em dizer, não serve à justiça. Serve, quando muito, à própria lei. Não. Não existe justiça no futebol. Se houvesse, algum tribunal desportivo daria, por unanimidade, a vitória ao Santa Cruz no Clássico das Multidões. O resultado final não valeria, porque não seria justo, nem verdadeiro. Ontem, o Santa Cruz pôs o rival sob seu jugo. Foi soberano. Saiu de um primeiro tempo equilibrado para um segundo absoluto. Sobrou em campo. Foi tamanha a superioridade que o empate serviu à torcida adversária como um título de copa do mundo. O Santa, apesar da empáfia do lado de lá, mandou no jogo. Tanto que abusou. No final da partida, eu gritava em vão para o time segurar a bola no ataque. Minha voz foi abafada pelos gritos de olé! Grita-se olé!, quando muito, numa goleada, onde não mais é possível dar chances ao azar. Em um clássico, tudo pode acontecer até o apito final. Cada jogo do passado está aí para provar. Dizia a Paulinho, segundos antes do lance capital, que só um milagre tiraria a vitória. O milagre nasceu de um tolo desejo de vingança dos que, em campo, engoliram calados, durante toda a semana, o outro lado cantar de galo. Deixaram, então, de fazer justiça para serem justiçados. Da vingança fez-se a soberba, que tombou castigada nos minutos finais. Eis a justiça no futebol. O pênalti não foi cometido por um só jogador, mas por todo o grupo. Começou no ataque com uma tentativa de drible desnecessária, passou por um vácuo na lateral direita até terminar na área, desmantelado no chão. O correto seria prender a bola e gastar o tempo. O tempo, ah!, o tempo, compositor de destinos e regente de movimentos precisos. Faltava uma réstia de momento, um triz de minuto. Que os segundos passassem com a bola em nossos pés. Na arquibancada, explodi impaciente e demorei a me acalmar. Não se pode contar com a vitória antes do fim. A soberba nos tirou a liderança e...

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Desconstrutivismo

Desconstrutivismo

  Ando lento para escrever ultimamente, por isso, tenho preferido ver, ler e ouvir. O último artigo que publiquei aqui completou aniversário de um mês no dia 04. Não lembro, sinceramente, de passar tanto tempo ausente. Dá nisso, quando a obrigação se impõe ao prazer. Além do mais, o nosso site tem atravessado problemas de estabilidade, gerado trabalhos adicionais, redobrado os esforços, que, apesar de bem-sucedidos, ainda vão longe de uma solução definitiva. No Santa Cruz, os primeiros frutos do trabalho de Martelotte começam a aparecer e a criar boas perspectivas para a Série C, apesar de alguns defeitos reparáveis. Incorrigíveis, apenas os privilégios de Dênis Marques, sua falta de profissionalismo e mesmo de educação, que o levam a se ausentar de treinos sem avisar diretamente ao seu chefe imediato e a criticar publicamente a atitude sensata do único homem no clube com coragem suficiente para botar o jogador em seu devido lugar. Esforço em vão, é verdade, dada a complacência irresponsável de diretores com atos de indisciplina, especialmente de Antônio Luiz Neto, que, ao passar a mão sobre a cabeça do jogador, desconstrói o trabalho do treinador. Fosse ou não a atitude do atacante justificável, o correto seria o seu contato diretamente com Martelotte. Ainda mais apropriado, depois da entrevista desastrada do jogador, seria que o técnico, mesmo com riscos de perder os jogos e o cargo, deixasse o atacante fora da partida de ontem e do clássico de domingo. Quem sabe assim, o presidente aprendesse, ainda que do modo mais duro, que é preciso ficar do lado de quem tenta moralizar o futebol no clube. Ontem estive no Arruda e gostei do que vi. O último time coral que saía da defesa para o ataque sem dar chutões, recordou bem Artur Perrusi, nosso dileto e letrado cronista, foi armado por Dado Cavalcanti. O rapaz, infelizmente, carecia de mais experiência para treinar um time de massa, além de esbarrar em Raimundo Queiroz, um dos piores diretores de futebol da história do clube. Mas o Santa de Martelotte aprende, dia-a-dia, a tocar a bola, a construir jogadas e a sair em velocidade. O meio, nosso ponto mais fraco na era Zé Teodoro, torna-se, enfim, nossa fortaleza. São evoluções apreciáveis que devem ser creditadas ao trabalho persistente do treinador. Claro, tenho minhas restrições e preferências, como Nininho na lateral, e não compreendo a injustificável ausência de Tavera dos gramados por...

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