Pelo Celular Nº 02

Pelo Celular Nº 02

Pelo Celular é a crônica eletrônica do Torcedor Coral sobre o Santa Cruz Futebol Clube.

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Pelo ralo

Pelo ralo

Estive afastado do mundo esportivo por algum tempo. De fato, ainda estou. Aos poucos, contudo, tento voltar, primeiro aqui, depois, quem sabe, para a arquibancada. As decepções com o ano do centenário e o aumento significativo da violência urbana, notadamente nas cercanias dos estádios em dias de futebol, provocaram o meu distanciamento. Por último, uma pequena e tranquila cirurgia na boca, mas de recuperação lenta e incômoda, foi a pá de cal. Soube da trágica notícia da morte de um torcedor no Arruda na manhã seguinte, em casa, ainda sonolento. Dormi o dia todo sob o efeito da anestesia e só à noite tomei pé de tudo. Um vaso sanitário foi arrancado e arremessado do Arruda e atingiu, de maneira fatal, um torcedor na Rua das Moças, após o jogo contra o Paraná, válido pela Série B do Campeonato Brasileiro de Futebol. Enterrado na cama por repouso absoluto, senti-me um pouco morto também. A fatalidade poderia ter acontecido a qualquer um de nós, tricolores, rubro-negros, alvirrubros, homens, mulheres e crianças de todas as cores, na saída do estádio. A violência gratuita me faz repensar as minhas prioridades. Até hoje não tive coragem de levar meus filhos para ver o Santa jogar e não há previsão para que isso aconteça. O que vejo no entorno do Arruda e bairros vizinhos após uma partida de futebol não me agrada, por isso, a segurança dos meus em primeiro lugar. A tragédia, ápice maior de uma série de equívocos no ano de centenário, colocou o Santa Cruz no epicentro da violência no futebol, meses antes do início da Copa do Mundo no Brasil. A notícia se espalhou veloz feito rastro de pólvora e correu o mundo. O Santa Cruz tornou-se o símbolo do futebol brasileiro pelo que de pior ele representa. Mais tarde se saberia que os suspeitos pertencem a principal torcida organizada do Santa Cruz, cujos representantes costumam sentar-se ao lado de Antônio Luiz Neto, presidente do clube, em entrevistas coletivas para apresentar jogador de futebol à imprensa. Dias atrás, saiu a sentença do STJD que condenou o Santa Cruz a jogar cinco partidas com portões fechados e a aplicação de multa no valor de R$ 60 mil. O Arruda, além disso, continuará interditado até segunda ordem. Saiu barato. A minha expectativa era de uma penalidade ainda mais dura, afinal, a insanidade de alguns tirou uma vida. O clube vai recorrer. Eu...

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Pérolas do dia seguinte

Pérolas do dia seguinte

Acabou a centésima edição do Campeonato Pernambucano, justo em nosso centésimo aniversário e estávamos em casa vendo os intrusos na festa. Bem, não adianta em nada lamentar o passado, quero apenas pontuar algumas coisas que observei e que merecem ser ditas no dia depois do fim. 1. O pior Pernambucano dos últimos muitos anos Em minha opinião, o campeão moral desse campeonato é o Salgueiro, que com regulamento correto teria eliminado seus dois adversários na fase final. A desculpa desse regulamento ridículo é que foi decidido democraticamente pelos integrantes do campeonato no conselho arbitral. Sou a favor da democracia, mas, são 9 pequenos contra 3 grandes (aliás, 10 pequenos já que a barbie votou a favor desse regulamento), sempre os pequenos serão maioria da votação. Imaginem se ano que vem colocam as seguintes propostas: Vitória de time pequeno contra grande vale 5 pontos Derrota de time pequeno para time grande ganha 3 pontos Se a maioria votasse a favor valeria? Não seria democrático? Nove contra três. Agora imagina se a Odebrecht / Governo do Estado participassem e propusessem: Quem jogar na Arena PE ganha um ponto extra de bônus Quem colocar mais de 25 mil na Arena ganha outro ponto extra de bônus Ironias a parte, vocês me entenderam não foi? 2. Vergonha de atitude O pior que vi esse campeonato não foi a falta do título, do futebol convincente, da garra, da raça. O pior de tudo é o motivo disso e as justificativas dadas. Motivo? Todos já sabem: ruindade. Desde o começo do ano, todos os tricolores, sejam em redes sociais, blogs, mesas de bar, sociais, geral e arquibancada sabiam que um time que tem jogadores do naipe de Oziel, Memo e Pingo não iria a lugar nenhum. O único jogador contratado que considero um reforço foi Gamalho. O resto pode mandar embora. Justificativas? Bem, em me sinto enojado e feito de otário com escuto pérolas tipo: “Nosso elenco tem qualidade!” – Provou. Tem tanta qualidade que foi quarto no estadual “Estamos buscando nomes no mercado.” – Só se for no Mercado da Madalena depois das 2 da manhã! “O problema do time é psicológico.” – Que psicólogo do mundo faz o time não tomar 12 gols em clássicos? Sendo 10 de bola cruzada “Temos que resgatar nosso maior patrimônio, a torcida!” – Essa merece um vá tomar no cú bem grande. Patrimônio tratado feito gado nos...

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O odor da covardia

O odor da covardia

A esperança tem cheiro de merda nas mãos dos covardes. Ela se impregna de tal maneira no corpo que é difícil se livrar do odor. Dizem que o técnico fedia tanto depois do jogo que ninguém conseguiu suportá-lo nos vestiários. Era uma fossa ambulante. A entrevista coletiva quase foi cancelada a pedido de repórteres e radialistas. “Algo aqui cheira muito mal!”, insinuou um deles, enquanto o bafo de merda saía da boca do treinador em forma de palavras à medida que ele considerava que o time jogara bem até o gol fatídico, apesar da estratégia cara de bunda, de abrir mão de jogar bola para garantir um mísero empate. Há boatos que o treinador, de tão nervoso e reconhecendo o próprio cheiro, mascava um chiclete durante a coletiva de imprensa, enquanto tentava inutilmente descontrair o ambiente. “Adivinhem o que eu tenho na boca?”, teria perguntado ingenuamente. “Minha cueca!”, responderia um repórter em meio à gargalhada geral. Sou adepto da sinceridade. Por isso, gostaria de ouvir perguntas mais objetivas e diretas na sala de entrevistas. — Você não acha que quem tem medo de cagar não come? — Se era para não jogar, por que essa tabaquice de treinar com portões fechados? — Como é que os jogadores ficaram cansados, se os titulares foram poupados no meio de semana pela Copa do Brasil? — Você sabia que a sua covardia foi algo sem precedentes na história do clube, pois nem um dos técnicos mais rejeitados pela torcida, conhecido como o rei da retranca, ousou recuar a esse nível? — Você não sabia que um time que joga para empatar sempre pede para apanhar? — Todo mundo viu que o seu time jogou uma bosta, menos você. O senhor tem algum problema de vista? O torcedor não tem vergonha da derrota. Sua indignação costuma se dar com a covardia, que corrompe a prudência, algo que te força a desistir antes mesmo de tentar. O treinador fez o que qualquer tricolor abomina: abdicou de jogar. Pôs o time em campo para ser massacrado e humilhou sua torcida diante de um tradicional adversário. Só um tolo desconhece o efeito da água sobre a pedra e que a covardia é sempre castigada no final. O castigo do time foi merecido e o técnico, depois de uma sequência inesquecível de embaraçosos resultados adversos contra o mesmo adversário, já não é palatável ao gosto da torcida...

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Primavera entre os dentes

Primavera entre os dentes

Desde a primeira derrota para o Sport nesta temporada que não piso no Arruda. Mais que isso, fiquei absolutamente alheio ao Santa Cruz. As conversas, os símbolos e as cores já não me seduziam como antes. Menos ainda o desejo de ir a campo, assistir a um jogo e torcer por uma vitória. O Santa Cruz — não é fácil admitir — já não movia tanto os meus passos. Já não associava o domingo aos jogos do meu time, nem acompanhava as partidas pelo rádio ou televisão ou torcia fervorosamente pelas vitórias que longe levam nossos sonhos corais. No Arruda, fez-se inverno. Nunca fui torcedor de resultados e sempre estive com o Santa nos bons e maus momentos, por isso, pode parecer estranho tão visível apatia. Esta indolência formou-se, contudo, na oscilação do time, na falta de perspectivas de mudança a curto e médio prazos, no risco de fracasso no ano do centenário, no retrocesso. Consolidou-se, por fim, na série de derrotas para o Sport nesta temporada. Não se pode ganhar todas, é verdade, mas é preciso ter brio sempre. Há na apatia uma forma indireta de discordância, como uma oposição passiva; no silêncio, um meio de recusa, quando a resignação é quase uma revolta. A omissão, em certas circunstâncias, apontam que algo se quebrou. No caso do Santa Cruz, a queda na média de público no Arruda era proporcional ao desencontro no futebol. O protesto silencioso das arquibancadas escancarou, assim, tremenda insatisfação. O Santa Cruz de ontem reencontrou seu futebol. Jogou com dignidade, superou a adversidade do retrospecto recente e deu sinais de que por aí pode vir bom tempo. O público ainda não foi bom, mas já deu sinais de que a torcida quer se reencontrar com seu time. Também aguardo ansioso esse reencontro. Basta o time mostrar que para sair desse inverno é preciso segurar a primavera entre os dentes. Primavera nos dentes Secos e Molhados Quem tem consciência para ter coragem Quem tem a força de saber que existe E no centro da própria engrenagem Inventa a contra-mola que resiste   Quem não vacila mesmo derrotado Quem já perdido nunca desespera E envolto em tempestade, decepado Entre os dentes segura a...

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