O corvo

O corvo

Versos baseados na tradução de Fernando Pessoa do poema O corvo do poeta e escritor americano Edgar Allan Poe. Numa noite sombria e inquieta, enquanto eu lia, lento e triste, As notícias do meu time, tantos pesadelos reais, E sem sono ou alegria, ouvi o que parecia, Alguém que à porta batia com pancadas tão brutais. “Mal agouro”, eu me disse, “Vá de retro, Satanás!”   E de fora a voz dizia: “Não saio daqui nunca mais.”   E o peso da ventania, em noite tão densa e fria, Deitou a porta abaixo e invadiu os meus umbrais. Roguei, pedi silêncio, um pouco de paz no aposento, Gritei, mergulhado em tormento: “Vá embora, Barrabás!” E um corvo preto e graúdo interrompeu meus rituais.   “Não saio daqui nunca mais.”   Um corvo preto e graúdo, ave de agouro e de luto, Pousou na minha varanda, enviando seus sinais. “Que merda é essa?!”, eu lhe disse, “Deixa logo de tolice, Volte por onde saíste, parta e não venha mais. Suma, desapareça, não mande carta ou postais!”   E o corvo repetia: “Não saio daqui nunca mais.”   “Sou o profeta das sombras e trago notícia ruim. Esse teu time chinfrim, não jogará bola mais. Será sempre essa mesmice, vence uma; noutras, vice, Viverá eterna crise, não levantará jamais.” Que corvo filho da puta, jogando pragas demais.   E repetiu insolente: “Não levanta nunca mais.”   “Não vou mais pra Série A?!”, perguntei muito assustado, É triste ficar fadado a competições locais. Revê essa tua vidência, encontra outra evidência, Que desfaça com urgência tuas previsões boçais.” E o corvo muito sério, sem gestos sentimentais:   “Não levanta nunca mais.”   “Não abandono o meu time, seja o que for que aconteça, A não ser que eu padeça de algumas doenças mentais.” “Pois antes que o dia amanheça”, disse o corvo infeliz, “Debaixo do meu nariz, confessarás muito mais. Não pisarás no Arruda, lá não voltarás jamais.”   E repetiu insistente: “Nunca mais.”   “Corvo agourento e maldito, ave má e traiçoeira, Covarde, vil e rasteira, volta pros canaviais! Nada que dizes aceito, um dia daremos jeito, Ouvirás os nossos feitos, seremos os maiorais! Foge, ave sinistra, voa pros teus umbrais!”   E o corvo respondeu: “Nunca mais.”   “Ouve bem tuas palavras”, disse-me a ave, enfim, “Estás mais perto do fim, que de glórias ancestrais. Em trinta anos, tu bem lembras,...

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Encantamento

Encantamento

… E o que esperar de um time chamado Santa Cruz? Tudo para nós é doído, sangrado, sofrido, como parto atravessado. E por isso nossa alegria é dobrada. E nosso coração usa colete à prova de balas. O silêncio do gol sofrido na hora do empate antecede o abraço no minuto final e o nó que nos trava a garganta desata uma tempestade de lágrimas depois do gol e nada mais importa, que não seja este momento. Nem a qualidade do time, nem a trajetória da equipe ou as falhas do juiz, o cosmo se resume a este encantamento: De vinte mil pessoas com o coração descompassado e joelhos ao chão. E nada...

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Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar do jogo do Santa Cruz na Série C do Campeonato Brasileiro de 2012. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e convidados e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Não tenho esperança ou desespero, fé ou descrença. Esse time é o que é, independentemente da minha gastrite. No passado, sonhava com o Santa e caía da cama; hoje não sofro mais. Não acredito na vitória, mas torço por ela, porque torcer é preciso, sofrer não é preciso. Placar: Santa Cruz 1 x 0 Luverdense Paulo Aguiar Não darei meu palpite, mas sim o meu pedido: Ganhe o jogo, Santa Cruz. Do jeito que for. O importante é ganhar. Afinal, o time tem que crescer na hora certa. Se levar um gol do adversário que faça dois em troca! Placar: Santa Cruz 2 x 1 Luverdense Nó Cego Hoje é dia de saber se no Santa Cruz existem homens que honram as calças que vestem ou se lá tem só frouxura! O time terá coragem ou jogará como se fosse um molho de coentro ou um prato de papa? Placar: Santa Cruz 1 x 0 Luverdense Murilo Lins Estou um tanto quanto decepcionado com a campanha do Santa Cruz nesta série C, mas, ao mesmo tempo, procuro criar uma aura de ilusão atrelada ao fato de que o clube já se superou várias vezes em situações semelhantes. Desta forma, ao invés de entregar os pontos, prefiro acreditar numa vitória surpreendente do nosso time para mantermos a velha escrita que tudo para nós vem sempre com muito sofrimento. Energia positiva e muita esperança de que no final tudo acabe bem. Placar: Santa Cruz 3 x 0 Luverdense Bosquímano Voltei, como o boêmio da canção, pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria. Quando eu saí tínhamos acabado de cantar parabéns pra a cachorrinha Lessie de peruca. Já que a última impressão é a que fica, e aquele dia foi d felicidade, cravo sem medo de errar Placar: Santa Cruz 6 x 0...

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Expectativa

Expectativa

Estive sem motivação para ir ontem ao Arruda, mas cedi aos apelos de Artur Perrusi. Não seria possível a minha ausência em jogo tão decisivo, disse ele. Que eu fosse então por uma boa conversa, por nossa amizade e, suprema apelação, pelo caldinho do Bar do Bonitão. Não cria na vitória, faltava-me expectativa. No Santa de hoje, mais que futebol, falta vontade de vencer. Não há torcida que empurre um time sem coração, ainda mais eu, que não costumo despender a minha energia em vão. Expectativa. Mais cedo encontrei na fila de um caixa eletrônico um tricolor. Há, entre quem usa nossas cores, uma sensação aparente de que estamos todos no mesmo barco. Não é bem assim. Percebi rapidamente que estávamos em lados opostos no campo das ideias. Para ele, era preciso confiar; para mim, apenas torcer. Confiar é outro papo, requer algum grau de esperança baseada em retrospecto positivo, numa evolução visível. Confiança, justamente o que me falta. Se muito, persiste o insofrimento, porquanto a ansiedade é a expectativa da dúvida e o momento atual, infelizmente, não deixa margem a incertezas. A base, o passado recente representado por nossa campanha na Série C. O passado aponta para a frente e, para o futuro, a meteorologia prevê dias nublados e nuvens de chuva. No mais puro breu, não enxergo um palmo à frente do nariz, devo dizer. Apesar da falta de chutes a gol, depois de um bom primeiro tempo, o time desmoronou. Há quem enxergue culpa em Chicão, que, ensanguentado, agarrou o adversário pela camisa e esfregou sangue em sua cara. Talvez tenham razão. Faltou-lhe, é verdade, inteligência emocional, pois se outra fosse a sua reação, o Santa voltaria ao segundo tempo com vantagem numérica. Ainda sim, não vou queimá-lo em praça pública. É difícil não perder o controle diante de tamanha agressão. Aos nossos tranquilos torcedores, serenos, como o orvalho da noite e seguros, como uma rocha, mas que ocasionalmente costumam atacar a moral alheia com a agressividade de um cão, desafio a atirar a primeira pedra aquele que mantiver os nervos de aço em semelhante situação. Já arranquei com o carro sob a mira de um revólver, coisa, para mim, inimaginável até então. Nem tudo, caros leitores, é passível de racionalização. A culpa está em outra parte. Está na comissão técnica, que desmantelou o time no intervalo e durante todo o campeonato, e adentra o gabinete...

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Futebol de várzea

Futebol de várzea

Escrevo este artigo com a alma pura e o coração sereno. Não carrego comigo sinais de irritação corrosiva, sentimento de repugnância invencível ou elevação de um rancor profundo capaz de incitar as massas a queimar em praça pública técnico, jogadores e dirigentes, como se o TC fosse um tribunal da inquisição e julgasse homens acusados de praticar bruxarias ou cometer atos de heresia. Somos, felizmente, menos do que isso, insignificantes mesmo, e incapazes, bom que se diga, de alterar, minimamente que seja, os desígnios do nosso amado clube. Sou movido e motivado por minha percepção, minha vista cansada, meu coração tricolor. Portanto, peço perdão antecipado aos amigos corais que defendem o apoio incondicional, o aplauso envergonhado diante de um futebol sofrível, a mansidão política e a fé inabalável de que a sorte nos guiará, pois sou um humilde torcedor, com direito a chutar o pau da barraca, se me convier. Assim, começo a dizer, senhor das minhas faculdades mentais e do meu equilíbrio emocional, que foi um ato de bravura assistir ao jogo do Santa Cruz contra o Salgueiro. Considero esta partida, apesar de não haver o apelo da derrota, uma das dez piores da história do nosso clube. Foi ultrajante ver um time perdido em campo, sem espírito de luta, com baixa qualidade técnica, desarticulado, sem padrão de jogo, mal treinado e escalado. Foi desanimador assistir a um técnico perdido no banco de reservas a atender aos pedidos da torcida de substituição de jogadores, como forma de minimizar o seu processo de desgaste, a sua fritura numa assadeira gigante que vem lá da arquibancada. Bom conselheiro, sugiro aos torcedores que ao pedir a entrada de um, indiquem também a saída do outro, para evitar mal entendidos, pois, às vezes, a incompreensão do técnico – são tantas vozes simultâneas e atravessadas num estádio de futebol – pode piorar ainda mais o que já é ruim. Não acompanho os bastidores do clube, não procuro nem possuo informações privilegiadas, portanto, considero-me incapaz de julgar o grau de influência do atraso dos salários – fartamente divulgado na mídia esportiva – no rendimento dos jogadores. Esse efeito, certamente, deve ser subtraído da conta do treinador. Todavia, não tenho como descartar o peso da mão do técnico, a prima responsabilidade pelo desempenho da equipe, no futebol de várzea pouco convincente reiteradamente apresentado dentro ou fora do Arruda durante toda a competição. Raramente, vimos um...

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