Tarde demais?

Tarde demais?

Diria que é tarde demais, infelizmente. Dependemos de uma mudança radical no time. Como fazê-la? Qual é a probabilidade disso acontecer? Um milagre? Sei, sei, o Santinha gosta de feitos extraordinários, mas não acredito — se quiserem acreditar nas ocorrências sobrenaturais, caros tricolores, longe de mim criticá-los; afinal, existem duendes, gnomos e, principalmente, fadas gostosas, tipo Sininho. (Sininho era uma fadinha inocente que fez um filminho meio… bem…er… deixa pra lá) Imagino, nesse momento, a diretoria dizendo que somos “emocionais”. Claro, nossos dirigentes são os “racionais”. Seria uma racionalidade curiosa, bem misteriosa nos seus desígnios. Diante das ações de nossos cartolas, o adivinho de Zeus, Tirésias, ficaria estupefato: “carai, diria ele, numa linguagem erudita, não consigo adivinhar porra nenhuma!” E, de fato, o Santinha é uma caixa-preta randômica absoluta (C-PRA). Os processos decisórios são estranhos e nebulosos. Os adivinhos de todas as mitologias guardam distância do Arruda. Alegam que é impossível, por exemplo, adivinhar as razões das contratações de jogadores. É estranho demais, disse um pajé dos ianomâmis, falando baixinho para Tininho, nosso futuro presidente, não escutar. Mas confesso que esperava uma vitória. Achava que o time jogaria como naquela partida contra o Treze. Era o suficiente para alcançar um resultado positivo. Essa vitória era decisiva. Ganhando, mesmo jogando de forma atabalhoada, Vica teria mais tranquilidade para treinar a equipe. Confiança é importante. Não se compra, conquista-se. Empatar com o CRB dentro do Arruda só gera frustrações. Saí apático do jogo. Bebi dois copos de cerveja. Parecia Obelix comendo apenas dois javalis. Estava doente. Dimas estava pior: só queria frituras! Quando o Editor-Mor empanturra-se de batatas fritas, algo se quebrou, algo está se quebrando. Provavelmente, estamos antecipando o luto por mais um ano na C. Um “C”entenário (um sarcasmo de Paulinho Aguiar)… Rapaz, que vergonha! Comemorar o quê? O passado? Como garantir as glórias passadas com um presente calamitoso e um futuro cheio de premonições trágicas? Nessa pegada, no centenário, haverá uma epidemia de tricolores deprimidos. Penso num canto hassídico, buscando uma consolação: “seria preciso chegar muito fundo no poço para ter forças e subir novamente” (algo do gênero). Mas não chegamos já no fundo desse maldito poço?! Nosso martírio é uma condenação bíblica. Qual foi nosso pecado? Desconsolado, acuso a família Lins. É bode, cordeiro, linguíça, frango a passarinho, costelinha de porco, coração de boi, é o escambau — pecado alimentar, portanto. E Ducaldo, com aquela compulsão por caldinhos? Qual foi o teu...

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The quenguers

The quenguers

Sou um “quenguer” ou, pelo menos, faço parte dessa gangue. Seria um termo anglo-saxão que significa: “o tricolor que está puto e não aguenta vexame e humilhação, e que jura que não vai mais ao jogo, nem a pau, não vai pra essa porra nem a porra, etc e tal, e finda indo ao… jogo”. Tecnicamente, sofre de ato falho, tem falha de caráter, uma dependência mórbida, uma fixação passional, e por aí vai. Sim, sou um quenguer. E somos legião, o que é muito doido, cá entre nós. Depois do segundo gol do esquadrão do Baraúnas, eu me mandei do estádio. Não quis nem saber. Não fui o único, podem ter a certeza. Foi a massa coral inteira. Aliás, um espetáculo fúnebre, ver aquela masssa silenciosa e cabisbaixa saindo do Arruda. Felipe mesmo, o irmão falante de Dimas, já no intervalo do primeiro tempo, estava enfurecido. Foi mijar naqueles banheiros nauseabundos, pegou o beco e findou foi mijando no banheiro de casa. Eu saí chutando lata e dizendo que não voltava ao Arruda, enquanto SB estivesse no cargo. No domingo, era um juramento sagrado. Peguei até uma faca e fiz um risco de sangue no pulso. E jurei com sangue: nem morto! Não vou, não vou, e priu! Na segunda, era uma promessa; terça, ainda resmungava e notava que o risco já cicatrizara, não dando nem pra notar — o sangue parecia ketchup; na quarta, estava meio apático, sem saber o que fazer. Não tinha vontade de ir ao jogo. Ou tinha?! Não sei… Só sei que estava sorumbático e alheado do mundo. Foi então que recebi um telefonema. Era Dimas. _Vai ao jogo? _Jogo? Você não disse que não ia mais? _Pois vou… Dimas é um “raipariguer”, uma facção radical dos quenguers. Diante do desafio, era-me impossível não aceitá-lo. Sim, vou ao jogo. Por motivos insondáveis, fiquei feliz feito pinto na merda. Já ficara com o baile que a Coisa tinha levado dos coelhos. Era só sorriso, embora nutrisse a esperança de que Dedé fosse escalado no time. Mas o fato, aquela alegria toda, chamou a atenção de minha mulher, uma anarquista da Barbie. _Vai ao jogo, amoreco? No equilíbrio conjugal, “amoreco” é uma expressão bem irônica, do tipo “ah, é?”. Não tente, caro amigo, pois só as mulheres têm a arte de dizer “amoreco” com ironia. _Vou, sim! E enchi o peito de orgulho. Aliás, não...

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Sandro pode dar certo?

Sandro pode dar certo?

Quando converso com os amigos, sempre defendo a tese de que o Santinha é incompreensível. Digo que mesmo Tirésias, o adivinho cego da antiga Grécia, teria um colapso profético, se tentasse predizer o futuro de nosso clube. E olhe que Tirésias era um protegido de Zeus, possuindo o dom da adivinhação. Imaginem, então, um mortal comum tentando pressagiar o que acontece no Santinha — acho-o inescrutável. Dimas mesmo, depois da quinta garrafa, diz que vê vultos e vozes, mas é incapaz de perscrutar como seria o dia de amanhã no Mais Querido. Seria imprevisível, randômico, aleatório, errático, inesperado demais. Até a teoria do Caos não dá conta do Clube do Santo Nome. O Efeito Borboleta não funciona no caso de uma cobra coral. E o coeficiente de Lyapunov é mil vezes maior do que 01 — não sei o que significa, mas sei que é muito grave. Não há verdade no Arruda. A ilusão é a única realidade e a certeza, a grande impostora. Em suma, o Santinha estaria além da capacidade de compreensão dos zerumanos. Por isso, talvez, os tricolores enlouqueçam quando se tornam dirigentes do clube. Há algo lá, talvez medonho, bem lovecraftiano, que deixa todo mundo doido de pedra. Naquela piscina, sim, naquela piscina tem algum monstro tentacular com poderes telepáticos. Muitos foram os que se banharam naquelas águas turvas e despirocaram — há boatos de que Edinho, o demente, tomava banho ali nos dias de Lua cheia. Não consigo pensar naquela piscina sem estremecer com as possíveis criaturas que, neste exato momento, esfregam-se e se espojam no leito lamacento. Estremeço ao imaginar que tais seres arrastam para o fundo, com seus tentáculos fétidos, tricolores endoidecidos pelo pandemônio universal do nosso clube. O Arruda seria um lugar de horrores, eis o meu medo — o reino da insensatez. E digo que só alguns — muito poucos, apenas os escolhidos — seriam capazes de contar o que há nos subterrâneos do Arruda (não sabiam? O Arruda tem cavernas, rios e lagos secretos; ah, sim, tem catacumbas, lotadas de beneméritos). Porque, caros amigos, o que os dirigentes fazem no Santinha não pode ser catalogado propriamente como burrice, e sim como, parece-me notório, a mais completa loucura. Claro, a loucura pode dar certo. E tem dado algum resultado. É incrível, mas é veraz. O tricampeonato está aí para comprovar a tese de que gestos tresloucados podem trazer conquistas. Afinal,...

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Justiça, ora, a justiça!

Justiça, ora, a justiça!

Não existe justiça no futebol. Talvez o esporte imite a arte, como a arte imita a vida. Na vida nem sempre prevalece o justo e muitos são os atalhos para se tomar o certo por errado. Tem-se a impressão, aqui e acolá, que mais vale a destreza do advogado do que a verdade dos fatos ou a interpretação do juiz que o texto da lei. A lei, me ressinto em dizer, não serve à justiça. Serve, quando muito, à própria lei. Não. Não existe justiça no futebol. Se houvesse, algum tribunal desportivo daria, por unanimidade, a vitória ao Santa Cruz no Clássico das Multidões. O resultado final não valeria, porque não seria justo, nem verdadeiro. Ontem, o Santa Cruz pôs o rival sob seu jugo. Foi soberano. Saiu de um primeiro tempo equilibrado para um segundo absoluto. Sobrou em campo. Foi tamanha a superioridade que o empate serviu à torcida adversária como um título de copa do mundo. O Santa, apesar da empáfia do lado de lá, mandou no jogo. Tanto que abusou. No final da partida, eu gritava em vão para o time segurar a bola no ataque. Minha voz foi abafada pelos gritos de olé! Grita-se olé!, quando muito, numa goleada, onde não mais é possível dar chances ao azar. Em um clássico, tudo pode acontecer até o apito final. Cada jogo do passado está aí para provar. Dizia a Paulinho, segundos antes do lance capital, que só um milagre tiraria a vitória. O milagre nasceu de um tolo desejo de vingança dos que, em campo, engoliram calados, durante toda a semana, o outro lado cantar de galo. Deixaram, então, de fazer justiça para serem justiçados. Da vingança fez-se a soberba, que tombou castigada nos minutos finais. Eis a justiça no futebol. O pênalti não foi cometido por um só jogador, mas por todo o grupo. Começou no ataque com uma tentativa de drible desnecessária, passou por um vácuo na lateral direita até terminar na área, desmantelado no chão. O correto seria prender a bola e gastar o tempo. O tempo, ah!, o tempo, compositor de destinos e regente de movimentos precisos. Faltava uma réstia de momento, um triz de minuto. Que os segundos passassem com a bola em nossos pés. Na arquibancada, explodi impaciente e demorei a me acalmar. Não se pode contar com a vitória antes do fim. A soberba nos tirou a liderança e...

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Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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