Santa Forte é o Santa do Povão

Santa Forte é o Santa do Povão

Não tem quem não fale do Santa Cruz e não cite sua torcida. Pode ser um desses poucos casos em que a criatura superou o criador. Historicamente, nossa torcida é maior que o nosso clube. Poucas torcidas no Brasil têm similaridades com a torcida coral, não apenas pelo seu tamanho ou condição social.

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Pelo ralo

Pelo ralo

Estive afastado do mundo esportivo por algum tempo. De fato, ainda estou. Aos poucos, contudo, tento voltar, primeiro aqui, depois, quem sabe, para a arquibancada. As decepções com o ano do centenário e o aumento significativo da violência urbana, notadamente nas cercanias dos estádios em dias de futebol, provocaram o meu distanciamento. Por último, uma pequena e tranquila cirurgia na boca, mas de recuperação lenta e incômoda, foi a pá de cal. Soube da trágica notícia da morte de um torcedor no Arruda na manhã seguinte, em casa, ainda sonolento. Dormi o dia todo sob o efeito da anestesia e só à noite tomei pé de tudo. Um vaso sanitário foi arrancado e arremessado do Arruda e atingiu, de maneira fatal, um torcedor na Rua das Moças, após o jogo contra o Paraná, válido pela Série B do Campeonato Brasileiro de Futebol. Enterrado na cama por repouso absoluto, senti-me um pouco morto também. A fatalidade poderia ter acontecido a qualquer um de nós, tricolores, rubro-negros, alvirrubros, homens, mulheres e crianças de todas as cores, na saída do estádio. A violência gratuita me faz repensar as minhas prioridades. Até hoje não tive coragem de levar meus filhos para ver o Santa jogar e não há previsão para que isso aconteça. O que vejo no entorno do Arruda e bairros vizinhos após uma partida de futebol não me agrada, por isso, a segurança dos meus em primeiro lugar. A tragédia, ápice maior de uma série de equívocos no ano de centenário, colocou o Santa Cruz no epicentro da violência no futebol, meses antes do início da Copa do Mundo no Brasil. A notícia se espalhou veloz feito rastro de pólvora e correu o mundo. O Santa Cruz tornou-se o símbolo do futebol brasileiro pelo que de pior ele representa. Mais tarde se saberia que os suspeitos pertencem a principal torcida organizada do Santa Cruz, cujos representantes costumam sentar-se ao lado de Antônio Luiz Neto, presidente do clube, em entrevistas coletivas para apresentar jogador de futebol à imprensa. Dias atrás, saiu a sentença do STJD que condenou o Santa Cruz a jogar cinco partidas com portões fechados e a aplicação de multa no valor de R$ 60 mil. O Arruda, além disso, continuará interditado até segunda ordem. Saiu barato. A minha expectativa era de uma penalidade ainda mais dura, afinal, a insanidade de alguns tirou uma vida. O clube vai recorrer. Eu...

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De quem é a culpa?

De quem é a culpa?

Para escrever esse texto, tiro a camisa do Santa Cruz e visto a de cidadão e torcedor apaixonado por futebol que está com muito medo de tudo isso. Várias vezes, em roda de amigos, brincando sobre desculpas que já escutamos e demos pra faltar trabalho, eu sempre falava que tinha sido atingido por uma privada caída do céu. Pois é, isso também pode acontecer. Óbvio que eu não conhecia o cidadão que foi brutalmente assassinado no Arruda, mas parece que era amigo meu, ante o impacto disso em mim. E, buscando achar culpado, eu descobri alguns, como mostro a seguir: A culpa é do Santa Cruz? Sim. Completamente. Um clube, que não fornece os mínimos requisitos de segurança ao seu torcedor, tem que ser culpado, sim. Você entraria num avião, sabendo que o mesmo não possui os itens obrigatórios de segurança? Tudo bem que o Arruda é um estádio antigo e antiquado, mas abrir a boca pra dizer que têm 16 câmeras de segurança num estádio daquele tamanho? Eu conheço pai de família, amigo meu, que tem 6 câmeras ocultas dentro de casa, só pra ver se a babá não está fazendo nada com seu filho. Onde estavam os seguranças pra ver o banheiro e o trajeto, donde foi carregado um objeto de 15 quilos e quase um metro de tamanho, até a parte mais alta da arquibancada? Vai culpar Jesus Tricolor de novo? Vai limitar as ações a emitir uma nota oficial de repúdio e pesar? O Arruda merece ser interditado, SIM. E pelo tempo que seja provado que possui câmeras que monitorem e protejam sua grandeza e NOSSA segurança. O Santa merece ser punido, SIM, pela sua negligência com um tema tão recorrente como esse, e, na minha modesta opinião, a punição de dois jogos foi de graça. Na boa, pegamos três jogos por uma briga (que o clube também não recorreu da decisão por motivos que todos já imaginam); por uma morte, a punição deveria ser 30 jogos. Acho que o presidente do Náutico (que de Barbie não tem porra nenhuma, foi muito macho) deveria dar uma palestra ao Santa e ao Sport sobre como lidar com essa corja. O Santa é culpado, mas o Santa vira quase um inocente, pois… … a culpa é do poder público. Quando falo poder público é um termo pra resumir Polícia, Legislativo, Executivo e FPF. Não permitir a marcação...

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De profecias e humilhação

De profecias e humilhação

Nas minhas crenças, todo tricolor é profeta. Somos videntes, adivinhadores do futuro. Pregamos no deserto. Há aqueles que comem gafanhotos, repetindo tradições imemoriais. Gafanhotos, principalmente na manteiga, dão esperança, dizem os haríolos. Já Dimas, sempre procurando a diferença, prefere cogumelos. E chega ao deserto de bicicleta, como é agora moda no Recife, com colante bem apertado no corpo e capacete psicodélico. _Tem cogumelo no deserto? Pergunto. _É cogumelo que nasce da bosta do boi. Responde, muito sério, nosso Editor-Mor _E tem boi no deserto? Sem boi, tem bosta? Dimas fica silencioso. Parece entrar em transe. Recita um mantra inaudível. _Quando não tem boi, logo, quando não tem bosta, como mandacaru. _Aaah… e dá barato? _Dá náuseas. _Aaah… Como sempre, a lógica dimástica é irreparável. – Sou profeta woodstock, diz com bravura. E passa a defender, com solilóquios, Mujica e Montevidéu. Infelizmente, entendo pouco ou quase nada de sua argumentação, mas admiro sua retórica, ainda mais empanturrada de cogumelos ou mandacarus místicos. Bem, confesso que inseto, cogumelo e mandacaru me dão azia, por isso levo ao deserto biscoitos Cream Cracker (integral, vale dizer) ou bolachas de Água & Sal da Marilan. Em matéria de profecia, sou da tradição asceta e, como tal, um chato de galocha, o que seria contradição suprema, pois não chove no deserto. Comendo biscoitos ou bolachas, sou profeta do Apocalipse. A dieta define a profecia, caros amigos. E os profetas mais pessimistas são aqueles que vivem de bolachas. Não causa surpresa que minhas profecias são abomináveis e, nesse sentido, extremamente chatas. Santana Moura, por exemplo, tem calafrios quando me escuta. Ela me respeita como profeta. _Tuas sobrancelhas são grossas. Diz a sábia do TC. _Qual é a relação disso com profecias? Indago. _Não sei… E elas estão ficando brancas. Santana Moura tergiversa. Sabe das minhas profecias. Tem medo. Previ (inclusive, coloquei aqui no blog) que seríamos desclassificados da Copa Nordeste. Antevi que perderíamos o tetra. Pressagiei que um réptil nos tirará da Copa do Brasil. E, enfim, vaticinei que voltaríamos à série C. Tive a última profecia depois de comer uma bolacha estragada. É de lascar, essa profecia. Verga a alma de qualquer tricolor. Na realidade, é insuportável. Para afugentá-la de meu espírito, como doces e tento engordar. Gordura e adivinhações não combinam. Não existem profetas gordos, já anunciara o Manuscrito Apócrifo de Samid — texto proibido pelo Cânone. É tabu. Está escrito que um primo...

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Alívio

Alívio

Queria escrever uma crônica que representasse este momento. Que fosse capaz de traduzir sentimentos, descrever alívios e transformar imagens, sons e emoções em palavras. Queria ter a capacidade de narrar o que domingo vi e ouvi na mesma intensidade em que senti e explicar que as lágrimas que agora caem não são de tristeza, mas de alegria. Lágrimas que não cessam, enquanto desabafo a minha humanidade e despejo todo o sofrimento com os anos de penúria, que ainda não se foram, mas os vindouros certamente nos possibilitarão torcer com um pouquinho mais de dignidade, pois desejar um calendário que ocupe um time o ano inteiro não é pedir demais. Queria botar para fora o medo que senti, lá na pior fase de vacas magras da nossa centenária história, que o Santa Cruz, profetizado que viveria eternamente, poderia um dia se acabar. Gostaria de arrancar as maldades do nosso futebol que, com o poder da grana, egoísta e centralizado, decide impiedosamente quem sobreviverá. Queria muito abraçar a todos os tricolores, homens, mulheres e crianças, milhões de heróis da resistência, que nos trouxeram de volta do fundo do poço e fizeram renascer um clube centenário. Reconhecer também a desportividade de outros torcedores, de tantos outros times, de todos os cantos deste país, que viram em nossa torcida o verdadeiro amor incondicional. Queria gritar bem alto: “eu voltei dos mortos!”, porque agora me sinto bem vivo, ainda que saiba que o abismo entre nós e nossos adversários persistirá por quanto tempo eu não sei. Andei cansado, andei. Tanto que meu corpo ainda dói. É a dor de quem agora descansa e que, por muito tempo, carregou peso demais sobre os ombros. É a dor tardia de quem, por seis longos anos, esteve febril. Que em nosso centenário, enfim, se inicie a...

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