Sylvio Ferreira

Desde o momento da queda do Santa Cruz para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, o atual presidente do Clube se tornou objeto de verdadeiro ódio por parte da torcida coral. De lá para cá, outra coisa ele não tem feito a não ser aumentar contra si o referido sentimento. Há um imenso barril de pólvora prestes a explodir nas Repúblicas Independentes do Arruda. É só uma questão de tempo.  Não é preciso ser vidente para prever os acontecimentos.

Para tanto, será decisivo o desempenho do Santa Cruz na Série C. Em obtendo êxito, o barril de pólvora explodirá em dezembro. Caso contrário, a explosão ocorrerá tão logo o Clube seja alijado da próxima competição. Nos dois casos, muito certamente a explosão se dará de diferentes formas. Oxalá que a mesma aconteça pelo poder e a força das urnas, daqui a seis meses. Assim acontecendo a democracia se edificará em solo apropriado.

Contudo, nada assegura que assim acontecerá. Em termos políticos, o Santa Cruz virou um campo minado de altíssimo risco. E as minas plantadas no Clube (frutos da arrogância, prepotência, descalabro administrativo, desrespeito as normas estatutárias e à instituição coral) não explodirão no colo da torcida; afetando-o ainda mais do que já a afetou.

No momento oportuno, o feitiço haverá de voltar-se contra o feiticeiro, na forma de uma revolta jamais vista na história do Clube. Para quem não sabe, o ódio é um sentimento que não basta a si mesmo. Nesse sentido, ele é menos um fim e mais um meio para expressão de algo maior do que ele próprio e que somente se realiza mediante o exercício da fúria.

Por sua vez, a fúria explode quando o poder da força se sobrepõe ao poder do sentido. Essa é a derradeira tentativa, movida pelo desespero, de chamar o feito à ordem; por parte de quem se sente vilipendiado nos seus direitos de torcedor ou associado, ultrajado nas suas prerrogativas estatutárias e frustrado nos seus sonhos e esperanças quanto ao objeto que se constitui no maior orgulho e na razão de ser de milhões de vidas: o Santa Cruz.

Mas o ódio dirigido ao atual Presidente do Executivo, embora seja por demais compreensível, traz no seu bojo uma faceta perversa para a formação de uma consciência política que é preciso ser banida do Santa Cruz - refiro-me à má consciência que acaba por privilegiar mais os atores políticos em cena do que colocar sob rigoroso exame e criteriosa análise o modelo político e de gestão presentes na vida do Clube, para além dos atores específicos responsáveis pela atual crise que o Clube atravessa.

É sabido que a atual crise tem nome e sobrenome (em realidade, ela possui mais de um nome e sobrenome; já que envolve tutores e tutelados), mas ater-se aos mesmos em nada adiantará para a construção de um Novo Santa Cruz. Para que tal construção seja possível, a efervescência dos sentimentos precisa ceder lugar à análise fria da problemática política em questão. E o grande desafio político do Santa Cruz, volto a insistir, é de caráter político-institucional.

Da perspectiva política, o Santa Cruz ainda se encontra à época da República Velha, anteriormente à Revolução de 30. Por exemplo, os núcleos de força política dentro do Clube lutam pela afirmação e supremacia de si mesmos e não da instituição coral. Em busca do exercício do poder pelo poder, eles confrontam a torcida e o quadro de sócios; promovem eleições viciadas e fraudulentas; transformam o processo sucessório num exercício de pantomima política; estabelecem relações de amizade, parentesco, prestígio, poder, dinheiro e compadrio, como condição para a escolha do presidente do Clube (sem mencionar outras condições de caráter escuso a que recorrem). Num jogo político dessa ordem, não é difícil a democracia ser subjugada pela tirania.

É sobre esse modelo político retrógrado que devemos convergir nossas atenções e juntar todas as nossas forças para derrotá-lo e destruí-lo; banindo-o, de uma vez para sempre, da vida do Clube. O desafio que nos aguarda - e que já se encontra em curso - é de uma ordem de grandeza tamanha que reduzi-lo à dimensão de um sentimento de ódio em nada removerá o Clube do buraco negro institucional em que se encontra. Em dezembro, o Santa Cruz precisará dar um salto político de mais de sete décadas. O que representará o fim das oligarquias, dos desmandos políticos, e, em especial, da República Velha no Arruda.

Não obstante o fato de que o referido ódio personificado possa ser compreendido ou se justifique, não creio que uma ação política de caráter eficaz deva ser balizada pelos sentimentos: já que tão ruim quanto odiar excessivamente alguém é vir a amar quem quer que seja em demasia. A rejeição e o ódio poderão ceder lugar, num outro momento, ao amor e ao endeusamento. Estará aberto, então, o caminho para a entrada em cena de mais um salvador da pátria ou messias de meia tigela. E assim a tragédia política não chegará ao seu termo.

Tanto num caso quanto no outro, quer seja no amor incondicional ou no ódio desmedido, estaremos apenas dando evasão tão apenas aos nossos sentimentos. Tal prática, que é de natureza muito mais psicológica do que de caráter propriamente político, jamais conseguirá instituir no Clube a política institucional que o Santa Cruz tanto necessita; de natureza e caráter impessoal. Para além dos atores políticos e específicos em cena. E para além do amor e do ódio que tende a nos dominar em situações de crise. No embate político presentemente travado, substituir a frieza de análise que a razão política exige pelo puro jorro da emoção incontida é legitimar o triunfo do fracasso.