A decisão da Copa do Brasil, na última quarta-feira, ainda que não pareça, deixou a cidade abatida, sem viço e sem alegria. E esse sentimento veio, infelizmente, do lado de cá. Do nosso lado.

Para muitos de nós, o sentimento surgido após esta decisão lembra, ainda que de longe, uma dor similar àquela sentida nos consecutivos rebaixamentos para as séries B e C nos últimos dois anos. Mas como explicar esse sentimento ruim, se o título não diz respeito ao nosso clube?

A questão é que o título conquistado na semana passada fortaleceu um de nossos oponentes, daí a sensação de abatimento. Creiam-me, é ainda mais difícil reconhecer-se tão por baixo quando nossos adversários estão por cima. Enquanto um acaba de assegurar vaga na Libertadores do próximo ano e o outro faz uma boa campanha na Série A, nós convivemos, mais uma vez, com o medo de um novo rebaixamento.

A distância que atualmente há entre nossos adversários e nós se apresenta como uma fratura exposta, que escancara a nossa nova condição. Tornamo-nos pequenos no cenário nacional e medianos em nosso próprio Estado. Mais ainda. Não há nenhum sinal, no céu ou na terra, que indique uma mudança de rumo. A tendência - que fique claro, tendências podem ser revertidas - é que essa distância aumente ainda mais, pois, por tudo o que vivemos na atual gestão, nosso medo da Série D não é infundado.

Mas nosso maior problema está em outra questão. Nos últimos anos, a torcida tricolor se habituou à humilhação pública. A tristeza solitária contida no peito de cada um de nós, ao que parece, estancou o sangue que corre em nossas veias e nos transformou em seres resignados. Nem de longe parecemos herdeiros da tradição revolucionária pernambucana. Em nada lembramos os antepassados que construíram uma nova Roma de bravos guerreiros e fizeram desta terra imortal, imortal.

Estamos vivendo o período mais tenebroso de nossa história e, ao invés de botarmos a boca no trombone e de maneira contundente exigir mudanças, melancolicamente nos resignamos. Tanto assim que menos de 200 votantes compareceram à Assembléia Geral Extraordinária convocada para decidir sobre o afastamento do presidente. Descrença no processo? Talvez. Mas esta não parece ser a única razão e nem mesmo a mais importante. Para mim, a resposta está no conformismo. Se não é assim, onde estão, por exemplo, os protestos, as passeatas e as pressões políticas da torcida tricolor contra a pior gestão da história do clube? Por qual motivo assistimos calados à destruição de um clube de quase cem anos? Nossa passividade é assombrosa e contribui decisivamente para o enfraquecimento do Santa Cruz, pois não haverá mudanças, se não lutarmos por mudanças. Nada vem de graça.

Não há mais razão para tanta quietude. Não encontro no silêncio da torcida o caminho para a nossa reconstrução moral. Não encontro no silêncio o caminho para a reconstrução financeira, patrimonial e administrativa do Santa Cruz. Não encontro no silêncio resposta à formação de um verdadeiro time de futebol, capaz de recuperar o prestígio perdido a partir do início da década de 80. O silêncio é a aceitação tácita do conformismo. Nada mais. É preciso ter voz ativa e buscar a transformação do clube. É preciso acreditar que podemos, de fato, transformar o sectarismo que reina no Santa Cruz numa verdadeira democracia de tricolores, para tricolores e por tricolores.

Nossa luta não é apenas pelas vitórias dentro do campo. Nossa luta, mais do que nunca, é também pela vigilância efetiva dos gestores do clube. É preciso compreender o estado de coisas que estão destruindo o Santa Cruz. Nosso campo de batalha mudou e nossos maiores adversários não estão lá fora, mas dentro de casa. Nossa batalha é política e a nossa luta é contra gente de nossa gente, de sangue vermelho, branco e preto. Somos nós, e apenas nós torcedores, os únicos capazes de transformar o Santa Cruz. Mas, como disse antes, não haverá mudanças sem a vontade de mudar, nem a disposição para lutar. Nossa luta, amigos tricolores, é, em primeiro lugar, contra o fim da nossa existência e, depois, pelo direito a um novo começo. Um recomeço mais promissor, assim espero.

E onde está a chave para as mudanças de que precisamos? A resposta é simples: ela está no campo político. Por isso, mais do que nunca, é necessário se concentrar nas próximas eleições. Que comecem imediatamente as articulações políticas e que se discutam publicamente os caminhos para a retomada do crescimento do Santa Cruz.

A lição aprendida na última eleição é muito valiosa para a próxima.

Proponho a união em torno do clube. Não aquela união medíocre e desesperada entre todas as correntes e forças políticas. Além de hipócrita, ela também é nociva, pois, no curto prazo, esta união até poderá trazer algum benefício, mas certamente nos afastará por muito mais tempo dos caminhos que levam às verdadeiras mudanças. Além do mais, uma aliança desse porte indubitavelmente se baseará em concessões pessoais que manterão o Santa Cruz no fundo do poço. Essas concessões não podem e não devem ser mais aceitas pela torcida coral.

Fazer política não é se juntar com qualquer um. Não se mistura água e óleo, nem o sol pode viver perto da lua. O que proponho é a união de iguais ou, ao menos, de pensamentos semelhantes. Que se juntem do mesmo lado todos aqueles que querem modernizar o Santa Cruz e que rejeitam as práticas arcaicas entranhadas em cada sala do nosso clube. Que se expurguem dessa aliança os atrasados de pensamento, os predadores e todos aqueles que mantêm seus interesses pessoais acima do Santa Cruz. O futebol mudou e, para sobrevivermos, também precisamos mudar.

Também é necessário politizar nossa torcida e envolvê-la nas discussões relevantes. Vamos debater a política do clube entre nós. Deixemos de lado a politicagem miúda de alguns para dar lugar a um debate sério. Se quisermos mudar alguma coisa, é preciso que cada torcedor desça do muro e tome um partido. O melhor partido. E só a percepção dos nossos erros no passado e o debate político no presente serão capazes de mostrar quem é quem no jogo eleitoral.

Vamos discutir as eleições desde já. Vamos dizer, como sócios e torcedores, o que esperamos dos candidatos. Façamos um manifesto com todas as mudanças que consideramos indispensáveis. Que os candidatos mostrem a cara e se comprometam, de papel lavrado em cartório, com a torcida coral.

Estamos com os brios feridos. E, se é assim, usemos então este sentimento em nosso favor. Deixemos de lado a passividade, pois, mais do que nunca, chegou a hora de nossa torcida ter voz ativa. Afinal, queremos ou não o nosso clube de volta?