Tamanha é a diversidade da fauna coral neste processo eleitoral que, se Aristóteles conhecesse o Santa Cruz quando filosofou que o homem é um animal político, certamente associaria nosso clube a um zoológico. Quase não é crível a quantidade de grupos ou facções que disputarão espaço e poder nas próximas eleições. Embora muitos desses grupos tenham similaridades de pensamentos, até o momento não há sinais de união política entre eles, em torno de um objetivo comum.

Dois desses grupos já apresentaram candidatos à presidência do Santa Cruz. O primeiro candidato lançado foi Romerito Jatobá, ex-presidente tricolor responsável pela ascensão do time à Série A, em 2005, e pela queda à Série B, no ano seguinte. Apesar de levar o clube à primeira divisão do futebol brasileiro, o torcedor coral não guarda uma boa imagem de sua administração. Eu também não. Pesam contra ele um modelo ultrapassado de gestão que agravou ainda mais a situação financeira do clube e críticas relacionadas, principalmente, à falta de transparência, como no caso da divulgação da lista dos sócios aptos a votar, apenas às vésperas da eleição.

O segundo candidato é Fernando Veloso, remanescente da Confraria Ninho da Cobra, aquela mesma que lançou o diminutivo à presidência do Santa Cruz. Como grande parte dos integrantes da confraria, Veloso, de aliado, tornou-se adversário político do atual presidente. Ninguém pode censurá-lo por isso, afinal, quem não gostaria de ver longe o presidente coral mais sem noção da história? Conta a favor de Veloso sua participação ativa na campanha para afastar Édson Nogueira. Além disso, não recai sobre os seus ombros o fardo de ter sido presidente do Santa, como ocorre com Jatobá. Pode-se apenas especular a sua administração, caso seja eleito, a partir da sua aparição na mídia ou de sua participação em movimentos políticos em torno do clube. Nada mais que isso.

Os grupos que dão sustentação a Romerito Jatobá e a Fernando Veloso, ao que parece, pertencem a mundos distintos e pensam a política do clube também de forma diferente. Eles têm, a princípio, visões diametralmente opostas, o que tornam, portanto, seus pontos de vista inconciliáveis. Mas o lançamento das chapas de Jatobá e Veloso aproximou, ao menos num ponto, esses dois grupos antagônicos: o velho hábito de lançar candidatos completamente desatrelados de um programa de gestão, que, por sua vez, deveria estar amparado em um amplo debate com a torcida coral. Mantém-se, desta forma, o reprovável modus operandi de se fazer política no clube tão-somente baseada em nomes.

Personalizar um processo eleitoral mantém vivo o risco da personificação do mal, que consiste em concentrar todo o poder na figura do presidente do clube, tal qual ocorre na atual gestão. Não há garantias, nesta forma de constituição de uma chapa que, após as eleições, as decisões sejam compartilhadas com os órgãos constituídos. Também não há garantias que indiquem que os sócios tenham voz ativa dentro do clube. A única possibilidade de minimizar os riscos de uma imperialização do cargo de presidente é o comprometimento dos candidatos com um programa de gestão amplamente discutido e aprovado pela torcida coral.

Pessoalmente, não vejo surpresa no modo como foi divulgada a candidatura de Jatobá. Os torcedores mais antenados à política do clube, de fato, não esperavam outra coisa. Por isso, minha crítica não recai sobre ele, mas apenas sobre a outra ponta, da qual eu tinha outro nível de expectativa.

Não quero dizer aqui que Fernando Veloso, bem como os demais integrantes de sua chapa, não tem legitimidade para se lançar candidato. Este não é o ponto. A questão é que se esperava bem mais deste grupo de oposição. Esperava-se, por exemplo, que todos os integrantes da chapa tivessem sido consultados sobre a indicação de seus nomes que, ao que parece, não aconteceu. Esperava-se, por exemplo, que partisse deles a iniciativa de aglutinar os diversos grupos com posições semelhantes em torno de um objetivo comum.

Por isso, volto a bater na mesma tecla. É necessário um amplo debate político, alicerçado em programas de gestão, para legitimar uma candidatura minimamente viável. Qualquer outro caminho não terá acolhimento na torcida tricolor.

Em nada disso acontecendo, talvez, só mesmo a revolta dos bichos corais acabe de vez com esse zoológico político.