Édson Bonifácio Gomes, 25 anos atrás
Autor : Paulo Aguiar | 18 de dezembro de 2008 | 5:14h | História | 18 comentários

Santa Cruz, supercampeão de 1983
Édson é um nome de história no futebol. Édson é nome de craque. Quem não se lembra de Édson Arantes do Nascimento?
O Santa Cruz também teve um Édson que fez história. Sendo que o Édson do Mais Querido nunca foi craque. Mas não precisou ser para ter seu nome lembrado na história do Santa Cruz Futebol Clube.
Édson Bonifácio Gomes, ou simplesmente Gomes, era o típico zagueiro xerife! Raçudo e dono de uma bomba no pé direito. Ainda jovem, conseguiu a façanha de ser campeão brasileiro, em 1978, pelo Guarani Futebol Clube, do então técnico Carlos Alberto Silva. Sem dúvida, um título memorável, mas que acabou não sendo o maior de todos. Nem para ele, nem para mim.
Quis o destino que cinco anos depois, em 1983, Carlos Alberto Silva e Gomes estivessem juntos novamente. Desta vez, no maior título alcançado pelo Santa Cruz Futebol Clube. Para levantar a taça de campeão pernambucano, o Santa teria que ultrapassar cinco obstáculos consecutivos, sem direito a uma única derrota. E foi o que aconteceu.
A história começa em uma quarta-feira, dia 30 de novembro de 1983. Eu estava naquela noite fria em Caruaru, no acanhado Estádio Pedro Victor de Albuquerque (hoje, Estádio Luiz Lacerda). Decisão da 2ª fase do 3º turno. O adversário do Santa Cruz vinha de um tricampeonato pernambucano e, como seu estádio estava interditado, resolveu chamar a partida para Caruaru. Durante o campeonato, este embate já tinha ocorrido sete vezes, com quatro empates e três vitórias para o nosso lado. No entanto, apesar do esmagador retrospecto, estávamos em desvantagem no campeonato. Apenas a vitória nos interessava porque tínhamos perdido o 1º turno, o 2º turno e a primeira fase do 3º turno. Precisávamos ganhar para provocar um supercampeonato com os tradicionais rivais, já que cada um havia ganho um turno.
Adiantando a história, o resultado final foi que invadimos Caruaru e vencemos por 1 x 0 com um gol de Henágio da entrada da área. Com esta vitória o Santa Cruz deu o primeiro passo para a conquista de mais um supercampeonato.
O segundo passo ocorreu no dia 18 de dezembro de 1983. O palco, desta feita, era a nossa casa, o Estádio José do Rego Maciel. Eu era um dos 76.636 pagantes que presenciaram uma das mais emocionantes decisões de campeonato já ocorrida.
Após um triangular equilibradíssimo (três empates nos três clássicos disputados), chegávamos à decisão em um jogo extra contra o Náutico. O Náutico de Mirandinha, Baiano, Ivan. O Santa de Luís Neto, Ricardo Rocha, Zé do Carmo, Henágio, Gomes…
Nesta grande final, saímos na frente com um gol de Gabriel (que mal toca na bola antes dela entrar) ainda no primeiro tempo. Sinal de que a vitória seria fácil, já que estávamos embalados no campeonato. Mas, no finalzinho do jogo, dois fatos mudaram completamente o rumo da decisão: aos 42 minutos, Mirandinha faz o gol de empate do Náutico e Gabriel, do Santa, foi expulso.
O jogo, então, terminava 1 x 1, com a decisão indo para uma prorrogação de 30 minutos. Caso permanecesse o empate a decisão só sairia nas penalidades máximas.
O Santa com um homem a menos e com o time todo capenga: Zé do Carmo já tinha saído machucado; Ricardo Rocha, idem, foi para o meio-de-campo; Marco Antonio assumiu a lateral direita. Durante os intermináveis 30 minutos da prorrogação, dois jogadores se destacaram: Luís Neto e Gomes. O primeiro fazia defesas incríveis, quando o segundo conseguia ser superado pelo ataque alvirrubro.
Depois de muito sufoco, enfim, o Santa conseguiu segurar a pressão do Náutico e levar a decisão para as cobranças de penalidades. Começava, então, mais um sofrimento.
Após o sorteio, coube ao Náutico iniciar a cobrança dos tiros livres diretos. Baiano, o craque do time, converteu a primeira penalidade. Furquim, o zagueiro, perde para o Santa. Em seguida, Mirandinha, autor do gol no tempo normal, bateu e Luís Neto defendeu o penal deixando tudo igual no placar. Depois, sucederam-se várias cobranças com cada jogador convertendo a sua, até que, na quarta cobrança tricolor, Marco Antônio chuta em cima do goleiro Cantarelli. Restava, então, ao Náutico, fazer sua última cobrança e ficar com o título. Coube ao zagueiro Ivan – que anos depois seria bicampeão pelo Santa – a responsabilidade da batida. O zagueiro correu e… Chutou para fora! O Santa ainda estava vivo. Django, com incrível categoria, faz o gol do Santa, deixando tudo igual nas cobranças: 3 x 3.
A partir de então, dá-se início as chamadas cobranças alternadas. Após duas cobranças com sucesso para cada time, vem o lance decisivo da partida. Porto, zagueiro do Náutico, chuta no meio da barra e Luís Neto, em um reflexo incrível, segura a bola em cima da linha de gol (seria a famosa “mão de Deus”?). Esta defesa causou uma tremenda confusão, pois os jogadores do Náutico – que estavam no meio-de-campo – afirmavam que a bola tinha entrado. A torcida alvirrubra, com medo de perder o título, começava a invadir o campo. O juiz resolveu paralisar as cobranças e conversar com o bandeirinha. Clima de indecisão no arruda. O jogo fica parado mais de 50 minutos. Depois de muita discussão, empurra-empurra, o juiz dá o reinício das cobranças. Concluiu que a bola não tinha ultrapassado a linha de meta.
Pronto. Agora, restava a última cobrança. Se o Santa fizesse o gol, acabaria o jogo e festejaria o título. Adivinha a quem coube a responsabilidade desta cobrança? – Acertou quem disse Gomes! O zagueirão raçudo soltou sua bomba no canto direito de Cantarelli que pulou para o outro lado. Bola na rede. Festa do povão. A torcida tricolor invade o campo; Gomes mal consegue comemorar com os outros jogadores. Era uma festa só. O Arruda inteiro gritava “é campeão!”. Tri-supercampeão!
Eu, pequeno, lembro com detalhes a tentativa de Gomes de dar a tradicional volta olímpica. Mas depois de tamanho sofrimento a torcida não deixou. Ela queria abraçar o seu herói.
Este foi o meu primeiro título. Inesquecível. O maior de todos os títulos! Um super título!
Mas, quis o destino, que este não fosse o maior título de Gomes. Em 1985, novamente em uma cobrança de pênalti, o zagueiro deu o título de campeão brasileiro de 1985 ao Coritiba futebol Clube.
À Gomes e todos os heróis de 1983, meus agradecimentos por este título memorável!
18 comentários
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Paulinho, meu caro, eu também estava nesse jogo. Estava nas cadeiras, com meu pei e meu irmao. Eu tinha 9 anos. Ao meu lado, havia um tipo que dizia ter sido zagueiro da barbie, acho que era beliato, mas tenho dúvidas. O cabra estava transtornado, nao admitia perder para o “Timinho do Arruda”, como era chamado o Santa. Aliás, as Barbies tinham um timaço. A gente, muita raça, e alguns garotos com futuro. Duas coisas (perdao pela má palavra) me chamaram a atençao nesse jogo. Primeiro que Luis Neto tinha o elástico do calçao folgado. Segundo, foi a maior exibiçao de um goleiro que eu me lembro. Mais até que os tres milagres de Biriguí em 86.
Lembro da torcida que, de maos dadas ao redor do campo, fazia uma corrente na cobrança de Gomes. Um verdadeiro craque!
Neste dia também era aniversário de um primo, mas o melhor presente quem ganhou foi eu. Uma camisa que havia sido de um jogador, craque do passado recente do clube. Passei uma semana com ela, nao podia sair na rua porque parecia um vestido. hehe Tempos depois soube que o jogador era givanildo.
Até hoje tenho esa camisa. Joguei muita bola com ela anos depois.
Aliás, ainda guardo os jornais e uma revista do campeao daquela ano.
Bela lembrança.
É vergonhoso chamarem aquela merdinha do veterano marcelo ramos(ninguém quer)de ‘bomba”
Estava nas cadeiras. Há um detalhe a mais nessa história. O gol que sofremos ao final do segundo tempo, foi fruto de uma bola mal atrasada por um zagueiro, dando a oportunidade para o velocíssimo Mirandinha chegar cara a cara com Luís Neto e fuzilar para o gol. Quem atrasou a bola? Gomes! Oscilou de vilão a herói durante a partida.
Só discorda da maioria das pessoas num aspecto: o nosso time não era fraco. Gomes e Almeida (lateral esquerdo) haviam sido campeões pelo Guarani. Zé do Carmo e Ricardo Rocha chegariam a seleção brasileira. Furquin era um zagueiro excelente. O melhor do campeonato. E tínhamos o maior craque daqueles tempos, a quem Zico mais tarde chamaria de seu sucessor (quando o mesmo se transferiu para o Flamengo), Henágio. Um baita craque, que ganhava jogos sozinho. Bela história.
ps: Também estive em Caruaru. Chovia e fazia um frio triste, sobretudo para um menino de 8 anos…
lagrimas nos olhos, vc me fez lembrar daquele dia. a 1º vez que invadi o campo (naquela epoca podia). Relembrei de tudo, estava com meu amigo de jogos desde criança. Chico, iamos a todos os jogos, na epoca que tinhamos que chegar as 14:00hrs para jogo as 17:00hrs. Chico partiu, mas, ao ler o senti bem perto de mim. Valeu, muito obrigado.
Cidadãos Corais!
Esse campeonato realmente foi inesquecível fui a quase todos os jogos, mas os da final, começando por Caruaru (sem rima), não perdi nenhum. Na terra de Vitalino cometi o erro de entrar no espaço da torcida da coisa e na hora do gol de Enágio quase apanho, só nao apanhei por que três policiais (tricolores diga-se de passagem) me encaminharam para o lado certo. Depois do jogo fomos, eu e um tio (burro-negro), a uma churrascaria (cheia de torcedor da coisa) e chegando lá foi outra zuação, pedi um churrasco de leoa e de timbu prevendo o que aconteceria doravante. Esses dois fatos também marcaram esse campeonato para mim.
Saudações Corais
Saudações tricolores! Eu também estava lá. Jogo nervoso, o santa tinha dois bons goleiros, boa defesa, muita raça e o craque Henágio. Valeu pela bela lembrança. Santa Cruz para sempre.
Um jogo inesquecível… para mim, o maior de todos.
São tantas lembranças…. Geó, só tenho boas lembranças de Gomes …
))
Chico, também tenho lembranças semelhantes de um grande amigo que compartilhou comigo esta grande conquista…..
“parece” que foi ontem….
Abraços
Não esqueço nunca do jogo que não ví. Exatamente aquele decisivo e que colocaria o Santa dentro do supercampeonato: o jogo em Caruaru. Não sei como aquele radinho de pilha aguentou tanta pancada, tanto liga e desliga, e tanto suor que passava pelas minhas mãos. Os outros jogos, e aí eu pude ver, foram de arrepiar. Realmente, um título inesquecível.
O jogo em Caruaru foi o meu primeiro clássico. O que Henágio e Ângelo jogaram, pqp. Saí do estádio completamento rouco, tenho guardado bem vivo na memória aquele gol maravilhoso. Realmente foi um ano especial, infelizmente não vi a grande final contra o Náutico, apesar dos meus apelos, meu saudoso pai ficou com medo de me levar. Porém, comemorei muito o meu primeiro título do Santa, que foi o mais super de todos. Ganhar uma única e a última fase de um turno e sair campeão, somente o terror do nordeste. Que tempos como aquele voltem, a torcida tricolor merece.
Espero que essa notícia de Mirinda não passe de expeculação, o Santa Cruz não pode dar nenhum passo atrás.
Parabéns a minha querida Olinda pelo seu novo secretário de comunicação.
MIRINDA NÃO MAMÃE, MIRINDA NÃO !
Não tenho nenhuma recordação do ano de 1983, pois estava desligado do futebol e de muitas outras coisas por razões pessoais.
Mas, não poderia deixar de passar por aqui e elogiar o ótimo texto do Paulo. Não me traz recordações, mas me apresenta a uma grande conquista do Santa Cruz.
83 eu estava lá!!!! Foi o primeiro grande título que acompanhei do Santinha. Naquele ano, ía a pé da Torre até o Arruda para ver os treinos com meu irmão de 5 anos (na Época), que hoje é tricolor sadio como eu, sócio de carteirinha em dia.
Como não tava acessando esse blog, vou intepestivamente comentar a respeito do post anterior.
Me lembro muitas vezes de times modestos, sem nenhum jogador conhecido, que faziam grandes campanhas. O Santo André e o Paulista, quando foram campeões da Copa do Brasil, o Barueri que ascendeu agora à série A e o próprio São Caetano, que foi vice do brasileirão.
Vejam que são exemplos de times formado com base em jogadores do interior paulista. Sem dúvidas o maior celeiro de bons jogadores do Brasil. E essa foi a filosofia definida pelo Santa Cruz.
É claro que não é só sair contratando que dá certo. Depende de ter uma equipe técnica que tenha olho clínico e conheça bem essa região do Brasil.
Resumindo: Do meu ponto de vista, o Santa pode fazer o pior time do mundo, mas tem agido com a máxima competência diante dos recursos que dispõe.
Não sou mãe Diná, mas acredito que sentiremos muita dificuldade nos primeiros jogos. Todavia, quando o time, lá pela quarta a sexta rodada, engrenar, vai ser um time forte, competitivo e, mesmo que não chegue a ser brilhante, vai nos dar muita alegria, e não será “pato morto” pra Barbie e Coisa.
É só o que espero, acredito e é só o que desejo.
Para os sem memória, Marcelo Ramos foi artilheiro do Pernambucano mesmo jogando num time ruim do Cacete. Ao final do Pernambucano recebeu várias propostas e muitos aqui não acreditavam que ele se quer terminasse o Pernambucano pelo Santa. Passou a série B todinha sendo assediado e recusou propostas com salários maiores. Mas nem minha mãe negaria a proposta de 70 mil mensais do Atlético(PR) num contrato longo (enquanto no Santa recebia (?) R$ 10 mil).
Mar – Ce – Lo Ramos Ramos!!!!!!
Sugiro fazermos convites a esses grandes heróis tricolores, como o Gomes, Birigui, etc, etc para a reinauguração do Arrudão.
Temos que enaltecer as glórias conseguidas e mostrar aos futuros jogadores a importância e o peso de nossa história.
Santa Cruz sempre.
Sugiro mais, fazermos convites e esses grandes herois tricolores como Birigui, Gomes e o zagueirão “xerife” Roberto, para fazerem parte da nova gestão de base que vai ser implantada com a construção do novo Centro de Treinamento.
Saudações Corais
1983…10 anos após o glorioso penta…10 anos antes da inesquecível “virada” de 1993…Não vi, mas vivi o penta (todos os meus cinco primeiros aniversários tiveram como “tema” o santinha: bandeiras, bolo com formato de campo de futebol e jogadores do santinha, além da presença constante do artilheiro tricolor Fernando Santana – meu primo)…em 1983 meu pai, tricolor, não permitiu que fosse ao Arruda…mas lembro do sofrimento durante a partida, do time do Náutico ameaçar abandonar o campo, tentando forçar o juiz a validar um gol de penalti (que não entrou) e, principalmente, da explosão de felicidade com o gol de Gomes…O passado de glórias…precisa ser ampliado…quero ver meus dois filhos tricolores “relembrando”, em 2015, a caminhada de volta à série A (2009-2012) e o título do centenário em 2014!!!