Montagem: Dimas Lins 

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Dimas Lins

Imagine o cenário. Você tem um bom emprego e uma confortável situação financeira. Tem também o melhor carro que o seu dinheiro pode comprar e sua namorada é a gatinha mais gostosa do pedaço. O nível de violência na cidade é extramente baixo e a população, mesmo a menos abastada, leva uma vida digna.
 
O Arruda é um estádio de primeiro mundo, os administradores gerem o Santa Cruz com transparência, o clube não tem dívidas e não há dinheiro mal empregado. Ao contrário, o clube registra grandes lucros e investimentos e é um dos mais poderosos do planeta bola. A torcida que era a maior do nordeste, agora é a maior do país e conquista novos adeptos em todo o mundo. O Santa já foi campeão brasileiro e da Copa Libertadores da América diversas vezes e o campeonato mundial mais recente que conquistou foi exatamente o da última temporada contra o Barcelona. Sua vida pode não ser perfeita, mas é muito próxima do que você desejaria para si mesmo.
 
Aos poucos você percebe que alguém começa e seguir seus passos. Passam-se dias até que finalmente um desconhecido chega a você. Ele lhe diz que o mundo real é muito diferente daquele que você conhece. Diz que você vive numa ilusão. Que a sua felicidade é produzida artificialmente.
 
O estranho então lhe dá a possibilidade de escolher entre continuar vivendo na ilusão ou descobrir realmente em que mundo você vive. Você pensa e, feito um tabacudo, resolve tomar a pílula vermelha, aquela que lhe fará acordar e perceber o verdadeiro mundo a sua volta.
 
Você acorda e descobre-se numa espécie de incubadora e seu sangue serve de alimento para uma escrotice chamada Matrix. Você está entrevado, sua cabeça está raspada e você acaba sendo jogado fora como um produto de baixa qualidade, um refugo. Depois você é finalmente resgatado por aquele sujeito que lhe ofereceu a possibilidade de lhe mostrar a verdade. E você a vê.
 
Ao contrário do mundo virtual, você está desempregado, não tem carro, é barrigudo e sua namorada é uma mocréia. A violência na cidade nunca esteve num nível tão alto e maioria da população é tão fodida quanto você. Há surpresa e indignação em seu coração, mas ao menos seu time é a maior potência mundial. Não é.
 
Seu time nunca foi campeão mundial e sempre passou longe da Copa Libertadores da América. Também nunca estampou em seu escudo uma estrela que represente o título de campeão brasileiro. Você não acredita nisso. É muita coisa ruim jogada ao mesmo tempo no seu quengo.
 
Você já tinha aceitado o fato de estar lascado, namorar uma mocréia e encontrar uma fila de ladrões lhe esperando na porta do supermercado. Você tinha aceitado tudo, mas tem dificuldade em acreditar que seu time é uma bosta. Quer tirar tudo isso a limpo e resolve assistir ao próximo jogo do Santa Cruz.
 
O jogo é no campo do adversário. O rival é um time que ameaçou fazer greve durante toda a semana por estar com quatro meses de salários atrasados. Há a possibilidade, inclusive, de os juniores entrarem em campo para jogar contra seu time, caso os profissionais cumpram a promessa de greve.
 
Começa o jogo e são os profissionais, não os juniores, que entram em campo, embora o adversário esteja sem cinco titulares. Seu time perde gols feitos e falha assustadoramente na defesa. Depois de muito sacrifício, seu time faz um gol, mas enquanto você ainda está comemorando, o adversário empata a partida.
 
Vem o segundo tempo e um jogador adversário é expulso. Seu time domina as ações, tenta atacar desordenadamente, mas não consegue marcar um gol. O adversário que é ruim, mas é menos ruim do que seu time, aproveita a chance e faz o gol da vitória, mesmo com um jogador a menos. Você não compreende como jogadores tão ruins estão vestindo a camisa do seu clube. Você não entende porque um técnico fraco e ultrapassado está à frente do comando da equipe. Você então pergunta ao filho da puta que lhe deu a pílula azul qual foi a merda que aconteceu com o Santa, afinal.
 
Ele explica que seu time já foi forte no cenário brasileiro, mas que tudo isso é passado. Que, ao longo desses anos, diversos administradores incompetentes, para dizer o mínimo, levaram seu clube para o buraco. Que em 2006 seu time teve a pior campanha da séria A de todos os tempos, foi rebaixado para a segunda divisão e está correndo sérios riscos, agora em 2007, de cair para a série C, enquanto os dois maiores rivais voltaram à primeira e, ao que parece, continuarão por lá. Que a torcida fez uma revolução e colocou na presidência alguém que achava capaz de devolver a esperança e o orgulho de ser tricolor. Que esse presidente deu uma dica de como seria sua administração, ao anunciar um técnico, no dia da vitória eleitoral, e o cara não estava nem aí. Que o campeonato pernambucano foi uma desgraça e nós chegamos a temer o rebaixamento. Que ele insistiu com Charles Muniz, um preparador físico que nunca quis ser técnico de futebol, por muito mais tempo do que deveria. Que perdemos a preparação para a segunda divisão por teimosia do presidente. Que o departamento de futebol do Santa Cruz não vale aquilo que o gato enterra. Que depois de muito errar, o presidente achou pouco e contratou Mauro Fernandes. Que mesmo o time fazendo uma das campanhas mais medíocres da história coral, o presidente já anunciou que o atual técnico permanecerá para a próxima temporada. Que a atual administração está desperdiçando, sistematicamente, o maior apoio popular da história do clube e a chance de fazer um Santa Cruz mais forte. E, finalmente, que a torcida cansou de assistir a tantas coisas ruins juntas ao mesmo tempo.
 
Você então olha o sujeito da pílula atravessado. Afinal, da noite para o dia você perdeu tudo e seu time é uma bosta. Você toma o potinho cheio de pílulas das mãos dele e, à força, faz o sujeito engolir uma a uma até ele ter caganeira. Chama o sujeito de filho da puta até cansar, mas você não cansa.
 
E já que você está acordado, exige mudanças. Você não quer voltar ao passado, mas já não agüenta mais o presente. Você sabe diferenciar o joio do trigo, mas percebe que o trigo é de baixa qualidade. Percebe que tudo está uma bosta. Você está tão puto que descobre que não consegue mais escrever outra palavra, senão bosta. Os jogadores são umas bostas, o técnico é uma bosta, o departamento de futebol, se existir, é uma bosta, a administração do clube é uma bosta e você, como torcedor tabacudo que é, por sofrer por um time de peladeiros – sem ofensa aos peladeiros – também é uma bosta.
 
Desesperado, você sai pelas ruas da cidade procurando alguém que possa lhe ajudar e quando o encontra, grita em sua direção:
 
- Agente Smith, quero voltar para a Matrix!