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Abstinência

Vou dizer uma coisa, antes que me arrependa. Digo isso, dessa maneira, antes de dizer qualquer coisa, porque quando a gente já começa dizendo uma frase assim é sinal de que vai se arrepender mesmo. E logo eu - por que não me arrependeria? - que tenho um sentimento de culpa que pesa uma tonelada, talvez mais que uma tonelada, quando digo uma coisa que não devia. Mas vou dizer, porque disse antes que ia dizer e não fica bem agora ficar calado ou voltar atrás.

Por esses dias, cheguei a pensar que andava com algum distúrbio mental ou com qualquer outra deficiência psíquica que o valha. No começo, não dei muita bola, o que foi uma grande besteira, evidentemente - comprovo isso, porque senti na pele - pois sempre há que se cuidar em primeiro lugar das coisas da alma, depois a gente cuida do resto, mas a força moral do espírito, essa mesma, que impulsiona a gente pra frente, que nos dá equilíbrio, deve mesmo vir em primeiro plano. Falo assim, porque um sujeito ruim da cabeça terá mais dificuldades que um homem são em fazer algo de útil na vida. Não que os inúteis não tenham lá suas utilidades, mas daquilo que penso e digo - não sei se falo com clareza - que é o que importa agora, não tem qualquer serventia.

Tempos atrás, não muito distante - ao contrário, bem recente, muito próximo mesmo - certamente, atribuiria essa condição, de achar que estava ficando meio tantã, abilolado das idéias, a uma indisfarçável baixa estima provocada por forças obscuras que povoaram nossas repúblicas na mesma época em que elas deixaram de ser independentes. E foi por isso, não por outra razão, pelas forças obscuras que povoaram nossas repúblicas, que elas deixaram de ser independentes. Na ocasião, tinha sonhos horríveis com seres estranhos, de hábitos estranhos, de corpos estranhos, com cabeças tão desproporcionais que eu pensava - juro que pensava - como alguém tão desproporcional assim pode se equilibrar em pé?

Mas não era isso o que eu queria dizer, pois tão-somente pretendia traçar um paralelo - e que paralelo - com a loucura provocada pela baixa estima de antes e com essa coisa ruim que sinto agora. No tempo das coisas ruins - não a coisa ruim de agora, mas aquela de antes - péssimas mesmo, eu tive uns surtos de loucura, uns ataques repentinos, umas coisa vindas do nada. Não exatamente do nada, porque nada vem do nada, mas de alguma coisa que não seja nada ou diferente de nada, se é que sou compreendido agora quando falo de absolutamente nada. Digo isso, pois quando as coisas estavam pretas pro nosso lado, ruins mesmo, a gente caindo para a Série D e aquela coisa toda de não ter perspectiva nenhuma, eu fui um dia de madruga paras as bandas de Beberibe e nas margens do canal do Arruda, eu sentei e chorei. Está certo que o abalo repentino que senti naquela hora deu lugar, quase que imediatamente - para não dizer imediatamente - a uma sensação ruim provocada pelo mau cheiro, um odor medonho que subia do canal e entrava pelas minhas narinas e afetou de tal sorte a minha concentração que esclareço aqui, sem hesitação - mas com algum arrependimento, porque como disse, costumo me arrepender de dizer coisas que não devia - que quando digo que chorei, quero dizer que chorei simbolicamente, pois não tive tempo de chorar de fato, porque minhas vias áreas estavam substancialmente afetadas pelo mau cheiro e eu tive que sair às pressas do local.

Mas isso tudo foi só para mostrar como eu estava ruim na época, posto que na época aquela leseira toda se justificava, o que não acontece agora, porque, como todos sabem, iniciamos uma nova fase, um período de reconstrução, de projetos novos, de bons tempos, de esperança, de soerguimento do nosso querido Santa. E se agora é assim, onde nada se justifica, nada demonstra - ou parece demonstrar - razão para todo esse descontrole, essa fala acelerada, essa ansiedade tremenda, esse aperto lascado no peito, então por que cargas d’água estou eu assim, neste estado lastimável, parecendo um tresloucado ou um doido varrido ou que varreu o juízo para debaixo do tapete, mesmo que o tapete seja preto, branco e vermelho?

A explicação se dá por uma razão, uma só razão, uma única razão, a razão pela qual estou eu assim, agoniado, com os pés e mãos suando, salivando, como se estive preste a comer um sarapatel no Mercado da Boa Vista - que é um manjar dos deuses, uma coisa de louco - com os olhos arregalados e com jeito de quem andou tomando drogas, logo eu que acho as drogas uma droga e não busco satisfação pessoal na química, porque eu já detestava química quando fazia segundo grau e não vejo razão para gostar de química agora. Neste aspecto, mais do que qualquer outro aspecto, prefiro a matemática, que é uma coisa mais lógica, com pé e cabeça, ao contrário da química que provoca mudanças no comportamento, porque não há outra coisa que justifique a TPM na mulher ou o meu estranho comportamento agora, que não a química.

A verdade verdadeira, a absoluta verdade, a razão disso tudo é que estou, sem exagero algum - porque não sou de exagerar - no meio de uma crise de abstinência pela falta que sinto dos jogos do Santinha, de ver o time entrando em campo, do Arruda lotado, da torcida gritando que não pára, e eu gritando também que não paro, porque sou da torcida, porque sou tricolor, porque sou torcedor, torcedor coral, daqueles de ir para todos os jogos, e que não consegue perder uma partida sequer no Arruda, e que acima de tudo ama o clube e as cores do Santa Cruz.

E é por causa dessa agonia, que eu quero - mais que isso - eu preciso, porque que tem abstinência precisa mais que tudo, que o tempo passe mais rápido, bem mais depressa do que agora, porque agora o tempo anda lento demais, e eu sei que só com o nosso time entrando em campo, serei capaz de acabar com essa agonia, essa dor no estômago, essa boca seca, que nada mais são do que sintomas de uma abstinência lascada.

Por tudo isso - nem um vírgula a mais ou ponto e vírgula, ou mesmo ainda uma exclamação a menos - começo agora uma contagem regressiva para o primeiro jogo do Santinha no estádio do Arruda, com tudo reformado, com cheiro de novo, porque descobri - e quando a gente descobre não quer mais perder tempo - que só assim poderei ser feliz direito.

Nota da Redação:

Bateu a ansiedade no Torcedor Coral e por isso abrimos nova contagem regressiva na barra lateral do blog. Dessa vez nosso relógio com precisão atômica aponta para o dia 18 de janeiro de 2009, às 18 horas, quando o Santinha entrará em campo pela primeira vez com o estádio reformado. Será uma grande festa e um grande momento para a nossa torcida.

Em caso de mudança do dia ou horário, estaremos atualizando nosso relógio. Enquanto isso, nosso doido-mor, Artur Perrusi, prescreve Rivotril com Coca-cola em escala industrial para toda a torcida coral, pois o tempo só passa depressa quando estamos em férias.

A primeira vez no Arruda

Recebi algumas fotos do amigo Fabiano Pinheiro mostrando que a reforma do Arruda está indo de vento em popa. Propus que ele escrevesse um texto para nós sobre o que viu.

As fotos me deixaram com nostalgia. Não sei exatamente a razão - provavelmente a sensação de recomeço - mas lembrei da primeira que fui ao estádio coral.

Como todo garoto, estive cercado de ansiedade e expectativa. Por isso, tempos atrás, escrevi uma crônica universal sobre a primeira vez de uma criança em um dos maiores estádios do mundo. Ela não aconteceu comigo, de fato, mas é igual a minha e a sua história. Ela é igual à história da nossa torcida.

Como bateu a saudade, compartilho novamente com vocês.

Dimas

Tinha quase oito anos. Há tempos pedia a meu pai para me levar ao Arruda. Ele sempre dizia que me levaria da próxima vez. Ocorre que a próxima vez chegava e nada acontecia. Ele não era um tricolor relapso, apenas achava que eu não agüentaria a maratona do dia e pediria para voltar pra casa mais cedo. É que ele, antes do jogo, juntava-se aos amigos e fazia o aquecimento em algum boteco no caminho para o estádio. Depois da partida, ainda parava em algum lugar para tomar outras, para comemorar a vitória ou desafogar as mágoas pela derrota. Mesmo assim, aquilo me deixava chateado. Queria tanto ver o Santa jogar, que chorava sozinho quando meu velho pai ia assistir aos jogos e me deixava em casa.

Em toda a minha curta vida, eu nunca havia tido esse prazer, só escutava os jogos por um pequeno rádio de pilha e nada mais. Ficava em casa imaginando os dribles, os chutes, as defesas e os gols. Sequer tinha noção da grandeza das coisas do futebol coral. Como seria o Arruda? Como eram os jogadores? E a torcida? Não sabia de nada disso e, sinceramente, não adiantava alguém me dizer como era, pois essas coisas só valem quando a gente vê com os próprios olhos.

Quando meu pai chegava em casa, depois do jogo, eu logo pulava em cima dele. Queria saber todos os detalhes. Ele me colocava na cama e contava a história da partida. Desde sempre foi assim. Enquanto alguns meninos ouviam historinhas de ninar, eu ouvia as histórias do Mais Querido. E, invariavelmente, transformava tudo aquilo numa fábula. Onze cavaleiros defendendo um reino coral. O castelo tricolor protegido por um canal que abrigava seu povo, sua gente, dos inimigos. Dava vazão a minha imaginação.

Finalmente, fiz oito anos e meu pai prometeu que atenderia a um desejo meu.

- Qualquer coisa? - perguntei.

- Qualquer uma - disse ele.

Nem precisei contar meu desejo, ele sabia bem.

Enfim, chegou o primeiro domingo de jogo, depois do meu aniversário. Eu estava prestes a realizar meu sonho. De tão ansioso, acordei às cinco horas da manhã, pois não consegui dormir direito. Não via a hora de ir ao Arruda assistir ao meu time do coração jogar. Confesso que não sei que jogo era, nem por qual campeonato. Não importava. Ia pelo Santa Cruz e por mais nada.

O dia começou lento. Vi o sol raiar e, só horas depois, meu pai acordar. Ainda faltava muito tempo e eu já nem cabia em mim mesmo. Tentei não deixar meu pai perceber, para não pertubá-lo. Afinal, que essa fosse a primeira vez, não a última, que eu o acompanharia ao Arruda. Com muito custo, me contive. Desde cedo, já estava vestido com a camisa coral, a mesma que meu pai me dera no meu aniversário. “Vamos?”, disse ele. Nem acreditei. Corri em sua direção e segurei sua mão. Finalmente partimos.

Primeira parada, um mercado público. “Então era lá que meu pai se reunia com os amigos?”, pensei. Numa coisa ele tinha razão, eu estava impaciente. Mas não para voltar para casa e sim para ir logo ao estádio. Não é fácil conter a ansiedade de uma criança, ainda mais quando você é a criança.

Ainda no carro, meu pai apontou para o estádio. Era lindo! Muito maior do que a minha mente imaginara. Descemos do carro e nos misturamos à multidão. Nos dirigimos à bilheteria e depois seguimos para as sociais. A entrada ao Arruda foi indescritível. O coração disparou quando ultrapassei a catraca. O escuro da parte interna contrastava com o clarão que vinha do campo. Quando finalmente pude ter uma visão completa do estádio, fiquei maravilhado. Tudo era diferente do que imaginava. Era melhor, bem melhor. Era um mundo. Um mundão! Estava tão feliz e irrequieto que não sabia o que fazer. Queria correr, gritar e pular, mas continuei firme segurando a mão de meu pai.

Quando o Santa entrou em campo, o estádio todo ficou de pé. Gritos, cânticos e fogos, tudo de uma só vez. Era lindo e eu estava lá, participando de tudo aquilo, da coisa mais bonita que vi na vida. O time estava todo de branco, apenas com listas pretas, brancas e vermelhas na horizontal da camisa, igual a que eu usava.

Começa o jogo e os olhares estão voltados para o gramado. Perguntava tudo ao meu pai sobre os jogadores. De repente, um lançamento em profundidade, o atacante tricolor ganhou na velocidade, driblou o goleiro e mandou a bola para o fundo das redes. Um golaço! O meu primeiro gol ao vivo. O estádio veio abaixo! Fiquei tão emocionado que chorei. Meu pai me abraçou, enquanto eu derramava lágrimas de felicidade. No final da partida, saímos vencedores. Foi uma grande vitória, um grande dia.

Já em casa, quando fui dormir e meu pai veio me dar um beijo de boa noite, eu o abracei forte. Estava feliz por ter vivido o melhor dia da minha vida. Antes de ele ir para sua cama, disse-lhe que não precisaria mais me contar a história dos jogos do Santa. A partir daquele dia, eu teria as minhas próprias histórias para sonhar.

A quinta carta

Os Meninos estão muito preocupados com a próxima eleição para presidência do Mais Querido. Preocupados demais. Sei que eles têm razão, sei o quanto é importante que a gente não tenha mais coisinhas miúdas arrasando aos poucos com nosso ideal. Sei de tudo isso, mas juro que não consigo ficar insone, por mais que eu tente (embora confesse nunca ter tentado). Sou uma mulher incrédula, é isso. O único salvador da Pátria em quem eu acreditei foi reeleito com meu voto, e taí até hoje para provar a quem quer que seja que não existem salvadores da Pátria. A Pátria que se resolva por si só.

No entanto, estou muito preocupada com os Meninos. Vivendo no meio político há pelo menos 15 anos, o que eu concluí foi que eu não tenho mais direito de ser inocente, de declarar que fui iludida, essas coisas. Só que futebol é diferente. Futebol vive mesmo de ilusão (já que a gente não tem gol mesmo), vive de expectativa, de torcida, de paixão (alguns títulos também não vão mal nesse cardápio, mas tudo bem).

Como gosto muito dos Meninos, juntei toda a minha incredulidade e minhas moedas, lotei o carro de amigas encalhadas, tomei coragem e fui. Segui a rota natural dos desesperados, busquei explicações e soluções no sobrenatural. Já havia tentado antes no catolicismo e na umbanda, e nenhum deles ofereceu uma resposta clara. Apelei para o biscoitinho da sorte chinês e tudo o que ele me revelou foi que “a coragem é uma virtude; a felicidade, uma meta; dinheiro é tudo, e o resto é bobagem” - enigma que eu não consegui decifrar diante da minha singela pergunta: “O que será do futuro do meu santinha?”.

Ah, preciso confessar (ai, que vergonha!) que também apelei para a “sorte do dia” do Orkut. Fiz a pergunta (sempre a mesma, acerca do futuro do tri-tri-tricolor), acessei minha página e li, horrorizada, o vaticínio: “Visitantes recentes: Dena & Jurandi, Alberto Pereira, Ivonete Nogueira, Milton Junior, O CHACAL* euripedes, lelo e flavia arôxa. Sorte de hoje: A vontade das pessoas é a melhor das leis” (Orkut, 05h13 da matina de 17/09/2008).

Estou enrolando, enrolando, mas a verdade é que procurei uma taróloga. É isso mesmo. A mulher era tão boa nisso que cobrava R$ 50,00, mas depois que leu as quatro primeiras cartas, previu logo a minha dura realidade de torcedora e me cobrou apenas R$ 10. Lembro de suas palavras: “Você tem sofrido muito, minha filha. Tá aqui, escrito nas cartas, que você desceu vertiginosamente da classe A para a classe C, e ainda assim corre o risco de não conseguir descer para classes ainda inferiores por falta de vaga. Vou lhe dar um abatimento”. Boa, a mulher. Fiquei animada.

A mulher virou a quinta carta e parece ter tido uma visão. Estava realmente em estado hipnótico. Não sei o que viu, mas desarrumou tudo, voltou a embaralhar as cartas e mandou que eu as separasse novamente de forma que desenhassem na mesa as letras “X, Y e Z”, incluindo a vírgula. Virou quatro cartas e me deu mais R$ 5 reais de abatimento. Comecei a me assustar. Voltou a virar a quinta carta e lançou seu veredicto:

“Quando você chegar em casa, abra o seu gmail. Nele, você encontrará algumas correntes dizendo que você tem que passar a mensagem para 152 pessoas em menos de um minuto, senão o que você tanto quer alcançar vai ficar bem longe do alcance. Mande as mensagens e aguarde. No máximo em 10 anos, seu sonho será realizado. Ou pelo menos, parte dele: seu time vai sair da série C. Mas se quer um conselho, minha filha, abra bem os ouvidos: homem é tudo igual e presidente homem também é tudo igual. Quando muda é o tamanho. Mas quanto maior, melhor”. Sábias palavras, Meninos. Não percam mais nenhuma noite de sono, por favor.

Lembranças de uma quarta-feira

Eu tinha uns 12 ou 13 anos. Passei a semana toda numa ansiedade de lascar. Na quarta, o Santa decidiria a classificação contra o Remo para uma fase seguinte da série B e o jogo iria pegar fogo. Era uma época de vários confrontos contra os Remistas e a rivalidade havia crescido bastante.

Lembro que o escrete alvi-azulino do Pará era treinado por Waldemar Carabina. Entre seus jogadores, o goleiro Wagner (um loiro, cheio de frescuras), o volante Agnaldo (Bam-bam, ex-jogador da coisa), o atacante Luciano Viana (que mais tarde jogou no santa), dentre outros. Pra ser sincero, nem lembro quem jogava no Santa. A inda e vinda de jogadores era tão grande, que não dava pra fixar na mente nosso elenco. Lembro dos jogadores adversários, pois nosso presidente na época (Raimundo Moura) fez várias tentativas de contratar o Carabina e alguns jogadores do Remo.

Chegou a quarta-feira. Tentei convencer a minha Mãe a não ir para o colégio. Não estava preparado psicologicamente para assistir aulas de história, geografia ou matemática. Estava ansioso demais. As Mães deveriam entender esse tipo de coisa! A minha não entendeu e fui apulso pra escola. O papo com os amigos tricolores era só um: o jogo da noite. Uma vitória simples nos classificaria e a simples possibilidade de levar o Santa de volta à primeira divisão mexia com todos. Passada a aula, fui correndo para casa almoçar.

Sempre gostei muito de esportes e, na época, fazia parte do time mirim de vôlei da escola. Tínhamos um jogo por volta de 17:00h no colégio Salesiano por um campeonato qualquer. Não estava nem aí para esse jogo, mas pelo menos serviria pra ajudar a diminuir a ansiedade e passar o tempo. Cheguei ao Salesiano às 16:00h e tive o primeiro susto: O colégio tinha uma série de jogos previstos para aquela tarde. Tinham uns cinco jogos na nossa frente! Pânico! Perguntei ao treinador que horas seria o nosso jogo e ele falou que não tinha a menor idéia, dependeria da duração dos outros jogos.

Comecei a torcer freneticamente para que os jogos terminassem em dois Set’s (na época, os jogos das categorias mirim e infantil eram resolvidas quando uma das equipes vencessem dois). Tudo parecia dar errado. Os pontos eram disputados com toda a disposição pelas equipes e demoravam minutos para que fossem decididos. Torcia de olho no relógio da quadra. Entrei em quadra às 18:50h. Agoniado, enfurecido. Meu pai havia dito que sairia de casa às 19:00h. Estava desesperado. Joguei como nunca joguei na vida. Ganhamos de forma arrasadora em menos de 30 minutos. Saí correndo desesperado. Do Salesiano até a Av. Beira Rio, na Torre, devo ter batido algum recorde mundial de velocidade.

Cheguei em casa esbaforido, passei pela sala como uma flecha e fui correndo colocar a camisa do Santa. Vestido com o manto sagrado, fui procurar meu pai. Nada no quarto dele, banheiros vazios…

- Mãe! Cadê Painho?

- Foi para o Jogo com seus irmãos.

- O quê?!

Havia sido traído. Abandonado. Esquecido. Como meu Pai me deixa para trás, num jogo decisivo em que eu estava louco para ir? Que injustiça! Que raiva! Meu irmão mais novo nem sabia o que era futebol e estava lá, enquanto eu, praticamente um expert, escutador oficial de resenhas, estava em casa.

Chorei muito. Tive muita raiva. E num acesso descontrolado de raiva, desejei que o Santa perdesse a classificação. Sim! Já que eu não estava lá, queria que todos sentissem uma frustração igual a minha. Estava decidido. Torceria contra o Santa.

Começou a partida e logo veio um gol do Remo. Não comemorei, mas soltei aquele: “Bem feito!”. Logo depois veio o segundo e me caiu aquela crise de consciência capaz de causar remorso na mais cruel e fria das criaturas.

“O que eu estou fazendo?”, pensei.

Se o santa não se classificasse, não haveria um próximo jogo para eu ir! Comecei a torcer desesperadamente por uma virada. No início do segundo tempo, logo o gol do Santa. Saí comemorando feito um maluco dentro de casa. Minha Mãe, sem entender nada, me questionou:

- Mas você não estava torcendo contra o Santa?

- Contra o Santa, Mãe? Eu? NUNCA!!!

Foram minutos que pareciam horas. O Arqueiro remista (o tal do Wagner) estava inspiradíssimo. O time do Santa sufocava, chutava a gol e nada da bola entrar. Entramos nos acréscimos num sufoco, o narrador quase botando o gogó pelo rádio e eu as tripas pra fora mas não teve jeito. O Remo venceu. O Santa estava desclassificado.

Chorei novamente. Era puro remorso. Nunca mais torceria contra o meu time de coração novamente. E nunca mais esqueci aquela Quarta-Feira.

Nota da Redação:

O Torcedor Coral, desde o último sábado, iniciou a contagem regressiva para o fim do mandato do diminutivo. Apontamos para a data limite, o último dia da gestão passada. Quando sair a data real, faremos um ajuste no nosso relógio com precisão atômica.

Aos tricolores, convido que acompanhem a contagem regressiva em nossa barra lateral. O ano ainda será longo, mas certamente terá fim.

Libertas, que serás também

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Xote dos poetas (Zé Ramalho e Capinam)

Fui dormir ontem à noite ouvindo Xote dos Poetas, de Zé Ramalho e Capinam, uma canção maravilhosa que fala sobre liberdade. Talvez por isso, enquanto dormia, tenha misturado a música com o Mais Querido e acabei sonhando com o renascimento do Santa Cruz. E embora eu não tenha a precisão de todos os eventos que ocorreram em meu sonho, tenho uma boa lembrança do que aconteceu.

Em plena tarde, eu estava ao lado do canal do Arruda, pintando num imenso muro, a palavra liberdade. Buscava, em meu protesto, proclamar a independência do clube contra todos aqueles que contribuíram para o seu afundamento. Com a palavra liberdade, queria devolver o clube ao seu verdadeiro dono, o torcedor coral.

E veio gente de todo canto, tricolores de todo o mundo, escrevendo por toda parte a palavra liberdade.

Artur, no meio da multidão, conclamava a todos para participar da verdadeira revolução coral. Bradava que aquela ocorrida no final de 2006 havia apenas parido um rato.

Maneca, junto com a Sanfona Coral, cantava o hino do clube feito por seu avô, passado de pai para filho e de tricolor para tricolor:

Uma voz proclama e canta
É a voz das multidões
Santa Cruz, querido Santa!
Campeão dos campeões.

Léo trazia embaixo do braço dezenas de propostas e sugestões de melhorias de baixo custo, mas com efeitos grandiosos para o clube. Dizia que esta era a verdadeira revolução.

O poeta Josias exigia que, tal qual a Fênix, o Santa Cruz renascesse das cinzas. E gritava aos quatro ventos que quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Cláudia pedia igualdade, fraternidade e liberdade. Dizia que no futebol não deveria haver distinção entre homens e mulheres e, principalmente, entre pretos, brancos e vermelhos.

Paulo Aguiar insistia em romper com o passado e ter seu clube do coração administrado por alguém de sua geração, enquanto Magela, Tiburtius e Martorano provavam que o planejamento estratégico tinha realmente sido feito e era exeqüível.

Coronel Peçonha não fugia à luta e repetia para o povo tricolor que o Santa Cruz era a sua pátria, na mesma hora em que Samarone e Naná chegavam na kombi coral trazendo toda a confraria do poço.

Cabia a Inácio elaborar o manifesto que pedia um novo Santa Cruz e a Anizio, com a ajuda de Cláudio Machado, espalhá-lo por toda a internet.

Ao longe, Gerrá regia com sua zabumba os pulos maravilhosos dos cururus da Inferno Coral, que apoiava mais do que nunca as mudanças de ares no Arruda.

Lá pela noite, um mar de gente vestido de preto iluminava a cidade com milhões de velas acesas e se dirigia ao Conselho Deliberativo do clube. No fim de tudo, alguém subiria à tribuna e pediria aos conselheiros, com a voz embargada: “liberta meu clube, antes que seja tarde!”.

Quando acordei, fiquei imaginando se tudo isso, afinal, não seria possível, pois só assim teremos nosso clube de volta.

Cobra venenosa

    "A minha primeira paixão é o Santa Cruz, mas a minha primeira obrigação é com o Tribunal de Justiça."

    Bartolomeu Bueno, em pronunciamento de renúncia ao cargo de presidente do Conselho Deliberativo, após consulta ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ.

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