Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Nesses anos todos, eu já passei por poucas e boas, já pintei o sete, o oito e o nove, mas teve uma que foi inesquecível. Foi em 26 de novembro de 2005, data do último jogo do campeonato brasileiro da Série B e o dia em que eu… morri. Isso mesmo, o dia da minha morte. Não tenha pressa, se abolete na cadeira e preste bastante atenção, que o caso foi sério. Foi mais ou menos assim.
Naquela manhã, eu levantei da cama tremendo mais do que um paciente antes do exame de próstata e fui ligeirinho para o chuveiro. A água descia numa temperatura de quase 50 graus e, ainda assim, eu batia o queixo. Não era frio, mas uma tremedeira nervosa, angustiada. Como eu ia assistir ao jogo mais importante do Santa nos últimos anos, assumi certo ar solene e decidi, mesmo tremendo bastante, fazer a barba. Queria cumprir um dever cívico de cara limpa, coisa que fazia uma vez a cada quinze dias e olhe lá.
Sem grana para um barbeador elétrico, peguei o meu Prestobarba, com mais quilômetros rodados do que meu carro e mais cego do que policial rodoviário quando recebe toco, e comecei a passar a navalha na carne. A primeira lâmina fez tchan e eu já fui levando o primeiro corte; a segunda fez tchun e veio mais um talho; quando a terceira fez tchan-tchan-tchan-tchan e o sangue escorreu pela pia, eu gritei um sonoro “puta que pariu!” e acabei com a aquela frescura de solenidade, que isso era coisa de barbie ou suzie.
Vesti o manto sagrado coral, peguei o radinho de pilha, coloquei o fone de ouvido no ouvido, abri a porta do apartamento e chamei o elevador. Ainda estava tentando sintonizar alguma rádio, quando puxei a porta da cabine. Olhando para o rádio, avancei dois passos e senti o chão vacilante. Não havia vacilo, aliás não havia nem mesmo chão. O elevador descumprira a sua parte no acordo de atender ao chamado dos usuários. Levei alguns segundos para cair do 15º andar até o chão. E, antes que me perguntem, essa história de que você consegue ver toda a sua vida passando na sua mente é balela. Conversa fiada! Na hora, o cabra só tem tempo de pensar na plaqueta obrigatória na entrada de todos os elevadores da capital recifense. E pode ser que nem chegue ao fim do parágrafo.
Aviso aos usuários, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Lei municipal Nº 177 de 03 de outub…
De lascar é que eu lembrava da plaqueta, mas não de seguir sua instrução. Nessas horas, a gente pensa que só pode acontecer com os outros.
…
― Acolde, númelo tlinta e sete!
― Hmmmm!
Tentei abrir os olhos, mas a claridade me cegava.
― Acolde, númelo tlinta e sete!
Só podia ser comigo! Ocorreu-me então uma estranha sensação de participar do filme A última Profecia, quando a personagem de Laura Linney tem um sonho que termina com esta frase. A diferença era que a voz do filme não se parecia com a de Cebolinha, personagem de Maurício de Souza.
Arregalei os olhos e vi uma moça, com aparência de uns vinte e poucos anos, com cabelos curtos, bem pretos e espetados, com uma maquiagem nos olhos que mais parecia a máscara de Zorro; camiseta, calça, jaqueta e coturnos pretos, uma coleira de cachorro no pescoço e piercings, muitos piercings. A bichinha podia até ser sinistra, mas que era uma gatinha, ah, isso era.
Quando eu tentei me bulir, senti um cheiro de rato morto e o corpo todo dolorido, como se um caminhão do lixo tivesse passado por cima de mim. Havia um cheiro forte de presunto saindo debaixo do lençol em que eu estava coberto. Não aquele de comer, mas o outro, de enterrar. Foi então que me lembrei da queda. Sim, a queda! Que sorte arretada! Escapei fedendo! “Melhor assim do que morrer cheiroso!”, pensei aliviado, citando o filósofo Falcão. "Um milagre! Deus existe!”, pensei esfuziante. Tava mais risonho do que copo d’água com uma dentadura imersa.
A moleca deu uma gargalhada e pude notar um piercing na língua em forma de alfinete. Uma coisa nojenta! Isto explicaria, porque ela trocava o erre pelo ele.
― Tá rindo de quê, Cebolinha? – Perguntei, meio emputecido.
Ela respondeu um “nada não”, mas não conseguiu disfarçar o riso zombeteiro. Logo após, já com um ar solene, completou que estava na hora de ir. Perguntei para onde e recebi um “pala o outlo lado”, como resposta.
― Que lado? ― perguntei, já achando a conversa mais esquisita do que o nariz de Michael Jackson.
― Seguinte, tiozão! Ainda tenho outlas encomendas até o fim do dia e já estou bastante atlasada.
― Cebolinha, pega leve, que eu não estou entendendo patavina! ― respondi, já meio irritado.
― Tiozão, acolda pla Jesus! Você moleu!
― Ô Rainha das Trevas, tira a macaíba da boca que eu não estou entendendo piroca nenhuma do que você está dizendo! – respondi sem paciência, já levantando da cama.
Foi aí que aconteceu a coisa mais estranha. Com o impulso da minha tentativa de levantar, meu corpo flutuou descontroladamente pelo quarto. Ou eu tinha me transformado no Super Homem ou aquela conversa estava começando a fazer algum sentido. Ainda assustado, olhei em volta e percebi outras macas, algumas delas cobertas com lençóis brancos. Rapidamente, conclui que estava no necrotério de algum hospital.
A ficha caiu! Tomei um choque! Senti o coração acelerar e, ato contínuo, levei as mãos ao peito. Não tinha nada batendo lá! Nenhum tum-tum-tum! Tomei meu pulso e ele não pulsava. Comecei a me apavorar. Tentei correr, mas não tinha controle sobre os meus movimentos. Meu único recurso foi tentar, atabalhoadamente, nadar cachorrinho, para me afastar daquela agente funerária. Uma cena ridícula! Patética mesmo! Era a insustentável leveza do ser. Leveza, obviamente, pelo fato de agora eu flutuar. Insustentável, pois esse negócio de flutuar era coisa de barbie ou suzie e, além do mais, se de fato eu estivesse morto, não poderia assistir ao jogo do Santa.
― ei, ei, ei! Fica flio, tiozão!
― Sai pra lá, Belzebu! ― disse, já fazendo o sinal da cruz com os dedos indicadores.
― Belzebu é o cacete!
― Xô, cão danado! Pega a reta, véia!
― Na molal, velhinho, tu tá pagando um mico gelal.
― M-mas q-quem é você, afinal?
― Sacou ainda não, tiozão? Eu sou a molte! – conclui, soltando uma gargalhada sinistra.
Senhora e senhores! Eu vi a morte de perto e ela estava viva! Meio diferente do que eu imaginava, é verdade, mas ela estava viva!
― Se você é a morte, cadê a foice?
― O que é isso, companheilo?! E eu tenha cala de memblo do paltido comunista? Você tá com uma visão muito atlasada das coisas. Só vim fazer a sua tlavessia. Se liga, blother!
― Se eu estou morto, como é que eu ainda sinto dores no corpo? ― insisti na negação do óbvio.
Ela me explicou que demorava um tempinho para o espírito se desligar das sensações do corpo. À medida que eu ia me acalmando, ela ia me dando mais detalhes. Contou-me que não era a morte propriamente dita, mas apenas trabalhava para a MORTE, uma empresa terceirizada e especializada na travessia de pessoas do mundo material para o mundo etéreo. Coisa fina, negócio profissional e lucrativo, já que morre gente o tempo todo. Seu nome era Rosália, mas achava muito careta e preferia ser chamada de Pústula, pequeno tumor na pele com supuração, apelido dos tempos de hardcore, da época em que era viva, no início da década de oitenta. Disse que acabara de conseguir o emprego, através de um concurso público celestial, concorrendo com mais de 20 mil candidatos por vaga. Ela fora lotada no departamento de mortes no futebol, na divisão do futebol brasileiro, o que a desagradou um pouco, pois sua preferência era a área de Rock’n Roll. Mas não tinha do que reclamar, já que recebia um bom salário e um excelente plano de saúde. Achei legal a MORTE se preocupar com a saúde de seus funcionários. Sua missão era fazer a passagem de todos os torcedores do Santa Cruz.
― Vixe! E tem isso, é?
― E então! Os calas mollem muito do colação.
― Faz sentido.
Ela me disse que eu já havia sido julgado, mesmo sem a minha presença e que minha sentença era ir para o Umbral, uma zona obscura cheia de pessoas que não eram boas o suficiente para ir para o céu, nem ruins demais para serem jogadas no fogo do inferno. Paciência, eu já estava acostumado à segunda divisão, o que, afinal, poderia ser pior?
Mas, já que eu estava morto, queria saber mais coisas do além e do aquém. Sabe como é, né? Descobrir de onde viemos, pra onde vamos e, principalmente como acabar com o Clube dos 13. Fiz então uma pergunta inevitável.
― O Santa vai para a primeira divisão?
― Pensei que você, como todo mundo, quelia saber plimeilo se Deus existe.
― Isso também, mas me responde primeiro sobre o Santa.
Ela hesitou. Tem coisas que os olhos transmitem com mais precisão do que mil palavras. Lembrei que eu era o número 37 e ela ainda teria mais tricolores pra pegar. Felizmente, os trinta e seis antes de mim, ainda não tinham sido recolhidos, pois eu furara a fila, prática comum na terra, mas o primeiro caso no além. Tricolor que só a gota estavam prestes a morrer. Só uma derrota mataria tantos assim de uma só vez! Uma tragédia sem precedentes.
Primeiro fiquei mudo, depois puto e fui logo chutando o pau da barraca. Amaldiçoei o céu e a terra e todos os seres, vivos, mortos ou extraviados. Estava disposto a tudo. E se o Santa não iria à primeira divisão por bem, que fosse por mal. Invocaria o Capeta! Proporia um negócio! Venderia minha alma! Isso mesmo! Duvido que o Tristonho não topasse! Todo mundo no além sabia que o Pé Preto tinha um comércio clandestino de compra e venda de almas. Até mesmo eu, que acabara de chegar. Eu ainda não tinha nem me decidido em vender minha alma e o Cão Danado já estava diante de mim.
― Menino, as notícias voam, né? ― disse, surpreso com a rapidez da chegada da Besta Fera.
Se Deus sabia e via tudo, o Mal Cheiroso pelo menos tinha um serviço de inteligência de dar inveja aos americanos. Além de tudo, era um bicho prestativo da peste! Precisou, ele já estava lá!
Falar no Coisa Ruim, o bichano me pareceu familiar. Olhei o Vermelhinho de um lado e do outro e deu um estalo! O Tratante era a cara de um diretor da coisa. Dava até umas baforadas no charuto! Igualzinho! Se não fosse o próprio, tinha ao menos parentesco.
Pedi identidade, pois não negociava com dirigentes da coisa, fosse qual fosse o motivo. O Medonho me olhou irritado e, na falta de um documento emitido pela Secretaria de Segurança Pública, fez um truquezinho barato pra provar sua identidade.
― Né assim não, rapaz! Isso aí até Deivide Coperfrio faz!
O Bichão já tava sem paciência, mas foi obrigado a fazer umas mágicas esparrentas pra provar quem era. Tirada a identidade do Cabrão a limpo, fomos ao que interessava.
― Por que me invocaste? ― perguntou o Mafarro, fazendo gestos teatrais de dar inveja a Paulo Autran.
― A bem da verdade, invocar, eu num invoquei não! Antes de eu dizer qualquer coisa, tu que já chegasse mais invocado que Chiló, sanfoneiro da Sanfona Coral!
O Bichano já tava soltando fumaça pelas ventas, quando resolvi acelerar a prosa e ir direto ao ponto, sem entrementes. O Canho foi demonstrando interesse por aquela conversa de revenda de alma de segunda mão, ouviu cada palavra sem me interromper e depois assentiu. “Educado, o Chifrudo!”, atestei para os devidos fins. A minha parte no trato era ir com ele para o inferno. Como eu não era versado nas coisas do além, dei de ombros concordando com o Demo. Mas antes, impus uma condição. Ver o jogo. Ou isso ou nada! O Cão Sarnento quase me manda pros quintos dos infernos, lugar que eu já ia mesmo, mas acabou concordando. Botamos tudo no papel e registramos no cartório João Roma.
Tudo sacramentado por um tabelião juramentado, fomos os três para o Arruda assistir ao jogo. Foi uma coisa linda! Valeu o sacrifício. Mesmo assim, o Medonho, muito dum escroto, deixou a Portuguesa fazer o primeiro gol, só de pirraça, e, ainda por cima, provocou aquela lambança toda nos Aflitos, só para fazer gréia com a gente, pro Santa não ser campeão. Tinha nada não. Estava satisfeito e cumpriria alegremente minha sentença mortal. Despedi-me de Pústula, minha primeira amizade post mortem, e parti com o Bodão para além das trevas. Só fiquei triste mesmo de não poder dizer a Perrusi que, não só Deus existia, como o Diabo também.
Já se passaram quase dois anos desde a minha morte e em novembro, saio em condicional, por bom comportamento. É que, para os padrões do Inferno, eu sou um santo. E se vocês querem saber, o lugar não é de todo ruim. A cerveja é quente, é verdade, mas a gente vai levando. Só fiquei meio puto, quando soube que o Dubadubá deu uma mãozinha, no ano seguinte, para a queda do nosso time para a Série B novamente. A gente não pode mesmo confiar no Pestilento.
Mas uma coisa ainda me conforta. Soube que tem gente que já passou pelo clube e está com um lugarzinho guardado por aqui. Breve, breve, terei companhia. Aí a cobra vai fumar.