Torcedor Coral | Crônica

Torcedor Coral

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Cardápio de um tricolor

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Amigos do blog, aqui vos escreve o mais novo nutricionista do Torcedor Coral.

Tenho ouvido em rádios e comentários que a coisa está temerosa que nossa torcida deprede, estrague e destrua a casa de festejos. Eu também ficaria com medo, se fosse o contrário. Receber aqueles coisinhos em nossa casa é de dar medo mesmo. Mas, antes de qualquer coisa, aviso que sou, aliás, acho que somos severamente contra qualquer atitude violenta.

Mas, por se tratar de uma situação incomum, não poderia passar em branco não tirar uma gréia naquele chiqueiro. Por isso, vou revelar para vocês a idéia que eu tive.

Na sexta feira, meu café da manhã será vitamina de mamão com granola. Almoçarei uma buchada com molho de cabidela por cima do pirão, regado a umas cervejinhas. Para jantar, algo com bastante repolho. Durante esse dia, tomarei quatro “imosecs” (remédio para arrolhar as tripas).

No sábado, meu café da manhã será no Mercado da Madalena, comendo uma língua ao molho madeira com vitamina de abacate. Daí, o dia todo de tira-gostos como sarapatel, moela de galinha, carne de porco guisada e cerveja. Mais quatro “imosecs” durante o dia.

No domingo, de café da manhã uns ovos temperados e batata doce. Depois, mais tira gostos como cabidela, feijoada, quiabada. Jogo do Santa: salsichão, cachorro quente e coxinha de aquário. Mais 4 imosecs no bucho.

Na segunda, amanheço inchado e com a barriga doendo por ter comigo esses carregos todos e não ido ao banheiro (os “imosecs” não deixaram). Já estarei gases até as orelhas e respirarei com dificuldades. Mas, o tratamento continua. Cupim guisado no almoço, pão com ovo no café da manhã e jenipapo no jantar. Mais quatro “imosecs” para lavar a alma.

Terça-feira, nem tudo vai bem comigo. Já estou com uma pequena febre e não consigo nem mais dirigir. Minha esposa já não quer estar no mesmo ambiente que eu com medo que essa bomba atômica que está se formando há quatro dias exploda. Meu chefe no trabalho já me liberou sob efeito do mesmo medo. E tome imosec no bucho, acompanhado de uma dobradinha e de umas calabresas fritas bem gordurosas.

Quarta-feira. Acordei lembrando que temos que meter 2×0 no poderoso Fast-AM e que jogaremos no chiqueiro. Passo o dia passando mal. Mas, nada que uma batata doce com ovo e uma rabada no almoço não resolva. Mais imosec. Chega a hora do jogo e já havia recebido três ligações de Bin Laden querendo me pagar milhões para realizar outro atentado terrorista contra os EUA. Chegou a hora do jogo. Mais um salsichão para lavar e mais remédio no bucho. Dessa vez, não é “imosec”, dessa vez, tomo “Gutalax” (primo do imosec, porém com efeito contrário). Quando as primeiras gotas do remédio atingem meu dilatado estômago, um cogumelo nuclear se forma em meu aparelho digestivo. Lembram daquela vitamina de mamão com granola que tomei na sexta pela manhã? Pois é, ela seria a primeira a sair.

Obviamente, entro no chiqueiro e nem vou às arquibancadas, procuro logo o banheiro mais próximo. Encontrando, lá fico durante os 90 minutos do jogo. Mas emoção do que descarregar todo o acumulado só os gritos dos 4 gols que o Santa fez. Acaba o jogo, perdi o jogo todo, mas, ao olhar para o banheiro e saber que a diretoria da coisa vai ter que pagar para alguém limpar o pandemônio que deixei para trás durante 90 minutos de diarréia, saio com a sensação de dever cumprido. Afinal, chiqueiro sem merda em abundância, não é chiqueiro.

Bem gente, vamos ao jogo torcer, mesmo sendo no chiqueiro, vamos sem violência nem depredação, vale fazer faixas, brincadeiras e tudo mais, só não vale fazer nada que não gostaríamos que fizessem conosco.

Um grande abraço, e, quem quiser me acompanhar no meu cardápio light, basta me procurar.

Quero voltar para a Matrix!

 

Montagem: Dimas Lins 

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Dimas Lins

Imagine o cenário. Você tem um bom emprego e uma confortável situação financeira. Tem também o melhor carro que o seu dinheiro pode comprar e sua namorada é a gatinha mais gostosa do pedaço. O nível de violência na cidade é extramente baixo e a população, mesmo a menos abastada, leva uma vida digna.
 
O Arruda é um estádio de primeiro mundo, os administradores gerem o Santa Cruz com transparência, o clube não tem dívidas e não há dinheiro mal empregado. Ao contrário, o clube registra grandes lucros e investimentos e é um dos mais poderosos do planeta bola. A torcida que era a maior do nordeste, agora é a maior do país e conquista novos adeptos em todo o mundo. O Santa já foi campeão brasileiro e da Copa Libertadores da América diversas vezes e o campeonato mundial mais recente que conquistou foi exatamente o da última temporada contra o Barcelona. Sua vida pode não ser perfeita, mas é muito próxima do que você desejaria para si mesmo.
 
Aos poucos você percebe que alguém começa e seguir seus passos. Passam-se dias até que finalmente um desconhecido chega a você. Ele lhe diz que o mundo real é muito diferente daquele que você conhece. Diz que você vive numa ilusão. Que a sua felicidade é produzida artificialmente.
 
O estranho então lhe dá a possibilidade de escolher entre continuar vivendo na ilusão ou descobrir realmente em que mundo você vive. Você pensa e, feito um tabacudo, resolve tomar a pílula vermelha, aquela que lhe fará acordar e perceber o verdadeiro mundo a sua volta.
 
Você acorda e descobre-se numa espécie de incubadora e seu sangue serve de alimento para uma escrotice chamada Matrix. Você está entrevado, sua cabeça está raspada e você acaba sendo jogado fora como um produto de baixa qualidade, um refugo. Depois você é finalmente resgatado por aquele sujeito que lhe ofereceu a possibilidade de lhe mostrar a verdade. E você a vê.
 
Ao contrário do mundo virtual, você está desempregado, não tem carro, é barrigudo e sua namorada é uma mocréia. A violência na cidade nunca esteve num nível tão alto e maioria da população é tão fodida quanto você. Há surpresa e indignação em seu coração, mas ao menos seu time é a maior potência mundial. Não é.
 
Seu time nunca foi campeão mundial e sempre passou longe da Copa Libertadores da América. Também nunca estampou em seu escudo uma estrela que represente o título de campeão brasileiro. Você não acredita nisso. É muita coisa ruim jogada ao mesmo tempo no seu quengo.
 
Você já tinha aceitado o fato de estar lascado, namorar uma mocréia e encontrar uma fila de ladrões lhe esperando na porta do supermercado. Você tinha aceitado tudo, mas tem dificuldade em acreditar que seu time é uma bosta. Quer tirar tudo isso a limpo e resolve assistir ao próximo jogo do Santa Cruz.
 
O jogo é no campo do adversário. O rival é um time que ameaçou fazer greve durante toda a semana por estar com quatro meses de salários atrasados. Há a possibilidade, inclusive, de os juniores entrarem em campo para jogar contra seu time, caso os profissionais cumpram a promessa de greve.
 
Começa o jogo e são os profissionais, não os juniores, que entram em campo, embora o adversário esteja sem cinco titulares. Seu time perde gols feitos e falha assustadoramente na defesa. Depois de muito sacrifício, seu time faz um gol, mas enquanto você ainda está comemorando, o adversário empata a partida.
 
Vem o segundo tempo e um jogador adversário é expulso. Seu time domina as ações, tenta atacar desordenadamente, mas não consegue marcar um gol. O adversário que é ruim, mas é menos ruim do que seu time, aproveita a chance e faz o gol da vitória, mesmo com um jogador a menos. Você não compreende como jogadores tão ruins estão vestindo a camisa do seu clube. Você não entende porque um técnico fraco e ultrapassado está à frente do comando da equipe. Você então pergunta ao filho da puta que lhe deu a pílula azul qual foi a merda que aconteceu com o Santa, afinal.
 
Ele explica que seu time já foi forte no cenário brasileiro, mas que tudo isso é passado. Que, ao longo desses anos, diversos administradores incompetentes, para dizer o mínimo, levaram seu clube para o buraco. Que em 2006 seu time teve a pior campanha da séria A de todos os tempos, foi rebaixado para a segunda divisão e está correndo sérios riscos, agora em 2007, de cair para a série C, enquanto os dois maiores rivais voltaram à primeira e, ao que parece, continuarão por lá. Que a torcida fez uma revolução e colocou na presidência alguém que achava capaz de devolver a esperança e o orgulho de ser tricolor. Que esse presidente deu uma dica de como seria sua administração, ao anunciar um técnico, no dia da vitória eleitoral, e o cara não estava nem aí. Que o campeonato pernambucano foi uma desgraça e nós chegamos a temer o rebaixamento. Que ele insistiu com Charles Muniz, um preparador físico que nunca quis ser técnico de futebol, por muito mais tempo do que deveria. Que perdemos a preparação para a segunda divisão por teimosia do presidente. Que o departamento de futebol do Santa Cruz não vale aquilo que o gato enterra. Que depois de muito errar, o presidente achou pouco e contratou Mauro Fernandes. Que mesmo o time fazendo uma das campanhas mais medíocres da história coral, o presidente já anunciou que o atual técnico permanecerá para a próxima temporada. Que a atual administração está desperdiçando, sistematicamente, o maior apoio popular da história do clube e a chance de fazer um Santa Cruz mais forte. E, finalmente, que a torcida cansou de assistir a tantas coisas ruins juntas ao mesmo tempo.
 
Você então olha o sujeito da pílula atravessado. Afinal, da noite para o dia você perdeu tudo e seu time é uma bosta. Você toma o potinho cheio de pílulas das mãos dele e, à força, faz o sujeito engolir uma a uma até ele ter caganeira. Chama o sujeito de filho da puta até cansar, mas você não cansa.
 
E já que você está acordado, exige mudanças. Você não quer voltar ao passado, mas já não agüenta mais o presente. Você sabe diferenciar o joio do trigo, mas percebe que o trigo é de baixa qualidade. Percebe que tudo está uma bosta. Você está tão puto que descobre que não consegue mais escrever outra palavra, senão bosta. Os jogadores são umas bostas, o técnico é uma bosta, o departamento de futebol, se existir, é uma bosta, a administração do clube é uma bosta e você, como torcedor tabacudo que é, por sofrer por um time de peladeiros – sem ofensa aos peladeiros – também é uma bosta.
 
Desesperado, você sai pelas ruas da cidade procurando alguém que possa lhe ajudar e quando o encontra, grita em sua direção:
 
- Agente Smith, quero voltar para a Matrix!

Se a moda pega…

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Dimas Lins
 
Esse negócio de processo está virando obsessão. Tem tricolor se aproveitando do litígio entre um ex-presidente do Santa Cruz e o Blog do Santinha, para processar também o Torcedor Coral. E como os amigos do blog campeão resolveram botar a boca no trombone, eu decidi fazer o mesmo, para ver se pego uma carona nesta campanha de solidariedade. O problema é que, ao contrário dos amigos Inácio França e Samarone Lima, eu estou completamente descoberto de razão.
 
Na verdade, eu ainda não estou sendo processado. Por enquanto, é só uma ameaça. É que hoje pela manhã meu carro foi fechado deliberadamente por outro veículo numa das avenidas de Recife. Do jeito que a cidade está, cheguei a pensar que era assalto ou seqüestro relâmpago. E antes mesmo que o interceptor dissesse alguma coisa, eu já havia repassado minha carteira, relógio e celular.
 
Para minha surpresa, o cidadão era tricolor e sabia meu nome. Primeiro, fiquei aliviado em saber que era um conhecido. Depois, fiquei mesmo preocupado, pois o sujeito estava com uma cara feia de dar medo. Mesmo assim, já que não era assalto, pedi de volta meus objetos pessoais.
 
Disse ele que era freqüentador assíduo do Torcedor Coral e andava meio emputecido, porque o blog não estava sendo atualizado com a periodicidade adequada. Reclamou, por exemplo, que não saiu uma notinha sequer sobre o jogo contra a Portuguesa. E, já com o dedo em riste, disse que o último texto que estava lá, tinha sido publicado originalmente no Blog do Santinha. Uma vergonha!
 
Como não sou louco – o trânsito estava paralisado com nossos carros fechando a rua – dei logo razão para o querelante. Tentei explicar que andava sem tempo, que o único trabalho pelo qual sou pago exigia a minha atenção e que meus dois filhos, que ainda não tenho, estavam me dando muito trabalho - só em pensar em tê-los, fico muito cansado! Não adiantou.
 
O nobre leitor tirou do porta-luvas do seu carro um papel com uns rabiscos que, supostamente, tratava-se de uma queixa-crime contra o blog. Ameaçava, caso não fosse atendido, entrar na justiça ainda hoje se eu não publicasse um texto. “Qualquer um”, dizia ele, contanto que eu atualizasse o blog e falasse alguma coisa do jogo contra a Portuguesa. A fim de tentar evitar mais um processo a blogues corais, ali na hora, fizemos um acordo: prometi que atualizaria o Torcedor Coral antes da noite e, em troca, ele deixaria de lado o processo. Ah, também carecia que ele ficasse menos exaltado, já que barulho, para mim, só da torcida do Santa em dia de jogo.
 
Resolvido o impasse, fomos almoçar juntos. Tive curiosidade em saber o que ele pediria a título de reparação. Disse ele que pediria de indenização o pagamento da conta de sua internet banda larga, pelos próximos cinco anos. Achei um exagero, embora fosse bem menos que a indenização pedida ao Blog do Santinha. Mesmo assim, saquei os últimos vinte mangos que tinha no bolso e paguei o almoço para evitar alguma reviravolta no caso. Ainda bem que levei o nobre tricolor para comer um PF.
 
Embora satisfeito com o acordo, o amigo, antes de partir, ainda ameaçou me processar, caso eu também não atualizasse o Estradar, pelo menos três vezes por semana. É que ele vem acompanhando o blog e tem achado muito bacana os textos que lá estão publicados. "É melhor do que novela!", disse com alguma animação.
 
Para não dar chance ao azar, procurei os advogados de Inácio e Samarone para pedir uma opinião. Um deles me disse que o meu direito não era bom. Por isso, com o parecer do nobre advogado em mãos, pedi dispensa do trabalho e corri para casa a fim de atualizar o blog. E aqui estou eu. E só não divulgo o nome do leitor, porque tenho medo de ser processado ao citar seu nome em vão.
 
Ah, ia esquecendo: contra a Portuguesa a gente bem que poderia ter saído com a vitória.

O Balé e o Santinha

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Artur Perrusi

Pois abandono papagaio, cachorro, ornitorrinco, criança com asma, Scarlett Johansson (sim, até mesmo!), o escambau, para assistir aos jogos do Santinha; por isso, cobro assiduidade a todos os ditos tricolores. Lugar de tricolor é no Arruda, já diziam cantos imemoriais.

Chego cansado de Jampa e telefono imediatamente ao Editor-Mor.

– E ?! A gente se encontra no jogo?
– Artur,
não vou ao jogo

A voz de Dimas estava baixa, quase sussurrando.

Como?!
Não vou ao jogo

Ainda continuava baixa. Estava estranha, meio distante.

Não vai ao jogo?!
– É,
não vou.
Como não vai?!

Fiquei preocupado. Somente uma desgraça impediria Dimas de ir ao jogo. Pensei numa lista infindável de catástrofes.

Outro avião da TAM caiu?
Não, não é isso, não.
Você entrou para o Cansei?

Não existe maior tristeza do que um tricolor cansado

Não, nada disso, Artur.
Então, o que é, carai!?
– E-u-v-o-u-a-u-m-b-a-l-é…
– O
quê?!

Bati o celular na mão. Não escutava direito; além do mais, sou meio surdo.

– Vai o quê?!
– A
um balé
– A
um o quê?!
Porra, Artur, eu vou a um balé!!!
Balé? O que é balé?

Sim, caros tricolores, o que era um balé diante do espetáculo cósmico entre o Santinha e o Criciúma? A pergunta misturava metafísica com perplexidade.

Balé é uma representação dramática em que se combinam a dança, a música e a pantomima, e que comporta um enredo suscetível de ser expressado claramente através dos gestos e movimentos da dança – disse Dimas de uma forma extremamente blasé.
Balé!!!
– É, Artur,
balé. Um balé russo…

Cai no chão de tanto rir. Contorcia-me de dor. A barriga parecia a sanfona de Chiló. Fazia tempo que não escutava algo tão engraçado. Dimas tem uma veia cômica nunca dantes suspeitada. A maioria pensa que o cabra é um tanto sentimental e melancólico, afeito a escrever crônicas intimistas e poesias com versos alexandrinos – que nada! Ali estava a prova de que era hilário.

Rapaz, essa foi boa. Caí feito um patinho. Quase pensei que você fosse trocar o Santinha por um balé russo…
– É
verdade, Artur.
– O
quê?!
Eu vou a um balé russo.

Ao escutar isso, ao tentar acreditar nisso, tive o que os psicólogos chamam de dissociação cognitiva. Era demais para minha alma frágil e perturbada. Comecei a balir… Depois, tentei pequenos vôos de galinha, como a economia brasileira, e cacarejava…

– Artur, calma, calma, é um balé

Comecei a balbuciar frases sem significado, até que surgiu um raio de lucidez:

– Russo?! Russo vai dançar balé? Tinha que ser um burro-negro!
Não, Artur, é russo da Rússia. Um balé russo.

comecei mesmo a gritar:

– Russo?! O que é que os russos têm a ver com Santinha, porra!? Putnin é tricolor?
-
Nada a ver, Artur. Tem o jogo, tem o balé, vou ao balé.

Fiquei em silêncio. Russos… Será que balé era uma metáfora de máfia? O que Dimas queria com os russos? Será que isso explicaria a sua fortuna? Ele ganhava em rublos? Comecei a suar frio.

– Você vai falar com a MSI, com Abramovitch, com Kia Joorabchian?! Vai trazer dinheiro sujo para o Santinha? Tudo bem, tudo bem, pelo Santinha, eu vendo a alma, mas quero uma participação na dinheirama; afinal, o salário de cronista está de lascar!
– É um simples balé, Artur. Apenas um balé russo. Juro. Olha, vou ter que desligar, pois estou me aprontando. Mande-me uns torpedos sobre o jogo, por favor.
Claro, claro

Desligou.

Meio taciturno, botei meu boné e me mandei para o Arruda. Com os olhos rútilos, falei dos russos ao taxista e, no final da viagem, perguntei se aceitava uns copeques. Já no campo, encontrei a família Lins. Pareciam de luto. Quando falei da Rússia, de Lênin, de Trotski, de Stalin e de… Barishnikov, Felipe cuspiu fora a cerveja Frevo. Seu rosto estava azul de raiva. Joãozinho, então, jogou um retrato de Dimas no chão, pisou nele e exclamou:

Traidor! O Santinha não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante do que isso! Trocou por um balé!
Ainda mais russo (vai ver que é ucraniano e ninguém sabe)… falei baixinho, ainda amargurado com a estória.

Bem…er… comprei uma malha tricolor para Dimas. A esperança é a última que morre. Que goste de balé, que dance balé, que ensine balé, mas que, pelo menos, vista-se a caráter.

E o jogo?

Ah, o jogo foi uma maravilha; aliás, maravilha mesmo foi a torcida! Jogamos até arrumado, mas a palavra-chave foi a seguinte: raça! E temos um deus da raça: Carlinhos Paraíba! Como corre o rapaz, como luta, como sua a camisa, como respeita o Clube do Santo Nome. E ainda temos Hugo… Se fosse o técnico, escalava-o como primeiro volante; Paraíba, o segundo. E teríamos dois volantes de primeira.

Voltou a esperança. Certo, certo, não falo de voltar à primeirona. Otimismo é uma filosofia cruel, e o pessimismo é o assassino da ação – fiquemos num doce ceticismo! Assim, por enquanto, só falo de escapar do rebaixamento. Voltar à primeira divisão, somente um milagre de proporções escatológicas. Possível, claro, mas improvável. Se jogar o resto do campeonato como jogou essas duas últimas partidas, pode ser, mas é muito difícil manter esse ritmo. O Santinha jogou como se fosse uma decisão, um título – há fôlego para jogar todas as partidas assim, superando-se a cada jogada? Não sei…

Mas o Santinha não é o clube dos milagres?!

A peleja de um tricolor com o diabo

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Dimas Lins

Transmissão simultânea com o Blog do Santinha

 
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Nesses anos todos, eu já passei por poucas e boas, já pintei o sete, o oito e o nove, mas teve uma que foi inesquecível. Foi em 26 de novembro de 2005, data do último jogo do campeonato brasileiro da Série B e o dia em que eu… morri. Isso mesmo, o dia da minha morte. Não tenha pressa, se abolete na cadeira e preste bastante atenção, que o caso foi sério. Foi mais ou menos assim.
 
Naquela manhã, eu levantei da cama tremendo mais do que um paciente antes do exame de próstata e fui ligeirinho para o chuveiro. A água descia numa temperatura de quase 50 graus e, ainda assim, eu batia o queixo. Não era frio, mas uma tremedeira nervosa, angustiada. Como eu ia assistir ao jogo mais importante do Santa nos últimos anos, assumi certo ar solene e decidi, mesmo tremendo bastante, fazer a barba. Queria cumprir um dever cívico de cara limpa, coisa que fazia uma vez a cada quinze dias e olhe lá.
 
Sem grana para um barbeador elétrico, peguei o meu Prestobarba, com mais quilômetros rodados do que meu carro e mais cego do que policial rodoviário quando recebe toco, e comecei a passar a navalha na carne. A primeira lâmina fez tchan e eu já fui levando o primeiro corte; a segunda fez tchun e veio mais um talho; quando a terceira fez tchan-tchan-tchan-tchan e o sangue escorreu pela pia, eu gritei um sonoro “puta que pariu!” e acabei com a aquela frescura de solenidade, que isso era coisa de barbie ou suzie.
 
Vesti o manto sagrado coral, peguei o radinho de pilha, coloquei o fone de ouvido no ouvido, abri a porta do apartamento e chamei o elevador. Ainda estava tentando sintonizar alguma rádio, quando puxei a porta da cabine. Olhando para o rádio, avancei dois passos e senti o chão vacilante. Não havia vacilo, aliás não havia nem mesmo chão. O elevador descumprira a sua parte no acordo de atender ao chamado dos usuários. Levei alguns segundos para cair do 15º andar até o chão. E, antes que me perguntem, essa história de que você consegue ver toda a sua vida passando na sua mente é balela. Conversa fiada! Na hora, o cabra só tem tempo de pensar na plaqueta obrigatória na entrada de todos os elevadores da capital recifense. E pode ser que nem chegue ao fim do parágrafo.
 
Aviso aos usuários, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Lei municipal Nº 177 de 03 de outub…
 
De lascar é que eu lembrava da plaqueta, mas não de seguir sua instrução. Nessas horas, a gente pensa que só pode acontecer com os outros.
 
 
Acolde, númelo tlinta e sete!
― Hmmmm!
 
Tentei abrir os olhos, mas a claridade me cegava.
 
Acolde, númelo tlinta e sete!
 
Só podia ser comigo! Ocorreu-me então uma estranha sensação de participar do filme A última Profecia, quando a personagem de Laura Linney tem um sonho que termina com esta frase. A diferença era que a voz do filme não se parecia com a de Cebolinha, personagem de Maurício de Souza.
 
Arregalei os olhos e vi uma moça, com aparência de uns vinte e poucos anos, com cabelos curtos, bem pretos e espetados, com uma maquiagem nos olhos que mais parecia a máscara de Zorro; camiseta, calça, jaqueta e coturnos pretos, uma coleira de cachorro no pescoço e piercings, muitos piercings. A bichinha podia até ser sinistra, mas que era uma gatinha, ah, isso era.
 
Quando eu tentei me bulir, senti um cheiro de rato morto e o corpo todo dolorido, como se um caminhão do lixo tivesse passado por cima de mim. Havia um cheiro forte de presunto saindo debaixo do lençol em que eu estava coberto. Não aquele de comer, mas o outro, de enterrar. Foi então que me lembrei da queda. Sim, a queda! Que sorte arretada! Escapei fedendo! “Melhor assim do que morrer cheiroso!”, pensei aliviado, citando o filósofo Falcão. "Um milagre! Deus existe!”, pensei esfuziante. Tava mais risonho do que copo d’água com  uma dentadura imersa.
 
A moleca deu uma gargalhada e pude notar um piercing na língua em forma de alfinete. Uma coisa nojenta! Isto explicaria, porque ela trocava o erre pelo ele.
 
― Tá rindo de quê, Cebolinha? – Perguntei, meio emputecido.
 
Ela respondeu um “nada não”, mas não conseguiu disfarçar o riso zombeteiro. Logo após, já com um ar solene, completou que estava na hora de ir. Perguntei para onde e recebi um “pala o outlo lado”, como resposta.
 
― Que lado? ― perguntei, já achando a conversa mais esquisita do que o nariz de Michael Jackson.
― Seguinte, tiozão! Ainda tenho outlas encomendas até o fim do dia e já estou bastante atlasada.
― Cebolinha, pega leve, que eu não estou entendendo patavina! ― respondi, já meio irritado.
― Tiozão, acolda pla Jesus! Você moleu!
― Ô Rainha das Trevas, tira a macaíba da boca que eu não estou entendendo piroca nenhuma do que você está dizendo! – respondi sem paciência, já levantando da cama.
 
Foi aí que aconteceu a coisa mais estranha. Com o impulso da minha tentativa de levantar, meu corpo flutuou descontroladamente pelo quarto. Ou eu tinha me transformado no Super Homem ou aquela conversa estava começando a fazer algum sentido. Ainda assustado, olhei em volta e percebi outras macas, algumas delas cobertas com lençóis brancos. Rapidamente, conclui que estava no necrotério de algum hospital.
 
A ficha caiu! Tomei um choque! Senti o coração acelerar e, ato contínuo, levei as mãos ao peito. Não tinha nada batendo lá! Nenhum tum-tum-tum! Tomei meu pulso e ele não pulsava. Comecei a me apavorar. Tentei correr, mas não tinha controle sobre os meus movimentos. Meu único recurso foi tentar, atabalhoadamente, nadar cachorrinho, para me afastar daquela agente funerária. Uma cena ridícula! Patética mesmo! Era a insustentável leveza do ser. Leveza, obviamente, pelo fato de agora eu flutuar. Insustentável, pois esse negócio de flutuar era coisa de barbie ou suzie e, além do mais, se de fato eu estivesse morto, não poderia assistir ao jogo do Santa.
 
― ei, ei, ei! Fica flio, tiozão!
― Sai pra lá, Belzebu! ― disse, já fazendo o sinal da cruz com os dedos indicadores.
― Belzebu é o cacete!
― Xô, cão danado! Pega a reta, véia!
― Na molal, velhinho, tu tá pagando um mico gelal.
― M-mas q-quem é você, afinal?
― Sacou ainda não, tiozão? Eu sou a molte! – conclui, soltando uma gargalhada sinistra.
 
Senhora e senhores! Eu vi a morte de perto e ela estava viva! Meio diferente do que eu imaginava, é verdade, mas ela estava viva!
 
― Se você é a morte, cadê a foice?
― O que é isso, companheilo?! E eu tenha cala de memblo do paltido comunista? Você tá com uma visão muito atlasada das coisas. Só vim fazer a sua tlavessia. Se liga, blother!
― Se eu estou morto, como é que eu ainda sinto dores no corpo? ― insisti na negação do óbvio.
 
Ela me explicou que demorava um tempinho para o espírito se desligar das sensações do corpo. À medida que eu ia me acalmando, ela ia me dando mais detalhes. Contou-me que não era a morte propriamente dita, mas apenas trabalhava para a MORTE, uma empresa terceirizada e especializada na travessia de pessoas do mundo material para o mundo etéreo. Coisa fina, negócio profissional e lucrativo, já que morre gente o tempo todo. Seu nome era Rosália, mas achava muito careta e preferia ser chamada de Pústula, pequeno tumor na pele com supuração, apelido dos tempos de hardcore, da época em que era viva, no início da década de oitenta. Disse que acabara de conseguir o emprego, através de um concurso público celestial, concorrendo com mais de 20 mil candidatos por vaga. Ela fora lotada no departamento de mortes no futebol, na divisão do futebol brasileiro, o que a desagradou um pouco, pois sua preferência era a área de Rock’n Roll. Mas não tinha do que reclamar, já que recebia um bom salário e um excelente plano de saúde. Achei legal a MORTE se preocupar com a saúde de seus funcionários. Sua missão era fazer a passagem de todos os torcedores do Santa Cruz.
 
― Vixe! E tem isso, é?
― E então! Os calas mollem muito do colação.
― Faz sentido.
 
Ela me disse que eu já havia sido julgado, mesmo sem a minha presença e que minha sentença era ir para o Umbral, uma zona obscura cheia de pessoas que não eram boas o suficiente para ir para o céu, nem ruins demais para serem jogadas no fogo do inferno. Paciência, eu já estava acostumado à segunda divisão, o que, afinal, poderia ser pior?
 
Mas, já que eu estava morto, queria saber mais coisas do além e do aquém. Sabe como é, né? Descobrir de onde viemos, pra onde vamos e, principalmente como acabar com o Clube dos 13. Fiz então uma pergunta inevitável.
 
― O Santa vai para a primeira divisão?
― Pensei que você, como todo mundo, quelia saber plimeilo se Deus existe.
― Isso também, mas me responde primeiro sobre o Santa.
 
Ela hesitou. Tem coisas que os olhos transmitem com mais precisão do que mil palavras. Lembrei que eu era o número 37 e ela ainda teria mais tricolores pra pegar. Felizmente, os trinta e seis antes de mim, ainda não tinham sido recolhidos, pois eu furara a fila, prática comum na terra, mas o primeiro caso no além. Tricolor que só a gota estavam prestes a morrer. Só uma derrota mataria tantos assim de uma só vez! Uma tragédia sem precedentes.
 
Primeiro fiquei mudo, depois puto e fui logo chutando o pau da barraca. Amaldiçoei o céu e a terra e todos os seres, vivos, mortos ou extraviados. Estava disposto a tudo. E se o Santa não iria à primeira divisão por bem, que fosse por mal. Invocaria o Capeta! Proporia um negócio! Venderia minha alma! Isso mesmo! Duvido que o Tristonho não topasse! Todo mundo no além sabia que o Pé Preto tinha um comércio clandestino de compra e venda de almas. Até mesmo eu, que acabara de chegar. Eu ainda não tinha nem me decidido em vender minha alma e o Cão Danado já estava diante de mim.
 
― Menino, as notícias voam, né? ― disse, surpreso com a rapidez da chegada da Besta Fera.
 
Se Deus sabia e via tudo, o Mal Cheiroso pelo menos tinha um serviço de inteligência de dar inveja aos americanos. Além de tudo, era um bicho prestativo da peste! Precisou, ele já estava lá!
 
Falar no Coisa Ruim, o bichano me pareceu familiar. Olhei o Vermelhinho de um lado e do outro e deu um estalo! O Tratante era a cara de um diretor da coisa. Dava até umas baforadas no charuto! Igualzinho! Se não fosse o próprio, tinha ao menos parentesco.
 
Pedi identidade, pois não negociava com dirigentes da coisa, fosse qual fosse o motivo. O Medonho me olhou irritado e, na falta de um documento emitido pela Secretaria de Segurança Pública, fez um truquezinho barato pra provar sua identidade.
 
― Né assim não, rapaz! Isso aí até Deivide Coperfrio faz!
 
O Bichão já tava sem paciência, mas foi obrigado a fazer umas mágicas esparrentas pra provar quem era. Tirada a identidade do Cabrão a limpo, fomos ao que interessava.
 
― Por que me invocaste? ― perguntou o Mafarro, fazendo gestos teatrais de dar inveja a Paulo Autran.
― A bem da verdade, invocar, eu num invoquei não! Antes de eu dizer qualquer coisa, tu que já chegasse mais invocado que Chiló, sanfoneiro da Sanfona Coral!
 
O Bichano já tava soltando fumaça pelas ventas, quando resolvi acelerar a prosa e ir direto ao ponto, sem entrementes. O Canho foi demonstrando interesse por aquela conversa de revenda de alma de segunda mão, ouviu cada palavra sem me interromper e depois assentiu. “Educado, o Chifrudo!”, atestei para os devidos fins. A minha parte no trato era ir com ele para o inferno. Como eu não era versado nas coisas do além, dei de ombros concordando com o Demo. Mas antes, impus uma condição. Ver o jogo. Ou isso ou nada! O Cão Sarnento quase me manda pros quintos dos infernos, lugar que eu já ia mesmo, mas acabou concordando. Botamos tudo no papel e registramos no cartório João Roma.
 
Tudo sacramentado por um tabelião juramentado, fomos os três para o Arruda assistir ao jogo. Foi uma coisa linda! Valeu o sacrifício. Mesmo assim, o Medonho, muito dum escroto, deixou a Portuguesa fazer o primeiro gol, só de pirraça, e, ainda por cima, provocou aquela lambança toda nos Aflitos, só para fazer gréia com a gente, pro Santa não ser campeão. Tinha nada não. Estava satisfeito e cumpriria alegremente minha sentença mortal. Despedi-me de Pústula, minha primeira amizade post mortem, e parti com o Bodão para além das trevas. Só fiquei triste mesmo de não poder dizer a Perrusi que, não só Deus existia, como o Diabo também.
 
Já se passaram quase dois anos desde a minha morte e em novembro, saio em condicional, por bom comportamento. É que, para os padrões do Inferno, eu sou um santo. E se vocês querem saber, o lugar não é de todo ruim. A cerveja é quente, é verdade, mas a gente vai levando. Só fiquei meio puto, quando soube que o Dubadubá deu uma mãozinha, no ano seguinte, para a queda do nosso time para a Série B novamente. A gente não pode mesmo confiar no Pestilento.
 
Mas uma coisa ainda me conforta. Soube que tem gente que já passou pelo clube e está com um lugarzinho guardado por aqui. Breve, breve, terei companhia. Aí a cobra vai fumar.

Cobra venenosa

    "A minha primeira paixão é o Santa Cruz, mas a minha primeira obrigação é com o Tribunal de Justiça."

    Bartolomeu Bueno, em pronunciamento de renúncia ao cargo de presidente do Conselho Deliberativo, após consulta ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ.

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