Uma mente brilhante

Dimas Lins   A maioria de nós já deve ter ouvido falar em John Nash, personagem central de Uma Mente Brilhante, interpretado por Russell Crowe. O filme foi ganhador de 4 Oscars e 4 Globos de Ouros.   John Nash é um gênio da matemática que, aos 21 anos, formulou um teorema que o tornou aclamado por toda a comunidade científica. Nash escreveu diversos artigos de matemática pura sobre variedades algébricas e de arquitetura de computadores paralelos, mas foi por seus trabalhos na área de economia que, em 1994, o americano ganhou o prêmio Nobel. Seus teoremas eram compreendidos por poucos, mentes privilegiadas, que tinham a capacidade de acompanhar seu raciocínio.   Mas John Nash era, acima de tudo, um homem doente, pois sofria de esquizofrenia, uma doença mental grave que se caracteriza classicamente por uma coleção de sintomas, como alterações do pensamento, alucinações, delírios e embotamento emocional com perda de contato com a realidade.   As atuações de Charles Muniz à frente do comando técnico do Santa Cruz me fizeram perder a capacidade de acompanhar o seu raciocínio. E mal o comparando a John Nash, cheguei à conclusão que Muniz tanto pode ser um gênio, compreendido por poucos, quanto pode sofrer de esquizofrenia, principalmente em relação aos sintomas de alteração do pensamento, delírios e perda de contato com a realidade.   O fato é que não consigo mais alcançar as pretensões de Muniz, desde o jogo contra o Marília, quando o treinador fez uma excelente leitura do primeiro tempo e alterações pra lá de esquizofrênicas, no segundo. A dose se repetiu contra o São Caetano, quando ele entrou com a defesa errada e, para piorar, num dado momento da partida, ficamos sem os dois volantes e com o atacante Thiago Almeida fazendo o papel de cabeça de área. Fiquei curioso pelas explicações do treinador na coletiva.   Repórter – Muniz, por que você sacou os dois volantes do time? Muniz – existem sistemas cartesianos de coordenadas – os chamados sistemas de inércia – relativamente aos quais as leis da mecânica, mais geralmente as leis da física, se apresentam com a forma mais simples. Podemos assim admitir a validade da seguinte proposição: se K é um sistema de inércia, qualquer outro sistema K’ em movimento de translação uniforme relativamente a K, é também um sistema de inércia. Repórter – Me desculpe, mas não entendi… Muniz – As leis que...

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Chão de Estrelas

Dimas Lins   Gosto de melodias e de boas composições. Pela minha idade, considero que grande parte dos mestres da Música Popular Brasileira marcou época na década de 70, pois foram da marca de sangue dos nossos mortos e da certeza de luta de nossos vivos que forjamos a melhor tradução do nosso povo. A mão que toca um violão se for preciso vai à luta e empunha flores contra os canhões.   Um período triste, mas fascinante do ponto de vista histórico. Alguns anos atrás, de enxerido, eu comecei timidamente a rabiscar algo que parecia se assemelhar a um romance sobre os anos de chumbo. Para entender o período, fiz uma pesquisa monstruosa, da juventude de Luiz Carlos Prestes à morte de Sérgio Fleury, mas nunca terminei o livro. Aliás, sequer ultrapassei um quarto do enredo. Um dia, quem sabe, ainda retomo a estória de Francisco, poeta e comunista, personagem principal de O País do Adeus, meu rabisco.   Mas eis que, como faço em diversas oportunidades, fujo do assunto. Já fiz isso tantas vezes, que me considero um fugitivo literário. Eu falava de canções e ontem estava, particularmente, em um dia musical. Pouco me importei com a frieza comercial do Dia dos Namorados. Afinal, já que era para ser frio, que fosse acompanhado de um bom vinho e da mulher amada. Talvez tenha sido até mesmo por causa do clima que eu rompi a barreira da década de setenta que, como disse, é a minha grande referência musical. Retrocedi no tempo e me vi em 1935, quando Silvio Caldas e Orestes Barbosa compuseram Chão de Estrelas. Àquela altura, já cultivava a idéia de um novo blog, Líricas, apenas para falar de música. Amenidades, mas coisa fina. Falta-me apenas coragem, pois o Torcedor Coral já toma bastante tempo.   Minha vida era um palco iluminado Eu vivia vestido de dourado Palhaço das perdidas ilusões   Mas tricolor que se preze, associa tudo ao Santa Cruz. Até mesmo Silvio Caldas, que não é muito a minha praia. E foi cantando o restante da música que pensei no escudo coral, salpicado de estrelas.   A porta do barraco era sem trinco E a lua furando nosso zinco Salpicava de estrelas nosso chão   Há tempos eu pensava em escrever sobre o assunto e, mesmo estando em mãos com um rico material da revista trivela gentilmente cedido pelo Lord Léo, não...

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Um dia de Telão

Caricatura: Baptistão Charles XVI Artur Perrusi Eu defendi Charles XVI. Digo logo, assim, dessa forma e sem expiação. Gosto de chocar. Provocação é meu nome. Fui o defensor do nosso técnico, a ponto de ser condenado ao ostracismo pelos tricolores; passei horas no bar da piscina e fui ignorado por todos — falava: – Charles é o técnico! E todos mudavam de assunto, olhando para o lado, evitando meu olhar, constrangidos. Inclusive, defendi tanto o cabra, forcei tanto a barra, que vi meu salário ser diminuído pela metade pelo Editor-Mor do blog.   Confesso que é difícil defender essa estranha criatura. Talvez, pelo fato de ser psiquiatra, goste tanto de seres esquisitos. Charles XVI é um cabra moderado, calmo e prudente, mas não tem carisma algum. Parece aquele padre de confessionário que, ao aconselhar o penitente, faz o coitado dormir, roncar, sonhar, tudo, menos se arrepender. Quando fala, é impossível não bocejar. Possui uma voz monocórdica e monótona. Podia ganhar fortunas combatendo insônia, mas, não, preferiu ajudar o Santinha.   Minha hipótese é que Charles falou demais com o time, e isso deu sono. Assim, o time entrou sonolento, sem gana, quase parando. No intervalo, mais falação, e tome bocejo, gente dormindo em pé, usando a chuteira como travesseiro. Charles possui um poder mutante e não sabe. Devia falar com o outro time. Temos que dar um jeito de acontecer essa situação — leva-se Charles, sorrateiramente, para o vestiário do adversário, e tome falação, e será a pasmaceira geral.   Mas eu gosto de Charles XVI. Ainda acho que nos levará ao Céu. Certo, atualmente, a diferença entre o Céu e o Inferno é sutil. É uma questão de ponto de vista; afinal, tudo é relativo, embora o irmão bad de Charles, o Bento Alemão, tenha tentado demarcar novamente as fronteiras entre o Bem e o Mal. Não conseguiu, é verdade. E, em se tratando do Santinha, muito tempo ainda rolará até que saibamos a diferença, também porque, convenhamos, Charles capricha na confusão.   E até que caprichou na escalação inicial contra o MAC. Eu venho tão desesperado que pedia pouco, muito pouco: só queria que não escalasse Adauto. Pedido de pobre, evidentemente. E, quando soube que Charles XVI tinha escalado Cláudio, virei um pinto na merda, feliz da silva e dava gargalhadas sem motivo – borbulhava um riso louco. Meu raciocínio era simples e lógico: jogamos bem contra o...

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Cisco no olho

Dimas Lins   Passei o final de semana com um cisco no olho. Foi insuportável. Começou no sábado, no início da noite, e até agora ainda sinto dor.   No começo, achei que fosse uma bobagem, um cisco qualquer. Depois, já bastante incomodado, pedi para minha esposa soprar no meu olho para tentar expulsar o fragmento invasor. Nada. Partir então para o lado científico e coloquei, inúmeras vezes, soro fisiológico. Nada. Já eram duas da manhã quando o desespero bateu e eu mergulhei o olho em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado e, mesmo assim, nada. Cansado e já meio sem alternativas, Arrisquei todas as fichas numa última tentativa. Talvez se eu chorasse, o grânulo de poeira pudesse ser expelido pelas lágrimas. Era só me concentrar em algo triste que eu sabia que a secreção límpida, incolor e salgada faria o resto. Pensaria no Santa Cruz, pois nada era mais desolador do que o jogo contra o Marília. Quem sabe eu não cairia no choro. Ao menos o resultado do sábado serviria para alguma coisa. Nem cheguei a me concentrar muito. Chorar foi fácil. Difícil foi parar. Rios de lágrimas depois e… nada! O argueiro ainda estava lá. Pensei com meus botões, “puxa, Charles, nem ao menos esse consolo?”.   Exausto, fui tentar dormir. O cansaço venceu a dor e eu, finalmente, caí no sono. De manhã, fui acordado pela sensação incômoda, desta vez, mais intensa. Repeti à exaustão tudo o que tinha feito na noite anterior e o resultado se manteve inalterado. Mesmo assim, só à tarde entreguei os pontos e me dirigi a uma emergência oftalmológica.   Além dos funcionários, não havia ninguém no hospital. Preenchi a ficha e me pediram para esperar. Perguntei se o médico estava atendendo algum paciente, não havia ninguém, mais mesmo assim, eu precisava esperar. Já que era assim, pedi então a gentileza de ligarem a TV, enquanto o médico terminasse de fazer seja lá o que fosse. Achei que a minha sorte ia mudar, pois antes mesmo de aparecerem as primeiras imagens na tela, já ouvi o narrador gritando o primeiro gol do Fluminense contra a coisa. Foi o meu o primeiro sorriso em 24 horas. Minutos depois, finalmente fui convidado a adentrar o consultório médico.   Enquanto a médica me examinava, percebi um olhar de espanto. Perguntei se estava tudo bem e ela, já um pouco preocupada, disse que...

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Telão Coral

Amigos do blog, Sem ânimo para falar sobre o jogo de ontem, deixo as fotos do Telão Coral ocorrido na sede social do clube. Se a disposição voltar, ainda hoje escreverei um texto, caso o contrário, só amanhã. Se alguém se habilitar, abro o espaço para o nobre torcedor. Ao amigo Marcelo Beltrão, deixo aqui a foto do seu bandeirão. Com isso, espero que ele desista de desistir do Santa Cruz este ano. Segue abaixo o link do álbum. Telão Coral: Marília x Santa Cruz, 09/06/2007 Saudações corais, Dimas...

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Uma paixão sem limites

Dimas Lins   Do ponto de vista lógico, torcer beira o irracional. Ser torcedor de futebol é algo paradoxal, pois é, ao mesmo tempo, mágico e patético. Mágico, porque a paixão que ele sente pelo seu clube é encantadora, extraordinária e maravilhosa. Patético, porque, analisando friamente, beira à tolice a volatilidade do comportamento do torcedor numa partida de futebol, cujo humor pode variar de zero a cem em frações de segundo, por causa do desempenho de onze jogadores em campo. O pateticismo é ainda maior se considerarmos que o objetivo desses jogadores é colocar uma bola, objeto esférico de couro cheio de ar comprimido, no fundo da baliza adversária, retângulo de 2,44 metros de altura por 7,32 metros de largura, em número de vezes maior que os jogadores do outro time. E, tudo isso, com exceção do goleiro, sem usar as mãos e braços. Esse esporte de regras simples é capaz de gerar rivalidades históricas e, em algumas situações mais extremadas, confronto entre torcidas.   Por definição, torcer é desejar a vitória de um grupo desportivo, gesticulando, gritando e incentivando. Qual é o sentido disso, afinal? Sejamos, por um momento, racionais. Olhando de fora, não parece uma coisa sem pé nem cabeça? Não seria uma tremenda falta do que fazer, passar um jogo inteiro correndo o risco de um enfarto, por causa de um time de futebol? Afinal, seja qual for o resultado do jogo, a sua vida não seguirá em frente do mesmo jeito? Não é estranho saber que por trás de toda essa coisa irracional existe uma indústria que movimenta bilhões de dólares por ano? Não é esquisito que todo o planeta pare, de quatro em quatro anos, para assistir um copa do mundo? Aliás, não é estranho perceber que nem mesmo as Nações Unidas conseguem agregar tantos países com culturas tão diversas em torno de algo em comum e com objetivos teoricamente mais nobres, quanto à FIFA?   A resposta a todas essas perguntas não se dá, obviamente pela razão. É a emoção, essa paixão sem limites, que dita a regra do jogo. É esse movimento impetuoso da alma, para o bem ou para o mal, que conduz o comportamento do torcedor, que o empurra a favor de um clube e o coloca em oposição a outros. Esse amor desenfreado estabelece uma relação entre o torcedor e seu clube mais estável do que muitos casamentos ou relações familiares. Esse vínculo é praticamente...

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