Sofrer é ter saudade

Imagem original: Rede Globo Artur Perrusi Artigo publicado no Blog dos Perrusi, em 15/06/2007 25 anos atrás… Bem, estava tetanizado diante da televisão. Queria chorar, mas não conseguia. Ante uma catástrofe dessa magnitude, geralmente fico esvaziado, em completo mutismo. Nada; não saía nada, a não ser silêncio. Tinha tomado todas — cego de tanta vodka; mas, agora, estava absolutamente sóbrio, careta feito uma porta. A televisão era o infinito, e eu  a olhava, hipnotizado. Ainda evitei uma briga entre dois amigos e, até hoje, não sei bem o motivo do imbróglio. Só sei que um queria pular na jugular do outro, e tive que impedir. Depois disso, todos ficaram na mesma situação, em silêncio, calados e vendo o tempo passar. Enfim, resolvemos ir embora. No caminho, vimos pessoas desesperadas, abraçadas e chorando, rasgando bandeiras, sentadas no meio-fio, perambulando pelas ruas feito zumbis. Recife estava trabalhando com muita dificuldade seu luto. O clima era fúnebre. No banco de trás, um dos amigos começou a chorar amiúde. O outro amigo pediu desculpa pela agressão passada, mas todos sabiam que não era por causa disso o choramingo. Era pela catástrofe. Foi a segunda maior tragédia do futebol brasileiro. Para a minha geração, foi a catástrofe; na história, ficou conhecida como o Desastre de Sarriá. Meu Deus, como eu amava aquele time! Como jogava bonito! Era arte, pura arte. Telê foi, antes de tudo, um esteta. Aquela derrota contra a Itália não teve apenas conseqüências nacionais; não, foi uma hecatombe de proporções cósmicas. Depois daquilo, o futebol mudou, enfeou e, com o tempo, virou business e puro resultado. Sinceramente, o que estava em jogo no Sarriá era o futuro do futebol. Quem ganhasse determinaria a evolução futura do esporte. Mas quem ganhou foi o catenacio, essa excrescência inventada pelos italianos. Vá lá, meus descendentes são italianos, mas como os detesto no futebol. Que jogo feio, que crime foi esse que cometeram? Como posso respeitar um futebol que acha 1×0 uma goleada? Os italianos jogam de forma fascista, ainda influenciados pelo longo perído mussoliniano. Não, não, mil vezes não! Mas não adianta lamentar: a arte, naquele momento, sucumbiu, virou uma mera resistência de românticos. O futebol brasileiro acabou ali. Um modo de jogar futebol foi-se, escafedeu-se, virou fóssil. Hoje, somos todos europeus —  a década de 90 e o último título mundial sacramentaram nossa europeização. 94, 2002? Certo, certo, tudo bem, mas não significam tanto para mim. Prefiro sinceramente 82, mesmo na derrota, mesmo perdendo. É uma questão...

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Análise qualitativa (e quantitativa)

Edição: Dimas Lins  Paulo Aguiar   Caros santacruzenses,   Em qualquer análise quantitativa não cabe aspectos de ordem qualitativo, ou seja, o diagnóstico dos números deve ser imparcial, refletindo apenas a apuração do momento, sem paixão ou qualquer outra variável exógena (externa) ao ambiente. Neste contexto, resolvi escrever este texto para tentar mostrar, com base nos números, a real situação do Santa Cruz na tabela e suas perspectivas de desempenho na série B.   Inicialmente, façamos uma associação entre a disputa do Campeonato Brasileiro da Série B e uma corrida de fórmula A3 no autódromo de Interlagos. Considere que teremos que dar 38 voltas ao longo do percurso (estes são os números de jogos), onde os quatro primeiros que terminarem as voltas se classificam para a Fórmula 1 e os quatro últimos serão rebaixados para a Stock Car.   Pois bem, atualmente acabamos de completar a 6ª volta (rodada), estamos com 15,7% (6/38 jogos) do circuito percorrido. Até este momento, estamos em 11º lugar, de um total de 20 pilotos. O detalhe é que o pelotão da frente está com uma ou duas voltas na nossa frente, ou seja, mesmo após a próxima volta (rodada), não temos como alcançá-los. E o mais alarmante: estamos vendo o ¨pelotão de trás¨ pelo retrovisor, relativamente próximo, já que tem carro que está na mesma volta que nós; logo, um deslize na curva e passamos a fazer parte dos que serão rebaixados para a categoria Stock Car!   Como esta corrida já foi disputada algumas vezes (embora em circuitos diferentes – ou seja, com regras diferentes), é sempre bom analisar seu histórico. Voltemos, então, ao Futebol e vamos esquecer um pouco a corrida da fórmula A3.   De 2004 a 2006, todos os times que subiram para a séria A apresentaram o percentual mínimo de 61% de aproveitamento. Em 2006 o último dos classificados para a série A (o vice-campeão) foi o América-RN com aproveitamento de 53,5%; em 2005 foi o Santa Cruz, com 64% e, em 2004, o Fortaleza subiu com um índice de 52,5%.   Como o nosso desejo (sonho) é voltar a Séria A, é sempre bom fazer comparações em relação à sexta rodada do campeonato da série B do ano passado, de 2006. Os quatro clubes que subiram à Séria A estavam, ao final da 6ª rodada, com 61%, 72%, 55% e 33% (Atlético-MG, Sport, Náutico e América, respectivamente)...

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Forró nupcial endinheirado

Quadro: Ignácio da Nega Manequinha   Amigos do blog, uma grande Semana Santa para todos!   Comecei essa semana com alguns grandes problemas para resolver e, como não tenho o portal para dimensões paralelas e desconhecidas, como descrito nos brilhantes textos de Dimas e Artur anteriormente, decidi descer dos saltos e pedir a humilde ajuda aos amigos do Blog. Eita, que nosso Santa me arranjou um monte de bronca.   A primeira delas é que, aos 30 anos de idade, acompanhando nosso Santa fielmente e assiduamente (e até religiosamente, posso dizer), durante pelo menos 18 anos, acho que deixei de entender o que é futebol nos nossos dois últimos jogos. No jogo contra o Marília, vi um time mal postado, mas, empatando de 0x0 fora de casa, sem ser nem incomodado nem ameaçado. Chega o intervalo e muda-se o esquema tático para, justamente, aquele que nos fez jogar os piores 45 minutos de todo o campeonato. Era impossível, depois disso, acreditar num bom resultado.   Chega o jogo contra o São Caetano. Amigos, sei que toda unanimidade é burra, mas, algumas vezes, burrice é não escutar a unanimidade. Todos, imprensa, torcida e acho que até os próprios jogadores do Santa sabiam que não ia dar certo escalar uma zaga lenta e sem entrosamento como tivemos. Gente DIDI e DUDU estão mais pra dupla sertaneja que dupla de zaga. Não falo pela idade, eles podem até individualmente, cada um na sua, ser bons jogadores, porém, nunca devem jogar juntos. Comparo os dois juntos com aquelas gotinhas de água que caem da Cordilheira dos Andes e que, 6.868 km depois se transformarão no maior volume de água doce do planeta: O Rio Amazonas. É uma reação futebolística em cadeia: em 20 minutos, dois gols bestas, levados por lentidão da zaga, tanto na antecipação, quanto na cobertura. Ainda pra agravar, na minha opinião, Gottardi não tinha que fazer nada fora da barra no segundo gol. Quando é para sair, ele não sai. Daí por diante, uma besteira atrás da outra. Ficamos sem volantes, depois, coloca Hugo (que devia ter entrado desde o início), no fim do jogo, um monte de entrevistas de jogador criticando esquema e Charles achando o resultado bom.   A segunda bronca é nosso décimo segundo jogador. Engano de quem pensa que é a torcida. Pela limitação financeira, pela limitação de jogadores e da comissão técnica, acho que nosso décimo-segundo jogador...

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O Santa Cruz é “Blues”

 Leonardo Jr. O Blues é um estilo musical que foi forjado pelo sofrimento. Era o lamento dos Negros na América do Norte, com saudades da terra querida, sofrendo com a escravidão, e depois com perseguição e racismo. Feito este intróito, deixem-me explicar.   Na terça-feira (12/06) entrei em contato com o Editor-Mor para explicar-lhe meu sumiço, tentando evitar um desconto salarial (vejam o que o correu com o Artur).  No meio do papo, revelei a ele que não compareceria ao embate contra o escrete azulado:   – Como assim? – Perguntou o Editor-Mor. – Não Vou. Na Sexta tem o Show do Robben Ford! – Quem? – Robben Ford! Um Guitarrista de Blues! É uma oportunidade única! O cara não vem muito ao Brasil, e quem sabe se virá outra vez a Recife… – É justo. – Ponderou um compreensivo Editor-Mor. – Além do mais, o sujeito precisa ter alguma alegria na vida Léo, já que o nosso Santa…   Depois da liberação do Editor-Mor, comprei o ingresso e me organizei para ir ao Show. A empolgação de ver um dos meus guitarristas favoritos contrastava com a angústia e a expectativa do jogo do Santa. Mas encontrei uma solução: combinei com meu irmão que ele ficaria me enviando torpedos com os lances da partida. Perfeito! Ele também não foi ao jogo, pois estava trabalhando, ficaria escutando e me manteria informado.   O Show iniciaria às 21h. Retardei ao máximo a minha ida, para acompanhar o início da partida pelo rádio do carro. Nada de importante aconteceu. Cheguei ao teatro, encontrei uns amigos, bati um papo e resolvemos entrar.   Mal eu sento na cadeira, o celular acusa o recebimento de uma mensagem. Meu coração bate mais forte:   – Gol do São Caetano.   Não acreditei. Comecei a imaginar como teria ocorrido esse gol. Lembrei de Dudu e Adriano e temi por mais… A inquietação só aumentava… Algum tempo depois, recebo outra mensagem:   – Goooooooooooool do Santa! Piauí!!!!!!!!!!!!! Matador!!!!!!   Dei um pulo da cadeira. Quase gritei Gol! Um amigo que estava ao lado levou um susto! Agora sim! – Pensei com meus botões (mesmo usando uma camisa de malha). Vamos virar! Vai ser uma vitória consagradora. Mais algum tempo se passa e outra mensagem. É agora! – Pensei. Mas era uma mensagem da minha esposa. Ela perguntava alguma coisa sem muita importância, e no final do texto,...

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Arena Coral: o projeto de modernização do Arruda

Arena Coral: projeto para os cem anos do Santa Cruz Dimas Lins   Transmissão simultânea com o Blog do Santinha   Já estava tudo pronto, uma fila de textos tanto no Torcedor Coral, quanto no Blog do Santinha, mas o maior projeto tricolor desde a ampliação do Arruda pediu passagem.   Ainda é um sonho, mas tem tudo para tornar-se real. O Santa Cruz Futebol Clube lançará no dia 28 de junho, às 11 horas, na sede social do clube, o projeto Arena Coral que visa modernizar o Arruda para a Copa do Mundo de 2014 que, provavelmente, será realizada no Brasil.   O projeto, orçado em R$ 150 milhões, prevê o complemento da arquibancada, com capacidade para 68,5 mil expectadores sentados, instalação de uma cobertura metálica em todo o estádio, independente da cobertura atual, construção de novas rampas, um estacionamento com capacidade para 2 mil lugares, além da modernização da estrutura existente. Também fará parte do projeto um prédio comercial, de área total de 65 mil m2, de oito andares, com cinco maiores e três menores, sendo que um deles ocupará a sede administrativa do clube e em outro serão instaladas escolas de arte e informática para inclusão social dos moradores da comunidade local. O prédio comercial será construído onde hoje está localizada a piscina social. É intenção da diretoria captar, no pacote de investimento, não apenas a modernização do estádio, mas também viabilizar o centro de treinamento.   Para garantir os recursos à Arena Coral, a Engipar, empresa especializada em mega-projetos de engenharia e contratada para captar investidores, está em negociação avançada com três bancos e um grupo de investimento. O modelo de retorno do investidor ainda não está definido, mas é provável que eles tenham direitos a exploração comercial do estádio por um período determinado.   Mas o projeto coral não é o único com vistas à Copa do Mundo de 2014. O governo do Estado lançou, junto com o caderno de intenções para a CBF, a Arena Recife/Olinda, como projeto oficial de Pernambuco para o mundial no Brasil.   O governador do Estado, Eduardo Campos, não esconde sua preferência pela nova arena. Entretanto, o projeto enfrentará algumas dificuldades, pois o principal investidor mantém a condição de vincular dois clubes locais ao novo estádio. Apenas o clube de Rosa e Silva aceitou, enquanto Santa Cruz e um outro clube de Recife consideram um risco muito grande...

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A mente de Charles

Artur Perrusi — Você vai fazer um texto decifrando a mente de Charles — disse o Editor-Mor, logo após o jogo contra o São Caetano.  — Eu?!… — Sim, você! — Mas… — Como “mas”? Você não é o maior defensor de Charles? — Fui o maior defensor de Charles… — Não importa. Você vai fazer mesmo assim, senão corto pela metade teu salário. — Você já cortou… — Então, corto a outra metade! Não tinha opção. O leite das crianças é sagrado. Meus três rebentos, Rivaldinho, Fumanchu e Nunes não podiam ficar sem o seu sustento. Assim, concentrei-me, repeti um mantra — volúpia, volúpia, volúpia — e tentei entrar na mente de Charles XVI. E… PUMBA! Isso foi o barulho da minha queda. Ao entrar na mente de Charles, bati num muro e caí da cadeira. Passei um tempo desacordado. Acordei, lentamente, e com uma baita dor de cabeça. Fui ao banheiro e notei, ao olhar para o espelho, um fio de sangue escorrendo do meu nariz. Credo, vai ser difícil entrar na mente de Charles. Como fazer tal coisa? Como ultrapassar aquele muro mental? Enquanto pensava sobre tais problemas, veio-me uma idéia fabulosa: preciso delirar! Sim, delirando, talvez possa entrar na mente do nosso técnico. O cabra não está nos deixando loucos?! Assim, quem sabe, a loucura revele os desígnios misteriosos de Charles. Mas, para tal, precisava de um potente alucinógeno. Ora, pensei, por que não tomar doses cavalares de Frevo? Afinal, além de vermicida, a Frevo alucina o cérebro. Na partida contra o São Caetano, por exemplo, tomei várias e, tenho certeza, tive uma espécie de surto psicótico: olhava o time e não via volantes. Teve uma hora que estava tão doido que vi Thiago Almeida jogando como volante!? Virei-me para Dimas e disse: — Carai, tô doido demais, tô vendo coisas: Thiago de volante! Foi então que notei a cara transtornada de Dimas. Seus olhos estavam rútilos de doidice. Nas suas mãos trêmulas, estava uma latinha de Frevo. Ele babava e repetia, baixinho: — não há volantes, não há volantes… Sim, era o efeito da Frevo. Peyote é fichinha na frente de nosso patrocinador. Era sem dúvida a solução. Tomando Frevo, poderia entrar na mente de Charles. Portanto, comecei a tomar. Depois da décima, o delírio tomou conta de mim. O Escudo do Santinha apareceu, sentou-se na mesa e disse, meio cochichando: — porra, não agüento mais...

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