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	<title>Torcedor Coral - Santa Cruz &#187; Crônicas</title>
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		<title>Torcedor Coral - Santa Cruz &#187; Crônicas</title>
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		<title>Xô preguiça!</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 17:30:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Aguiar</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_14706" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/xo-preguica/attachment/preguica/" rel="attachment wp-att-14706"><img class="size-medium wp-image-14706" title="Preguiça" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2012/01/Preguiça-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Acooooooooorda ..... Hora de Trabalhar</p></div>
<p>Ufa.</p>
<p>Depois de mais de sessenta dias de férias, muitíssimo bem pagas com o dinheiro do torcedor coral e sem justificativa plausível da diretoria (ainda mais depois de ouvir as declarações do seu próprio preparador físico &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_14706" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/xo-preguica/attachment/preguica/" rel="attachment wp-att-14706"><img class="size-medium wp-image-14706" title="Preguiça" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2012/01/Preguiça-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Acooooooooorda ..... Hora de Trabalhar</p></div>
<p>Ufa.</p>
<p>Depois de mais de sessenta dias de férias, muitíssimo bem pagas com o dinheiro do torcedor coral e sem justificativa plausível da diretoria (ainda mais depois de ouvir as declarações do seu próprio preparador físico <a href="https://goleadape.wordpress.com/2011/11/22/preprador-fisico-reprova-periodo-de-ferias-do-santa-cruz/">reprovando</a> essa postura), eis que o elenco do Santa Cruz deve estar se reapresentando no Arruda nesse momento.</p>
<p>A base da equipe campeã de 2011 e que conseguiu o acesso a série C foi mantida. Dependendo do ponto de vista é um sinal positivo. No entanto, é inquestionável a necessidade de reforços e de mudança na mentalidade do Clube. Se antes éramos um clube de série A que vivia uma série D, hoje estamos vivendo uma série C disputando um campeonato com equipes mais tradicionais e somos o atual campeão pernambucano.</p>
<p>Contratações foram feitas e ainda devem vir mais jogadores, principalmente para o ataque.</p>
<p>Até agora já contratamos lateral-direito, zagueiro, cabeça-de-área, meia e atacante.</p>
<p>Não é possível julgar as contratações antes de vê-las atuando com o manto coral. Afinal, o futebol é uma &#8216;caixinha de surpresas&#8217;, e, jogadores que estiveram mal em outros clubes costumam a dar a volta por cima vestindo outras camisas. É isso o que se espera dos novos contratados: Que dêem a volta por cima, assim como o Santa Cruz.</p>
<p>Entendo que precisamos contratar pouco, mas de forma eficiente. Infelizmente, não temos as condições financeiras de ter um ótimo plantel, mas temos que ter, ao menos, um bom time. E acredito que, graças a nossa base, temos a condição de formar um time melhor do que o do ano passado, onde conseguimos alcançar as metas estipuladas pela diretoria.</p>
<p>Da minha parte, resta a esperança que o Santa Cruz nos surpreenda no Campeonato Pernambucano e que conquiste o tão sonhado Bi-Campeonato nesse primeiro semestre. Já para o segundo semestre, não posso esperar (e desejar) menos do que a obrigação: subir para a série B, com o título de campeão.</p>
<p>Que o Santa Cruz siga o seu caminho da volta. Para isso é importante saber, primeiramente, que terá muito trabalho pela frente. E que apenas deu o primeiro passo. Todavia, como dizia o tricolor Chico Science &#8220;um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Salvação</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 03:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.torcedorcoral.com/blog/opiniao/atiraste-uma-pedra/attachment/grana/" rel="attachment wp-att-13746"><img class="aligncenter size-medium wp-image-13746" title="grana" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/grana-350x280.png" alt="" width="350" height="280" /></a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.torcedorcoral.com/blog/opiniao/atiraste-uma-pedra/attachment/grana/" rel="attachment wp-att-13746"><img class="aligncenter size-medium wp-image-13746" title="grana" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/grana-350x280.png" alt="" width="350" height="280" /></a></p>
<p>Finda a temporada 2011, já lanço uma botica de olho para o ano seguinte, como quem não quer nada e já querendo muita coisa. Tenho esse negócio de não pensar demais no passado, feito uma pomba lesa, porque o futebol não vive de nostalgias. O que passou, passou, foi quase tudo muito bem, mas as conquistas são para guardar na lembrança e os troféus, no museu (onde está o museu?!) do clube.</p>
<p>Ao pensar na próxima temporada, vem-me logo à cabeça a tranquilidade de não precisar correr atrás, já no Campeonato Pernambuco, de uma vaga para a competição nacional, mas, principalmente, que o abismo financeiro vai aumentar em relação aos nossos principais adversários locais. Os dois estão na Série A e nós, só agora, chegamos à Série C.</p>
<p>Grana, grana, grana! É preciso, antes de tudo, pensar em grana, pois, já dizia o filósofo Falcão, dinheiro não é tudo, mas é cem por cento. Também é indispensável pensar em como manter o time coral minimamente competitivo na próxima temporada diante dos milhões da Rede Globo contra os trocados da TV Nova. Não que eu despreze o trabalho da TV pernambucana, que foi bacana, pois, apesar das inúmeras falhas, como começar a transmitir um jogo no início do segundo tempo, não posso negar que ela quebrou um galho lascado para a torcida coral nesta Série D.</p>
<p>Por isso, mesmo ocupado em pensamentos altamente produtivos sobre como fazer para passar mais rápido os doze anos que ainda me restam para a aposentadoria e em como gastar o dinheiro da Mega-Sena, caso eu ganhe o prêmio sozinho, resolvi convocar uma reunião de emergência do Conselho Editorial e Pitaqueiro do <a href="http://www.torcedorcoral.com">Torcedor Coral</a> para debater a questão.</p>
<p>― Se não tiver cerveja, nem me chame! – disse Nó Cego ao telefone, com o seu humor característico.</p>
<p>Apesar da falta de futebol e de saco, todos compareceram. A cerveja, é bem verdade, atraiu mais a nossa equipe do que o assunto, já que, nessa época do ano, a gente só pensa em cachaça e confraternização, que no fim das contas é a mesma coisa.</p>
<p>Comecei a reunião cheio de dedos, indo pra lá e pra cá, falando do tempo, perguntando se um e outro tinham dinheiro para emprestar ou pelo menos um colírio para pingar nos olhos, um melindre lascado, porque o assunto era chato e não havia nenhum Xeque árabe montado na grana, tampouco um estribado chefe da máfia russa entre nós, que resolvesse o problema do clube com um simples abrir de bolso. Solução financeira que se preze mesmo é grana na mão, porque a conta bancária pode estar bloqueada. Na falta do cacau, a gente empresta algumas ideias, mas depois cobra juros e correção, porque o Natal chega logo e é preciso comprar uns presentinhos para as crianças.</p>
<p>― Desembucha, seu merdinha, que eu não tenho o dia todo! – interrompeu o meu blablablá Nó Cego, num tom de voz tão amigável, quanto o de um agiota que bate a sua porta para cobrar uma dívida vencida.</p>
<p>Sem mais delongas, expliquei a questão do abismo financeiro no campeonato estadual e a necessidade de reforços para a Série C, pois não estou disposto a passar sufoco o ano inteiro com esse time. Falei também da necessidade de construção do CT e de tirar do papel a Arena Coral, que deve custar coisa pouca. Assim, como ficou claro, toda ajuda era bem-vinda, de preferência em <em>cash</em>.</p>
<p>Paulinho coçou o queixo e assobiou <em>London, London</em>, em momento nostálgico do tempo em que morou em Cambridge; Gerrá da Zabumba, que largou a gente tão logo o <a href="http://www.blogdosantinha.com" target="_blank">Blog do Santinha</a> voltou ao ar, mas comparece às nossas reuniões, porque não dispensa uma conversa mole regada à cerveja <em>0800</em>, entornou mais um copo e quase se engasgou; Perrusi fez uma análise sociológica da miséria no futebol, por causa do Clube dos 13, mas não deixou de mencionar a crise econômica internacional, que impedia qualquer investimento pessoal acima de dez reais; Geó disse que a única coisa que tinha no bolso era uma nota promissória que já tinha vencido; e Nó Cego, o mais cínico de todos, apenas reclamou que a cerveja não estava gelada e que eu era pirangueiro por não botar à mesa um tira-gostosinho sequer.</p>
<p>― Porra, nem um amendoizinho?! Que bicho muquirana do carai!</p>
<p>― Ninguém vai se coçar, não? – retomei, enfim, o assunto.</p>
<p>― Não dou dinheiro, porque não conheço ninguém dentro do clube e dinheiro a gente só confia a quem a gente confia. – ensinou Perrusi, num linguajar sociologuês pacas, mas que se traduzia, em português barato, em um “ninguém vai arrancar um centavo de mim!”.</p>
<p>― Besteira! Tu tá é liso feito a gente! – entregou Nó Cego, que já havia percebido a filosofia do nosso sociólogo de plantão.</p>
<p>Geó aproveitou a deixa para diagnosticar que o que Perrusi tem, de fato, é fobia social, por isso seria impossível que ele conhecesse alguém do clube, já que seu círculo de relacionamentos se resume tão-somente às tartarugas de Intermares. Perrusi defendeu-se dizendo que ‘fobia social é o carai!’ e Gerrá fez dois rabiscos na mesa de reunião, dizendo que aqui era a cara da mãe de um e ali, do outro.</p>
<p>― Eita, ciumeira braba! E ciúme de homem é pior do que ciúme de mulher! – disparou Nó Cego, com a mesma sutileza de Samarone numa boca livre.</p>
<p>Com receio de ver desviado o foco da reunião, propus, então, um <em>brain storm</em>, para lançar ideias que venham a salvar o nosso clube no ano que vem. Nó Cego gritou ‘mais fresco!’, mas a proposta foi aprovada por todos, inclusive por ele, quando ameacei botar cadeado na geladeira e suspender as cervejas.</p>
<p>― Bora fazer uma rifa! – disse Gerrá da Zabumba, já dando uma gaitada.</p>
<p>― Rifa já está batido. O negócio agora é fazer jantar de adesão – ensinou Paulinho, antenado com a nova moda de redistribuição de renda no Santa Cruz.</p>
<p>― Já sei! Vamos propor novamente o aumento no preço dos ingressos para a próxima temporada! – sugeriu Perrusi, nosso sociólogo que pensa mais no social do que no elevador de serviço.</p>
<p>― Porra nenhuma! – interrompeu Geó – Bora fazer outra campanha de sócios que essa não valeu!</p>
<p>Já estava bastante desestimulado por ninguém ter levado a sério a minha boa intenção, quando Nó Cego propôs uma confraternização para arrecadar uma grana para o clube. Meus olhos brilharam, visto que a ideia era boa e inédita ao mesmo tempo. Além do mais, a danada era factível, porque o que mais tricolor gosta, depois de torcer pelo Santa, é tomar cachaça. Antes mesmo de alavancar a grana, eu já pensava nas possibilidades de aplicação dos recursos, como, por exemplo, chamar alguém que entenda do riscado, poderia ser um atacante liso e aposentado ou até mesmo um bom sapateiro de Casa Amarela, para ajudar a botar o pé de Thiago Cunha na forma. Enfim, ideia era o que não faltava.</p>
<p>Porém, em poucos minutos ninguém mais falava em arrecadar dinheiro para o Santa Cruz, mas apenas em juntar uma tuia de tricolores e tomar cachaça. Conversa vai e vem, um telefonema daqui e dali, e já havíamos formado uma parceria com os não menos lisos editores e cronistas do <a href="http://www.blogdosantinha.com" target="_blank">Blog do Santinha</a> para fazer a confraternização. Quando é para beber, é inegável que essa turma pensa rápido. Só não pensa nos detalhes. Tanto que a confraternização ainda não tem data, hora, nem local marcados. Na verdade, nem ficou muito claro se o evento lúdico-comemorativo-etílico-coral vai acontecer.</p>
<p>Entretanto, uma coisa é certa: se ninguém desistir no meio do caminho, convidaremos os amigos tricolores para beber, comer e entrar no rá-rá, já que dinheiro é uma coisa que pesa nessas horas, pois do porteiro ao ponta-esquerda do nosso esquadrão, todo mundo aproveitou o décimo terceiro salário para aplicar em papéis, como conta de luz, água e telefone, e também para pagar um bocado de dívida e limpar o nome no SPC.</p>
<p>Tenho fé que a confra vai sair do papel. Aí, uma coisa é certa: se a cachaça não salvar o clube, a gente pelo menos se afoga nela.</p>
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		<title>A miséria dos técnicos</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Nov 2011 23:56:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/a-miseria-dos-tecnicos/attachment/maos/" rel="attachment wp-att-14284"><img class="size-medium wp-image-14284 aligncenter" title="mãos" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/11/m%C3%A3os-350x256.jpg" alt="" width="350" height="256" /></a></p>
<p>Texto para distração.</p>
<p>Não gosto de técnico. Tenho a mesma opinião em relação aos árbitros: um mal necessário. Nos primórdios, alguém acreditou num cartola, enrolado como uma jiboia numa árvore,  e comeu a maçã. E pumba!, como sinal do pecado &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/a-miseria-dos-tecnicos/attachment/maos/" rel="attachment wp-att-14284"><img class="size-medium wp-image-14284 aligncenter" title="mãos" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/11/m%C3%A3os-350x256.jpg" alt="" width="350" height="256" /></a></p>
<p>Texto para distração.</p>
<p>Não gosto de técnico. Tenho a mesma opinião em relação aos árbitros: um mal necessário. Nos primórdios, alguém acreditou num cartola, enrolado como uma jiboia numa árvore,  e comeu a maçã. E pumba!, como sinal do pecado original, apareceram o técnico e o juiz de futebol.</p>
<p>No comunismo, escrevia Marx, num manuscrito perdido, encontrado num baú dos Perrusi, o futebol não teria técnico, nem juízes e, principalmente, cartolas &#8212; em suma, seria autorregulado. Uma volta ao futebol das origens? Talvez&#8230; Um futebol sem divisão de trabalho: os jogadores seriam, ao mesmo tempo, técnicos, juízes e dirigentes. O clube seria a torcida. Mas o mundo é, habitualmente, o reverso de uma boa utopia. Assim, os técnicos são indispensáveis. E discordo de quem diz que não ganham jogo. Ganham, sim&#8230; quando não atrapalham. Aqui, estamos diante do <em>mysterium</em> <em>tremendum</em>: por que os técnicos atrapalham tanto? Talvez, porque queiram controlar o jogo. E o futebol está aquém e além de uma autoridade. E querem racionalizá-lo, outra forma de dominação. Porém, a razão do futebol é comandada pelo imponderável. Mesmo assim, os técnicos pensam que são demiurgos. Só que não é possível controlar o acaso. Ao tentar controlá-lo, vira necessidade e se torna uma tragédia.</p>
<p>O bom técnico, nessa minha visão romanceada, é aquele que facilita o jogo, ao realizar as potencialidades de seus jogadores. Escala, assim, os melhores e os posiciona na tática que aproveita mais suas características. Depois, entrega as camisas, passa a responsabilidade e espera pra ver. No futebol brasileiro, técnico deveria ser um esteta, cuidando da beleza do espetáculo. Certo, não quero exagerar. Assim, acrescento outra tarefa fundamental: o técnico deveria ser um pedagogo. Seria responsável pela formação do jogador – formação técnica e moral. Ele faria e ensinaria a filosofia do futebol tupiniquim: “joga assim, meu filho, porque assim é bonito”. Esse é o mote pedagógico que alia beleza à eficiência. É jogo bonito, logo, brasileiro, e não colombiano, isto é, decorativo.</p>
<p>Os técnicos pensam que são cientistas do futebol &#8212; mas não são. Quem faz ciência é o preparador físico, o nutricionista, o médico, o psicólogo, e por aí vai. Os técnicos utilizam e conhecem “técnicas”. Querem adequar meios e fins, mas o futebol, muitas vezes, tem um fim em si mesmo. Querem administrar o jogo e, assim, detestam o risco, a alma do esporte. Qual a melhor forma de gerenciar o risco? A retranca. São fundamentalistas da tática e místicos da numerologia (quem reza não conta). Somente que&#8230; quem entra em campo não são os números. O futebol administrado torna-se um empreendimento, um resultado. Como gestores do jogo, os técnicos parecem ter mais importância, embora tenham, isto sim, mais poder. E usam e abusam do poder, dentro e fora de campo.</p>
<p>Por isso, digo sempre aqui: técnico é funcionário do clube. Precisa ser controlado. É subordinado ao departamento de futebol. Há hierarquia no clube. Quem pensa no futebol a médio e longo prazo são os dirigentes. São os tais que definem as prioridades, inclusive o estilo de jogo – por que não? O estilo é o reflexo da história do clube. E, cá entre nós, temos muita história. Formulou-se uma estratégia? Ora, o técnico é seu servidor.</p>
<p>Voltando ao dito acima, técnico deveria ser formador e educador. Sua “técnica” é saber e intuir as características de cada jogador. Melhorá-las, aperfeiçoá-las e treiná-las. Um exemplo? Ora, o mestre Telê. Não foi técnico e sim um mestre. Ser um é o objetivo de todo técnico. Porque o futebol deveria ser um <em>métier</em>, um ofício, uma arte. Futebol não se aprende apenas, como numa escola; na verdade, vive-se futebol e se adquire experiência. Futebol é saber, mas também intuição, um conhecimento que une passado e presente, aplicado exatamente no instante.</p>
<p>Por isso, o tempo é fundamental. Experiência = repetição e criação, dia e noite. Demora e, um dia, transforma-se em sabedoria.</p>
<p>Todo bom técnico deveria ser sábio, logo, um&#8230; velho!</p>
<p>Técnicos, envelheçam rápida e urgentemente!</p>
<p>Zé Teodoro não é tão novo assim e manda muito&#8230;</p>
<p>Sim, eu não gosto de técnico de futebol.</p>
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		<title>Entre a tragédia e a redenção</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 14:27:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_13844" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/entre-a-tragedia-e-a-redencao/attachment/esperanca-2/" rel="attachment wp-att-13844"><img class="size-medium wp-image-13844" title="esperança" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/esperan%C3%A7a-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Esperança não é comestível</p></div>
<p>Falarei do sofrimento&#8230;</p>
<p>Sei, sei, essa alegria toda e quero falar de sofrimento. É de lascar, mas tenho motivos. E começarei pelo começo. E todo início começa numa mesa de bar, lugar de todos os princípios. &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13844" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/entre-a-tragedia-e-a-redencao/attachment/esperanca-2/" rel="attachment wp-att-13844"><img class="size-medium wp-image-13844" title="esperança" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/esperan%C3%A7a-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Esperança não é comestível</p></div>
<p>Falarei do sofrimento&#8230;</p>
<p>Sei, sei, essa alegria toda e quero falar de sofrimento. É de lascar, mas tenho motivos. E começarei pelo começo. E todo início começa numa mesa de bar, lugar de todos os princípios. Foi, justamente, numa mesa cheia de cerveja, logo depois da saída da morada do Diabo, a série D, para a mansão dos anjos decaídos, a série C, que o filósofo Murilo Lins repetiu a indagação derradeira, esse <em>misterium tremendum</em>:</p>
<p>&#8211; Como explicar a paixão e a fidelidade dessa torcida?</p>
<p>Ficamos calados, enchemos o copo e, enfim, começamos a conversar.</p>
<p>Disse minha opinião. Defendo-a, aqui.</p>
<p>Eu disse:</p>
<p>&#8211; A explicação está no sofrimento!</p>
<p>Dimas discordou. O Editor-Mor discorda de tudo. Tem essa mania, o rapaz. Além do mais, é um hedonista, sacerdote do prazer, amante das carnes, principalmente de petiscos&#8230; Claro que um cabra assim seria contra o sofrimento.</p>
<p>E ele não deixa ninguém falar, sobe na mesa, dança o ula-ula e acaba a discussão. E conseguiu, pois a controvérsia, depois disso tudo, perdeu-se nos caminhos etílicos da comemoração. Mas a polêmica ficou no ar.</p>
<p>Tentarei retomá-la.</p>
<p>Vejam o nome do clube&#8230; Caros amigos, não há Santa Cruz sem Via Crúcis! O sofrimento é intrínseco ao Clube do Santo Nome. É sua força e sua fraqueza. E, não adianta negá-lo, pois será sempre assim. Lembrem-se de sua gloriosa história. Não é de ver para crer, está na cara!</p>
<p>E o sofrimento não é incompatível com a alegria, como deseja o hedonismo vulgar. Muitas vezes, o sofrimento é a base da alegria. Como conhecê-la de verdade, sem nunca ter passado pelo seu contrário, a tristeza? Nóis sofre, mas nóis goza!</p>
<p>Mas não causa surpresa essa resistência em admitir o papel do sofrimento. Vivemos numa sociedade hedonista, onde impera a tirania do prazer. Somos filhos da analgesia e temos uma intolerância visceral à dor. Curiosamente, denegamos o sofrimento, mas nunca sofremos tanto. Eis o paradoxo: sofrer tornou-se uma ojeriza; no entanto, democratizou-se e todo mundo sofre, fala de seu sofrimento e tem direito, inclusive, ao seu reconhecimento.</p>
<p>E tome um remedinho! É a medicalização do sofrimento, rivotril com pepsi, o avatar desse paradoxo.</p>
<p>Pensem bem, caros triolores. Antigamente, havia a <em>Ars Moriendi </em>(Arte de morrer); hoje, ninguém sabe morrer – todos morrem como sacos de batatas numa UTI. O sofrimento fazia parte da vida. Era fonte de sabedoria. Sabia-se que a vida não é um caminho linear cheio de alegrias e gozos; na verdade, é um caminho estranho e tortuoso. A arte de viver não passava necessariamente pelo prazer. Passava, na verdade, pela sublimação de nossas diversas angústias. Sublimação e não denegação, eis a solução, sofredores!</p>
<p>Pois bem, defendo que o tricolor sabe sofrer e fez de seu sofrimento sua força. O sofrimento cria vínculos. Sofra junto de outro sofredor, e esse desconhecido será seu camarada de destino. O sofrimento amalgamou a torcida. Cristalizou uma comunidade.</p>
<p>Eu não sabia sofrer, confesso. Depois do último rebaixamento, estava oco e anestesiado. Pensei que o Santinha morreria. Era um absurdo impensável. Mas pensei – aliás, vá saber o que pensei. Agora, sei que não morre nem a pau. E quem o salvou foi a torcida. Sofremos, partilhamos nossa dor, ali todos juntos no Arruda. Foi aí que compreendi o papel do sofrimento como tragédia e redenção.</p>
<p>Explico.</p>
<p>Os tricolores encarnam duas formas imemoriais de sofrimento: a grega e a cristã. Sim, somos gregos e cristãos, ao mesmo tempo.</p>
<p>Quando somos gregos, o destino já traçou o caminho do nosso sofrimento. Na dor, temos a nítida clarividência da tragédia. Ou, numa linguagem mais filosófica, sabemos que vamos se foder. Da série A até a série D, o Destino estava lá rindo de nossas caras. Porém, como na mitologia grega, os tricolores não se conformam com seu fado – somos gregos e não portugueses, ora pois! Resistem, como resistiu Prometeu. Insistem e repetem, como insistiu e repetiu Édipo. Na tragédia, o sofrimento vira desespero, e a teimosia da resistência transforma o desespero em esperança. É o pior tipo de esperança, a mais dolorida, mas é a que mais persevera – é ela que salva o moribundo, aquele que já estava condenado pelos deuses.</p>
<p>O tricolor tem um profundo sentido da tragédia. Foi o sofrimento trágico que nos salvou. E o desespero; sim, o desespero. Foi a esperança trágica que manteve a resistência e a necessidade de continuarmos vivos. Assim como Prometeu, estávamos na falésia da D, e os abutres (CBF, Máfia dos 13, LEF&#8230;) comendo nosso fígado e a gente resistindo, repetindo: odiamos todos os deuses, odiamos todos os deuses&#8230;</p>
<p>Somos gregos, mas somos cristãos – profundamente cristãos. Ducaldo achará curiosa essa minha afirmação.</p>
<p>&#8211; Olha quem diz isso! – afirmará com alguma pontinha de maldade.</p>
<p>Sim, afirmo isso. É irônico, claro; afinal, nas minhas crenças, a alma é uma secreção verde que escorre pelo nariz.</p>
<p>Mas vejam só: não digo que o Santinha é cristão apenas pelo seu nome. Seria um argumento fácil demais. Na realidade, falo de outro tipo de sofrimento. Quando somos cristãos, acreditamos piamente na redenção. No sofrimento, temos o caminho que vai a Damasco ou ao Arruda, como queiram. Saio de casa, Saulo, e chego no Mundão, Paulo.</p>
<p>Sabemos que é preciso chegar até o fundo do poço para ter forças e subir novamente. Nossa dor aponta para um futuro, no qual ocorrerá a redenção de todos os tricolores. Mesmo na desgraça, acreditamos num mundo melhor. Não temos propriamente desespero, mas uma espécie de fervor, de paixão, de que algo de bom acontecerá. Esperamos e agimos.</p>
<p>No sofrimento cristão, a esperança nutre-se da Utopia. Todo tricolor deseja voltar ao Paraíso (nossa Queda foi aquele jogo contra o Bahia&#8230;). É uma esperança fincada num lugar que ainda não existe, mas que existirá com certeza!</p>
<p>Por isso, somos tão sensíveis ao milagre. Eles acontecem! Condensamos toda nossa expectativa num momento singular. É um clarão que, de repente, alumia o céu. É muito rápido e nem sempre acontece, como um raio em plena luz do dia. Nossa esperança alimenta-se de luz. Nesse mundo velho e enfadado, vemos o novo que ainda não pode nascer.</p>
<p>Vejam o jogo contra o 13, lá em Campina Grande. Foram dois gols de Fernando Gaúcho. Tal fato é simplesmente inacreditável. É um absurdo. Um milagre!</p>
<p>Pois é&#8230; entre a tragédia e a redenção, entre gregos e cristãos, entre a resistência e a luz, defendo o sofrimento como nosso carma.</p>
<p>Não somos torcedores de televisão, compulsivos pelo sucesso e pelo resultado. Não ganhou, muda de canal e esquece o clube. Somos torcedores de futebol, de estádio, precisamos de um Templo, grego ou cristão, não importa, precisamos do Arruda.</p>
<p>Sofreremos eternamente pelo nosso clube.</p>
<p>Amém.</p>
<blockquote><p><strong><span style="text-decoration: underline;">Nota do autor</span></strong>:</p>
<p>Dedico a crônica a Dimas, amigo em todas as alegrias e&#8230; sofrimentos &#8212; o &#8220;Steve Jobs&#8221; da blogosfera tricolor! Feliz Aniversário, velhão!</p></blockquote>
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		<title>Oração tricolor</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Oct 2011 22:57:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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<p><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/oracao-tricolor/attachment/oracao-tricolor/" rel="attachment wp-att-13793"><img class="aligncenter size-full wp-image-13793" title="oração tricolor" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/ora%C3%A7%C3%A3o-tricolor.jpg" alt="" width="368" height="460" /></a></p>
<p>Quando entrardes em campo e ouvirdes a nossa voz,</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando olhardes em volta e perceberdes que não sois onze, mas milhões,</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando tiverdes que lutar por cada palmo de chão e sentirdes uma multidão </p>&#8230;</div>]]></description>
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<p><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/oracao-tricolor/attachment/oracao-tricolor/" rel="attachment wp-att-13793"><img class="aligncenter size-full wp-image-13793" title="oração tricolor" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/ora%C3%A7%C3%A3o-tricolor.jpg" alt="" width="368" height="460" /></a></p>
<p>Quando entrardes em campo e ouvirdes a nossa voz,</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando olhardes em volta e perceberdes que não sois onze, mas milhões,</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando tiverdes que lutar por cada palmo de chão e sentirdes uma multidão a vos empurrar,</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se vos aperceberdes fraco para vencer o adversário, tomai a nossa força e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se cairdes no chão, segurai em nossas mãos e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se perderdes a esperança, apoiai em nossa fé cansada e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se pensardes em vos entregar, olhai em vossa volta e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se vossas pernas não vos aguentar, escorai em nosso ombro amigo e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se faltardes técnica, renascei em nossa vontade e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando fordes a caminho do gol, botai nossa chuteira em vossos pés e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Quando tiverdes que vos tornar impenetrável, juntai vossas mãos às nossas e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Se buscardes o caminho da glória, segui a nossa luz e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Enquanto não soar o último apito, uni vosso corpo à nossa alma e</p>
<p>Jogai por nós!</p>
<p>Lutai, até o fim, lutai! E tereis, então, a nossa eterna gratidão.</p>
</div>
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		<title>O técnico e o monstro</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 14:14:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_13701" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/o-tecnico-e-o-monstro/attachment/o-medico-e-o-monstro-2/" rel="attachment wp-att-13701"><img class="size-full wp-image-13701" title="O-médico-e-o-monstro" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/O-m%C3%A9dico-e-o-monstro.jpg" alt="" width="500" height="293" /></a><p class="wp-caption-text">Dr. Perrusi tentando hipnotizar o monstro</p></div>
<p>Não deu em nada a nossa tentativa de jogar limpo no <a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/extra-campo/" target="_blank">extra-campo</a>, apesar da brilhante ideia de oferecer uma grana a Zé Teodoro, como uma espécie de bicho pela vitória, para que ele &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13701" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/o-tecnico-e-o-monstro/attachment/o-medico-e-o-monstro-2/" rel="attachment wp-att-13701"><img class="size-full wp-image-13701" title="O-médico-e-o-monstro" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/10/O-m%C3%A9dico-e-o-monstro.jpg" alt="" width="500" height="293" /></a><p class="wp-caption-text">Dr. Perrusi tentando hipnotizar o monstro</p></div>
<p>Não deu em nada a nossa tentativa de jogar limpo no <a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/extra-campo/" target="_blank">extra-campo</a>, apesar da brilhante ideia de oferecer uma grana a Zé Teodoro, como uma espécie de bicho pela vitória, para que ele escalasse o time dos sonhos da torcida coral. Nosso fracasso se deu por algumas razões. A primeira delas é que no futebol ninguém nunca ouviu falar em jogo limpo e acha que a gente estava de sacanagem. Os bastidores do mundo do futebol entendem apenas a linguagem da mutreta pesada, mala preta e o escambau a quatro, que faz a festa de cartolas, trio de arbitragem, zagueiros, goleiros e até gandulas. E no <a href="http://www.torcedorcoral.com">TC</a>, infelizmente, somos todos pudicos, defensores do “que vença o melhor, desde que seja o Santa Cruz”.</p>
<p>― O que eu vou dizer aos meus filhos, se subornar alguém? – disse Artur Perrusi.</p>
<p>― Você não tem filho, seu psiquiatra de merda, portanto não tem que dizer porra nenhuma! – categorizou Nó Cego.</p>
<p>― Mas, e se eu ainda tiver?</p>
<p>― Deixa de bobagem, que pela idade é bem capaz de tu nem dar mais no coro! – replicou Nó Cego, com a sensibilidade de um Tiranossauro-Rex numa loja de cristais.</p>
<p>O outro fator do fracasso de nossa atuação no extra-campo foi a insignificante quantia arrecadada para a operação: R$ 53,25. O valor foi tão desprezível que preferimos guardar a grana para tomar umas cervejas depois do jogo contra o Treze/PB, no Arruda, seja qual for o resultado. Além do mais, não teve um cristão e leitor do nosso site, que depositasse uma merreca sequer na conta que disponibilizamos durante toda a semana por aqui. Nessas horas, me pergunto onde estão os defensores da malandragem.</p>
<p>O terceiro e último motivo é que soubemos por fonte segura que Zé recusaria a proposta. “Não vendo, não troco, nem dou e tampouco aceito cartão!”, teria dito o treinador.</p>
<p>Sem possibilidade de atuar no extra-campo, restou-nos a tentativa de compreender o que se passava na cabeça do nosso treinador. O objetivo era descobrir se ele retornaria, nessa fase decisiva, aos bons momentos do campeonato pernambucano ou manteria esse futebol mequetrefe da Série D.</p>
<p>Para estudar a mente de um homem como Zé Teodoro, ninguém melhor do que um psiquiatra de carteirinha. Perrusi puxou de sua estante uma literatura médica chamada <em>Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde</em><strong> </strong>(<em>O estranho caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde</em>) escrita em 1886 pelo escocês Robert Louis Stevenson.</p>
<p>― Ô, Artur! Esse livro aí não tem nada de literatura médica. Essa caceta é ficção científica! – protestei.</p>
<p>― Ficção científica, um carai! Freud usava esse livro na terapia de seus pacientes – enfatizou o nosso doutor.</p>
<p>― É por isso que todo mundo diz que Freud era mais doido do que todos os seus pacientes juntos – disse, incrédulo.</p>
<p>― Nosso treinador sofre de transtorno dissociativo de identidade, mas conhecido como transtorno de múltiplas personalidades. – continuou Perrusi, sem dar muita bola para o que eu dizia – Ora ele é extremamente coerente; ora, um doido varrido. Nalguns casos, ele é o médico, ou melhor, o técnico; noutros, o monstro.</p>
<p>Tudo fazia sentido. Zé Teodoro era um mutante, um homem de duas caras. Na sua própria personalidade, entrava em ação o Dr. Henry Jekyll, um treinador moderno com esquemas táticos organizados, equilíbrio entre defesa e ataque e que sabia transformar a equipe num time de guerreiros. Em momentos de fraqueza, emergia o misantropo Edward Hyde, que odeia a torcida, o clube em que trabalha e demonstra isso montando um time confuso, que bate cabeça e não sabe o que fazer com a bola.</p>
<p>― Está bem, está bem! E como nós vamos saber se quem está no comando é o técnico ou monstro? – perguntei ao nosso doutor.</p>
<p>― Simples. Se ele babar e botar Memo na lateral direita, é o monstro.</p>
<p>Partimos para o Amigão, cujas entradas de tão estreitas parecem um curral – é adequado para jogos do boi da ilha – e ficamos bem atrás do banco de reservas do Santa Cruz. Nossa intenção era ficar atentos a qualquer sinal estranho vindo do nosso treinador.</p>
<p>Na escalação, com Memo na lateral e Ludemar no ataque, vieram os primeiros indícios de que quem comandava a equipe era o monstro, não o técnico.</p>
<p>― Pelo menos ele botou o nosso carrapato Everton Sena no jogo – lancei dúvidas sobre o diagnóstico do Doutor Perrusi.</p>
<p>― Porra nenhuma! – interrompeu Nó Cego – Esse garoto ainda vai fazer uma cagada de urso. Merda muito grande!</p>
<p>Nem bem deram oito minutos de jogo, Everton Sena pisou na bola dentro da área e o lazarento Sexta-feira Treze abriu o placar. Não havia mais dúvidas. O monstro comandava a equipe coral em Campina Grande.</p>
<p>Com dois a zero, Nó Cego se levantou e gritou com toda a pureza d’alma que ou nós faríamos alguma coisa ou o time ia tomar no olho do cu. Dessa vez, apesar das palavras chulas, até eu concordei.</p>
<p>Pouco antes do intervalo, descemos para o vestiário e nos escondemos por lá. O time desceu em seguida e ouviu a preleção. Mr. Hyde estava satisfeito com o desempenho da equipe, sinal de que nada ia mudar. Os jogadores voltaram ao gramado com a mesma formação e Zé ficou para trás, para ir ao banheiro. Era a nossa chance.</p>
<p>Perrusi gritou “atacar!” e Paulinho e eu seguramos o monstro por trás, sem segundas intenções, enquanto ele ainda mijava. Dominada a fera, notamos que Zé, ou melhor, Mr. Hyde, estrebuchava e babava pelo canto direito da boca. Era o último sintoma que faltava para completar o diagnóstico sem margem de erro.</p>
<p>― E agora, o que a gente faz?! – gritei quase em desespero.</p>
<p>― Hipnotiza o cara, carai! – gritou Paulinho.</p>
<p>Perrusi tentava em vão fazer o monstro deixar o corpo do técnico.</p>
<p>― Sai deste corpo que não te pertence! – gritava Perrusi, enquanto dava umas bolachas na cara de Mr. Hyde.</p>
<p>Foi quando Nó Cego decidiu que ia comandar o time no lugar do treinador, pois não havia mais tempo a perder. Imediatamente, Perrusi enfiou um lenço umedecido com Rivotril e Coca-Cola embaixo das narinas de Mr. Hyde, que ainda se debateu um pouco e mijou fora do caco, mas apagou em segundos.</p>
<p>― Tira a roupa e o boné do técnico que eu vou vestir! – determinou Nó Cego.</p>
<p>A cena era lastimável. A calça mijada e a camisa que não cobria toda a sua barriga, deixava Nó Cego com uma aparência medonha. Em situação ainda pior estava o próprio treinador, desnudo e com a cueca arriada até o joelho.</p>
<p>― Guarda o negócio do treinador aí, carai! – disse Perrusi.</p>
<p>― Guarda tu, porra! Quem mandou não esperar o cara terminar de mijar? – rebati.</p>
<p>― Deixa essa porra assim mesmo! Quando acordar, ele mesmo guarda! – encerrou a questão Paulinho.</p>
<p>No gramado, Nó Cego – um sujeito mal humorado e cego de nascimento, embora jure de pés juntos que perdeu a visão no mal-assombrado jogo contra o Bahia, em 1981, quando o Santinha perdeu de cinco a zero, na Fonte Nova, depois de ter batido a equipe baiana por quatro a zero, na ida, no Arruda – agora era o novo comandante da equipe coral.</p>
<p>― Vou mudar essa porra! – disse Nó Cego para Sandro, o assistente técnico, mas olhando na direção contrária.</p>
<p>Nó Cego, de cara, tirou Everton Sena e Ludemar, para botar Eduardo Arroz e Fernando Gaúcho e deslocou Memo para o meio.</p>
<p>― Puta que pariu! Fernando Gaúcho?! Essa porra é mais doida que Mr. Hyde! – exclamei, assustado com uma das substituições.</p>
<p>No fim, tudo deu certo. O Santa foi pra cima, Gaúcho fez dois gols, arrancamos o empate e por muito pouco não viramos o jogo. O cara é cego, mas sabe ler o jogo em braile.</p>
<p>Quando os jogadores entraram no vestiário, deram de cara com o técnico caído no chão com a cueca arriada até o joelho. No começo estranharam, já que não é do feitio de Zé Teodoro fazer coisas desse tipo, mas depois acharam que era uma justa comemoração pelo seu belo trabalho no segundo tempo. Zé Teodoro não se lembrava de nada, mas não deu uma palavra, principalmente depois que foi chamado de herói pela torcida coral.</p>
<p>No Arruda, domingo que vem, temos mais um jogo decisivo e Nó Cego já avisou que não abre mão de comandar o time no jogo da classificação para a Série C. Ao que tudo indica, nosso esquema vai ser pesado.</p>
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		<title>Extra-campo</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Sep 2011 03:00:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_13492" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/extra-campo/attachment/creditcard-2/" rel="attachment wp-att-13492"><img class="size-full wp-image-13492" title="creditcard" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/09/creditcard.png" alt="" width="500" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">A prova do crime na guerra do extra-campo</p></div>
<p>Domingo, manhã de sol e eu pensei com meus botões se não havia alguma coisa errada. Sempre que o Santa joga, chove; portanto, minha lógica tinha alguma lógica. A cada nova gestão &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13492" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/extra-campo/attachment/creditcard-2/" rel="attachment wp-att-13492"><img class="size-full wp-image-13492" title="creditcard" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/09/creditcard.png" alt="" width="500" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">A prova do crime na guerra do extra-campo</p></div>
<p>Domingo, manhã de sol e eu pensei com meus botões se não havia alguma coisa errada. Sempre que o Santa joga, chove; portanto, minha lógica tinha alguma lógica. A cada nova gestão no clube, costumo procurar o presidente e propor uma nova fonte de receitas. Se quiser ganhar alguns trocados, basta jogar no sertão no período de estiagem; mas se objetivo é botar as mãos em petrodólares, é só marcar alguns amistosos no deserto do Saara. Árabes têm dinheiro pra chuchu, sem rimas. Ninguém ainda me deu ouvidos, mas desconfio que o Santa, em breve, poderá montar na grana e disputar de igual para igual com o Barcelona qualquer campeonatozinho internacional. Ganhar o Brasileirão será favas contadas. Seremos campeões até enjoar.</p>
<p>Dia de jogo do Santa Cruz sempre tem cerveja antes e depois. Antigamente, havia também o durante, mas Dudu das Meninas acabou com a greia, em nome do Pacto Pela Vida. Minha mãe, a contragosto, me deixava beber, minha mulher também deixa, mas o Governo, não. Tomara que a violência tenha sido reduzida a zero tendendo ao infinito para que o meu esforço não seja em vão. A Copa do Mundo vem aí. Quero ver só se os gringos vão deixar de beber durante as partidas no Maior Elefante Branco no Meio do Mato do Brasil.</p>
<p>Mas, como eu dizia, a gente sempre se reúne antes de cada jogo para tomar umas e mais algumas. A brincadeira começa cedo, dá uma pausa meia hora antes do jogo e retoma logo depois.</p>
<p>Só de sacanagem, liguei para Geó, pé frio como ele só, ou melhor, como Chiló, o sanfoneira da lendária Sanfona Coral. Geó costuma fazer beicinho e dizer que eu não o chamo mais para os jogos do Santa, que só quero papo com Gerrá da Zabumba, Paulinho e Artur Perrusi. Ciúme de mulher ainda vá lá, mas de homem&#8230;</p>
<p>― E aí, bora?</p>
<p>― Vou não. Estou assistindo ao 18º episódio da 7ª temporada de <em>Friends</em>.</p>
<p>― Mas fresco!</p>
<p>Artur, Paulinho e Nó Cego toparam na hora, assim como toda a família Lins. Felipe Camarão estava a caminho do aeroporto, triste que só cachorro magro em porta de açougue. Ducaldo recuou. Seu cardiologista, que é rubro-negro, proibiu. “Emoções fortes demais”, teria dito o tal médico. Dei alguns conselhos a Ducaldo. Disse para ele fazer como eu, pois ser tricolor é pré-requisito para qualquer médico.</p>
<p>― Qual é seu time, doutor?</p>
<p>― Sou alvirrubro.</p>
<p>― Então, passar bem.</p>
<p>Durante o jogo mantive a frieza costumeira, o que irritou Nó Cego.</p>
<p>― Na cama, tu também é assim?</p>
<p>― Vá se foder!</p>
<p>Artur Perrusi levou minha frieza para o lado científico.</p>
<p>― Você faz terapia?</p>
<p>― Faço.</p>
<p>― Quem é teu psiquiatra?</p>
<p>― Não é tu, carai?!</p>
<p>― Puxa, eu sou mesmo bom, hein? Mas por que não funciona pra mim?</p>
<p>Casa de ferreiro, espeto de pau.</p>
<p>Mal bateu o centro e Nó Cego – um sujeito mal humorado e cego de nascimento, embora jure de pés juntos que perdeu a visão no mal-assombrado jogo contra o Bahia, em 1981, quando o Santinha perdeu de cinco a zero, na Fonte Nova, depois de ter batido a equipe baiana por quatro a zero, na ida, no Arruda – reclamou de Memo.</p>
<p>― Esse cara só faz merda! – ao ver, sabe lá como, que o volante improvisado de lateral direito dera dois passes errados consecutivos.</p>
<p>A escalação de Memo na lateral direita gerou polêmica, além, é claro, do fato de Bismarck sequer ter sido chamado para esquentar o banco. Também não agradaram <em>Cumpade</em> Washington e Fernando Gaúcho, que vieram de um time rebaixado da terceira divisão e já chegaram vestindo a camisa de titular. Um ciscou; o outro, nem isso.</p>
<p>― Que diabo tem na cabeça de Zé Teodoro, hein? – perguntou Paulinho com ar incrédulo sobre a escalação.</p>
<p>― Merda! – respondeu Nó Cego com habituais eloquência e falta de respeito.</p>
<p>O gol do Santa aliviou um pouco a barra, mas o foco se voltou contra a arbitragem por causa de dois lances duvidosos que bem poderiam ter sido marcado pênaltis a favor do Santinha. Entretanto, foi na expulsão de Leandro Souza que ressurgiu com força a Teoria da Conspiração, onde a CBF, a FPF, a coisa, a barbie e a NASA querem manter o Santa na quarta divisão a qualquer custo.</p>
<p>― O Santa está sendo roubado! – explodiu Nó Cego com tanto violência, que senti uma chuva de cuspes cair na minha cabeça.</p>
<p>Tentei me recompor e manter a calma da rapaziada.</p>
<p>― Calma, lá! Vai dar tudo certo. – disse com uma tranquilidade fora do comum para um jogo naquelas circunstâncias.</p>
<p>― Das duas, uma: ou você tá fumando maconha antes do jogo ou tomando cerveja Frevo! – reagiu Nó Cego.</p>
<p>Levantei a mão direita, contraí os dedos mínimo, anelar, indicador e polegar e apontei o que se manteve ereto na direção de Nó Cego.</p>
<p>O resto do jogo foi sufoco, não pelo perigo que o Coruripe levava, mas pela mania que o Santa Cruz tem de tomar gol no finalzinho da partida.</p>
<p>Fim do jogo, vitória magra, esperança de pé e tranquilidade intacta.</p>
<p>― Não disse que ia dar certo?</p>
<p>Um tricolor de uns trinta e poucos anos colou no meu ombro e perguntou, depois de ouvir a história sobre a maconha, se ele não podia dar um tapinha também.</p>
<p>― Há um engano, amigo. Eu não fumo.</p>
<p>― Sei&#8230; então&#8230; onde vende essa cerveja Frevo?</p>
<p>No bar, um pouco mais tarde, a conversa girou, como não podia deixar de ser, em torno do fraco desempenho da equipe, das invencionices de Zé Teodoro e das nossas chances de classificação. Otimista, disse logo que já estávamos na próxima fase, enquanto Artur, Paulinho e os demais membros da família Lins cravaram as nossas chances em quarenta por cento. Nó Cego demonstrou, enfim, um pouco de otimismo &#8211; para quem o conhece de perto, sabe do que estou falando &#8211; e cravou quinze por cento. Pessimismo me deprime. Por isso, minhas consultas com Perrusi.</p>
<p>― Precisamos agir no extra-campo! – abriu a discussão Nó Cego – Temos que comprar a arbitragem, os jogadores adversários e o presidente do time, se quisermos passar de fase.</p>
<p>― Sou radicalmente contra! – bradei aos quatro ventos, como defensor da honra e dos bons costumes e olhei na cara de cada um da mesa para ver se ganhava adeptos na minha defesa da boa fé – A gente tem que subir na bola, afinal, a mesma ética que serve para o futebol também serve para a vida.</p>
<p>Artur, Paulinho e meus irmãos já iam apoiar o meu argumento, quando Nó Cego deu um murro na mesa.</p>
<p>― Cala a boca, maconheiro! – Só faltava você propor que, ao invés de grana, a gente desse um buquê de flores para o trio de arbitragem! Isso é Brasil, seu merda! Acorda! Nessa tabaquice, a gente nunca vai sair dessa porra de Série D!</p>
<p>Não achei o buquê de flores má ideia, mas não tive coragem de defender a tese. Tampouco fiquei sem argumentos, mas apenas com vergonha de argumentar. Ser honesto é um troço difícil para caralho nesse país, parece até palavrão. Não dava o braço a torcer, mas tinha que convencer Nó Cego de outra forma.</p>
<p>― Rapaz, do jeito que a diretoria é cheia de tolinhos, é capaz dos caras comprarem o trio de arbitragem, os jogadores e o presidente do Coruripe e mesmo assim a gente perder o jogo.</p>
<p>Após uns minutos de reflexão, Nó Cego finalmente concordou. Um verdadeiro alívio. O bar tornou-se um púlpito contra a mutreta, a sacanagem e a corrupção.</p>
<p>Algo precisava ser feito, mas havia um dilema. Como comprar alguém para ganhar o jogo, sem ser desonesto? Foi Paulinho que apresentou a solução. Era perfeita e passava longe de ser uma contravenção.</p>
<p>― E se a gente comprar Zé Teodoro?!</p>
<p>― Tá fumando maconha também, mané?! – perguntou Nó Cego com uma candura nos olhos que dava medo.</p>
<p>― Sou psiquiatra e sociólogo, portanto, inteligente pra dedéu, mas confesso que não entendi carai nenhum! &#8211; disse o nosso doutor.</p>
<p>― Raciocinem comigo: desde o fim do campeonato pernambucano que Zé Teodoro não dá uma dentro. Ele não acertou em nenhuma indicação de jogador e não escala nem substitui direito.</p>
<p>― E daí? – perguntei, ainda sem saber aonde aquela porra ia dar.</p>
<p>― Não está na cara, não?! A gente molha a mão do técnico para ele escalar o time que a torcida quer! Simples assim! É como se a gente desse um bicho para o nosso próprio time! O que há de errado nisso?!</p>
<p>Paulinho descobriu a pólvora. Seríamos novamente imbatíveis. Enfim, a volta do Terror do Nordeste, só que agora também fora dos gramados.</p>
<p>Nó Cego sugeriu que a gente abrisse uma conta em algum banco e divulgasse no blog. Quem sabe a galera também não se interessasse em contribuir?</p>
<p>A ideia me pareceu boa, mas olhei para o bolso e vi que só tinha dez mangos e ainda ia pegar um taxi. Por isso, sem hesitação e depois de muita cerveja no juízo, perguntei:</p>
<p>― Será que Zé aceita cartão?</p>
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		<title>Especulações</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Sep 2011 23:02:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_13463" class="wp-caption aligncenter" style="width: 454px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/especulacoes/attachment/pardal/" rel="attachment wp-att-13463"><img class="size-full wp-image-13463" title="pardal" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/09/pardal.jpg" alt="" width="444" height="266" /></a><p class="wp-caption-text">Os pardais não entendem patavina de futebol</p></div>
<p>Queria discutir alguns fatos. Certo, fatos cansam, muitas vezes, a verdade. Mas, no caso do Santinha, servem como antídoto contra as ilusões.</p>
<p>Nós fomos campeões pernambucanos. Sim, não devemos esquecer e não custa &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13463" class="wp-caption aligncenter" style="width: 454px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/especulacoes/attachment/pardal/" rel="attachment wp-att-13463"><img class="size-full wp-image-13463" title="pardal" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/09/pardal.jpg" alt="" width="444" height="266" /></a><p class="wp-caption-text">Os pardais não entendem patavina de futebol</p></div>
<p>Queria discutir alguns fatos. Certo, fatos cansam, muitas vezes, a verdade. Mas, no caso do Santinha, servem como antídoto contra as ilusões.</p>
<p>Nós fomos campeões pernambucanos. Sim, não devemos esquecer e não custa repetir. E jogamos, convenhamos, num campeonato melhor do que o da série D. E disputamos e ganhamos de adversários que estão bem na série B. Porém, o melhor de tudo foi, justamente, a manutenção da base, um milagre em se tratando do planejamento no nosso clube.</p>
<p>O que significa uma base? Um time entrosado, logo, preparado para entrar numa competição como a série D. Uma competição, diga-se de passagem, que não precisa de tanta preparação assim para ganhar, vide os campeões anteriores. E uma base significa economia, pois as contratações, em tese, não têm como objetivo a montagem de um time, e sim sua melhoria. O objetivo é suprir as carências, pode-se dizer. São poucas contratações. A estratégia fica mais fácil. E base, além do mais, é união, grupo e todo mundo antenado no objetivo.</p>
<p>Continuamos com a base? Sim, mas algo estranho aconteceu. Houve a contratação de muitos jogadores, alguns absolutamente desnecessários. E, no campo, perdemos a pegada, a raça e a organização tática. Sinceramente, acho isso tudo estranho. Há algo errado no grupo? Acabou a união? Não sei&#8230; O fato é que não se escala mais os melhores jogadores. O que está acontecendo?</p>
<p>Inicialmente, pensei que o problema fosse tático e arrumei uma desculpa razoável: o time só sabe jogar fechado e no contra-ataque. Na série D, precisa ter a iniciativa, pois os adversários jogam retrancados. Sendo assim, Zé Teodoro não teria a competência em armar o time com características ofensivas. Foi aí que pensei o óbvio: nada impede de o time jogar, na série D, como jogou no pernambucano. É só jogar compacto, marcando no meio-campo, chamando o adversário e saindo no contra-ataque. E, cá entre nós, os times não jogaram assim tão retrancados contra nós – alguns foram até bem afoitos.</p>
<p>É um problema de grupo? Pode ser&#8230; Boleiro é boleiro, etc e tal. Não é tão fácil unificar um grupo. E, no fut brasileiro, há essa frescura: os jogadores precisam de união para jogar de forma decente. Precisam de “família”. Na verdade, um profissional só precisa fazer jus ao seu salário. Pra que “laços afetivos”? Há união no grupo? Ótimo! Mas, na sua ausência, por que não fazer o que o pagamento do salário exige, isto é, por que não jogar futebol de forma decente e profissional? O jogador é pago, logo, deve jogar bola. Futebol não precisa de amizade.</p>
<p>Fico pensando&#8230; A saída de Tiago Matias pode ter alguma relação com algum mal-estar na turma? Jeovânio, nosso capitão, foi para o banco, sem maiores explicações. A saída de Jeovânio do time titular pode ser interpretado como um sintoma? Ele está pior do que Chicão? Não – inclusive, porque é impossível ser menos anódino do que Chicão.</p>
<p>As contratações pioraram o grupo? Digo que sim, não só no aspecto qualitativo, mas também no emocional. Contrataram muita mala. O que pensaria um jogador, principalmente um da base, que ralou no pernambucano e vê a diretoria e o técnico contratarem jogadores de nível técnico duvidoso?</p>
<p>Vou além: as contratações foram patéticas! Quem foi o responsável? Até as tartarugas de Intermares, daqui de Cabedelo, sabiam que Ricardinho não estava jogando bola. E olhe que são tartarugas que gostam muito mais de basquete do que de futebol. Leandrinho? Um ex-jogador em atividade – disse uma tartaruga, após uma risada ruidosa e prolongada. Mas, quando disse a alguns quelônios que o Santinha tinha contratado Washington e Fernando Gaúcho, houve um silêncio geral e, depois, gargalhadas e mais gargalhadas. As tartarugas pediram arrego.</p>
<p>_Por favor, diga que não é verdade, senão morreremos de tanto rir!</p>
<p>Continuei a maldade.</p>
<p>_Eram jogadores do Campinense&#8230;</p>
<p>Algumas tartarugas não aguentaram e morreram de rir ali mesmo. Uma cena feia, aviso logo, incompatível com uma sensibilidade ecológica.</p>
<p>_Mas o Campinense não foi rebaixado?<br />
_Foi, mas contrataram o atacante e o meia do time. E colocaram os dois para jogar logo de cara.</p>
<p>Morreram todas. Sim, virei um assassino de tartarugas. Mas a piada não foi minha, e sim da diretoria de futebol do nosso clube.</p>
<p>E Zé Teodoro nisso tudo? Como não tenho informações de bastidores, não sei dizer&#8230; Sei apenas que nosso comandante está acometido de pardalismo, a doença infantil dos técnicos de futebol. Virou um professor Pardal, cheio de invenções e tolices. Treina mal e escala errado. E, delirante, vê um jogo que é produto de suas ilusões e delírios.</p>
<p>Enfim&#8230;</p>
<p>Tem jeito? Claro que tem. Estamos na série D. Tudo é possível. Mesmo o pardalismo pode vencer. E vamos jogar na retranca, essa filosofia cara a Zé Teodoro.</p>
<p>Na retranca e contra um time de usina.</p>
<p>Bora ver.</p>
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		<title>O estudo da idiotia e as tartarugas de Intermares</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Aug 2011 01:42:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div id="attachment_13123" class="wp-caption aligncenter" style="width: 471px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/o-estudo-da-idiotia-e-as-tartarugas-de-intermares/attachment/tartaruga/" rel="attachment wp-att-13123"><img class="size-full wp-image-13123" title="Tartaruga" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/08/Tartaruga.jpg" alt="" width="461" height="346" /></a><p class="wp-caption-text">Uma visão rara das lendárias tartarugas de Intermares</p></div>
<p>Recebi um telefonema de Artur Perrusi, nosso dileto e desaparecido Editor-Minor, para assistir ao jogo do Santa Cruz em sua casa. O convite soou estranho, dada a sua longa ausência de nosso &#8230;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13123" class="wp-caption aligncenter" style="width: 471px"><a href="http://www.torcedorcoral.com/destaques/o-estudo-da-idiotia-e-as-tartarugas-de-intermares/attachment/tartaruga/" rel="attachment wp-att-13123"><img class="size-full wp-image-13123" title="Tartaruga" src="http://www.torcedorcoral.com/wp-content/uploads/2011/08/Tartaruga.jpg" alt="" width="461" height="346" /></a><p class="wp-caption-text">Uma visão rara das lendárias tartarugas de Intermares</p></div>
<p>Recebi um telefonema de Artur Perrusi, nosso dileto e desaparecido Editor-Minor, para assistir ao jogo do Santa Cruz em sua casa. O convite soou estranho, dada a sua longa ausência de nosso convívio. Durante muito tempo, tentei, sem sucesso, localizar o seu paradeiro. Procurei-o inutilmente em hospitais, simpósios de psiquiatria sobre o medo do homem pelas baratas e, por fim, em necrotérios. Nenhum sinal. Perrusi, ao que parecia, não estava vivo nem morto, mas no limbo.</p>
<p>Aceitei o convite, não apenas porque na minha casa não pega satisfatoriamente o Canal 22, mas também porque fui movido pela curiosidade em saber o que nosso Editor-Minor havia feito durante todo esse tempo.</p>
<p>Bati a porta de sua casa três vezes, de acordo com as suas orientações, mas ninguém atendeu. Depois, bati mais três vezes e continuei inutilmente na espera. Cansado de aguardar e na expectativa do início da partida, decidi abandonar a passividade e enfiei o pé na a porta, até que ela se abrisse.</p>
<p>Porta escancarada, encontrei Perrusi em pé, no meio da sala de estar, pintado de verde, usando uma sunga de praia, com uma bacia de lavar roupa amarrada nas costas e um lenço vermelho preso na testa. Quis perguntar que porra era aquela, mas ponderei que sempre é preciso agir com cautela diante de um doido em potencial.</p>
<p>― Por que você não abriu a porta quando eu bati?!</p>
<p>― Porque você bateu seis vezes e nós combinamos apenas três.</p>
<p>― Mas eu bati três vezes, você que não abriu, aí eu bati mais três!</p>
<p>― As três primeiras batidas poderiam ter sido casuais. Precisava ter certeza.</p>
<p>Achei o início de nosso reencontro parecido com os episódios da série de TV <em>Além da Imaginação</em>. Paciente, cobrei esclarecimentos.</p>
<p>Artur me explicou que andava cansado do futebol de quarta divisão jogado pelo Santa, por isso, aceitou o desafio de realizar uma pesquisa solitária sobre os hábitos das lendárias tartarugas de Intermares. Como psiquiatra e sociólogo, sua missão era descobrir por qual motivo as fêmeas se identificam mais sexualmente com as tartarugas do eixo Rio-São Paulo do que os machos nascidos e criados na Paraíba. Segundo Artur, os hábitos das tartarugas marinhas têm profundas semelhanças com os torcedores paraibanos, que preferem os times cariocas e paulistas aos de João Pessoa e Campina Grande. Se descobrisse o mistério de um, provavelmente, descobriria a razão do outro. Era preciso, portanto, diagnosticar a causa para, enfim, encontrar a cura. Por enquanto, ele defendia que a preferência das tartarugas se dava em virtude dos seus ovos serem chocados em parabólicas enterradas na praia de Cabedelo. O disfarce de tartaruga ninja foi a forma que nosso Editor-Minor encontrou para se infiltrar no habitat natural dos quelônios sem levantar suspeitas.</p>
<p>Levei um tempo para me acostumar com aquela tralha pendurada em suas costas, mas preferi não tocar no assunto, já que sua cara de doido me dava medo. Perrusi ligou a TV e me ofereceu ovos de tartaruga enrolados em algas marinhas, hábito adquirido durante o período da pesquisa. Recusei gentilmente.</p>
<p>A imagem da TV não era lá essas coisas, mas dava para acompanhar a partida. O jogo feio fez com que Artur começasse a mostrar os primeiros sinais de irritação. Quis crer que o isolamento natural do convívio humano tenha-o deixado menos tolerante.</p>
<p>― Que jogo feio do carai! – disse ele, para em seguida dar uma dentada num ovo de tartaruga.</p>
<p>― O jogo não está feio, a imagem é que está ruim – defendi, hipnotizado pela gema do ovo lambuzada em sua cara.</p>
<p>― Coisa nenhuma! Esse time é que não joga porra nenhuma! – respondeu agora com a boca cheia de um punhado de algas marinhas.</p>
<p>Decididamente, Artur estava transformado. Em todos esses anos de convívio, nunca o ouvi chamar tanto palavrão. No passado, suas irritações faziam-no, no máximo, citar o filósofo dinamarquês Kierkegaard e seu existencialismo cristão, cujo nome, de tão difícil pronúncia, mais parecia uma palavra obscena.</p>
<p>Talvez por isso, já que o conhecia bem, achei precipitada a sua crítica contundente ao nosso Santinha, principalmente depois dos méritos que envolviam a conquista do campeonato pernambucano. Assim, insisti na tese da imagem ruim e, para comprová-la, mandei uma mensagem de texto para o celular de Paulinho, nosso cronista que se fazia presente no Almeidão, testemunha ocular da partida entre o Paracetamol e nosso genuíno Tylenol:</p>
<div>
<blockquote><p>Paulinho, o jogo aí tá feio como na TV?</p></blockquote>
</div>
<p>A resposta demorou apenas meio minuto.</p>
<div>
<blockquote><p>Aqui está do caralho, um jogão! Hahahaha!</p></blockquote>
</div>
<p>― Não disse?! – falei triunfante, ao mesmo tempo em que mostrava a mensagem de texto enviada por nosso companheiro de redação.</p>
<p>Artur me olhou de cima e perguntou se eu era incapaz de perceber a ironia intrínseca e explícita no texto de Paulo em forma de gargalhada. Achei uma bobagem. Paulinho, para mim, ria mesmo era de felicidade de ver um futebol vistoso, envolvente e altamente competitivo. Artur, para descontruir o meu ponto de vista, foi até a cozinha, voltou com dois pacotes de Bombril e colocou-os nas pontas da antena. A imagem melhorou, mas restaram os fantasmas dos jogadores.</p>
<p>Num momento de perigo do ataque coral, Ricardinho recebeu a bola na área, mas o bandeirinha marcou impedimento, levando-me ao protesto. Para mim, Ricardinho estava em posição legal, seu fantasma na TV era quem teria ficado impedido. Artur quase chegou a me dar razão, mas voltou a si ao ver o replay do lance. Não aguentei tanto pessimismo e esbravejei, apoiado nas sábias palavras de Nelson Rodrigues:</p>
<p>— Deixa de tolice, que o videoteipe é burro!</p>
<p>Perrusi rebateu ao afirmar que só um cego não vê que o time está jogando pedra em santo. Por fim, retirou da sua estante um compêndio sobre o estudo da idiotia no futebol. Na tese de um sociólogo inglês chamado Pen Taylor, há um afirmação categórica que diz que depois dos quarenta anos todo adulto adquire a chamada vista cansada, aquela que impede que você veja claramente o que está a um palmo do seu nariz. No caso do futebol, a falta de visão, na sua visão, causa danos irreversíveis ao senso crítico do torcedor e o torna cego e, portanto, um otimista irracional.</p>
<p>Fiquei cheio de mais-mais-mais e sem argumentos para discutir com um homem de sunga, pintado de verde e com uma bacia amarrada nas costas. Sem encontrar respostas para a teoria da idiotia no futebol e com medo de parecer irracional, avancei sobre os ovos de tartaruga com algas marinhas, como quem avança sobre uma das vagas para a Série C, e emborquei de um gole só um copo de cana com gás. Minha goela queimou e o álcool em forma de bola de fogo rapidamente subiu para a cabeça. A partir daí, tudo ficou claro.</p>
<p>Já comprei a minha bacia e a sunga de praia e estou de partida para Intermares para auxiliar nosso Editor-Minor no estudo das tartarugas marinhas paraibanas. Se não descobrir a causa da geração torcedor-parabólica, pelo menos não sofrerei com os riscos de ficar mais um ano na Série D. E se nada mais der certo, ao menos passarei o dia comendo ovos de tartaruga e bebendo cana com gás.</p>
<p>Quer vida melhor?</p>
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		<title>A Série D é nó cego</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 03:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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<p>No final da noite do domingo, recebi em minha casa a visita de Nó Cego, ex-comentarista do <a href="http://www.torcedorcoral.com/">TC</a> no Twitter e o maior chato de galocha que já tive notícias em toda a minha vida. Perto dele, Seu Lunga é um homem gentil e caloroso. Ainda me lembro de nosso último e desagradável <a href="../../../../../blog/resenha/o-no-cego-da-copa-do-nordeste/">encontro</a>, no Arruda, para assistir a um jogo do Santa Cruz pela Copa do Nordeste.</p>
<p>Nó Cego, para quem não o conhece, é cego de nascença, mas costuma dizer que perdeu a visão nos cinco a zero que o Santa levou do Bahia na Fonte Nova, pelo campeonato brasileiro de 1981, depois de ter ganho a partida de ida por quatro a zero. Desde aquele tempo, fica cego de raiva com um mal resultado do Santa Cruz.</p>
<p>― O Santa Cruz voltou a fazer raiva – disse Nó Cego com seu habitual mau humor.</p>
<p>Nó Cego certa vez declarou que a sua melhor qualidade é o mau humor. Tenho dificuldade em associar qualidade à índole de quem se exalta por causa de sua propensão a manifestar com uma boa dose de facilidade a raiva contida. Sua tese é que o mau humor lhe deixa alerta e mais crítico, portanto, com uma visão mais aguçada da vida e, por tabela, do Santa Cruz. Nessas horas, argumentar com Nó Cego é puro desperdício de tempo, mas, apesar do nosso convívio já ultrapassar a casa dos dez anos, ao que parece, ainda não aprendi.</p>
<p>― Mas a gente ainda não é líder? – lembrei da nossa comodidade na tabela, apesar de dois empates seguidos.</p>
<p>― Você é mesmo um tonto! – assenhorou Nó Cego. Não reparou que temos um jogo a mais e que podemos cair para a terceira colocação na próxima rodada?</p>
<p>― Reparei, mas o Guarani também tem um jogo a mais, não é verdade? – rebati, tentando trazê-lo de volta à razão.</p>
<p>― Guarani é o meu carai! E eu quero lá saber daquela porra de coisa cearense! Quero é saber do Santa Cruz, que empatou com aquela porcaria no Arruda diante de mais de 42 mil espectadores. Depois acharam pouco e empataram novamente, dessa vez com o juvenil do Porto. Ah, vão se lascar!</p>
<p>― Mas, rapaz, o campo não tinha condições de jogo e, portanto, o resultado era imprevisível, já que debaixo d’água não tem como jogar futebol. Por isso, não se pode culpar ninguém pelo empate naquelas condições, você não acha?</p>
<p>Nó Cego não achou e, sem que eu esperasse, girou com toda a força a mão direita e tacou a sua bengala na minha cabeça. Soltei um forte grito de dor e achei que o meu crânio tinha partido em dois.</p>
<p>― Ora porra, Nó Cego, que merda é essa?! – Protestei, atestando com a mão o tamanho do galo que se formara instantaneamente no quengo.</p>
<p>― É pra você deixar de ser abilolado. Como ninguém tem culpa, seu merdinha? Se não tinha condições de jogo, por que a diretoria não tentou adiar a partida ao invés de deixar o time jogar num piscinão?</p>
<p>Não sei se foi a pancada na cabeça, mas o raciocínio de Nó Cego começava a fazer algum sentido para mim. Mesmo assim, mantive a minha posição.</p>
<p>― Mas, rapaz, os caras não lutaram em campo? Teve até gol anulado! Se não fosse o juiz, a gente ganhava o jogo. Que é que tu queres mais?</p>
<p>Minhas palavras causaram novo furor em Nó Cego, que já se levantava da cadeira para me tacar novamente a bengala na cabeça, mas, dessa vez, eu estava atento e consegui sair com grande agilidade do seu perímetro de ação. De pé, Nó Cego olhava para a direção contrária, enquanto eu, às suas costas, estudava os seus movimentos e ensaiava dar-lhe um peteleco na orelha.</p>
<p>― Você comeu merda de galinha?! Não reparou que esse é o segundo gol legítimo do Santa que foi mal anulado e a diretoria não fez bosta nenhuma! Pelo contrário, ainda ouvi algum dirigente dizer que o clube continua prestigiando a arbitragem. E não foi o bode rouco que sugeriu aquele campo de bosta?! Por mim, eles deviam arrancar o ovo da boca do bode rouco sem anestesia e dar para os árbitros comerem! Ia ser bem feito pra todo mundo.</p>
<p>― Como é que você sabe que os gols foram legítimos, se tu não enxerga porra nenhuma? – provoquei desacautelado.</p>
<p>Não tardou, Nó Cego rodou a bengala no meio da sala, como naquela cena de Matrix, onde Neo luta com um monte de agentes Smith, e me acertou bem no meio da cara. Caí no chão com o nariz quebrado e, não fosse a minha mulher que saiu em meu socorro e tomou a bengala de suas mãos, eu, a esta altura, estaria em coma, como se tivesse sido linchado pela torcida organizada do Corinthians. Fui para a emergência de um hospital, mas tive de desviar o meu caminho para deixar Nó Cego em casa.</p>
<p>Antes de sair do carro, ele disse que eu mereci apanhar para deixar de ser cego, depois bateu a porta com tanta força, que tenho a certeza que ouvi um parafuso tilintar no chão. Ainda gritei, meio sem convicção, que iria mandar a conta do hospital para ele, mas não levei a ideia adiante, com medo de receber a papelada de volta depois de ser usada para limpar bosta.</p>
<p>E ainda tem gente que fica com pena do ceguinho.</p>
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