futebol não é guerra, é arte

futebol não é guerra, é arte

Darli Alencar, Dermatologista e artista plástico Nasci no meio das cores preta, branca e vermelha, com direito a bandeira pendurada no quarto da maternidade e roupinha do Santa Cruz. Mas sempre achei o jogo de futebol uma tremenda besteira. Enquanto meu irmão ficava jogando time de botão, eu preferia brincar de bonecas. Anos depois, meu mano ia jogar bola, eu ia brincar de médico e paciente, de príncipe e princesa e até de papai e mamãe. “Nada mais bizarro do que ver um bando de homens correndo atrás de uma bola. Isto é absolutamente incompreensível para mim”. Este era meu argumento da adolescência, quando o tema da conversa era o jogo do pé na bola. Mas a terra gira.  “Um passo a frente e você já está em outro lugar”, dizia Chico Science. E nada como a picada de um novo amor para mudar a nossa opinião e nossos conceitos. O mundo girou, completei meus dezoito anos, firmei meu primeiro compromisso de namoro e era 1982. Em todos os cantos da cidade a seleção brasileira era falada em verso e prosa. Eu me joguei sem medo de ser feliz no meio das almofadas, dos sofás, pelo chão e, para surpresa geral da nação, acompanhei de perto aquela copa do mundo. Um time lindo em todos os aspectos. Na plasticidade, na beleza física dos atletas, no charme! O chute de Éder, a postura de Sócrates, o jeito malandro de Júnior, a genialidade de Zico, a sensualidade de Falcão, aquilo tudo me encantou. Dali para frente, meu olhar para o futebol mudou de foco e quando este assunto vem à baila, sempre digo que a seleção de Telê, aquela de 1982, foi meu marco zero. Comecei a gostar de futebol, ali. Apenas um ano depois, em 1983, vi de perto a tão comentada paixão da nossa torcida. Antes disto, eu não conseguia compreender a irracionalidade da minha família quando era dia de jogo do Santa. Papai sempre chamava assim: o Santa! E foi ele quem me deu o privilégio de ir para o jogo final daquele ano. De poder ver in loco um time e uma torcida que transpiram raça e paixão. Comento com meus filhos que aquele foi o maior espetáculo que já assisti na minha vida. Até hoje guardo recortes de jornais da época. Aquela decisão consolidou o meu prazer de ver 22 homens correndo atrás de uma bola,...

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O Santa Cruz e as crianças

O Santa Cruz e as crianças

Santana Moura, tricolor e especialista e psicologia esportiva Nestes tempos de paralisação, de marasmo e espera, bom mesmo é ocupar o tempo rememorando ou divulgando coisas boas. No dia 5 de janeiro o Torcedor Coral publicou um texto onde eu conclamava levar uma criança ao estádio! Pois bem, está renovado o convite. Outro dia vi a foto de Pedrinho, filho de Roberto Douglas, no Facebook em sua primeira estada no Arrudão, foi um batismo de alegria; sábia decisão do pai que tratou de levar seu rebento ao melhor lugar do mundo, para ir se acostumando com o que é bom. Esta semana vi um vídeo da garotinha Isis, que com pouco mais de um aninho já gravou o nome do Santinha no coração. O pai dela é rubro-negro, mas o avô é Santa Cruz, então, a menina muito opiniosa (existe esta palavra?), já escolheu, se decidiu. Assim, quando alguém diz gol, ela diz “Cuiiz!”. O pai rebate dizendo: Santa Cruz, não, é Sport; e ela de biquinho armado diz “É CUIIZ”. Nem falar sabe, mas já está decidida, já tem opinião formada. Ontem, meu marido estava assistindo a natação dos jogos escolares, quando uma criança de braço apontou para o pingente que Toy levava no peito. A mãe do bebê é rubro-negra e o pai é Santa. Advinha quem o menino escolheu? A mãe, então, pegando no pingente perguntou a ele: o que é isso? Sem articular bem as palavras respondeu de pronto: “tricooô!”. Lembro-me como se fosse hoje, em 1999, quando era psicóloga no Santa, trouxe um menino de Surubim para assistir a um jogo no Arruda, foi uma mudança de vida para aquela criança. Ele era um dos mais traquinos da sala da professora Diva, no Centro Educacional de Ensino Infantil, onde eu também trabalhava. Ela não sabia mais o que tentar para conseguir fazer o infante parar, prestar atenção às aulas. Após dar-lhe algumas orientações sobre como abordar a situação comecei a observar a incrível semelhança que ele tinha com Marcelinho, jogador revelado da base, por Givanildo. Não tive dúvida, contrariando a Psicologia Construtivista, adotei o estilo behaviorista e propus: “Luiz se você se comportar bem durante a semana vou levar você ao Recife, para conhecer Marcelinho”. O garoto, tricolor, passou a semana que era um anjo. Felizmente, a mãe dele confiou em mim e eu o trouxe para o Arrudão. Levei-o para junto dos mascotes...

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Frevo, aspirina e Série C

Frevo, aspirina e Série C

André Tricolor Virtual Confesso que preciso me consultar com o amigo Artur Perrusi, não para relatar minha fronemofobia e nem tão pouco tentar entender porque as tartarugas de Intermares são mais lentas que qualquer outra da face da terra. Há um tempo, na escuridão do Arruda, onde o ar cheirava a óleo diesel, tentei entender os desencontros e descasos na Av. Beberibe N° 1285. Era difícil encontrar explicação. Tentei e consegui beber cerveja Frevo gelada com a incrível certeza que poderia entrar em um sono profundo e acordar em algum paraíso Coral. Viajei por lugares terríveis, levantei-me com um hálito horrível, com gases pra dedéu. Não lembrava se o arrumadinho de charque estava estragado. Na farmácia da esquina não encontrei nem sequer uma aspirina. Veio lembranças do tempo dos bregas e bailes funk na Sede Social. E eis que vi o inglês Paul McCartney pisar nas Repúblicas Independentes do Arruda e cantar Let it be, para comemorar antecipadamente o Bicampeonato Estadual. A Seleção passou por lá também, mas já não é tão emocionante quanto O Mais Querido. Era tudo um sonho, ou uma mera realidade, pensei em voltar a pregar os olhos. Não queria que nada desse errado. Procurei mais uma Frevo, mas Ducaldo havia levado todas para sua casa. Pensei na Brahma, e a mesma me remeteu as Caravanas de Dani Tricolor, pelas estradas do Sertão Brasileiro, onde pagávamos muito caro pelas Séries C e D. Recordo bem da viagem a terra do  Padim Ciço. Eram muitos devotos tricolores por lá exercitando a sua fé. Pasmem, o que mais me impressionou não foi a derrota para o esforçado Icasa, nem o futebol bisonho do Ribinha, mas ter visto o ônibus que o Santa chegou a Juazeiro, mais velho do que o da Orquestra Garcia. No coma alcoólico pude desfrutar de um momento afroditiano, onde nosso clube viajava nos noticiários internacionais, ao mesmo tempo em que Nice saia na revista Playboy. Em Campina Grande houve até dilúvio das paixões Corais. Galdino e Chaves estavam juntos de olho na TV Nova. Não queria acordar de jeito nenhum, mas precisava estar de pé, para apoiar e participar de nossa recuperação em campo. Houve desencontros, Zé queria que as vaias fossem mais baixas e direcionadas aos torcedores das sociais. Foi apenas tolice de quem quer vencer sem ser questionado. Sobrou até tapa nas arquibancadas. Acordei justamente na casa dos festejos, fui dado...

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Nem tudo é ouro

Nem tudo é ouro

Heraldo Ferreira, tricolor e produtor cultural Vencer no futebol é mais do que o céu. Para muitos torcedores, ver o time do coração ganhar é melhor do que uma bela trepada, daquelas com sexo oral e beijo grego. E ai de quem ousar falar algo contra o time campeão. Será apedrejado, enforcado e esquartejado em praça pública. Ou enrabado sem dó. A verdade é que fomos campeões aos trancos e barrancos. O título veio pro Arruda, muito mais porque do outro lado existia um adversário fraco comandado por um sujeito esquizofrênico, do que pelo fato de termos uma grande equipe. Cegou de paixão quem não viu a quantidade de lambanças da nossa defesa e do goleiro Thiago Cardoso. Não fossem os deuses do futebol que cuidam de organizar o quesito sorte, teríamos levado uma sonora enfiada e as estruturas haveriam de balançar. Se aquelas bolas tivessem entrado, hoje a confusão era grande e com certeza Zé Pardal iria pegar o beco. Mas… se a mãe de vocês tivessem uma carreira de peitos, não seria uma mulher. Ela era uma porca. Por falar em pegar o beco, o que não falta é peladeiro nesse time campeão que já deveria ter sido mandado embora. Não sei o motivo de tanto pantim pra botar essas desgraças pra fora. Pra começar a brincadeira, os seguintes perronhas já deviam estar longe do Arruda, são eles: – Carlinhos Bala; – Eduardo Arroz; – Jéferson Maranhão; – Geílson; – André Oliveira; – Diogo. Não serei injusto com Maisena e Edér Túlio, pois, não tiveram oportunidade de mostrar se sabem jogar bola. Qualquer torcedor do Santa Cruz, por mais abilolado que seja, sabe que o time carece de pelo menos, um zagueiro, um lateral direito, um lateral esquerdo, um meia-armador e um centroavante, com um detalhe, que venham para brigar por titularidade, pois de figurante e ator coadjuvante o elenco já está cheio. Neste ponto, tenho minhas dúvidas se a dupla dinâmica Zé Pardal e Sandro vão conseguir contratar um lateral-direito(ala, para os mais modernos!) que saiba jogar bola. Faz quase um ano e meio que nós torcedores do Santa esperamos pela chegada de um lateral-direito decente, mas só trazem perna-de-pau. Escuto falar em Paulista e Victor Hugo como novas contratações. Me desculpe o senhor Antônio Luiz Neto, mas só pode ser brincadeira. Eu queria ouvir de Sandro e de Zé Pardal, ou de quem foi responsável...

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Tabus existem para ser quebrados

Tabus existem para ser quebrados

Santana Moura, especialista em psicologia do Esporte Outro dia lá íamos nós, eu e minha amiga Valéria (Assistente Social), por uma comunidade da periferia, ladeira abaixo acompanhando o curso de um córrego à procura do difícil endereço de uma família, que deveria ser atendida por nós (equipe Psicossocial). Enquanto nos equilibrávamos por entre as pedras eu ia dizendo: “estás vendo Valéria, qual é a pesquisa ou pesquisador que passa por uma área assim pra saber qual o time que a pessoa torce? Também não vai aos morros, nem alagados onde repousa, com muita força, grande parte da torcida coral.”. Pois bem, até algum tempo atrás se presumia que a imensa torcida tricolor seria formada apenas pelos menos favorecidos. Esta crença se espalhou em nosso meio, tendo se acentuado quando meu conterrâneo o também tricolor, José Nivaldo Junior, ao microfone de uma grande emissora de TV, defendeu a tese de que Pernambucano não comportava três forças clubísticas a competirem entre si no mercado futebolístico. No dia seguinte, começaram as piadas e pragas, alegando que o Santa Cruz iria desaparecer e sua torcida se reuniria com a do Náutico para formar a “Triconáutico”. Na época, era tempo de fusões em meio às reengenharias de empresas nacionais e internacionais, instigadas pelo capitalismo. Tudo indicava que seria este o nosso destino. Pouco a pouco sem apoios, sem patrocínios, alijado de participar do bolo de benesses do Clube dos 13 e, diferentemente dos pseudo-irmãos, O Mais Querido acelerou a queda de série em série, até chegar ao fundo do poço. Nosso estádio foi encolhido e interditado, começava, então, a tentativa de exclusão mais cruel do nosso futebol. Para deixar bem claro, aqui, o conceito de exclusão de que falamos nos reportamos a Pablo Gentilli, ferrenho crítico do mercantilismo na educação. Esse autor argumenta que há três modalidades mais comuns de exclusão: 1) Supressão completa de uma comunidade por expulsão ou extermínio (Colonização – holocausto). 2) Exclusão por mecanismo de confinamento e reclusão (Leprosos, loucos, anciãos, deficientes, até algum tempo atrás), uma crueldade sem precedente. 3) Segregar, incluindo (sem-teto, inimpregáveis, crianças de rua, etc.). Esses podem conviver com os incluídos, só que em condições inferiorizadas, sendo esta uma forma invisível de excluir. Nesses termos, não tenhamos dúvidas de que sofremos uma tentativa de extermínio. Não se via notícia nas manchetes de jornais ou destaques nos programas de rádio ou TV sobre o nosso clube, mas...

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Se conselho fosse bom…

Se conselho fosse bom…

Santana Moura, especialista em Psicologia do Esporte …Não se dava, se vendia. É o que diz um ditado popular. Pensando nisto escrevi estas considerações, que não são conselhos, pois as dicas que tenho postado nos espaços tricolores parecem que estão sendo seguidas pelos nossos contendores. No calor de uma reta final de decisões, onde nos deparamos com o mesmo filme (situação de pressão) queremos pelo menos mudar o final da fita. Neste caso, a palavra de ordem é frieza e não paciência como temos ouvido. Para ilustrar a inoperância de certos conceitos em determinados eventos, lembro-me de uma olimpíada na qual um treinador de boxe dizia para seu atleta – exímio nocauteador – que esperasse o tempo certo para aplicar um golpe que colocaria na lona o adversário; o tempo foi passando, o oponente se defendendo e o coitado do atleta esperando com paciência que o outro abrisse a guarda para ele aplicar-lhe um direto no queixo, talvez. Enquanto isto o concorrente ia batendo no seu corpo e marcando pontos, marcando pontos. Passaram-se os rounds, o nocauteador abdicando de boxear não encontrou espaço para o nocaute e, assim, perdeu a luta e a medalha de ouro por pontos. Historia como essa nos ensina que às vezes não é tão salutar ter tanta paciência, melhor mesmo é ter prontidão decisória e frieza para definir a partida no menor espaço de tempo. No elenco do Santa Cruz tem jogadores com esta capacidade (por motivos óbvios não vou citar nomes). A melhor defesa é o ataque efetivo, não vale a inépcia. Já vimos muitos adversários do Santinha chegarem num momento de pressão e catimbar o jogo, com a conivência da arbitragem, tanto da casa como de fora. Afinal dentro do vestiário todos os gatos são pardos.  Então, melhor aniquilar logo o adversário sem piedade. O que faz a diferença, nessas horas, é realmente o aspecto psicológico, pois já se sabe que cor de camisa não assusta mais ninguém nos dias de hoje. Que cada jogador faça sua meditação particular encontre seus pontos fortes e os aproveite durante a partida. Nunca se deixem intimidar por palavras que os coloquem para baixo, corram em busca dos sonhos junto com os companheiros. Sonho que se sonha junto torna-se realidade. Ficar agoniado como Náutico esteve na partida contra o Sport não resolve nada, pois começa a faltar oxigênio no cérebro comprometendo a cognição, o pensamento, o raciocínio...

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