Réquiem para um ente querido

Gadiel Perrusi (Texto publicado originalmente no Blog dos Perrusi)              Quando meu avô fugiu da miséria de Nápoles, para encontrar outra mais terrível ainda no antigo Recife, pensou que haveria sempre a esperança de criar um ente querido em sua nova casa. Nos Coelhos, bairro que abrigava pobres e marginalizados imigrantes europeus, ajoelhou-se num dos seus pátios e rezou. Um dia, surgirá um grande de muitas cores, na forma de um time de futebol e a ele dedicarei minha pobre vida. Entre o preto e o branco, infiltrou-se o vermelho que lembrava o guerreiro vulcão, de rubras lavas, que ainda respinga cinzas na sua pequena aldeia. Entre derrotas, vergonhas e muitas glórias, meu avô passou a sua descendência o amor por aquelas tão significativas cores substantivas. O luto negro das gentes de sua aldeia pelos mortos prematuros. O luto permanente dos padres católicos pela morte do seu ídolo religioso que nem sequer teria existido. O vermelho, rubor na face das donzelas aldeães, que procuravam maridos. O vermelho eterno e furioso do vulcão, a poucos quilômetros de sua própria casa. O branco da alegria, da paz e do dever cumprido. Hoje, somos vítimas de um nome. Roubaram a SANTA e nos deixaram a CRUZ, instrumento de tortura, martírio e dor que o cristianismo católico elegeu, insensatamente, como símbolo maior do Sublime que jamais tenha existido. Pouco importa! Importa, isto sim, o sofrimento que os políticos populistas nos impõem, com falsas moedas que distribuem aos pobres poeirentos desta cidade, com toda a avareza que o enriquecimento a custa do trabalho alheio lhes proporciona. A humanidade é uma espécie predadora. Somos mamíferos solipsistas e jamais amaremos o próximo com a nós mesmos, pois isso não passa de uma ilusão. Mas, podemos amar um símbolo coletivo em que todos se encontrem e desejem o mesmo objetivo. O sonho de vencer ludicamente, sem bravatas, guerras ou ódio pelos adversários. Fizeram do Santa Cruz um saco de batatas, de vento e de sofrimento em que todos batem e ridicularizam. Mas, isso não é o fim! Expulsemos os políticos gananciosos e incompetentes do nosso clube. Sejamos rigorosos e impiedosos com os falsos profetas que desgraçaram nossa agremiação. Implacáveis! Mas “sem perder jamais a ternura” de uma paixão saudável e prazerosa de ser um torcedor coral. Levemos nossos adolescentes talentosos a campo para formar um novo Santa Cruz. A pé, de bicicleta, de carroça, de jangada, iremos até...

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A balsa de Medusa

Fabiano Pinheiro O quadro acima, pintado pelo francês Theodore Gericault, retrata bem como vejo o Santinha no momento atual. Nele, podem-se observar as diferentes atitudes humanas que se manifestam nos momentos cruciais da vida. Naqueles momentos difíceis, uns se deixam abater, em desânimo, mas outros não desanimam e agitam panos na esperança de serem vistos por algum navio. E esse quadro leva a uma reflexão: e se você estivesse naquela situação do naufrágio, em que lugar você estaria nessa pintura? Onde cada um de nós estaria eu não sei, mas Edinho com certeza seria o sujeito à esquerda com a mão no queixo assistindo impassível a balsa naufragar. Eu até arrisco dizer que me enquadraria no sujeito no alto ao centro da pintura que tenta encorajar os mais desesperados sugerindo uma esperança. Foi isso que fiz quando alguns amigos tricolores me ligaram após o jogo contra o Remo já se sentindo rebaixados. Afinal, me orgulho de ser otimista, adjetivo que considero ser uma grande virtude. Mas é bom não confundir as coisas. Otimismo e Pessimismo são realidades subjetivas, pois não dizem respeito aos fatos, e sim às nossas atitudes. São formas de acreditar em nós mesmos e no mundo, que, ou nos limitam ou nos libertam. O otimismo é definido como uma doutrina ou crença de que o mundo é o melhor possível. Que o bem sempre triunfa sobre o mal e que a tendência é ver as coisas sob uma ótica esperançosa e alegre, esperando os melhores resultados possíveis. O otimista não é aquele que apenas põe açúcar no café, sem mexer. O otimista adoça o café e mexe, quer dizer, mexe-se com fervor e fé inabalável até conseguir o resultado pretendido. Por isso, não deve se confundir o otimista com aquele que não quer ver a realidade e tem uma atitude alienada e conformista. Muito pelo contrário. Sob esse ponto de vista, nesse momento crítico em que se encontra o nosso Santa Cruz, exorto todos os tricolores a se unirem numa corrente de protesto contra a forma como o futebol ta sendo gerido hoje no Arruda. Precisamos de uma gestão onde as decisões não sejam tomadas por uma única pessoa, onde o responsável pelo futebol tenha que consultar outras pessoas para referendar suas decisões mais importantes, sem deixar de levar em conta também a opinião do torcedor. É claro que isso não significa seguir os exageros emotivos instantâneos...

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Saber perder

 Foto: Anízio Silva Dona Júlia ladeada dos netos Fabiano e Miguel   Fabiano Pinheiro   Amigos tricolores,   Minha avó, Dona Júlia, fará 90 anos em janeiro do ano que vem, e voltou ao Arruda depois de mais de 20 anos, tempo em que esteve sem meu avô do seu lado, o Francisquinho, como ela o chamava. Seu Chico, pra família e amigos.   Foram eles os culpados por eu ser torcedor do Santa Cruz, já que meus pais não torcem pelo santinha. Era seu Chico, que foi jogador do tricolor lá pelos anos 40, quem me levava ao Arruda para ver o Santa jogar. Sempre com seu radinho no ouvido, ele não se mexia, nem emitia comentário, mesmo quando o Santa fazia um gol. Era uma figura! Eita, saudade da gota!   Pois bem, nesse último sábado foi a vez de trazer Dona Júlia de volta ao palco tricolor, ao mundão do Arruda.   Perdemos o jogo, é verdade. Mas minha avó não lamentou nada, foi tudo lindo, maravilhoso, desde a emoção do gol de empate à linda entrada do time em campo. Ficamos todos arrepiados ao ver o Santa entrar em campo, ao ouvir o barulho dos fogos, ao ver a fumaça em três cores, que finalmente saiu (embora justo a cor branca tenha acabado antes, dando um prenúncio lúgubre do que viria a ocorrer), ver o bandeirão da Inferno, etc.   Não é uma derrota que vai apagar de nossas memórias esses e mais outros inesquecíveis momentos que vivemos nesse clube tão amado. O jogo de sábado não foi nada mais do que apenas uma partida de futebol. Nem a primeira, nem a última derrota.   Mas não é só sobre isso que me propus a escrever hoje, pois o nosso momento é delicado, e não vejo que seja hora de se omitir ou se entregar. O interessante é ver como as opiniões – não digo que mudam, por que mudar é normal e importante – mas saltam completamente de um pólo a outro.   E é bom ter acesso, através de blogs como esse, a tantas opiniões, mesmo sendo algumas maravilhosas e outras absurdas.   Lendo o Blog do Santinha, elogio a postura crítica de Eduardo Ramos entre outros. Crítica no sentido verdadeiro da palavra, pois se costuma confundir a crítica com a reclamação, o mero desabafo. Muitas vezes o elogio é uma crítica, simplesmente por fugir do...

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Sobre fogos e apitos

Dimas Lins   Fabiano Pinheiro é conselheiro e sócio do Santa Cruz. Mas é por sua vibração e otimismo que ele ganhou notoriedade na torcida coral. E não há quem o segure. Enquanto o time transitava na zona de rebaixamento durante onze rodadas, Fabiano falava em ocupar uma das quatro vagas para a primeira divisão. Alguns acham que ele é otimista, outros, delirante. De uns tempos para cá, eu o acho atuante. E é assim que deve ser um grande tricolor.   No último encontro na Quinta Santa, convidei Fabiano para escrever um texto no Torcedor Coral, pois, como disse, alguém tem que ser otimista neste blog. Ele aceitou o convite e agora publico o seu artigo que está relacionado com sua mais nova campanha de incentivo ao time. Da minha parte, hoje à noite acerto as contas dos fogos de artifício. Fabiano Pinheiro   O apitaço foi fundamental pra subida tricolor em 1999. Levei apitos em 2002, 2003 e 2004. Em 2005, sem quase nenhum apoio, consegui levar apitos no primeiro quadrangular da série B. No segundo, já sem verba quase nenhuma, apelei e fui pedir ajuda a diretoria. Eles disseram que os apitos davam azar e se negaram a qualquer ajuda. Sem apitos, o Santa quase se lasca contra o Grêmio.   Me lasquei e banquei quase sozinho os apitos pros jogos contra as Barbies e contra a Portuguesa. Vencemos todos e subimos à série A. No ano seguinte, depois de ver o Santa detoná-los com os apitos, a diretoria da Barbie resolveu comprar apitos para todos os jogos. Com essa força, se tornaram quase imbatíveis na sua La Bonequeira e subiram à série A. É fácil entender isso. É só lembrar a importância do mando de campo no futebol de uma maneira geral. Não é por acaso. Os gritos da torcida podem fazer tremer os adversários, mas, principalmente, jogam uma carga de adrenalina no time local que tende a sair mais pro jogo e jogar com mais raça.   O apito vem só contribuir para aumentar o barulho e amplificar não só o som mais a pressão sobre o adversário e a favor do time da casa. Quem não lembra do barulho ensurdecedor no jogo contra o São Caetano em 1999? Foi emocionante!   Os fogos também contribuem e muito para esse espetáculo da torcida. O barulho que se faz na entrada dos times em campo...

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Os gols ocultos do TRI

Dimas Lins Aproveito o intervalo para o próximo jogo do Santa, para tratar de outros assuntos. Desde que passei a ser freqüentador assíduo do Blog dos Perrusi, venho acalentando o desejo de ver publicado aqui no Torcedor Coral um texto de Gadiel Perrusi, pai do nosso editor Artur e responsável, como se pode deduzir no texto, pela sua conversão ao Tricolonismo ou Coralismo. Neste artigo resgatado do FUTIBA, Perrusi Pai trata com garbo dos não-gols de Pelé que marcaram a história do futebol. E é possível compreender porque a caneta é uma extensão do braço na família Perrusi. Genética, amigos! Da redação do Torcedor Coral, esperamos que este seja o primeiro de muitos outros artigos. Gadiel Perrusi (Publicado originalmente no FUTIBA) Até bem pouco tempo, Bernard Pivot mantinha um programa de sucesso na TV francesa, intitulado Bouillon de Culture. Semanalmente, ele apresentava livros e entrevistava os seus autores. Em 1998, aproveitando, de certo, o clima de Copa do Mundo, reinante na França, Pivot dedicou um programa às relações entre a Literatura e o Futebol, Sobre o futebol, estavam sendo publicados romances, biografias (como a de Just Fontaine, por exemplo, artilheiro-mor da Copa de 58), simples relatos e até uma Enciclopédia Larousse especial que estampava na capa uma fotografia de Ronaldo, o Fenômeno, com a camisa da seleção. O Cartão Verde, da TV Cultura, apresentou, na mesma época, vários títulos brasileiros que enriquecem nossa bibliografia sobre o assunto. No início do seu programa, Pivot fez uma pergunta a todos os seus convidados: qual o gol que mais impressionara os autores, durante as copas? A cada gol citado, apareciam suas respectivas imagens na tela. Para minha surpresa, um dos entrevistados escolheu um gol que não houve durante a Copa de 70. Simplesmente, um lance de Pelé contra nosso ex – tradicional inimigo, o Uruguai. Tudo isso me fez recordar a Copa de 70, que assisti pela TV francesa, pois, na época, fazia meu Doutorado em Paris. É claro que não houve nenhuma comemoração pelo TRI, em Paris, mesmo porque a França nem sequer passara pelas eliminatórias. Até mesmo entre brasileiros, na maioria exilados políticos, nada demais ocorreu. A esquerda exilada havia resolvido, num desses “coletivos” da vida, torcer contra o Brasil. Apesar de convidado a fazer o mesmo, recusei-me. Não achava que uma eventual derrota de nossa seleção fosse ajudar em nada o combate à Ditadura. É certo que os políticos...

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Santa Cruz: o que fazer?

Marco Aurélio Freire   Já se vai mais quase metade do Campeonato Brasileiro da Série B de 2007. Passamos da 16ª rodada, restando ainda mais 22.   Após empates contra Remo e Ceará (rivais diretos contra o descenso), jogando em casa e apresentando um futebol pífio, o Santa Cruz sai para dois compromissos longe do Arruda e volta com apenas um ponto (empate contra Avaí e goleada humilhante para a combalida Ponte Preta), permanecendo assim na zona de rebaixamento da série B. Hoje o Tricolor ocupa a vice-lanterna, e devemos considerar que poderia ser até pior, caso o Fortaleza não tivesse dado uma ‘mãozinha’ na rodada ao golear o Remo na capital cearense. Campanha de apenas 3 vitórias (time que menos venceu na série B até o momento), sendo que todas foram conseguidas em casa.   Muito se fala no momento a respeito desse péssimo retrospecto, mas alguns fatores precisam ser considerados. A grosso modo, a questão maior não é nem este fato em si (zona de rebaixamento), o que assusta mesmo é a nítida falta de poder de reação. Quando se disputa um torneio cuja vitória vale 3 pontos, duas ou três rodadas são suficientes para uma recuperação, caso esta aconteça de maneira consistente. O Fortaleza é um bom exemplo disto: liderou a competição e depois passou vários jogos sem pontuar, despencando para o limite da zona de rebaixamento. Mas, ao contrário do Santa Cruz, soube fazer a lição de casa e, com três vitórias e um empate, deu um salto para a parte de cima da tabela.   Outra diferença entre os dois Tricolores é que o alencarino tem um elenco mais organizado e parece saber encarar a competição com mais inteligência. Já o tricolor pernambucano sucumbe à sua própria incompetência e desorganização.   Falta de planejamento/organização é o termo que define com exatidão essa campanha patética do Santa Cruz. E as coisas tendem a piorar sensivelmente, uma vez que já se foi boa parte do campeonato e não se nota qualquer possibilidade imediata de reação. O que se vê é a repetição dos mesmos erros, com a chegada de um novo comboio de atletas, muitos dos quais veteranos e dispensados de outros clubes como, por exemplo, do Bahia, que hoje se encontra na série C. Como conseguir um padrão mínimo de jogo assim, com essa troca constante de peças?   Outro problema parece ser o treinador...

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