O Pagão de meu pai

Desde que consigo argumentar sobre futebol com meu velho pai, ouço-o endeusar Maradona. Para ele, o argentino é insuperável. Meu velho não cansa de repetir: “Tudo o que Pelé fez com duas pernas, cabeça, tronco e membros, Maradona fez apenas com a perna esquerda.” Tem uma certa lógica, mas não concordo, até porque Pelé foi mais completo. Para mim, Pelé foi o melhor e pronto. Ponto! A verdade é que sempre me doeu os ouvidos de tanto meu pai falar del Pibe. “Pelé nunca ganhou uma copa sozinho. Em 86, só deu Dom Diego”, segue a ladainha. Comecei a acompanhar copas do mundo a partir do mundial da Espanha. Lembro-me muito bem de meu velho falando que a seleção de 82 só tinha “armandinho” (designação para jogadores de meio campo que só criavam, mas não finalizavam). Era pura maldade com aquele time, que até hoje não sai da minha cabeça. Notava uma certa raiva no velho. Em 86, era o time dos armandinhos envelhecidos. “Se no auge da forma perdemos, imagina agora”, dizia. Quatro anos mais tarde veio a famigerada copa da Itália, com o mais famigerado ainda Lazzaroni (esse sujeito deveria ser banido do futebol) e aquela seleção retrancada, jogando um “catenaccio” de primeira qualidade. Não deu outra, perdeu. Onde já se viu uma seleção brasileira jogar à italiana? Mesmo assim, quase saio no tapa com o velho. Não agüentei sua perturbação no meu juízo por causa daquela jogada genial de Maradona e o passe pro Caniggia nos mandar de volta pra casa. Estados Unidos 94, o mesmo “catenaccio”, mas dessa vez ganhamos. Tínhamos Romário para fazer a diferença. Ao notar que minha mãe estava feliz, sobretudo pelos filhos poderem finalmente comemorar um título mundial da seleção, meu pai não perdeu a chance de provocar e emendou: “Com um time desses, era melhor ter perdido”. Não lhe dou razão, mas não guardo muito afeto por aquela seleção. Em 98, foi aquela coisa de amarelar pra cá, amarelar pra lá. Nike, Adidas, etc. Concordei com ele, ainda que com ódio mortal dos franceses. Chegou 2002, nessa copa, estranhamente ele torceu pelo Brasil. Eu nunca havia visto meu pai torcer pela seleção. O que teria acontecido? A resposta é simples. Naquele time havia Rivaldo. Criado no tricolor, colocado pra fora por pressão da torcida, mas tricolor de verdade. Rivaldo vinha sendo esculachado pela imprensa, sobretudo a do sudeste, capitaneada por...

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Uma plantação de abobrinhas

Por culpa da entressafra do Santinha, vou aproveitar a deixa de Artur e seguir na mesma linha do seu texto. Aliás, o texto dele rende umas quinze teses sobre futebol. Aqui, entretanto, vou abordar apenas a questão do jogo bonito e seu arqui-rival futebol de resultados. Vou defender a idéia de que o verdadeiro futebol brasileiro está vivo e ganhando títulos. Antes de começar, e para que fique bem clara a minha preferência nesse tabuleiro, digo de cara que a única equipe no mundo que tem permissão divina para ganhar jogando na retranca (ou com gol de mão, impedido e aos 50 minutos de segundo tempo) é o Santa Cruz. O resto, para conquistar a minha importantíssima admiração, tem que jogar, ou pelo menos tentar jogar um futebol bonito e de ataque. No meu time dos sonhos volante brucutu joga de gandula. Da mesma forma que o nobre psiquiatra de intermares, não entendo o porquê da incompatibilidade de beleza e resultado no futebol. Algumas vezes penso que essa idiotice nasceu da inveja que Parreira e Zagallo tinham do Telê. Inveja pelo carinho com que aquela Seleção de 82 é lembrada até hoje. Zagallo, verdade seja dita, que foi muito importante em 70, e Parreira chegaram a gritar aos quatro ventos e a quarenta e quatro microfones que o time de 82 era uma porcaria porque perdeu. Tudo para justificar o feio, porém bem jogado, futebol de 94. Aqui cabe um esclarecimento: jogar bem não é necessariamente jogar bonito. O time de 94 jogou bem, feio como a cara do Parreira, mas jogou bem. O engraçado, é que dos cinco títulos mundiais que temos, em três ganhamos jogando um belíssimo futebol de resultados, e que resultados! 5×2 na Suécia; 3×1 na Tchecoslováquia e 4×1 na Itália. Ganhamos uma jogando mais ou menos bonito, 2002. Em 94 ganhamos de 0x0, numa das finais mais enfadonhas da história do futebol. Nem vou falar em Lazaroni por aqui. Seria uma baita covardia. Mas vamos pra frente. Diferente de Artur, entretanto, não dou essa batalha por perdida. Acredito que o futebol força não venceu. Recuso-me a deixar cair a minha ficha com a cara do Dunga. Aliás, a minha ficha tem a cara abusada do Luis Aragonés, o Telê Santana do país do flamenco, do azeite e da paella. Portanto, nobre psiquiatra, não se preocupe com os sub-25. Eles não sabem o que dizem,...

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Depois de botões, camisas

Não costumo comprar as camisas oficiais do Santa Cruz. Quer dizer, não costumo comprar as camisas oficiais atuais. Não falo exclusivamente das da Pênalty. Na verdade, sempre compro o modelo anterior ao que o clube está usando. A razão é muito simples. Nunca me sobram 100 pilas para comprar a camisa. Aliás, discordo do presidente, 100 reais é muito caro para uma camisa, ainda que seja a camisa do seu clube amado. Até entendo que é dinheiro que entra pro clube e tal, mas a verdade é que eu preciso comer e ir aos jogos, ainda que de vez em quando. Pra ser mais sincero, não gosto desses tecidos ultra-modernos. Prefiro uma boa e velha camisa de algodão. Tenho a maior inveja de Joãozinho, que vai pro Arruda com uma camisa de listras verticais, bem antiga, acho que dos anos 70. A propósito, aí vai uma sugestão. É possível fazer uma camisa oficial de algodão? Pode ser um modelo mais simples, inclusive. Só comprei a camisa da hora uma vez. Foi no dia 26 de novembro de 2005. Antes da partida contra a Portuguesa. Naquele dia, estava possesso. Parecia que eu havia cheirado todas as linhas existentes no mundo. (Papai, sinto informar, mas seu filho é um drogado. Eu gosto de drogas pesadas, sou viciado em Santa Cruz Futebol Clube). Enfim, naquele dia tava o cão. Saí de João Pessoa umas 10 da manhã, em companhia de um amigo que gosta de brincar de Barbie (era o dono do carro) e nossas respectivas senhoras, que odeiam futebol. Durante toda a viagem, minha preocupação era apenas uma: será que a lojinha do clube aceita cartão de crédito? E se aceita, em quantas vezes divide? Pois bem, chegamos ao Recife e fomos almoçar, não lembro onde. Acho que num restaurante da Madalena. Talvez João da carne de sol. Comi pouco, estava aperreado. Não me preocupava a partida, andava apertado com as contas e sabia que se chegasse em casa com uma camisa oficial, ia rolar uma discussão. Minha proprietária não entenderia aquele ato como um investimento, mas como um mero gasto desnecessário. Quem conhece a dileta senhora sabe do que falo. Enfim, a pergunta continuava martelando a minha cabeça. Será que a lojinha do clube aceita cartão de crédito? E se aceita, em quantas vezes divide? Comemos e fomos em direção aos jogos. As garotas me deixaram em frente à Tamarineira...

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Cá com meus botões

Arte sobre foto: Dimas Lins Logo de cara vou dizendo que meus botões não são os mesmos botões de Artur, e são. Aproveito, pero no mucho, a linha de passe entre Artur, Betinho e Chico Buarque para escrever esse texto. Ao ouvir, essa semana, pela enésima vez o tricolor Chico Buarque – que já deve estar rouco – repetir a história do dia em que jogou com seus botões, pensei no Santa Cruz. A primeira pergunta que me veio à cabeça foi: quem foram os meus botões? Depois, quem são os nossos botões? A resposta da primeira já foi antecipada nos comentários do texto anterior. Tive botões com tudo que é nome, os únicos fixos eram os goleiros Luis Neto e Birigui. Jogavam os dois. É a minha contra-máxima, se craque joga até no gol, goleiro craque joga até na linha. O pero no mucho veio na terça passada, depois da sagrada pelada semanal. No caminho de volta pra casa, o papo comigo é sempre o mesmo. Toda semana aparece um novo interlocutor futebolístico. A primeira pergunta sempre é a mesma, de qual equipe é a minha camisa. Alguns confundem com a do São Paulo, nos dias em que vou com a branca. Repito sem cansar, e quase cansado, a mesma história. Começo explicando que o time se chama Santa Cruz. Diante da própria ignorância, me perguntam se está na primeira divisão. Resignado, respondo que estamos na série d. Eles então concluem que é uma equipe de pueblecito, que é como os espanhóis chamam as pequenas cidades. Respondo que não, que é de uma cidade gigante e caótica, se comparada às cidades espanholas. Ganho fôlego, falo um pouco sobre Recife e volto ao Santa Cruz. Digo que é um clube tradicional, que durante muitos anos era um dos mais temidos do Brasil. Eles estranham, não entendem. Comento das gestões passadas e sigo dizendo que temos um estádio para 100 mil pessoas e que, mesmo na série d, temos uma média de 30 mil pessoas por partida. Digo que nossa Torcida é melhor e mais apaixonada que a do Boca e a do Liverpool juntas. Então dou o golpe final: – O Santa Cruz é a equipe de Rivaldo. – Siiiiii???!!! Perguntam-me incrédulos. – Sim, de Rivaldo. Confirmo. Digo até que tenho uma camisa que foi de Rivaldo, de uma de suas primeiras partidas como profissional. Bem, ainda não tenho...

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Em nome da verdade

Dimas Mccarthy Lins, inquisidor do TC Amigos, há duas semanas aproximadamente há uma inquietação tirando o sono de todos os torcedores corais. Não falo das derrotas para o americano, nem para o central. Isso já estava no programa. Falo de algo muito mais sério. Algo que pode derrubar a república. Falo de uma conspiração. A mais horrenda conspiração nunca vista na história deste país. Uma conspiração patrocinada pela federação do bode rouco de futebol, em conluio com os nossos inimigos mortais, a coisa[i] e a Barbie[ii], e com a colaboração mais que especial da imprensa conspiratória de Pernambuco, imoral, imoral. No começo, é verdade, não demos muita bola. Pareciam desesperados com o soerguimento do mais importante clube de futebol do mundo. Eles, mais desesperados ainda, partiram para o jogo sujo (bem, se é que pode haver jogo mais sujo). Começaram uma campanha para jogar na lama dois dos mais importantes símbolos do Santa Cruz, dois dos mais importantes nomes da crônica futebolística do mundo mundial. Os senhores Artur Perrusi e Josias de Paula Jr. foram sumariamente acusados de serem adeptos da cachorra de peruca. Pior ainda, meus caros, os conspiradores conseguiram infiltrar-se em nosso meio. As acusações partiram de dentro da nossa própria casa. Isso não poderia ficar assim. O nosso guia e editor-mor, Dimas McCarthy Lins Bial, com o intuito de salvar a reputação do blog e muito bem acompanhado dos seus assessores John, George e Ringo, começou a investigação de caça às bruxas (diferentemente de dom Dedé, Diminhas investiga antes de excomungar geral). E ele não podia estar mais bem assessorado, dizem que os dois primeiros já andaram pelo inferno. Depois de matutar durante noites e noites insones veio a grande idéia. Se for para caçar as bruxas do Santa Cruz, devemos começar pela religião. Assim, nada melhor do que começar as investigações procurando Capella. Era a luz divina. Bastou essa primeira incursão, para que nosso guia conseguisse desmontar o argumento base das acusações. Pedro Henrique não é pipoqueiro, é, na verdade, um paçoqueiro, como já foi adiantado neste mesmo blog, pelo nosso líder. De modo que os Senhores Artur Perrusi e Josias de Paula Jr., nada mais eram que dois equivocados. Pra quem não se lembra do caso, leia os textos anteriores com seus respectivos comentários. (Só um parênteses para não perder a piada, para um clube chamado Santa Cruz nada mais correto que um diretor...

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Uma coisa completamente insignificante

O poeta dizia: “pode ir armando o correto, preparando aquele feijão preto que eu tô voltando, põe meia dúzia de Brahma pra gelar (…) que eu tô voltando”. Bem, amiguinhos, não tô voltando pro Brasil. Ainda. Mas a vontade de comer uma carne de sol com feijão verde é grande. Maior ainda é a vontade de voltar ao Mundão, de cara nova. Infelizmente não chegarei a tempo da final do Bode-roucão deste ano, volto em maio. De toda forma, o recado está dado. To voltando mesmo é a escrever para o TC. Antes de começar o texto propriamente dito, devo aos meus inúmeros fãs espalhados por este mundo afora uma explicação pela “omissão um tanto forçada” ou “pela duração dessa temporada”. A verdade é que, por uma coincidência do destino, tive que mudar de casa logo após a eliminação da série C do ano passado. Ademais, contei com a imensa competência dos serviços de telefonia espanhóis (como senti saudades da Velox e da Telemar!) para a instalação da internet. Tive que me mudar outra vez para voltar a ter acesso à grande rede. Por outro lado, não achei ruim. A nossa situação era catastrófica e a única luz que via no fim do túnel era a de um trem, ainda por cima de alta velocidade. Algumas vezes é bom estar numa ilha deserta. Perdi a vontade de escrever também. E assim se passaram seis meses. Confesso ainda que já estava morto de vergonha de chamar Dimas de Chefinho. Mas o grande chefe provou que é grande, entendeu minha tristeza e seguiu me pagando as merrecas mensais. Também não disse pros da pesada que me viu chorando e, sempre que possível, me mandou uma notícia boa. Pois bem, nada melhor que voltar a escrever numa semana como essa. Completamos 95 anos de glórias e de tristezas também. A vida, afinal, não é só feita de alegrias. Mas sempre com o orgulho em três cores. Alem do mais, esta é uma semana de clássicos. Depois de 2 anos, voltamos a enfrentar as barbies e temos um encontro com certa cachorra emperucada, cheia de laquê, no próximo domingo. Enfim, uma semana especial. Ia escrever sobre algo que me passou ontem, na minha pelada das terças-feiras, mas, no meio da emoção do aniversário, me lembrei de uma anedota que passou com Seu Bolívar, um tricolor arretado, e mudei de idéia. Seu Bolívar era...

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