O jogo que eu não vi

O jogo que eu não vi

…Ou abobrinhas sobre a “Mala Suerte” Os espanhóis nunca utilizam o termo azar, ou quase nunca, em meus três anos na terra do flamenco, nunca ouvi alguém pronunciar as fatídicas quatro letrinhas. Eles preferem mala suerte. Se não economizam nas letras, também não dão sopa para o az… enfim, deixa pra lá. O certo é que vivemos um tempo de discussão sobre o tema, discussões tão fortes e sérias que levaram o Blog do Santinha à solução final. Mas isso é uma outra história. A história que quero contar é a seguinte: nasci na década de 70, primeira metade, na maternidade São Marcos, ao lado do chiqueiro. Cresci escutando que, no dia em que vim ao mundo, metemos 4 na cachorra de peruca ali, no campinho ao lado. Se isto é fato, eu não sei, mas como tenho medo de que alguém vá pesquisar, prefiro ocultar a data. Não se deve matar os sonhos de uma criança. Nunca morei em Recife, por isso não sou um freqüentador assíduo do Arruda. Entretanto, durante muitos anos, todas as vezes que fui ao Mundão, e não foram poucas, nunca perdi. No máximo um empate, como na minha estréia, em 70 e algo contra o Central. Minha primeira derrota só viria anos mais tarde, acho que 84 ou 85. Ainda assim, durante um bom tempo, dava pra contar na mão esquerda de Lula as derrotas que presenciei. Em finais, entretanto, mantive a boa sorte por muito mais tempo. Vi os títulos de 78, 79, 83, 86 e 87, 90, 93, quando ninguém mais esperava, e 95. Um belo dia, trombo num corredor da UFPB com outro doido varrido pelo Santa. Artur Perrusi é o ateu mais místico que conheço quando se trata de futebol. Lembro que foi um aluno do cabra, amigo meu, quem nos apresentou. – Ei, vocês dois se conhecem? – não! – Pois deveriam. – Por que? – Por causa do Santa Cruz. – Você é tricolor? – Claro. Menos de uma semana, já fomos a um jogo. Santa e Barbie em plena segunda feira. De quebra, ainda levamos Geó, o poeta do apocalipse. Vencemos de virada, com direito a chilique de Kuki. Pronto, tava feito, juntamos a fome com a vontade de comer. Perrusi, recém exilado em João Pessoa só precisava de companhia para ir os jogos de meio de semana, eu só precisava da carona. Geó, só precisava...

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Delírios

Antes, para meus leitores fiéis, uns versos do Chico Buarque. “Pensou que eu não vinha mais, pensou Cansou de esperar por mim Acenda o refletor Apure o tamborim Aqui é o meu lugar Eu vim…” A citação não é gratuita. Comemoro duas voltas. Ao Torcedor Coral, depois de algum tempo, e, principalmente, ao Arruda, minha casa mais querida. Por opção e algumas imposições, desde a malfadada partida contra o CSA, ano passado, eu não voltava ao Mundão. O que importa, porém, é que o bom filho a casa torna. Voltei ao Arruda contra o Botafogo e gostei do que vi. Mas vamos ao que interessa. Sou doido. Isso não é novidade pra ninguém. Meu psiquiatra, o Dr. Perrusi, já perdeu qualquer esperança de fazer-me voltar(?!) ao normal(?!?!). Não há Rivotril com coca-cola que dê jeito. Já usei todas as drogas e nada. Necas de pitibiriba. Entre as minhas doidices, há uma que adoro. É um dos meus remédios prediletos para a insônia. O outro é assistir a “Um lugar chamado Nothing Hill”. Penso que eu sou o bonitão do Hugh Grant e a Julia Roberts, milionária, está caidinha por mim. “Seus problemas acabaram!” Bem, voltemos. Quando vou dormir e o sono não vem, começo a delirar. No mais das vezes, penso que sou um craque. Tal qual Galeano nos seus sonhos, penso que sou o melhor do mundo de todos os tempos. Nos meus sonhos, sou uma mistura de Garricha, Pelé, Maradona, Messi, Van Basten, Romário, etc. Jogo pelo Santa Cruz e não abro nem para um trem. Semana passada, coincidentemente após a partida contra o Botafogo, houve uma noite dessas. Cheguei em João Pessoa com a adrenalina ainda lá em cima, por causa do jogo. Maria estava em Brasília. Eu estava só em casa e precisava acordar cedo no dia seguinte. Tomei um banho e fui para o quarto, liguei o ar-condicionado no mais forte possível e tentei dormir. Não consegui. Zapeei uns canais e nada de Julia Roberts. Desliguei a TV e tomei um alprazolam com suco de maracujá e chá de camomila. O sono não veio, mas deu barato. Deixei minha cabeça viajar. O problema é que de tanto sonhar que sou um craque, já não tenho mais criatividade para imaginar meus golaços. Assim, desta vez, resolvi delirar no extra-campo. Pois bem, era uma entrevista coletiva depois de mais uma grande atuação. O repórter pergunta sobre...

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Uma coisa completamente insignificante

O poeta dizia: “pode ir armando o correto, preparando aquele feijão preto que eu tô voltando, põe meia dúzia de Brahma pra gelar (…) que eu tô voltando”. Bem, amiguinhos, não tô voltando pro Brasil. Ainda. Mas a vontade de comer uma carne de sol com feijão verde é grande. Maior ainda é a vontade de voltar ao Mundão, de cara nova. Infelizmente não chegarei a tempo da final do Bode-roucão deste ano, volto em maio. De toda forma, o recado está dado. To voltando mesmo é a escrever para o TC. Antes de começar o texto propriamente dito, devo aos meus inúmeros fãs espalhados por este mundo afora uma explicação pela “omissão um tanto forçada” ou “pela duração dessa temporada”. A verdade é que, por uma coincidência do destino, tive que mudar de casa logo após a eliminação da série C do ano passado. Ademais, contei com a imensa competência dos serviços de telefonia espanhóis (como senti saudades da Velox e da Telemar!) para a instalação da internet. Tive que me mudar outra vez para voltar a ter acesso à grande rede. Por outro lado, não achei ruim. A nossa situação era catastrófica e a única luz que via no fim do túnel era a de um trem, ainda por cima de alta velocidade. Algumas vezes é bom estar numa ilha deserta. Perdi a vontade de escrever também. E assim se passaram seis meses. Confesso ainda que já estava morto de vergonha de chamar Dimas de Chefinho. Mas o grande chefe provou que é grande, entendeu minha tristeza e seguiu me pagando as merrecas mensais. Também não disse pros da pesada que me viu chorando e, sempre que possível, me mandou uma notícia boa. Pois bem, nada melhor que voltar a escrever numa semana como essa. Completamos 95 anos de glórias e de tristezas também. A vida, afinal, não é só feita de alegrias. Mas sempre com o orgulho em três cores. Alem do mais, esta é uma semana de clássicos. Depois de 2 anos, voltamos a enfrentar as barbies e temos um encontro com certa cachorra emperucada, cheia de laquê, no próximo domingo. Enfim, uma semana especial. Ia escrever sobre algo que me passou ontem, na minha pelada das terças-feiras, mas, no meio da emoção do aniversário, me lembrei de uma anedota que passou com Seu Bolívar, um tricolor arretado, e mudei de idéia. Seu Bolívar era...

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¿Papá, por que soy del Atlético?

Desenho: Weberson Santiago Aqui na Espanha, dizem que essa é a primeira pergunta que todo pequeno aficcionado do Atlético de Madrid faz a seu pai (ou a sua mãe, nunca se sabe de onde vem a paixão clubística do rebento) no exato momento em que se entende por gente. Bem, começo esse texto assim pensando no meu querido chefinho, Dimas, que anda perdendo noites e noites de sono aterrorizado imaginando o que responder no dia em que sua cria, Maria Luiza, lhe fizer a fatídica pergunta. Imagino o pânico de Gerrá e Alessandra, quando Mariá chegar bem mansinha e soltar a interrogação. Ou outros tantos tricolores na mesma situação. Que fazer companheiros? Freud certa vez escreveu, em um artigo espetacular sobre futebol, que a definição clubística de um garoto ou da garota, não sejamos machistas, só se sedimenta e se torna um caminho sem volta depois da fase fálica. Bem, não sei sé há uma fase fálica feminina, para Freud tudo pode, quem sabe alguma coisa com nabos ou pepinos. Enfim, Artur, ou Sylvio Ferreira, podem explicar isso melhor que eu. Aproveitando a embalagem, no Blog dos Perussi há um estudo de caso muito interessante sobre o citado assunto. De toda forma, o que o pai da psicanálise queria dizer é que não adianta muito encher o recém nascido de roupinhas, camisas, bandeiras, bola… nada, nada disso resolve. A definição clubística só virá mais tarde, quando o pequeno, ou pequena, começar a se entender por gente. Mas nem tudo é matemática nesse mundo, alguns pais são muito vivos e conseguem enrolar muito bem seus filhos. Inventam histórias, títulos épicos, feitos heróicos, um montão de fatos e assim conseguem forjar novos torcedores para as suas fileiras. Quando eles descobrem a verdade, companheiros, é tarde demais, já não há volta. Já sedimentou a paixão. É mais ou menos isso é o que passa a cada nova geração de torcedores do Atlético de Madrid. Um dia desses perguntei a um amigo espanhol qual era seu time. Ao ouvir que ele era do Atlético, perguntei o porquê e ele respondeu mais ou menos isso. Outro dia estava conversando via Skype com um casal de primos que vive no México. Ela, até poucos meses atrás, uma entusiasta coisística. Ele, apenas um tricolor normal. Nunca foi um Bacalhau, é verdade, mas sempre foi um tricolor cumpridor do seu papel nas Repúblicas Independentes do Arruda. Hoje,...

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