A quinta carta

Os Meninos estão muito preocupados com a próxima eleição para presidência do Mais Querido. Preocupados demais. Sei que eles têm razão, sei o quanto é importante que a gente não tenha mais coisinhas miúdas arrasando aos poucos com nosso ideal. Sei de tudo isso, mas juro que não consigo ficar insone, por mais que eu tente (embora confesse nunca ter tentado). Sou uma mulher incrédula, é isso. O único salvador da Pátria em quem eu acreditei foi reeleito com meu voto, e taí até hoje para provar a quem quer que seja que não existem salvadores da Pátria. A Pátria que se resolva por si só. No entanto, estou muito preocupada com os Meninos. Vivendo no meio político há pelo menos 15 anos, o que eu concluí foi que eu não tenho mais direito de ser inocente, de declarar que fui iludida, essas coisas. Só que futebol é diferente. Futebol vive mesmo de ilusão (já que a gente não tem gol mesmo), vive de expectativa, de torcida, de paixão (alguns títulos também não vão mal nesse cardápio, mas tudo bem). Como gosto muito dos Meninos, juntei toda a minha incredulidade e minhas moedas, lotei o carro de amigas encalhadas, tomei coragem e fui. Segui a rota natural dos desesperados, busquei explicações e soluções no sobrenatural. Já havia tentado antes no catolicismo e na umbanda, e nenhum deles ofereceu uma resposta clara. Apelei para o biscoitinho da sorte chinês e tudo o que ele me revelou foi que “a coragem é uma virtude; a felicidade, uma meta; dinheiro é tudo, e o resto é bobagem” – enigma que eu não consegui decifrar diante da minha singela pergunta: “O que será do futuro do meu santinha?”. Ah, preciso confessar (ai, que vergonha!) que também apelei para a “sorte do dia” do Orkut. Fiz a pergunta (sempre a mesma, acerca do futuro do tri-tri-tricolor), acessei minha página e li, horrorizada, o vaticínio: “Visitantes recentes: Dena & Jurandi, Alberto Pereira, Ivonete Nogueira, Milton Junior, O CHACAL* euripedes, lelo e flavia arôxa. Sorte de hoje: A vontade das pessoas é a melhor das leis” (Orkut, 05h13 da matina de 17/09/2008). Estou enrolando, enrolando, mas a verdade é que procurei uma taróloga. É isso mesmo. A mulher era tão boa nisso que cobrava R$ 50,00, mas depois que leu as quatro primeiras cartas, previu logo a minha dura realidade de torcedora e me cobrou apenas...

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Oração a Santo Antônio

Meu Sant´Antonim, Que até hoje num me atendeu Larga de tua besteira E faz uns favô pra eu Desde sempre te tenho preso Virado com os pé pra riba Pendurado na bananeira Que é pra apressar tua lida Num quero mais marido Que o outro que tu arranjô Além de feio e manco Num era bom torcedô Inda agora tenho medo De te pedir outro favô Mas é caso de desespero Por isso, lá vou: Meu Sant´Antonim querido Dessa vez num pode errá Porque se fizé merda Os tricolor vai te apanhá Eles já tão cansado E querendo se vingá Do fio d´uma que rincha Que só veio atrapaiá Por isso, santinho, tome tento E faz favô de escutá Presta bem atenção Pru mode num se enganá Tô quereno um homem honesto Pra pudê administrá Com honra e com lisura Pro nosso time ganhá Pulá da C pra B Agora é o principá Não deixe, santinho querido, Nosso prano faiá Que caia dinheiro do céu Mas não nessa gestão Que num sô besta de dá milho Pra nenhum galinho ladrão Que alguma empresa decente Queira nos patrociná Bancando nossa camisa E as pendênça salariá E por fim, meu santinho, Se num fô abusá, Eu queria que um certo sujeito Fosse tomar láááá… do lado de lá. Não é pedir muito, Sant´Antonim, Você há de concordá Afinal, sou Santa Cruz, Tô acostumada a ganhá E agora esse sofrimento Que querem nos imputá Tá é deixando emputecida A Grande Torcida Coral A maior de todas elas A que merece respeito A que enche estádio Mesmo insatisfeito Por isso, Sant´Antonim Trate de nos atendê Senão, eu logo lhe aviso, Até santo você vai deixá de...

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Espera

 Este ano serei pai. Recebi uma graça e com ela uma grande responsabilidade. E embora ainda não me sinta preparado para a nova incumbência – acho que nunca estamos – buscarei, como tudo na vida, fazer o meu melhor. Tenho usado o Estradar, por ser um blog literário, para falar de tudo o que envolve a expectativa de ser pai. Lá, por duas vezes, já tratei do assunto, através das crônicas O filho que eu quero ter e Quem vem lá. Há tempos queria escrever aqui no Torcedor Coral algo sobre essa satisfação – e porque não dizer também, ansiedade.  Até porque, sendo pai, estarei contribuindo para o aumento dessa grande massa coral. Entretanto, o astral de um clube envolto em sua própria tragédia nunca me deu o ânimo necessário para escrever uma crônica. Um pouco antes do carnaval, soube que eu e minha esposa estávamos esperando uma menina: Maria Luiza. E ontem veio uma felicidade adicional. Recebi uma carinhosa homenagem de Ana Cláudia, uma amiga tricolor que imigrou para Minas Gerais. Ao escrever, ela ainda não sabia que se tratava de uma garotinha. Em seu blog Ninho da’Ninha, Cláudia, habilidosa jornalista e poetisa, fez um poema que me comoveu e, por isso, compartilho aqui com vocês. Aproveito e deixo o convite para que ela, tricolor como é, venha de vez em quando escrever sobre o Santa Cruz por essas bandas. Obrigado Cláudia e aquele abraço, Dimas  Ana Cláudia Nogueira (Para os meus amigos Dimas e Lenira) Mal vejo a hora de ouvir teu primeiro sinal nesse mundo A tua resposta à agonia da incompreensão Dos toques estranhos do tato, Da liberdade súbita do corpo Do arrancar violento do ninho que te protegeu por nove meses Resposta à luz, aos sons, à vida. Conto os dias que faltam para que te possa ninar Te levar no colo, te acalmar as dores, Admirar teu primeiro sorriso Reconhecer os sinais de tua fome Reconhecer o eu que há em ti E o quanto da pessoa amada tu herdastes. Vou te olhar até cansar, e nunca cansarei. Pelo teu rosto, teu porte, Irei imaginar mil e um futuros E em todos serás saudável, feliz, apaixonante Pois é isto que desejo para ti, Em gratidão por seres filho meu. Te amarei sempre, sempre, Com tal intensidade e dedicação Que jamais terás razão em duvidar deste amor. Mal vejo a hora de olhar teu corpinho...

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