Caça-Rato e a consciência negra

O dia 20 de novembro, no Brasil, é dedicado à “Consciência Negra”, movimento surgido na década de 70 para referenciar Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares (que durou 100 anos), morto na trincheira de luta pela liberdade de um povo nobre que, arrastado violentamente de suas nações na África, foi trazido para solo brasileiro a fim de servir aos brancos invasores, tanto nas casas grandes quanto na lavoura. A resistência histórica e heroica daqueles seres humanos diante dos maus tratos, humilhações e discriminações aqui sofridas não cessou com a falsa libertação “concedida” pela Princesa Isabel pelas lutas de base e por pressão política. Os negros continuaram excluídos, jogados à própria sorte e muitas vezes tendo que se marginalizar para continuar vivos. De alma sensível, força física inquebrantável e musicalidade acurada, o negro constituiu e construiu parcela significativa de toda riqueza desta nação, em todos os sentidos. Não obstante a rica herança cultural que o povo africano nos legou, na pele de seus descendentes brasileiros, esta massa gigante de pessoas permaneceu sob a égide do preconceito, ora aberto, ora velado e como diz Edson Gomes: jogados nas cozinhas e senhores das favelas. Nesta condição, poucas chances tiveram de mobilidade social. Os que ousassem contrariar esta lógica elitista eram logo dissuadidos de prosseguir sua escalada. Contudo, o sangue guerreiro que corre nas veias dos negros não lhes permitiu debandar da caminhada. O dia da Consciência Negra celebra justamente isto, a busca por direitos e por um lugar ao sol, o empoderamento de uma raça. Depois deste longo preâmbulo vocês já devem estar se perguntando: o que isto tem a ver com Caça-Rato?  Respondo: tudo. Aliás, é a primeira vez que me dirijo ao Flávio Recife, aqui no blog, pelo seu codinome, porque considero o nome um dos mais fortes elementos da identidade pessoal. É a marca registrada de cada um, enquanto o apelido muitas vezes pejorativo, em alguns casos, tem o propósito de diminuir e humilhar. Lembro o quanto os torcedores xingavam o menino-rapaz, hoje homem, por suas corridas destrambelhadas, seus dribles impensáveis e os gols perdidos. Perdidos agora só na lembrança, pois Caça-Rato passou a representar a parcela mais vívida e mais aguerrida da imensa torcida coral. Como esquecer o gol do tri campeonato 2013 e o gol do acesso à série B, recentemente. Por tudo isto, ele já escreveu, com letras maiúsculas, seu nome na história do clube...

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Tempo de ser feliz

  Qual poderia ser o debate provocado pelo TC neste momento histórico vivenciado pelo Santa Cruz, se quase tudo está sendo tão bem encaminhado pelos profissionais que lidam com os jogadores do Mais Querido? Creio que caberia comentar apenas o arremate, a moldura da obra de arte – a nobre arte do futebol coral. Que ela se agigante nos momentos de grande expectativa. Aos jogadores, coube até agora a elaboração da pintura, em estágio de finalização. Falta apenas uma pincelada no tom dourado, a vários pés, cabeças e corações. A moldura que dá o toque de classe, que sustenta e realça a obra de arte somos nós. Assim, cabe-nos reinventar tudo o que estamos acostumados a fazer e de maneira ainda mais inteligente, visando um novo tempo – tempo de ser feliz. Foi em busca da felicidade que nossas vozes gritantes anunciaram o treinador que queríamos à frente do nosso elenco. Vica é uma realidade concretizada a partir de nós. Acreditamos na sua capacidade de fazer sempre mais e melhor. Torcemos para que continue nos surpreendendo positivamente. Compreendemos que torcedores não entram em campo nem jogam, por certo, mas, ao mesmo tempo, entendemos que isto tem sido uma falácia de nossos adversários, pois a história do Santa Cruz demonstra o protagonismo e importância de sua torcida. Sempre estivemos presentes nos momentos cruciais e definitivos do clube das três cores. A energia circundante na panela de concreto do Arrudão sempre foi contagiante, levando bons fluidos aos artistas da bola, soerguendo quem se encontra cansado e inspirando quem sabe aonde quer chegar. O nosso papel continua sendo o mesmo: aplaudir nossos jogadores e vaiar os opositores. Erro de estratégia, diriam os pessimistas, pois isto poderia motivá-los por algum tempo. Porém, não o tempo todo. Chega uma hora em que a belicosidade cede espaço ao amor e o nosso é o maior, mais seguro e perene, se espalha por todos os espaços por onde passamos e contagia pessoas até no além mar. Almejamos que a temperança e a cordialidade, em nossa segunda casa, possam neutralizar pensamentos e desejos negativos de quem quer que seja. Atitudes boas atraem o bem, sem dúvida. Desejamos que os atletas corais respeitem o adversário, pois isto significa reconhecer nele a chama em busca de vida; nunca se pode subestimar suas forças. Sabemos o quanto os oponentes se esforçam para calar nossas vozes. Todavia, o jeito coral de...

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Vale o quanto pesa (2)

Não fosse uma crise braba de garganta que me acometeu, quem sabe eu poderia ter enviado este texto bem antes, mas as dores no corpo, na cabeça e a febre não me deixavam raciocinar, daí precisei esperar e no compasso de espera lá se foram dois jogos. Um no Arruda, outro fora. Nos dois, parece que a determinação dos membros da equipe era voar. Não duvido nada que a ação da Coach tenha contribuído para esta aproximação atleta-treinador, onde se nota que as mensagens são codificadas e decodificadas sem prejuízo do resultado, isto é muito bom. Então, comecemos nossa descrição perceptiva pelo Treinador. Lembrando, como fizemos antes, que estes escritos não se referem à avaliação psicológica, nem julgamento de pessoas, trata-se de descrições comportamentais visíveis para todas àqueles e aquelas que se dedicarem um pouquinho mais a prestar atenção naquilo que não está inscrito na linguagem formal. VICA – Encabeça esta rodada de considerações, coisa que não tive coragem de fazer quando o técnico era ainda o primeiro, aquele do tricampeonato. O treinador atual era sonho de consumo de muitos tricolores, há muito tempo; virava e mexia e seu nome voltava às rodas de conversa como sendo aquele que poderia dar um norte à equipe que patinava e não conseguia mudar de série. Simples, porém, firme, foi logo colocando os pontos nos i’s. Joga quem treina. Tem coisa mais óbvia? Um jogo de cada vez, ululante, ninguém pode querer chegar à parte alguma sem dar o primeiro passo, o segundo, o terceiro e assim por diante. Alegria, animação, senso de justiça, talvez, quem não gosta de saber que mesmo na reserva um dia se pode ter a oportunidade que precisa? Aliás, uma grande equipe não tem banco, tem as pessoas certas para cada ocasião, tem os especialistas, os que fazem a diferença. Vica saberá identificar cada um deles, ao seu tempo. ANDRÉ DIAS – Dias tanto trabalhou tanto se preparou que quando surgiu a oportunidade entrou na equipe para não mais sair. Jogador inteligente, linguajar diferenciado, foi logo avisando que é homem de equipe. Valoriza os companheiros pelo que fazem e até pelo que não fazem. Simples, humilde, confiante em si, como deve ser todo guerreiro, que primeiro conta consigo mesmo, na hora de uma peleja definitiva. Tratou de envolver a torcida do Santa e levá-la para junto dele. De nada adiantaria se não marcasse os gols que precisávamos. Efetivo, um trabalhador como poucos....

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Construção de um time vencedor

Construção de um time vencedor

Este texto tem o objetivo de difundir alguns conhecimentos pertinentes à esfera esportiva, tendo em vista a equipe coral. Pretende discorrer sobre aspectos da construção de um time vencedor que vai além do time de guerreiros, pois como diz Edson Gomes, “(…) por mais forte que seja o homem, sempre chega o momento de cair diante de um sentimento (…)” que pode ser de desânimo, abatimento, desesperança. É desta forma que, aos olhos dos torcedores, o Santa Cruz, saudoso time de guerreiros tem se apresentado. Parece que os jogadores perderam, temporariamente, a identificação com sua torcida, aquela que não esmorece nunca e está esmorecendo, também. Não é fácil, sofrer cansa e faz mal à saúde. Então, quais os ingredientes necessários para a edificação de um time vencedor? Não há receita de bolo para esta construção, todavia, quatro elementos são indispensáveis: 1) Condicionamento físico. Um técnico de natação dizia aos seus atletas, quando estes despedaçados na água reclamavam de sua crueldade, “treino difícil, competição fácil; ou de outra forma, treino fácil, competição difícil”. Para mim, esta frase diz tudo sobre a importância do treinamento físico dentro de uma competição, mesmo que abominado pelos boleiros. Alguns deles, porém, admitem que é o condicionamento físico lhes dá segurança para desenvolver a técnica e obter bons resultados. O bom condicionamento físico é aliado da habilidade, da autoconfiança. 2) Treinamento técnico. Quando se tem a inteligência corporal acentuada, como preconizava Gardner, quanto mais exercitar o gesto técnico melhor; a repetição refina a técnica.  Parece brincadeira, mas observamos, no dia a dia, jogadores que desconhecem os fundamentos do futebol, e as regras, falha que pode ser corrigida com muito treino. É o tipo de atividade que não para; mesmo que o atleta esteja no departamento médico. Ele pode fazer treinamento mental e continuar se aprimorando tecnicamente. Exercitar o gesto técnico infinitamente é o caminho para o sucesso. Mirem o exemplo de Oscar, o maior cestinha do Brasil, quando terminava o treino ele ficava na quadra arremessando bolas na cesta. Ele se tornou o melhor jogador brasileiro de basquete de todos os tempos. 3) Treinamento psicológico. Algumas pessoas podem até pensar que trabalhar os aspectos psicológicos de um jogador é dar uma tapinha nas costas, ou dizer “eu acredito em você!”, ou pior, fazer como reza a lenda de um treinador australiano que, para instigar seus atletas a nadarem rápido, colocava na piscina um crocodilo faminto....

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Constelação

Constelação

  O dia da final do campeonato, assim como no ano passado, transformou-se para mim no segundo melhor dia das mães que já vivi. Os filhos que moram em outras localidades da cidade chegaram um pouco mais cedo, pois tinham decidido, mesmo com minha opinião contrária, ir ao jogo na Ilha do Retiro. Não adiantou argumentar que aquilo ali era uma arapuca, uma armadilha, uma ameaça à vida. Aline era a mais enxerida, dizia e falava que tinha que passar por esta experiência, pois nunca vira o Santa ganhar um campeonato na casa de festejos, portanto, não podia perder desta vez. Rami ficou muito animado com a ideia “perigosa” e fez milhares de promessas sobre proteger irmã da gang da Jovem. A filha mais nova, mais sensata, nem pensou duas vezes para descartar este programa de risco. Ficamos em casa eu, Toy, Lara e Max (meu cachorrão) que insiste sempre em comemorar os gols do mais querido aos pulos dentro da sala. Concluímos que, afinal, não tínhamos mais tanta perna assim para correr. Eu já correra o bastante junto com minha nora grávida, dentro da sede do Santa Cruz, quando a Jovem e os cavalos da polícia invadiram aquele recinto privado e vieram para cima de nós. Para compensar a incerteza, resolvi tomar uma carraspana. Afinal, quem sabe, talvez um pouco fora de mim aguentaria mais firmemente a descarga de cortisol que costuma me assaltar nos jogos do tricolor pernambucano. Parece que deu certo e desta vez eu nem precisei sofrer, como sempre acontecia. Lá estava meu time do coração, de branco, como gladiadores dentro de uma arena de leões, sem medo algum, com altivez, confiança e determinação. Cada qual queria mostrar a si mesmo e ao Sergio Guedes que no Arruda valia a máxima dos três mosqueteiros que proclamavam: “um por todos e todos por um”, além de tudo, “juntos e misturados”. Foi com este espírito que a equipe jogou. Um passe do maestro Raul chegou com precisão aos pés de Flávio Recife e, como se ele tivesse lido e colocado em prática os conselhos de Perrusi, postados no Blog do Torcedor Coral, desta vez ele não deu o segundo drible – chutou para o gol. Desmantelou o juízo dos rivais, desestabilizou a arrogância deles e Cicinho, mais que depressa, tratou de ficar na trajetória da bola para se atingido e, desta forma, sair de campo sem ter...

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Vale o quanto pesa (1)

Vale o quanto pesa (1)

Para desenvolver o tema proposto pelo título seria necessário definir o que entendemos por peso. “Matematicamente, ele pode ser descrito como o produto entre massa e a aceleração da gravidade local”. (UOL). Moralmente, diz-se do caráter de uma pessoa; socialmente, refere-se ao seu valor dentro da comunidade em que se insere; popularmente, tem a ver com a coerência entre o que se diz e o que se faz e assim por diante… Neste escrito tecerei algumas considerações sobre parte do elenco do Santa Cruz e noutra oportunidade completarei os comentários envolvendo a outra parte. Tentarei estabelecer uma relação entre o peso da camisa do Santa e o valor de quem a veste. Reconhecendo que todos nós temos um eu íntimo (que não mostramos), um eu social (que alguns conhecem) e um eu público (visível para todos), tentarei me referir ao “eu” públicol de alguns atletas corais, começando pelo goleiro. TIAGO CARDOSO. Simples, dedicado, afável, paciente, sempre receptivo à torcida ou às crianças que, com admiração, às vezes tocam-lhes as mãos. Um gigante em bolas difíceis, unanimidade entre os torcedores. Quando pegar seu primeiro pênalti terá seu nome gravado no grande livro do coração santacruzense para sempre. EVERTON SENA. Olhar firme, disciplinado, confiável, simples e direto. Implacável na marcação; no confronto um a um dificilmente perde a disputa. Polivalente como nenhum outro, só não faz parar a chuva, o restante ele faz. Assim como aconteceu com Ricardo Rocha, que de zagueiro transformou-se em lateral direito, em 1983 e depois foi parar na seleção, você também, Sena, está fadado ao sucesso. Pela pessoa determinada que parece ser, estaria sendo enaltecido em prosa e verso caso pertencesse a algum clube com um bom departamento de marketing, mas não deve sentir falta disto. Sucesso é melhor que fama, esta é passageira. WILLIANS. Parece com a história do milho que virou pipoca, no melhor dos sentidos. Com a confiança do seu treinador ele se transformou em três e, às vezes, joga por três mesmo (dois zagueiros e um atacante). Agigantou-se na zaga e está fazendo uma grande diferença no sistema defensivo coral, parabéns; que seu brilho esteja sempre presente no campo todas as vezes em que defender o Santa. FLÁVIO RECIFE. Por causa de dele eu remei e continuo remando contra a maré da opinião de muitos dos meus pares que, em grande parte, percebem muito mais o que lhe falta, enquanto eu procuro...

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