Um sentimento que desonra

Um sentimento que desonra

Tive meu momento de raiva. Foi logo depois do gol do Águia. Fiquei puto até algum tempo depois de terminada a partida. Não gosto desse sentimento. Deixa-me mal, o mundo fica cinza. Com a raiva, fico mais irritado. Sou capturado por um circuito que retroalimenta raiva e irritação. Tudo isso por causa do Santinha? Sim, respondo com raiva e irritação. Por causa de futebol? É de lascar, convenhamos. Torcer não devia gerar isso… Fiz um esforço enorme para parar a raiva. Ter é fácil; parar é difícil pra danar. Exige um autocontrole que pede algum preço. Fica-se cansado, quase exausto. Não ter raiva cansa. Mas, depois da raiva, assaltou-me outro sentimento. Sinceramente, preferia ter raiva. E senti uma imensa e inominável… vergonha. Foi tão cavalar o sentimento que, inicialmente, não sabia bem o que sentia. Estava ruborizado e não sabia a razão. Parei embaixo da mesa, como se quisesse me esconder. E não tinha ninguém na sala, mas achei minha sombra um acinte. Sentia-me desonrado. Porra, perdi a honra? Que honra? Era uma desonra que ultraja e humilha. Comecei perigosamente a ter falta de apreço por mim mesmo, uma espécie de desprezo pelo mundo e pela minha insignificância. Estava torpe da vida. Parecia que recebia um insulto e o aceitava passivamente. Pior, concordava com o insulto. A vergonha é um sentimento penoso. Faz-nos sentir inferiores. É indecente e gera indignidade. É uma merda, a vergonha. Foi aí que comecei a ter medo do ridículo. Fiquei absolutamente inseguro. Não conseguia nem me olhar no espelho. Tive receio que ele, o espelho, zonasse com minha cara. Quase entro em pânico com a possibilidade do julgamento do espelho, logo, dos outros. Desejei ser uma ostra – o ser vivente mais tímido do reino animal. Tranquei-me no banheiro e tive uma crise de timidez, acanhamento, recato e decoro. Repetia baixinho ao rolo de papel higiênico: ficamos atrás do Treze! Ficamos atrás do Treze… Juro que o rolo deu um sorriso irônico. Rasguei-o em pedaços. Detesto papel higiênico metido à merda. Que situação indecorosa e vexatória. Como iria falar com meus amigos burro-negros; afinal, passei a semana gozando com suas caras. Pensei em me esconder lá na mata de Dois Irmãos. Mas pensei nos macacos… os macacos são grandes gozadores. Zonariam comigo, certamente. E pensei na frase de um filósofo: “o que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha”....

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Encantamento

Encantamento

… E o que esperar de um time chamado Santa Cruz? Tudo para nós é doído, sangrado, sofrido, como parto atravessado. E por isso nossa alegria é dobrada. E nosso coração usa colete à prova de balas. O silêncio do gol sofrido na hora do empate antecede o abraço no minuto final e o nó que nos trava a garganta desata uma tempestade de lágrimas depois do gol e nada mais importa, que não seja este momento. Nem a qualidade do time, nem a trajetória da equipe ou as falhas do juiz, o cosmo se resume a este encantamento: De vinte mil pessoas com o coração descompassado e joelhos ao chão. E nada...

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Expectativa

Expectativa

Estive sem motivação para ir ontem ao Arruda, mas cedi aos apelos de Artur Perrusi. Não seria possível a minha ausência em jogo tão decisivo, disse ele. Que eu fosse então por uma boa conversa, por nossa amizade e, suprema apelação, pelo caldinho do Bar do Bonitão. Não cria na vitória, faltava-me expectativa. No Santa de hoje, mais que futebol, falta vontade de vencer. Não há torcida que empurre um time sem coração, ainda mais eu, que não costumo despender a minha energia em vão. Expectativa. Mais cedo encontrei na fila de um caixa eletrônico um tricolor. Há, entre quem usa nossas cores, uma sensação aparente de que estamos todos no mesmo barco. Não é bem assim. Percebi rapidamente que estávamos em lados opostos no campo das ideias. Para ele, era preciso confiar; para mim, apenas torcer. Confiar é outro papo, requer algum grau de esperança baseada em retrospecto positivo, numa evolução visível. Confiança, justamente o que me falta. Se muito, persiste o insofrimento, porquanto a ansiedade é a expectativa da dúvida e o momento atual, infelizmente, não deixa margem a incertezas. A base, o passado recente representado por nossa campanha na Série C. O passado aponta para a frente e, para o futuro, a meteorologia prevê dias nublados e nuvens de chuva. No mais puro breu, não enxergo um palmo à frente do nariz, devo dizer. Apesar da falta de chutes a gol, depois de um bom primeiro tempo, o time desmoronou. Há quem enxergue culpa em Chicão, que, ensanguentado, agarrou o adversário pela camisa e esfregou sangue em sua cara. Talvez tenham razão. Faltou-lhe, é verdade, inteligência emocional, pois se outra fosse a sua reação, o Santa voltaria ao segundo tempo com vantagem numérica. Ainda sim, não vou queimá-lo em praça pública. É difícil não perder o controle diante de tamanha agressão. Aos nossos tranquilos torcedores, serenos, como o orvalho da noite e seguros, como uma rocha, mas que ocasionalmente costumam atacar a moral alheia com a agressividade de um cão, desafio a atirar a primeira pedra aquele que mantiver os nervos de aço em semelhante situação. Já arranquei com o carro sob a mira de um revólver, coisa, para mim, inimaginável até então. Nem tudo, caros leitores, é passível de racionalização. A culpa está em outra parte. Está na comissão técnica, que desmantelou o time no intervalo e durante todo o campeonato, e adentra o gabinete...

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Faz de conta

Faz de conta

A maioria dos textos que escrevo tem sempre como alvo a torcida do Santa Cruz. Aliás, foi esta torcida que me trouxe a paixão pelo clube e, por obra e graça de Aline Moura que me denunciou no blogdosantinha, há três anos (clique aqui). Não posso mais fugir da minha condição de torcedora. Contudo, não abdiquei de continuar opinando visando o bem comum dos tricolores. Grande parte das pessoas tem uma opinião equivocada sobre o que é ser torcedor ou torcedora. Muito pensam que para este segmento de apaixonados só o coração funciona; outros imaginam que é o fígado; alguns acreditam que é o sobrenatural quem comanda as relações entre torcedores e clube do coração; de minha parte, considero que se pode unir coração e razão para construir uma relação unificadora capaz de superar qualquer adversidade. Pois bem, usando este binômio razão-coração resolvi escrever este texto, numa tremenda operação de “faz de conta”, me imaginando no Arruda, portões fechados, naturalmente, para não atrapalhar a concentração (rs rs rs), às 5 horas da tarde, sentada no gramado com as pernas cruzadas, tipo meditação de Ioga, com os jogadores em volta para uma roda de conversa ao estilo Paulo Freire, na tentativa de contextualizar este momento singular, onde o time depende muito de si mesmo para ultrapassar a atual fase e alcançar a próxima etapa da competição. Falaríamos sobre os homens e meninos que lá se encontrassem; os porquês de cada um jogar futebol, o significado de fazer parte de um clube grandioso como o Santa Cruz, com a torcida mais apaixonada do Brasil, de seus anseios e esperanças naquele grupo. Ouviria as respostas e dentre elas, por certo, alguém alegaria que está ali porque deseja consolidar seu nome não apenas na galeria dos craques corais, mas também abrir uma perspectiva de futuro no cenário nacional, porque o Santa sempre foi e sempre será uma vitrine para os bons jogadores, em todos os tempos. Algum deles falaria que tem o propósito de construir uma vida melhor para os familiares, especialmente a mãe que apoiou a iniciativa de se tornar jogador de futebol; outros afirmariam que gostam da profissão. Haveria espaço para todas as falas e a diversidade seria tanta que passaríamos quase uma hora somente sorvendo os relatos pessoais, as experiências de vida e a importância de cada um dos sonhos daquelas pessoas para a construção do objetivo maior do grupo:...

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O ópio do futebol

O ópio do futebol

Passou da hora de publicar um novo artigo, mas, mais de uma vez, não me animei a escrever coisa alguma. Revolvi aqui e acolá, saiu alguma coisa mequetrefe, porém, por sorte, depois de pronto, pingou um e outro artigos e retirei o meu, o mais desimportante. Demorei a escrever, fi-lo por dever de ofício, por falta de opção, já que, em circunstâncias como essa, pesa-me a obrigação de manter o blog atualizado, apesar dos pesares. Não sei o que me dá, talvez seja tudo, talvez não seja nada e nem mesmo tenha a ver com a situação atual do time na Série C. Não há abatimento, nem frustração, tampouco desesperança, pois o time bicampeão pernambucano nunca me deslumbrou e quando não há deslumbramento, pouco se espera e quase não se sofre. Sob o efeito peculiar dessa anestesia geral, resta-me a possibilidade do inefável cansaço — passageiro, espero eu. Também não descarto que começo a enxergar o futebol como um extraterrestre que, caso aqui chegasse, não compreenderia tamanho alvoroço em redor de uma bola. Igualmente, principia a ocupar-me a estranheza do sofrimento que causam onze marmanjos a preencher o campo de jogo, pois se não fosse o envoltório de pele de cobra coral que lhes cobrem os corpos durante as partidas, seria eu completamente à prova de dor. Assim, concluo que o que me prende ao time que se aventura nesta Série C é, e sempre foi, tão-somente a camisa, símbolo de identidade social. E já que comecei a escrever sem vontade, serei franco. Não tenho lá muito a virtude de esperar com calma o que tarda, nem tampouco me animo a apontar e a reapontar os erros desse time, da comissão técnica, do presidente. Creio até que os comentários dos nossos leitores tenham-me influenciado a ponto de não tolerar sequer ler ou ouvir o nome de Zé Teodoro e seus derivativos, apelidos denotativos de um sentido pejorativo. Em tudo há limites, menos aqui, neste canto do mundo, onde reina a censura áspera. Entediado, tornei-me intolerante à intolerância, assim como ao elogio fácil e desmedido, por isso, torço com grande fervor para que, seja lá qual o for o desfecho do Santa Cruz nesta Série C, Zé Teodoro vá para bem longe do Arruda. Quem sabe isso nos trará de volta um pouco da sanidade que perdemos. Aqui só se fala de futebol, bem sei, mas há outras vertentes desse...

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O Universo conspira a favor e o Santa?

O Universo conspira a favor e o Santa?

  Ao sair de casa para assistir ao jogo de domingo um estado de espírito zen parecia me tirar da realidade. Não pensava nem em vitória, nem em derrota, uma espécie de fuga. Nos arredores do Arruda, vi a massa coral tomando conta das ruas. Pensei: essa torcida não aprende a deixar de sofrer nunca, inclusive eu. Assisti à equipe do Cuibá entrar em campo para o aquecimento; indiferença na plateia. A Inferno Coral ensaiou uma vaia, mas logo deixou pra lá. O locutor iniciou sua fala – a mesmice de sempre – a torcida, então, se manifestou; choveram comentários e pedidos de cala a boca. Até hoje não sei por que o povão não gosta daquela lenga-lenga que o radialista do Santa insiste em declamar. A partida de futebol protagonizada pelos dois times, no primeiro tempo, estava tão ruim que optei por me desligar do gramado. Um tédio. Passei a prestar atenção no meu entorno, nos comentários, gritos e, principalmente, num lindo bebê que estava nos braços da mãe, todo vestido nas cores corais; Ele comia biscoito e olhava para cara dos torcedores agoniados, nada daquilo atingia sua tranquilidade. Alheio à inquietude e angústia reinantes, não corria risco de sofrer um enfarto. O Juiz, por sua vez, parecia encomendado. Foram tantas as cotoveladas no rosto de Dênis Marques que só o cara tendo a paciência de Jó para suportar a vista grossa do árbitro, sem perder as estribeiras. O futebol virou MMA e o árbitro nem aí. Deixou de marcar um pênalti e influenciou diretamente no placar do jogo. Perto de mim, alguém adepto da teoria da conspiração tratou de gritar: “isto é ordem da FPF, covil de rubronegros, eles não querem que o Santa ameace o Leão na série B, em 2013!”. A apatia dentro de campo incomodava os torcedores. O Cuiabá pedia para apanhar e o Santa, nada. Os jogadores mais se pareciam com Joãos-bobos, iguais àquele que um torcedor trouxera para o campo enrolado numa bandeira coral. Pra lá e pra cá o time oscilava sem efetividade alguma. Diziam as más línguas que o treinador não escalara a equipe certa, novamente. Na beira do gramado ele gesticulava, pulava, assobiava, reclamava do Juiz, corria atrás da bola fora, cena mais parecida com um teatro de mímica, onde o corpo fala o que as palavras calam. Mesmo assim, parecia que ninguém o via. Um barulho semelhante a...

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