A taça do fracasso, da fidelidade, da superação e da união

A taça do fracasso, da fidelidade, da superação e da união

Domingo tem mais um jogo importante na vida do Santa Cruz. Para muitos, o principal objetivo já foi alcançado com a subida à série B. Fato. E isso é tão inquestionável quanto o fato de que o que ficará retratado na história será o pôster do time campeão brasileiro da série C de 2013. Portanto, esse título vale muito. Vale toda uma história de fracassos, fidelidade, superação e união. Uma história de fracassos vividos em 6 longos anos no porão do futebol brasileiro. Quantos de nossos amigos, ao longo desses seis longos anos, abandonaram as arquibancadas do Arruda? Quantos amigos deixamos de conhecer por simplesmente não termos futebol para assistir em um dia de domingo? Quantos jogos fomos assistir sem conhecer o nome de um jogador sequer do time adversário? Quantas derrotas humilhantes sofremos, inclusive com a chance de cairmos para a série B do campeonato pernambucano? Descobrimos, na base do coração, que lamentar o fracasso não iria nos levantar. E, um gigante do futebol, não se levanta sozinho. É necessário a força de muitos nessa hora. Foi assim que nasceu a “torcida mais apaixonada do Brasil”, a torcida cuja fidelidade supera a própria fidelidade entre os homens. Se o Santa Cruz já conhecia a torcida que tem, esta queda serviu para descobrir do que ela era capaz. Recordes e mais recordes de público foi a forma que encontramos de escrever uma carta de amor ao Santa Cruz Futebol Clube. Não tenho dúvidas de que o nosso amor superou a traição que sofremos. Não foram poucos os momentos que presenciamos torcedores viajando centenas de quilômetros para assistir apenas a camisa do Santa Cruz em campo, dada a péssima qualidade dos nossos jogadores. Isso ocorreu porque nós nos superamos. Superamos na forma de querer bem ao Santa Cruz, superamos enquanto torcedores, superamos na fidelidade de amar. Se um dia a torcida não foi capaz de evitar uma queda, somente a união da diretoria, jogadores e torcedores seria capaz de ressuscitar o Gigante. A união daqueles que assumiram a instituição Santa Cruz no seu momento mais crítico, Antônio Luiz Neto, Constantino Júnior e Colaboradores; Sócios, Torcedores anônimos e Simpatizantes; Tiago Cardoso, Éverton Sena e Demais. Todos estiveram vestindo a camisa do Santa Cruz nos sofridos jogos contra o Treze e Betim. Neste domingo, finalmente, este ciclo se fechará. Em jogo estará o encerramento do campeonato e a possibilidade de levantarmos mais...

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Hamlet embriagado

Hamlet embriagado

Foi depois de mais uma indecifrável partida de Siloé, que eu assumi um ar compenetrado, como Hamlet na famosa peça de Shakespeare. Atravessei o olhar no amarelo-ouro de meu copo, como se em minhas mãos estivesse o crânio desnudo de Yorick, e refleti, tanto quanto pode refletir um homem em estágio avançado de turbação passageira das faculdades. Se estivesse menos sob o efeito etílico, talvez ensaiasse um profundo embate filosófico sobre a ressurreição coral e sua perspectiva para o ano do centenário, mas nesse estado para lá de Bagdá, me concentrei, reparem bem, em matéria mais prosaica. Por isso, olhando o borbulhar de minha cerveja, disparei sem pestanejar: — Siloé ou Dênis Marques sem treinar? A pergunta era capciosa, porque não se discutia apenas quem era melhor jogador, mas, principalmente, penetrava-se no cerne da questão ética que envolve o atacante coral. Escolher Dênis Marques seria o mesmo que aceitar sua indisciplina autorizada pelo alto escalão do clube e consentir privilégios não oferecidos aos seus colegas de time e de profissão. Seria descredenciar a autoridade do treinador, que, em tese, tenta fazer o que é certo. As respostas dos companheiros de mesa não vieram de pronto. Os goles de cerveja se seguiam como se assim fosse possível desembaraçar o pensamento. Ao contrário, a cada gole os cérebros ficavam mais nublados e os raciocínios mais turvos. O fato é que há um istmo entre o certo e o errado,  quando os feitos incontáveis de um jogador estão no meio da discussão. Principalmente quando o desejo de perdoar vem de uma necessidade urgente, no jogo decisivo, antes que o ano acabe. O perdão condicionado, é forçoso reconhecer, não é sincero e não perdura por tempo mais alongado. Bastarão alguns meses para que, por três vezes, como na bíblia, se negue a defesa do indefensável. Afinal, a questão central permanece inatacada: é algum jogador maior que o clube? — Dênis Marques! – enfim, responderam todos em uníssono. Tomei mais um gole e tentei por fogo na discussão buscando comparações extremas. — Siloé ou Dênis Marques depois de comer uma feijoada? O silêncio reflexivo foi mais breve e logo veio a resposta a confirmar a tendência inicial. — Dênis Marques! – Dispararam todos mais uma vez em uma só voz. — Siloé ou Dênis Marques depois de tomar um Lexotan? — Dênis Marques! A partir daí o que se viu foi uma repetição embriagada...

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Caça-Rato e a consciência negra

O dia 20 de novembro, no Brasil, é dedicado à “Consciência Negra”, movimento surgido na década de 70 para referenciar Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares (que durou 100 anos), morto na trincheira de luta pela liberdade de um povo nobre que, arrastado violentamente de suas nações na África, foi trazido para solo brasileiro a fim de servir aos brancos invasores, tanto nas casas grandes quanto na lavoura. A resistência histórica e heroica daqueles seres humanos diante dos maus tratos, humilhações e discriminações aqui sofridas não cessou com a falsa libertação “concedida” pela Princesa Isabel pelas lutas de base e por pressão política. Os negros continuaram excluídos, jogados à própria sorte e muitas vezes tendo que se marginalizar para continuar vivos. De alma sensível, força física inquebrantável e musicalidade acurada, o negro constituiu e construiu parcela significativa de toda riqueza desta nação, em todos os sentidos. Não obstante a rica herança cultural que o povo africano nos legou, na pele de seus descendentes brasileiros, esta massa gigante de pessoas permaneceu sob a égide do preconceito, ora aberto, ora velado e como diz Edson Gomes: jogados nas cozinhas e senhores das favelas. Nesta condição, poucas chances tiveram de mobilidade social. Os que ousassem contrariar esta lógica elitista eram logo dissuadidos de prosseguir sua escalada. Contudo, o sangue guerreiro que corre nas veias dos negros não lhes permitiu debandar da caminhada. O dia da Consciência Negra celebra justamente isto, a busca por direitos e por um lugar ao sol, o empoderamento de uma raça. Depois deste longo preâmbulo vocês já devem estar se perguntando: o que isto tem a ver com Caça-Rato?  Respondo: tudo. Aliás, é a primeira vez que me dirijo ao Flávio Recife, aqui no blog, pelo seu codinome, porque considero o nome um dos mais fortes elementos da identidade pessoal. É a marca registrada de cada um, enquanto o apelido muitas vezes pejorativo, em alguns casos, tem o propósito de diminuir e humilhar. Lembro o quanto os torcedores xingavam o menino-rapaz, hoje homem, por suas corridas destrambelhadas, seus dribles impensáveis e os gols perdidos. Perdidos agora só na lembrança, pois Caça-Rato passou a representar a parcela mais vívida e mais aguerrida da imensa torcida coral. Como esquecer o gol do tri campeonato 2013 e o gol do acesso à série B, recentemente. Por tudo isto, ele já escreveu, com letras maiúsculas, seu nome na história do clube...

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TC News nº 04

TC News nº 04

O TC News é o programa esportivo sobre o Santa Cruz do Torcedor Coral e é publicado em nosso canal do YouTube. Inscreva-se e nos acompanhe. É uma produção de baixo custo, baixa qualidade e baixo nível. Assista ao programa nº 04: 1) Manchetes Nacionais: a) Depois de 6 anos, o Santa Cruz retorna à Série B; b) Caça-Rato pode se transferir para o futebol europeu;. 2) Frase da semana na seção Cobra Venenosa 3) Manchetes Internacionais sobre o Santa Cruz: a) Gazzetta Dello Sport (Itália); b) The Guardian (Inglaterra); c) Le Monde (França); d) Bild (Alemanha); e) Marca (Espanha). 4) TC News Interativo, com mensagens dos internautas O TC News é apresentado por Artur Perrusi e Dimas...

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Santinha, espaço e tempo da resistência do povo

Santinha, espaço e tempo da resistência do povo

Pensei que desapareceríamos. Sério. Foram seis anos, pensando o pior. Sempre no limite, sempre por um triz. E o poço não tinha fundo; a queda, sem fim, e as letras das malditas divisões inferiores do futebol brasileiro, tampouco — alfabeto interminável. E o cansaço chegando, ninguém aguentava mais. O Santinha acabou? Cadê minha história? Fico sem. Sou eu que acabo também. É uma vida no Arruda. Tô lá direto desde antes de nascer. Não era apenas o clube que acabaria, era um mundo inteiro — meu mundo. Todo tricolor sentiu isso na pele. Seríamos zumbis sem história pra contar. Guardar tudo na memória e ficar, feito uma máquina mnemônica, lembrando o passado glorioso? Nunca! Apagaria a lembrança, se preciso fosse. Prefiro o conformismo do esquecimento. Lembrar para sofrer? Porque o presente não existe mais? Jamais! Mil vezes a amnésia! Com a morte do Santinha, não faria luto e viraria um melancólico. Como substituir a perda? Por que e por quem? Não, não, mudaria de nome e de cidade. E, claro, de bar; talvez, de bebida. Virava black bloc e quebrava a CBF, a máfia dos 13, o escambau. Pensei que não fôssemos eternos. Sei, sei, confesso. O que podia fazer? Pensei nisso mesmo. Não minto. Vamos morrer — e disse essa frase maldita num bar, depois da queda à série D. Uma mesa de deprimidos e de desolados, de malditos e de fantasmas. Ali, só via cemitério, túmulos, passado e… muita saudade. Curioso, era uma saudade imensa de um ente querido. Sufocava meu coração. Nunca foi falta. Não era bile que azedava a vida. Nada de vazio. Perda? Sim, senti logo no início; depois, outros sentimentos. O que fui sentindo ainda era um mistério. Foi mesmo saudade. O sentimento me acompanhou em toda nossa saga. Sentia, mas não sabia defini-lo. Não tinha ainda nome — sabia que tinha lirismo, nostalgia e ausência, tudo misturado como se fosse uma feijoada poética. Descobri finalmente do que se tratava no gol de Caça-Rato quando olhei um senhor de idade em lágrimas ao meu lado. — Aaah, era saudade, falei, já olhando o passado — todo nosso sofrimento, com aquele gol, tinha virado história e pretérito. E olhava o velhinho chorando miúdo, choro calmo, sem escândalo, choro sábio. Eu não chorei, só meus olhos. Somente a saudade torna presente a ausência — a mais forte, a mais irredutível, a mais fiel das presenças. Talvez,...

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Alívio

Alívio

Queria escrever uma crônica que representasse este momento. Que fosse capaz de traduzir sentimentos, descrever alívios e transformar imagens, sons e emoções em palavras. Queria ter a capacidade de narrar o que domingo vi e ouvi na mesma intensidade em que senti e explicar que as lágrimas que agora caem não são de tristeza, mas de alegria. Lágrimas que não cessam, enquanto desabafo a minha humanidade e despejo todo o sofrimento com os anos de penúria, que ainda não se foram, mas os vindouros certamente nos possibilitarão torcer com um pouquinho mais de dignidade, pois desejar um calendário que ocupe um time o ano inteiro não é pedir demais. Queria botar para fora o medo que senti, lá na pior fase de vacas magras da nossa centenária história, que o Santa Cruz, profetizado que viveria eternamente, poderia um dia se acabar. Gostaria de arrancar as maldades do nosso futebol que, com o poder da grana, egoísta e centralizado, decide impiedosamente quem sobreviverá. Queria muito abraçar a todos os tricolores, homens, mulheres e crianças, milhões de heróis da resistência, que nos trouxeram de volta do fundo do poço e fizeram renascer um clube centenário. Reconhecer também a desportividade de outros torcedores, de tantos outros times, de todos os cantos deste país, que viram em nossa torcida o verdadeiro amor incondicional. Queria gritar bem alto: “eu voltei dos mortos!”, porque agora me sinto bem vivo, ainda que saiba que o abismo entre nós e nossos adversários persistirá por quanto tempo eu não sei. Andei cansado, andei. Tanto que meu corpo ainda dói. É a dor de quem agora descansa e que, por muito tempo, carregou peso demais sobre os ombros. É a dor tardia de quem, por seis longos anos, esteve febril. Que em nosso centenário, enfim, se inicie a...

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