Canal aberto

Dimas Lins Crônica inverossímil de um tratamento de canal.  Vou abordar aqui um tema que considero de utilidade pública: visite o seu dentista regularmente. Pode parecer que estou me desviando do motivo da existência deste blog, que é falar do Santa Cruz. Mas creia-me, mesmo parecendo, isto não é verdade. Também não estou fazendo apologia ao tratamento dentário, até porque eu sei que esta é umas das rotinas mais chatas que existem. Sei também que é uma repetição monótona, mas que considero um mal necessário. Aliás, repetição sim, monótona, não. É impossível não sentir um friozinho na barriga toda vez que vamos ao consultório de um dentista. E não é um friozinho qualquer, é um troço aterrador. Tudo bem, sou réu confesso. Tenho medo de dentista e pronto. Aquele que nunca teve, que atire a primeira cárie.   Quem nunca teve medo do barulho de uma broca, enquanto aguardava sua vez na sala de espera do consultório? Aquele zunido é tenebroso. Não é à toa que considero a broca um instrumento de tortura legalizado. Tive trauma desde a primeira vez em que ouvi aquele som hipnótico e, na ocasião, não me restou outra atitude senão me ajoelhar na frente do dentista e implorar para que me poupasse do sofrimento. Às favas com a dignidade! Eu confessaria qualquer crime, mesmo se não tivesse cometido.   Até pouco tempo, eu tinha uma teoria, vinda de dados científicos nenhum, que a broca havia sido inventada na idade média, quando a igreja, em nome de Deus, torturou gente até umas horas. Mas, segundo um estudo publicado na revista científica Nature, os pesquisadores dataram, através de exame do carbono 14, a sua existência a mais de nove mil anos. Mas eis que fujo do assunto.   Pausa para reflexão. A esta altura do texto, o leitor deve estar imaginando o que tem a ver o orifício na extremidade inferior do intestino grosso com as calças. Ou seja, qual a relação disso tudo com o Santa Cruz ou sua torcida? Até agora, caro leitor, fiz apenas uma introdução ao assunto que gostaria de tratar. Ainda vai demorar alguns parágrafos, mas eu chego lá.   Enfim. No ano passado, eu decidi usar aparelho ortodôntico. Isso mesmo. Aquela coisa esquisita cheia de braquetes, tubos, bandas, fios, ganchos, amarrilhos, entre outras coisas sinistras que nos deixam com um sorriso amarelo e metálico no rosto. Porém, uma pequena lesão, minúscula mesmo, na...

Leia Mais

Jogando água na fogueira: defendo Muniz!

Artur Perrusi  Costumo banalizar a autocrítica, principalmente quando discuto futebol. Talvez, porque seja uma discussão muito, muito difícil. Não há consenso. E é uma forma de discussão na qual uma boa retórica e uma boa argumentação traz uma imensa vantagem à defesa de uma posição. Como não tenho retórica, e a argumentação já se escafedeu após a décima cerveja, utilizo muitas vezes o berro para demonstrar meus argumentos. Um pouco de dissuasão sempre é interessante numa discussão futebolística. Mas não era isso o que queria dizer. Na verdade, quero fazer mais uma autocrítica; quero mudar, novamente, de opinião. Vou direto ao fato: apoiei, inicialmente, Muniz para ser nosso técnico; depois do jogo contra o Náutico, diante dos erros escandalosos, mudei de idéia e passei a defender sua defenestração. Agora, mudo novamente de opinião: apóio Muniz. Antes de os leitores ficarem impacientes com meu vaivém, minha argumentação é a seguinte: a) naquele jogo contra as Barbies, segundo fontes, Muniz estava apavorado com a possibilidade de levar uma goleada. Por isso, montou o time de uma forma extremamente defensiva. Deu no que deu. Seu medo tem uma explicação prosaica: nunca confiou no time montado por Givanildo. Não é seu time. Os critérios de contratação não passaram pelo seu crivo; b) os jogadores que foram contratados, na sua maioria, dadas as circunstâncias financeiras, faziam parte da terceira lista de reforços de Givanildo. Embora seja um bom técnico, o velho Giva nunca soube indicar jogadores. Ele erra mais do que acerta. Imaginem, então, a qualidade de sua terceira lista! c) Muniz é adepto do trabalho de base e da procura de novos jogadores da região e de boleiros, relativamente jovens, que queiram despontar no futebol. E é o que está fazendo agora Edinho! E digo logo: as informações sobre esse Carlinhos do Nacional de Patos são as melhores possíveis. Falam até de um novo Tabata. Mas não sei se será contratado. Um amigo meu de Patos jura que Carlinhos não irá para o Santinha, o que seria lamentável. Em suma, as novas contratações estão sendo realizadas com mais ponderação e com mais cálculo — não é, ainda, um planejamento digno de um Departamento de Futebol profissionalizado, mas já é um avanço em relação à situação anterior. E essa nova postura não é uma invenção solitária de Edinho, pois tem o dedo, podem ter certeza, de Muniz; d) Muniz errou contra o Náutico – e...

Leia Mais

Bar, doce bar

Foto do Arquivo: Dimas Lins Antes de lotar o Arruda, vamos lotar o bar da piscina Dimas Lins   Nunca tive um ponto fixo para fazer concentração nas horas que antecedem aos jogos do Santa no Arruda. Às vezes, eu ia para o Colosso, quando os amigos da farra pré-jogo marcavam lá. Em outras oportunidades, seguia para algum local longe do Arruda, como o mercado da Encruzilhada ou outro boteco qualquer. Por fim, também costumava freqüentar o bar da piscina.   Com o fechamento do Colosso, passei a ser um freqüentador mais assíduo do bar da piscina. Era prático. Além do ambiente agradável, bastava levantar da mesa alguns minutos antes do jogo e pronto! Já estava nas sociais.   Agora, decidi juntar lazer e obrigação. Desde que o bar da piscina passou oficialmente a ser administrado pelo Santa Cruz, eu passei a frequentá-lo e vê-lo com outros olhos. Seria assim, como um dever cívico. A cerveja gelada sempre foi uma boa desculpa para falar do Santa Cruz. Então, nada mais justo do que unir o útil ao agradável, pois, sempre que eu tomar umas cervejinhas no bar da piscina, estarei ajudando o velho Santinha a aumentar suas receitas. Nada mais pragmático.   Cheguei até mesmo a pensar em criar alguns slogans para atrair a galera. Por exemplo: “se beber, dirija-se ao bar da piscina!”. Ou então, “o caminho ninguém me ensina, tricolor só bebe no bar da piscina!”. Ou ainda, "essa é minha sina, tomar umas e outras no bar da piscina!". Desafio as agências de publicidade a criar coisa pior.   Mas independente de slogans, conclamo todos os tricolores. Cachaceiros, pinguços, molhadores de garganta, entornadores do precioso líquido, halterocopistas, pudins de cachaça, alcoólatras inveterados, degustadores sociais, botequeiros de plantão, uni-vos! Fígados, tremei! Vamos fazer a redenção financeira do Santa através da cerveja! Será Frevo no pé e na corrente sanguínea.   Mas que o clube não esqueça de preparar os tira-gostos para a festa de solidariedade tricolor. Afinal, botequeiro que se preze tem bom gosto. Que uma diversificada culinária esteja à altura dos freqüentadores. Sarapatel, tripinha, arrumadinho, bode guisado e assado, lingüiça calabresa, asinha de galinha, frango a passarinho, caldinho de feijão, batata-frita, queijo assado e outras coisas mais.   Depois de tudo isso, só nos resta ir para o sacrifício. Mas para não ser politicamente incorreto e seguindo as normas legais, informo: "o ministério da saúde adverte, bebam com moderação". E eu acrescento anacronicamente, mas...

Leia Mais

Torcedor-TV, estádio lotado e organizadas

Cotidiano: confronto entre torcida organizada e polícia Artur Perrusi Um dia, era inevitável acontecer. O que acontecia em São Paulo agora acontece no Recife. Não temos mais encontros pacíficos entre torcidas organizadas. Ah, saudade de um tempo em que as brigas aconteciam, mas geralmente eram brigas de bêbados. A paz no futebol parece um crepúsculo, definhando lá no horizonte; ao fundo, toca-se um réquiem. Uma vez, vindo de um clássico, presenciei um encontro, digo, uma batalha, entre membros da Fanáutico e membros da Inferno Coral; talvez, menos violenta do que o habitué paulistano, mas perfeitamente comparável. Estava na Encruzilhada, de tantas estórias etílicas e pacíficas… Senti-me em Kosovo! Em suma, o vírus da violência já chegou, estando pronto para virar uma epidemia. Só falta uma morte…   O fut brasileiro está se transformando numa enorme televisão. Quem tem coragem de ir ao estádio? Não é preferível sentar defronte uma TV e assistir ao jogo na telinha? Não é muito mais seguro? Sem dúvida. Inclusive, podemos presenciar, atualmente, o surgimento do torcedor-tv e, até mesmo, a defesa da telinha como o melhor palco para assistir a uma partida de futebol. O torcedor-tv está para o fut, assim como o espectador-DVD está para o cinema…   (são chatos os espectadores-DVDs; são os que mais falam nas salas de cinema)   Nada contra; afinal, cada macaco no seu galho, embora seja muito melhor, na minha opinião, o cinema ou o estádio do que o DVD ou a televisão… Na verdade, o torcedor-tv é um produto atávico da violência. Seria um personagem pobre e sem alma. Causa uma certa pena. Naquela relação privada entre o torcedor e a telinha há um deserto de sentido. Falta graça. Não há estética. Falta comunhão. Não há catarse.   Futebol é estádio de futebol. O estádio é a ágora das emoções esportivas (carai, blog é inspiração). Faz parte da natureza humana berrar um grito de gol num estádio lotado. A necessidade de ir ao estádio de futebol é a necessidade de beleza que todo torcedor tem na sua alma. Uma necessidade que liberta. Como já se perguntou Carlos Drummond de Andrade: como pode ser bárbaro um povo que tem como maior abstração de triunfo o grito de gol?   Sou torcedor-tv apenas por necessidade. Uma necessidade que constrange. Quem pode ainda presenciar um Arruda lotado num clássico entre Santa Cruz e Esporte sabe do que estou falando....

Leia Mais

Antena positiva

Foto: Camila Bianchi Hora de muda a antena para o nosso lado Dimas Lins Terminado o campeonato pernambucano de futebol de 2007, o Torcedor Coral baixa a temperatura e convida os leitores deste blog a fazer o mesmo.   Diante das condições em que se encontravam os dois clubes no campeonato e considerando o contexto que envolveu a última rodada, a vitória tricolor em cima de um rival tradicional devolveu um pouco da alegria à torcida. E esta alegria precisa, agora, ser canalizada para um recomeço.   Gostaria de aproveitar um mote lançado por um conselheiro na reunião de terça-feira, o qual infelizmente eu não sei o nome, para discuti-lo e colocá-lo na pauta do dia.   É hora de uma mudança na postura da torcida e diretoria. Precisamos de atitudes que contribuam para elevar a auto-estima do torcedor e que o traga novamente para dentro do clube, em dias de jogos ou não. Esta mudança de postura passa, primeiramente, por um cessar fogo de notícias negativas que, na maioria das vezes, se originam nas dependências do Arruda e acabam potencializadas pela mídia. Pois, no final, as manchetes nas rádios, televisões e jornais do país associam a imagem do nosso clube à falência, ao fracasso e ao descrédito. Nesse ambiente, reduz-se cada vez mais o prestígio do Santa Cruz no cenário nacional e dificulta a atração de novos investidores. Qual empresa associaria a sua marca e empregaria seus recursos em um clube que projeta o tempo todo uma imagem negativa?   Há tempos que as notícias no Santa Cruz estão relacionadas a dívidas trabalhistas astronômicas, falta de credibilidade e de crédito, amadorismo de dirigentes e tantas outras coisas. É necessário projetar uma imagem mais positiva do clube. Basta enxergar que um dos nossos rivais tem uma dívida tão ou mais elevada que a nossa e não sai uma notícia nos meios de comunicação, porque eles não discutem seus problemas financeiros publicamente. No sentido inverso, poderíamos explorar na mídia o fato de que o clube mantém os salários dos jogadores e funcionários em dia. Também é preciso se utilizar do alcance desses veículos de comunicação para, sempre que possível, convocar a torcida a se associar ou atualizar seus débitos. É fácil produzir propaganda positiva do clube a custo zero.   O leitor menos avisado pode estar imaginando que está sendo induzido a fechar os olhos para os problemas do clube....

Leia Mais

Nem mel, nem cabaço!

Flagrante do jogo:"xô, cabaço!". Dimas Lins   Se você sentir um peso nas costas, um bafo quente na nuca, a unha roçando no calcanhar e a sensação de cagar pra dentro, cuidado! Você pode estar sendo enrabado.   A noite de ontem foi fantástica! Não apenas o jogo, mas a noite, ou seja, o antes, durante e depois. Digo isso, porque antes nos reunimos no bar da piscina, que agora tem 100% da receita voltada para o clube e, pasmem os senhores, entre antártica, skol e frevo, preferimos a última. Também valeu pelo pós-jogo, graças a gréia e a sensação prazerosa de ver a torcida da coisa com sorriso amarelo. Tenho a certeza que não botamos água no chope deles, mas sim derrubamos o barril todo no chão. Quem ouviu hoje a entrevista patética de um diretor da coisa na Rádio Olinda dizendo que o time foi campeão invicto, sabe do que eu estou falando.   Quanto a partida, não houve, por parte do Santa, brilhantismos. Mas jogamos com raça, determinação e vontade. Lembrei-me então das palavras de Edinho durante a reunião do conselho na última terça-feira. O presidente, naquele dia pela manhã, havia tido uma dura conversa com o elenco. Em poucas palavras, disse aos jogadores que eles estavam escrevendo com letras negras a história do clube, na pior campanha dos últimos 67 anos e que eles tinham a obrigação de entrar em campo ontem como se fosse um jogo de decisão de copa do mundo. E foi o que eles fizeram.   Hugo foi perfeito na defesa, Marquinhos Caruaru jogou muita bola na lateral esquerda, e o garoto Allan (ou foi Leandro?) jogou demais na lateral direita. Não bastasse, Marquinhos Catarina jogou um bolão, Renan foi um xerifão no meio e Marco Antônio havia dito antes da partida que ia correr até vomitar. Se ele vomitou, eu não sei, mas foi fundamental na vitória de ontem.   Gatinha manhosa se via como leão Se de um lado havia determinação, do outro havia arrogância e soberba. Mas quem tinha garra era a Cobra e o leão virou leoa. E como diria Zé Geraldo, quanto mais alto for, maior é o tombo. E a pancada foi forte. Tanto que partiram para a violência no fim do jogo, após uma pedalada de Jairo. Confusão e um jogador da coisa expulso depois do apito final. A torcida coral gritava em coro: “uh, fudeu, o cabaço...

Leia Mais
117 de 129...1020...116117118...120...