Para grafitar o Arruda

Para grafitar o Arruda

História que conto agora se passou assim: fomos para o Arruda a fim de nos tornarmos testemunhas vivas da volta de Grafite às hostes corais. Estacionamentos das ruas circunvizinhas lotados, o povão vestido em perto, branco e encarnado caminhando em passos apressados. Fogos no ar. Teria chegado o prometido? Pensamos. Talvez só o anúncio, a chamada para apressar o trânsito intransitável. Não dava para andar rápido, a coluna não ajudava, mas Toy estava impaciente, ansioso. Pegava no meu braço como se quisesse me levar nas costas. Eu disse: calma, já estamos aqui, um ou dois minutos não fazem diferença. Gente, muita gente se encaminhando para o Estádio José do Rego Maciel e lá, que alegria, o povo sendo recebido com música, daquelas que mexe com o coração, como as de Nando Cordel. Outras cobras corais das artes musicais desfilavam pelo pequeno palco, que tinha um som aquém da acústica do local, mas dava pra quebrar um galho. Valeu muito pela intenção. Burburinho, conversas paralelas, esperanças nos olhos, comentários, exultação. Eu gosto de olhar estas coisas. Pareciam crianças à espera do Papai Noel. E não é que apareceu um helicóptero! De início pensamos que era para filmar a turma na maior euforia. Ledo engano era Grafite dentro da aeronave preste a aportar no gramado do Arrudão. Ao longe, sua figura esguia vestida num paletó preto de calça coronha não dava para confundir. O mais alto de todos. Na negritude de sua pele os dentes alvos se destacavam na tarde cálida de sol escondido, escancarados de ponta a ponta do rosto. Estava feliz “de volta para o aconchego”. Num lampejo lembrei-me do Grafite, ainda jovenzinho, que conheci em 2001, na fracassada campanha da série A. Sempre cabisbaixo após as derrotas, quieto no seu canto, contrastando com a descontração e alegria de muitos atletas para quem o Santa Cruz não representava, absolutamente, nada. Não foi fácil para aquele menino a mudança de vida e a entrada no mundo do futebol e, mesmo quando pessoa no andar de cima na hierarquia dos que comandavam os atletas o detratava, ele perseverava. Era resiliente e, talvez, por isto, deu a volta por cima, galgou novos caminhos, alcançou a seleção brasileira e depois de anos longe da terra natal voltou ao clube que o acolheu de início e que o projetou no mundo futebolístico. Grafite sabe que daqui emitirá o brilho de sua estrela e a...

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Cisco no olho

Cisco no olho

Tenho medo da solidão. Medo de morrer sozinho ou vagar por aí, como um cão sem dono e amanhecer, dia após dia, jogado numa sarjeta, bêbado feito um gambá, com um vira-lata lambendo a minha boca. — Não percebe que é impossível a solidão para um tricolor, cara pálida?! — diria eu para o meu personagem. — Só percebo aquilo que você me permite. Lembre-se, você, como escritor, é quem me faz pensar esse monte de bobagens. Portanto, não me culpe. — É verdade, mas tento apenas me desapegar das coisas, inclusive da realidade, para que na literatura, ainda que de má qualidade como a minha, tudo se torne possível, até mesmo o impossível. Eu, por exemplo, sou a favor de asas nos seres humanos. — Zerumanos. — Como?! — Artur, o autor que você está plagiando, diz “zerumanos”. — Acho melhor a gente retomar o texto. Você estava caído na sarjeta com um cachorro lambendo a sua boca… — Não, não. Não era real. Pensava apenas no medo da solidão, já que, além de tudo, você me tornou um cara extremamente depressivo. — Tudo bem, tudo bem, segue daí. Não bastasse essa infinita tristeza, passei boa parte do fim de semana com um cisco no olho. No começo, achei que fosse uma bobagem, uma coisa à toa; mais tarde, a dor intensa e pulsante me obrigaria a mudar a atitude. Já era madrugada do domingo, quando, ainda com uma ressaca imensa, não pude mais ignorar o arranhão na córnea e levantei da cama. Como primeiro recurso, abri um vão entre a pálpebra e o globo ocular na tentativa de deixar escapar o corpúsculo infiltrado em meu olho; depois, gotejei soro fisiológico sobre a superfície irritada para, então, mergulhar o olho castigado em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado, mas o cisco resistiu à correnteza ocular. — Acho que essa passagem não ficou legal. O texto não é um drama? Então pra quê esse negócio do olho quase morrer afogado? Além do mais, acho imprudente falar em olho esquerdo, para não dar conotação política. Viu o que aconteceu com o Mantega? — Companheiro, não lembro de ter criado você se metendo onde não é chamado. Esse é um texto sobre futebol, não trato de política aqui! Além do mais, não é exatamente um drama. Lembra do gambá lá em cima? Dã! — Não trata de...

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Conversa no zapzap

Conversa no zapzap

Era uma vez uma conversa. Tudo começou assim… _Assiste ao jogo aonde? _Estou em casa. Artur pensava que Dimas estivesse por aí, nalgum desvario, mas não, estava em casa. _É melancólico. Dois velhos em casa. De fato, era triste. Cada um na sua casa, e o mundo pegando fogo lá fora. _Tá com medo do fascismo? _Quero sair de vermelho. _Tu num tá doido não, rapaz! _Ou de Satanás. _Aí lascou geral. Artur pensou num mundo melhor, cheio de transexuais, com coxinhas podendo sair do armário, sem culpa e sem timidez. _Tá louco?! Cunha te mata. Mas Artur não tinha falado nada; só pensado. Pensar é pecado? Claro, Deus sabe de tudo. Mesmo no banheiro, Ele te vê. Silêncio. Como narrador, forço minha criação, justamente esta narrativa, caros leitores, ao silêncio. Pois tenho medo de pronunciar seu Nome em vão. O medo terrível de que, uma vez pronunciado, as contingências sem limites do jogo linguístico (metáforas, retóricas, etc. e tal) destruam niilisticamente o mistério da transcendência. _Será que Deus dá a opção de não acreditar Nele? Quem disse isso? Eu sou o narrador. Quem disse isso? Silêncio. Tudo bem, esqueçamos a querela agnóstica; mas, como Dimas tinha adivinhado o pensamento de Artur? O cabra pensa em transexuais, coxinhas, Felicianos, Malafaias (vai procurar!), e Dimas sabe de tudo. Como? Um mutante? Um X-Men? Como telepata, será que o Editor-Mor teria um caso com Jean Grey, a espetacular Fênix? Deve ser incrível! Uma paixão que incinera literalmente o coração. Mas… e Wolverine, e Ciclope? Dimas era páreo para esses dois? Sei não, pensou Artur. _Você acha que a cura gay melhoraria o Santa? Impossível, disse o narrador dessa crônica. _Oxe, se sou o narrador, quem narrou agora? Havia, de fato, confusão na autoria da narrativa. Tempos sombrios, pensou o teclado. Retomemos a conversa. _Botei umas cervejas pra gelar, mas ainda não tive coragem de abrir. _Isso é grave. Pior, sou eu, pois nem cerveja comprei. _Só abro uma, se o time me animar. Gastar cerveja à toa não dá… Assistir a time ruim, só bêbado ou drogado, suspirou Dimas. Artur imaginou-se logo no Uruguai, terra do bom e do melhor. Ou em Amsterdam! Sim, na Holanda! No Quartier Rouge! _Ao invés de uma dona da Tailândia, onze pernas de pau! Como Dimas adivinhava o pensamento de Artur? Talvez, porque Artur fosse sumamente previsível. E Dimas tem esse defeito: só diz a verdade....

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Depois da queda, coice!

Depois da queda, coice!

Mais uma vez, não pude ir ao Arruda. Casado há 14 anos, o Dia dos Namorados passa a ter significados que vão além de estratégias comerciais e merece mesmo ser celebrado. Sou um escravo do amor, o que posso dizer. Mesmo assim, acompanhei de longe, do jeito que pude, o jogo do Santinha. Vez em quando, a contragosto, simulava uma incontinência urinária, para justificar minhas idas ao banheiro para olhar no celular, a cada 30 minutos, o que se passava em outra parte da cidade. O contragosto, explico bem, unificava o futebol mixuruca apresentado pelo Santa Cruz nesta temporada ao fato de deixar esposa e um casal de amigos sem o prazer — suponho — da minha companhia, já que sou daqueles que acham de grande inconveniência abdicar intencionalmente da atenção dos que me rodeiam para me pendurar nos aplicativos de um telefone móvel. Depois do jogo, entre um e outro gole de vinho, já tinha me decidido a pedir, neste canto insignificante da internet, a cabeça de Ricardinho, coisa que não fazia desde os tempos de Zé Teodoro, mesmo sabendo que no Santa Cruz, não há, tradicionalmente, campanha ruim que derrube um treinador, pois apenas casos fortuitos são capazes de fazê-lo, como o fim do mundo. Sendo assim, descrevia, em minha imaginação, cenas para explicar sua demissão, como um radialista que anunciaria a queda de Ricardinho ainda nos vestiários, para depois corrigir que se referia a uma topada do treinador em Bileu que o tinha levado ao chão, mas, recomposto, já estava de pé. Virei uma manteiga derretida, pois em tempos de crise econômica me sinto pouco à vontade para pedir o emprego de alguém. Contudo, era o Santa Cruz, afinal. Assim, recordava a trajetória de Ricardinho no Arruda, iniciada com dois três a zero seguidos, o risco de não avançar para as semifinais do campeonato pernambucano, passando pelo surpreendente título estadual, até o monumental fracasso na Série B. Apesar de campeão, argumentaria que, com Ricardinho, o Santa nunca jogou redondo, que suas substituições, por muitas vezes, desmantelaram ainda mais o time na tentativa de correr atrás de um prejuízo que só aumentava durante a partida. Admitiria, certamente, que Ricardinho não era o único culpado, pois tinha, na equipe, jogador ruim de doer e que milagres, mesmo em um clube com um nome cristão, não caem do céu. Ponderaria, por fim, que Ricardinho indicou ou aprovou parte ou...

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Qual é a vibe da torcida coral?

Qual é a vibe da torcida coral?

É fato que nada no clube das três cores acontece sem dores ou pesares, não deveria ser assim, mas é. A atual campanha no brasileiro que o diga. A torcida, por outro lado, ao longo desta caminhada, vinha sendo a placa mais regular desta estrada em construção. Na chuva ou no sol, na D ou na A, onde quer que o Santa tenha estado, a torcida esteve junto. Todo o tempo. Contudo, nota-se, nos últimos tempos, certo desgaste, melhor dizendo, fadiga dos torcedores. De tanto esticar o elástico da paciência, ele se encontra por um fio de cabelo de sapo. Daí os xingamentos, as vaias, as incompreensões. Pior, a intolerância. O futebol, como se sabe, é um esporte que anda na contramão da lógica. Nele, mais que nos outros, sempre aparecem indivíduos cujos objetivos pessoais ultrapassam os objetivos coletivos e, obtusamente, não entendem que o sucesso do Clube é o caminho mais seguro para que todos saiam ganhando. No caso do tricolor do Arruda, nota-se, por vezes, que os desejos vorazes e a soberba de uns poucos insistem em corroer a instituição Santa Cruz por dentro, feito cupim. É preciso um lastro de madeira mais forte para resistir aos ataques subterrâneos. O lastro mais forte foi, tem sido e sempre será a torcida coral. Por este motivo não se pode recuar, medrar, retroceder diante das adversidades; é necessário perseverar na crença de que o dia de amanhã será melhor do que o hoje, senão se cai na onda da “síndrome do peru”, onde se morre de véspera. É preciso garantir a sobrevivência do “Mais Querido”, mesmo quando tudo conspira contra. A cada nova gestão…, nova equipe…, nova comissão técnica, espera-se que apareçam pessoas capazes de sintonizar com os anseios dos torcedores santacruzenses. Não se pretende que moram de amor pelos fãs, mas que respeitem o maior patrocinador do clube. Que sejam profissionais e recebam seus ordenados em dia, mas demonstrando ética e consideração por quem, por ora, paga a maior parte da conta. Assim, quem sabe, os que ficam no plano do cimento duro das arquibancadas, talvez, possam se sentir mais confiantes em continuar patrocinando o objeto de amor mais sublime – a equipe coral – cuja comissão técnica e jogadores, por certo, não conseguem compreender a dimensão deste amor, algo tão subjetivo e singular, para cada um dos torcedores, tão importante quanto o ar que respiram. Algo tão...

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O Santa Cruz não paga. Os jogadores não jogam

O Santa Cruz não paga. Os jogadores não jogam

Em 2001, o mais novo poeta do cenário futebolístico nacional, Vampeta, saiu com uma frase mais ou menos igual a do título desta crônica: “O Flamengo finge que me paga, e eu finjo que jogo”. Em certas proporções, esse é o Santa Cruz de hoje. O clube tem imensas dificuldades de pagar os salários dos jogadores e funcionários. Frases do tipo “O Santa Cruz vai pagar salários de 15 em 15 dias”, “O CT será construído em seis meses”, “As certidões negativas irão sair em 15 dias”, “Vamos requalificar o Arruda para 75 mil torcedores”, “Iremos contratar jogadores de série A”, “Já estamos praticamente fechados com o patrocinador” … não encontraram tanto respaldo entre os torcedores, mas serviram para criar – até agora – apenas sonhos e expectativas de um novo Santa Cruz. Agora, torcedor, imagine-se no lugar do jogador que está há praticamente 3 meses com salários atrasados ouvir, nos dias atuais, os gestores do clube falarem: “devemos aumentar a nossa folha de orçamento no futebol em 20%”, “já estamos com um patrocinador praticamente acertado”, “esperamos em junho colocar os salários totalmente em dia”. Eu, na condição de torcedor, fico aborrecido quando vejo muita conversa e pouco resultado. Nem imagino na condição de um funcionário do clube. Educadamente, o treinador Ricardinho deixou claro na entrevista após a derrota para o ABC que o atraso salarial é um problema sério no Santa Cruz. Eu acredito que seja, afinal, nas mesas de bar, dizíamos que com o mesmo time do Pernambucano nem subiríamos nem cairíamos, mas hoje o que se vê é o Santa Cruz, praticamente com o mesmo time, na Zona de Rebaixamento. Ou seja, se tudo permanecer como está voltaremos à série C. Ainda, o salário atrasado atinge tanto jogadores quanto o próprio treinador que passou a inventar moda e a ressurgir um esquema da década de 50 (4-2-4), reduzindo nosso melhor e mais criativo jogador a um “simples” cabeça-de-área. Falta muita coisa. Com pouco dinheiro e sem capacidade de atrair recursos financeiros, o time limita-se a ser apenas razoável, isso quando os atletas se sobressaem em campo. O cenário não é nada animar, caso sejam mantidas as condições atuais. Neste contexto, a minha teoria é simples: Pode pagar os salários em dia? _Não. Pode contratar jogador bom? _Não. Então, que se utilize os jogadores da casa! E que não se fale mais de um futuro distante sem sequer ter olhos para...

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