Encantamento

Encantamento

… E o que esperar de um time chamado Santa Cruz? Tudo para nós é doído, sangrado, sofrido, como parto atravessado. E por isso nossa alegria é dobrada. E nosso coração usa colete à prova de balas. O silêncio do gol sofrido na hora do empate antecede o abraço no minuto final e o nó que nos trava a garganta desata uma tempestade de lágrimas depois do gol e nada mais importa, que não seja este momento. Nem a qualidade do time, nem a trajetória da equipe ou as falhas do juiz, o cosmo se resume a este encantamento: De vinte mil pessoas com o coração descompassado e joelhos ao chão. E nada...

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Aleluia!

Aleluia!

– Eis que uma centelha de luz pairou sobre minha cabeça – Aleluia! – e os anjos desceram diante de mim e me confiaram esta missão… O que há? Não ria! Também não faça essa cara ridícula de quem está se esforçando para não rir. A verdade é que eu, em seu lugar, faria essa mesma cara. Mas não desta vez. Afinal, o senhor há de convir que há algumas coincidências. Puta que o pariu! Até Chicão ajudou no jogo… E que falar de Maizena? Show de bola!!! Fazem cinco jogos que não consigo ir ao estádio. Em todos os casos, meu time só perde. E eu, juro, em todas as vezes que compareço, não arranco uma única derrota. Mas desta vez, quando a rede balançou pela sexta vez,  eu vi a luz: vi os anjinhos bailando diante de mim, vestidos com a camisa do Santa Cruz, todos eles pretinhos e de cabelos cacheados como convém aos nossos anjos tricolores. Em meio aos hinos e gritos, eles me confirmaram a missão: sou eu, aleluia!, eu mesma, mesminha, a responsável pela vitória de nosso amado Santinha!!!! Aleluia!!!! (… ) (…)     – O senhor é o marido? – Sim, senhor. É muito grave? – Desde quando ela está assim? – Desde o último jogo, doutor. (…) É grave? – Bom… me parece um surto psicótico… – E então? – O quê? – O que o senhor recomenda?  A medicação é muito cara? – Algumas doses, sim. A primeira, por exemplo, tem que ser lá do Ceará… – Hã? – Senhor, o melhor remédio, por enquanto, é  carregar sua senhora para todos os jogos.  Via das dúvidas, vamos ver se o Santa repete o...

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Caso clínico

Caso clínico

Não sou esotérica. Não entendo da posição dos astros. Não sei decifrar os búzios nem as cartas de tarô. Mas acredito, sim, na energia que se troca entre as pessoas. Especialmente quando se trata de um mundaréu de torcedores, como é o caso de nosso Santinha. Não é difícil comprovar isso. Eu, que sou atriz, posso garantir que a receptividade do público influi na qualidade do espetáculo. E, no futebol, não poderia ser diferente. Milhares de pessoas torcendo juntas, acreditando, vibrando bons fluidos… tudo isso, certamente, repercute no resultado do jogo. Claro que há exceções… e estas eu prefiro nem lembrar. Mas, de forma geral, sou daquelas que esfrega as mãos, mentaliza, e nunca, jamais, deixa o campo antes do fim do jogo. Por isso, se tem algo que detesto é aquele torcedor negativo, que adora xingar o time inteiro, que sempre acha que tudo vai dar errado, que acredita que ele próprio é o supremo conhecedor das táticas futebolísticas. Em geral sou uma pessoa calma. Às vezes até simpática. Mas, quando tem um desses perto de mim, preciso respirar profundamente, contar até dez, e às vezes até trocar de lugar. Ou corro o risco de advertir o colega de que ele errou a entrada e deveria ter ido para a torcida adversária. Dia desses tinha um atrás de mim. Xingava o time inteiro. Não cansava de dizer que deveria ter ficado em casa. Ninguém, absolutamente ninguém, sabia jogar bola: nem Dênis Marques, nem Renatinho, nem Memo, nem Tiago Cardoso. Muito menos Zé Teodoro. Caça Rato, então, era o alvo predileto. Para nosso exímio conhecedor das estratégias de jogo, qualquer um jogaria melhor que o tal do Flávio Recife. Branquinho, Geilson, Carlinhos Bala e até Catatau, o massagista, poderiam ser escalados como substitutos. Eis que, no segundo tempo, e apesar das energias negativas emanadas de nosso famigerado colega, o glorioso Santa Cruz fez um gol. E adivinha dos pés de quem? Flávio Caça Rato. Foi então que percebi que torcedores como aquele eram um problema clínico. Isso mesmo, um caso médico. A exemplo daquela peixinha Dory, do filme Procurando Nemo, todos eles sofriam de perda de memória recente. Para maiores informações, sugiro consultar o Editor-Minor, Artur Perrusi, profundo conhecedor das manhas e artimanhas da alma humana. Pois é. Em um súbito ataque de amnésia, o tal colega esqueceu tudo o que acabara de dizer. Virou fã absoluto de Caça...

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