Depois da queda, coice!

Depois da queda, coice!

Mais uma vez, não pude ir ao Arruda. Casado há 14 anos, o Dia dos Namorados passa a ter significados que vão além de estratégias comerciais e merece mesmo ser celebrado. Sou um escravo do amor, o que posso dizer. Mesmo assim, acompanhei de longe, do jeito que pude, o jogo do Santinha. Vez em quando, a contragosto, simulava uma incontinência urinária, para justificar minhas idas ao banheiro para olhar no celular, a cada 30 minutos, o que se passava em outra parte da cidade. O contragosto, explico bem, unificava o futebol mixuruca apresentado pelo Santa Cruz nesta temporada ao fato de deixar esposa e um casal de amigos sem o prazer — suponho — da minha companhia, já que sou daqueles que acham de grande inconveniência abdicar intencionalmente da atenção dos que me rodeiam para me pendurar nos aplicativos de um telefone móvel. Depois do jogo, entre um e outro gole de vinho, já tinha me decidido a pedir, neste canto insignificante da internet, a cabeça de Ricardinho, coisa que não fazia desde os tempos de Zé Teodoro, mesmo sabendo que no Santa Cruz, não há, tradicionalmente, campanha ruim que derrube um treinador, pois apenas casos fortuitos são capazes de fazê-lo, como o fim do mundo. Sendo assim, descrevia, em minha imaginação, cenas para explicar sua demissão, como um radialista que anunciaria a queda de Ricardinho ainda nos vestiários, para depois corrigir que se referia a uma topada do treinador em Bileu que o tinha levado ao chão, mas, recomposto, já estava de pé. Virei uma manteiga derretida, pois em tempos de crise econômica me sinto pouco à vontade para pedir o emprego de alguém. Contudo, era o Santa Cruz, afinal. Assim, recordava a trajetória de Ricardinho no Arruda, iniciada com dois três a zero seguidos, o risco de não avançar para as semifinais do campeonato pernambucano, passando pelo surpreendente título estadual, até o monumental fracasso na Série B. Apesar de campeão, argumentaria que, com Ricardinho, o Santa nunca jogou redondo, que suas substituições, por muitas vezes, desmantelaram ainda mais o time na tentativa de correr atrás de um prejuízo que só aumentava durante a partida. Admitiria, certamente, que Ricardinho não era o único culpado, pois tinha, na equipe, jogador ruim de doer e que milagres, mesmo em um clube com um nome cristão, não caem do céu. Ponderaria, por fim, que Ricardinho indicou ou aprovou parte ou...

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Na marca do pênalti

Na marca do pênalti

Deixo de orbitar em torno do nosso umbigo para tratar do assunto mais importante do mundo esportivo nos últimos tempos: o futebol está coberto de lama na marca do pênalti. Sete dirigentes ligados à FIFA, Conmebol e Concacaf foram presos pela polícia suiça, a pedido da justiça americana, acusados de corrupção. Ainda recaem sobre dez dirigentes da FIFA suspeitas de recebimento de propina para escolha das sedes das copas do mundo de 2018 e 2022. Segundo as autoridades americanas, a investigação teve início nos Estados Unidos, porque o sistema bancário do país foi utilizado para a prática da corrupção no futebol. Entre os presos, José Maria Marín, atual vice-Presidente da CBF e ex-presidente da entidade no período de 2012 a 2015, Organizador da Copa do Mundo no Brasil, da Copa das Confederações, do Mundial de Clubes e do Torneio de Futebol Olímpico, é acusado de receber propina. As prisões revelam dados interessantes. A primeira delas trata da esculhambação que se tornou o envolvimento de empresas de marketing esportivos na aquisição e intermediação dos direitos de transmissão de TV. Nesta situação, a Traffic, empresa de José Hawilla, que já manteve com o Santa Cruz relações comerciais em torno do projeto sócio-torcedor, é ré confessa nessa mutretagem. A empresa já devolveu parte dos U$ 151 milhões obtidos através de rapinagem e, em breve, deverá devolver o restante. O segundo, o envolvimento do patrocinador esportivo oficial da CBF, não citado formalmente pelos investigadores americanos, mas que, segundo os sites esportivos do país, trata-se da Nike, em razão do período de assinatura do contrato citado no relatório de investigação. Terceiro, o envolvimento até o pescoço de dirigentes do futebol brasileiro em toda essa mamata, inclusive com recebimento de propina na transmissão da Copa do Brasil, é oportunidade única para passar a limpo o principal esporte do país e realizar uma faxina sem precedentes na CBF e Federações Estaduais, inclusive, com a reformulação do sistema de transmissão, distribuição de cotas de TV e privilégios de uns em detrimento de outros. Quarto, as autoridades americanas investigaram os envolvidos por 20 (vinte) anos, em absoluto sigilo, para, então, depois de colher as provas e evidências necessárias, realizar a prisão dos acusados. No Brasil, primeiro as autoridades prendem e divulgam informações sigilosas para então investigar. Quinto, como sonhador, me forço a imaginar uma investigação que passaria a limpo a história do Santa Cruz. Seria interessante tornar público a...

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Com a corda toda

Com a corda toda

Os editores e cronistas do Torcedor Coral, por vontade própria — todos sabem — exilaram-se. Foram tantos anos pisando e repisando as coisas do Santa Cruz, que se criou um oco mental e se instalou uma enorme preguiça nas mãos. Poucos têm essa capacidade de deixar a mente vazia, reconhecemos. Eis nossa melhor virtude. Primeiro, veio a desaceleração, depois, enfim, a parada total. Por um bom tempo respiramos por aparelhos. O resultado dessa paralisia reflete-se agora no tempo em que escrevo: falta ritmo, os dedos entrevaram e, no cérebro, só teias de aranha. Fisioterapia e voltar ao Arruda ajudaram a reacender a velha chama. Escrever, como tudo na vida, requer exercício. A prática vem da repetição; as ideias, de usar a cabeça em coisas úteis, ou inúteis, como no nosso caso. Estalo os dedos, enquanto espremo uma gota de pensamento e uma voz sussurra que ainda há muito o que dizer do Santa Cruz. Imagino fantasmas do passado cobrando a conta da vadiação, mas logo soube que não podíamos escapar da verdade, que crescemos venerando essas cores numa mistura secular entre o profano e o sagrado, entre a farra e a devoção. Não há como, então, desvencilharmo-nos daquilo que nos impregna. Por isso, a ociosidade termina agora. O TC hoje retorna ao universo virtual para fazer o que sabe: falar do Santa Cruz. O retorno, que amadurecia aos poucos, foi praticamente selado no final do campeonato pernambucano. Se não cansamos do Santa Cruz nos piores momentos de sua história, por que cargas d’água cansaríamos agora que voltamos a ganhar competições? É melhor ser alegre que ser triste, já dizia o poeta. Há muito o que fazer nas Repúblicas Independentes do Arruda e o TC quer meter a colher. É preciso provocar, reformular, modernizar. É preciso confundir para então esclarecer. Nosso papel está na primeira parte desta oração subordinada. Também é preciso brincar. Por isso, o nosso retorno aconteceu num encontro etílico de editores, cronistas e amigos no Paraíso Tricolor, jardim da nossa querida Santana Moura e de Toy, o casal mais acolhedor do universo, como bem disse Perrusi já com a língua engrolada. Os encontros anuais, é justo dizer, aconteciam próximo ao 06 de dezembro, data do aniversário do TC, mas, em 2014, passou batido, sintoma de que algo estava mesmo fora de ordem. Em dado momento, foi Artur, confundindo uma samambaia com Santana, reflexo das mudanças químicas na corrente sanguínea, quem filosofou...

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Bala na rede

Bala na rede

Parece que a minha resolução de suspender as atividades do TC até o início da Série B entrou em desuso, posto que, ainda que vagarosamente, tenho escrito um pouco mais agora do que em todo o primeiro trimestre. Justifico-me alegando que, embora o assunto seja perverso, a causa é nobre e toda causa nobre merece nossa manifestação. Refiro-me à violência que impera no futebol brasileiro, extensão de nossas mazelas sociais e miséria humana que se manifestaram mais uma vez antes, durante e depois do clássico ocorrido na Ilha do Retiro no último domingo. O constrangimento físico e moral sofrido por torcedores mostrado nas TVs e nas redes sociais merece nosso repúdio e indignação. As imagens de tricolores espremidos e massacrados na passagem estreita para acesso ao estádio é um deboche à cidadania e direitos e garantias individuais e lembram o gado (mal) conduzido para o abate. A violência é o troco que o torcedor recebe ao pagar por um ingresso de uma partida de futebol. O espetáculo não pode parar. Neste domingo, sobrou violência para todos os lados. Entraram em campo balas de borracha, cassetetes, sprays de pimenta e a já conhecida estupidez das torcidas organizadas. A polícia, bom que se diga, também apanhou. Foi vítima de sua própria violência e da inapetência e inaptidão do Estado de Pernambuco em lidar dignamente com a segurança de seus cidadãos. O preceito constitucional de que ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano e degradante é jogado na lata do lixo a cada clássico local. Contudo, a imagem mais chocante deste domingo foi, sem dúvida, a tapa disparada por um policial na cara de um torcedor que comprava água mineral. Agressão gratuita que parte de quem deveria proteger. A ação da polícia militar muito lembra a de um passado recente em que fora aparelhada para reprimir cidadãos em nome da ordem e da repressão nos anos de chumbo. E há quem sinta saudade e peça a volta da ditadura militar. Mas isso é outro papo. O Santa Cruz, em Nota Oficial (leia o texto na íntegra abaixo), tornou público o seu repúdio e considera que “a violência que atingiu seus torcedores não foi casual”, mas fruto da “recorrente falta de estrutura oferecida pelo clube mandante para receber a torcida visitante” e cobra da Federação Pernambucana de Futebol (FPF) apuração dos fatos, responsabilização e punição nos termos do Estatuto do Torcedor...

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Os verdadeiros inimigos

Os verdadeiros inimigos

Firme na minha decisão de manter o TC parado até reavaliação no início da Série B, recuei, momentaneamente, provocado por uma entrevista de Alírio Moraes ao Superesportes. Provocado no melhor sentido, pois o tenho visto com bons olhos, apesar das dificuldades e das falas em demasia. O mandatário coral, no final da entrevista, lamentou o desdenho da torcida pelas metas que traçou para o triênio 2015 a 2017. “A gente fica sendo taxado de delirante, porque quer mudar a realidade do clube. Algo que a torcida mesmo cobra, ela quer uma melhoria, mas ela própria não acredita que possa acontecer.” Alírio Moraes Matutei sobre a fala presidencial, dei razão a Alírio, mas compreendo bem a torcida. Impossível não compreendê-la depois de tantos anos de esculhambação administrativa, que nem mesmo o aclamado Fernando Bezerra Coelho ou o sortudo Antônio Luiz Neto conseguiram — ou mesmo tentaram — minimamente dar um jeito. Alírio Moraes tem, na conta de quem apenas observa de longe, a vantagem de olhar para frente. Enxerga o clube como qualquer torcedor bem informado, e sabe que o Santa Cruz tem uma estrutura medieval e precisa entrar no século em que vive. Contudo, qualquer tricolor também reconhece que são ousadas as metas traçadas, como construção do Centro de Treinamento em três meses, modernização do Arruda, conquista da Copa do NE, do Brasil e vaga na Libertadores. Nenhum dos projetos saiu do papel, desde o tempo de Edinho, o diminutivo que reduziu o Santa Cruz a cinzas. Claro, bem explicou o presidente, que não há como garantir a conquista de nada, mas apenas de montar um time capaz de atingir as metas. Ganhar ou perder são coisas do futebol. Metas, porém, são fáceis de traçar e difíceis de alcançar. E quanto maior for a glória prometida, maior também será o tombo, em caso de frustração. Em tempos de descrédito, na perda da fé, cujo reflexo principal é o desaparecimento do torcedor das arquibancadas do Arruda, o silêncio cauteloso talvez seja o melhor caminho até que as coisas, enfim, tenham condição reais de materialização. Ainda assim, é preciso dizer que o presidente Alírio Moraes tem um diferencial dos seus antecessores. Enquanto todos miraram primeiro o futebol, ele identificou como principal alvo uma reforma administrativa, a tal profissionalização que todos nós sonhamos. E já fez o que nenhum outro presidente conseguiu nos últimos trinta anos, reduzir significativamente a dívida do clube, essencial...

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Tempo ao tempo

Tempo ao tempo

Há algum tempo o Torcedor Coral vive um momento estranho. Momento este que se transformou na mais enfadonha eternidade. A verdadeira verdade, a mais absoluta e cristalina, é que nós, editores e articulistas, perdemos o pique e o entusiasmo em escrever sobre o Santa Cruz. Longe vai o tempo em que os nossos artigos fluíam naturalmente após uma partida do Santinha, ainda que o centro de nossa literatura coral fosse mesmo o entorno do jogo. O gramado — ah, o gramado! — não passava de um detalhe. Nosso olhar se voltava para o espelho, cujo reflexo exibia torcedores apaixonados e cheios de desejos e esperança de um dia ver o clube grande outra vez. Dos textos e vídeos malucos à acidez política, o Torcedor Coral fez história, influenciou tricolores e cutucou dirigentes. Enquanto houve fôlego, nos esforçamos para manter em nossa seção de comentários um grau mínimo de civilidade. Fizemos amigos, muitos amigos, fomos queridos por uns, enquanto outros nos torceram o nariz. Coisas da vida, que só o futebol pode explicar. Mas o tempo passou. Apesar de algumas conquistas, o Santa Cruz não mudou. Seu modus operandi manteve-se preso ao passado, onde persevera insistente a gestão medieval. Eis aí o ponto crucial: a esperança cansou de olhar a luz no fim do túnel sem jamais ter a chance de se aproximar. Gostamos do amor correspondido, de dar e receber. Enxergamos a relação amorosa como via de mão dupla, de carinho mútuo, indo daqui e vindo de lá. O que podemos fazer? Esse mais do mesmo, anos a fio de esperança pisoteada, refletiu-se no TC, onde a obrigação de escrever e publicar alguma coisa que valha a pena dizer tornou-se um fado insustentável. Foi Paulinho quem lembrou que é minha a missão ingrata de suspender ou encerrar as nossas atividades, já que me coube, no longíquo 06 de dezembro de 2006, criar este espaço de debate coral. E grandioso, foi ele quem propôs o apoio dos editores e articulistas que me permitisse deixar o TC descansar um pouco. Embora sem forças para continuar, o carinho devoto ainda me faz conter a mão que segura o machado. Sei que o TC já cumpriu sua missão, contudo, para mim, ele é como um filho que se tornou adulto, precisa partir, mas a gente não quer desapegar. Como até aqui ainda me falta a coragem necessária para interromper a trajetória do Torcedor...

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