Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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O corvo

O corvo

Versos baseados na tradução de Fernando Pessoa do poema O corvo do poeta e escritor americano Edgar Allan Poe. Numa noite sombria e inquieta, enquanto eu lia, lento e triste, As notícias do meu time, tantos pesadelos reais, E sem sono ou alegria, ouvi o que parecia, Alguém que à porta batia com pancadas tão brutais. “Mal agouro”, eu me disse, “Vá de retro, Satanás!”   E de fora a voz dizia: “Não saio daqui nunca mais.”   E o peso da ventania, em noite tão densa e fria, Deitou a porta abaixo e invadiu os meus umbrais. Roguei, pedi silêncio, um pouco de paz no aposento, Gritei, mergulhado em tormento: “Vá embora, Barrabás!” E um corvo preto e graúdo interrompeu meus rituais.   “Não saio daqui nunca mais.”   Um corvo preto e graúdo, ave de agouro e de luto, Pousou na minha varanda, enviando seus sinais. “Que merda é essa?!”, eu lhe disse, “Deixa logo de tolice, Volte por onde saíste, parta e não venha mais. Suma, desapareça, não mande carta ou postais!”   E o corvo repetia: “Não saio daqui nunca mais.”   “Sou o profeta das sombras e trago notícia ruim. Esse teu time chinfrim, não jogará bola mais. Será sempre essa mesmice, vence uma; noutras, vice, Viverá eterna crise, não levantará jamais.” Que corvo filho da puta, jogando pragas demais.   E repetiu insolente: “Não levanta nunca mais.”   “Não vou mais pra Série A?!”, perguntei muito assustado, É triste ficar fadado a competições locais. Revê essa tua vidência, encontra outra evidência, Que desfaça com urgência tuas previsões boçais.” E o corvo muito sério, sem gestos sentimentais:   “Não levanta nunca mais.”   “Não abandono o meu time, seja o que for que aconteça, A não ser que eu padeça de algumas doenças mentais.” “Pois antes que o dia amanheça”, disse o corvo infeliz, “Debaixo do meu nariz, confessarás muito mais. Não pisarás no Arruda, lá não voltarás jamais.”   E repetiu insistente: “Nunca mais.”   “Corvo agourento e maldito, ave má e traiçoeira, Covarde, vil e rasteira, volta pros canaviais! Nada que dizes aceito, um dia daremos jeito, Ouvirás os nossos feitos, seremos os maiorais! Foge, ave sinistra, voa pros teus umbrais!”   E o corvo respondeu: “Nunca mais.”   “Ouve bem tuas palavras”, disse-me a ave, enfim, “Estás mais perto do fim, que de glórias ancestrais. Em trinta anos, tu bem lembras,...

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Recomeço

Recomeço

Na frente do Arruda não havia ninguém. Depois de tanto tempo, ofegava de saudade trazendo na lembrança aquelas cores fortes, aquela multidão reacesa pela esperança de começar de novo. É mais que um desejo ou um sonho, o recomeço. Na tentativa desorganizada de todos os anos, adormece no coração tricolor, escondida lá no fundo, naquele canto onde não costuma chegar a luz, a perturbação de que tudo isso um dia tenha fim. A esperança tantas vezes morta neste estádio é tantas vezes renascida para tornar a morrer e a viver outra vez. Mas no Arruda não havia ninguém. Nem mesmo cambistas a vender bilhetes na sede do clube e a nos envergonhar de nossa complacência, nossa permissividade. — Não tenho troco, senhor. — O ingresso custa quinze e você não tem troco pra vinte?! — Tenho não, senhor. Talvez não viesse ninguém. O medo de que tudo o que nos resta e que vem da arquibancada um dia se acabe faz nascer fios de cabelos brancos na minha cabeça. “Isto aqui está mais para um campo de trigo sem sementes nem ninguém para plantar”, pensou minha cabeça branqueada. — Mas o que você queria? É cedo demais! — Que horas são? — Não passa das dez e meia. — Ah! O medo foi em vão; os cabelos brancos também. A ansiedade me trouxe de volta cedo demais. À toa, rodamos com o sol na cara, perambulando, sem querer ir nem ficar. — A cerveja não desceu bem. — Não tem outra coisa, a não ser uma vodca pouco recomendável e suco de uva com soja. — Essa mistura não vai me matar, vai? Bebi conformado enquanto olhava as horas que não passavam, mas o sol mesmo assim se deitava em nós, contrariando o relógio, como se quisesse conversar também. Uma dor de cabeça fina se espalhou e eu olhei para a vodca desconfiado. Senti aquelas pancadas ao meu redor até que o sol desistisse de esquentar o banco vazio e se despedisse como um amigo que se vai. Uma luz artificial branqueava o Arruda e iluminava a noite, deixando a lua envergonhada e escondida atrás de alguma nuvem, pois não podia com tanta claridade vinda do chão. No estádio, um encontro alegre, tapinha nas costas, abraços e uma vontade danada de conversar sobre livros e prosas. Fica para depois. Agora é hora de ver como será este recomeço. A...

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De saudade e de silêncio

De saudade e de silêncio

Espero o verão ir embora para ficar mais à vontade. Gosto do sol, mas não do calor imenso. Já foi o tempo em que deitava nas areias da praia para morenar o que já é moreno. Prefiro agora a brisa refrescante que vem da minha janela nas estações suaves e também a noite fria, que me permitem refletir e descansar um pouco mais. Contudo, não desfaço do verão, fonte de vida de nossa juventude colorida pelo sol. Nesta estação, vivo dentro d’água como um peixe de coral e, entre um mergulho e outro, molho a garganta em refrescantes goles de cerveja. Ah! Isso é que é vida. Vocês hão de concordar. Fora disso, a sensação não é boa, apenas o trânsito flui melhor. Pinga em minha testa um suor corrente como a nascente de um rio, que prega na minha roupa um cheiro um tantinho azedo que me tira o sono. A copa das árvores não se movem, porque não há ninguém para soprar. Lá em casa também nada sopra. O ar condicionado foi vencido pelo calor e mesmo o ventilador parece mais puxar o ar com a boca, para se refrescar, do que para empurrar na direção da gente. No verão também não há futebol. Não há gente a lotar os estádios e a colorir a cidade com bandeiras descomunais e uniformes do seu time. Ao menos havia o consolo da Copinha. Agora não há mais. Se serve de consolo, fomos bem, mesmo com a eliminação na segunda fase da competição. O adversário foi superior, mas se não fosse o juiz, quem sabe aonde iríamos chegar. E já que mencionei a arbitragem, sinto falta até mesmo dos gritos de “ladrão!”. Um estádio vazio é como um cemitério na madrugada, onde só os mortos perambulam, pois o gramado, se não repararam ainda, tem um aspecto de sepulcro natural. A gente olha de cima da arquibancada e jura que viu um vulto de um craque do passado passar por um, tabelar com outro e fazer um belo gol. Mas tudo está vazio. Não há ninguém por lá, só a saudade de ver a bola rolar e um homem sentado na arquibancada a coçar o queixo e a meditar. — Onde estão todos? — Quem sabe escondidos a lamentar o ano que passou, senhor. — Ninguém mais por aqui grita gol? — Não tenho ouvido não, senhor. — É tão triste...

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Eleições e sectarismo

Eleições e sectarismo

Chegaram ao fim as eleições no Santa Cruz e com elas, assim espero, também termina a batalha campal que se instalou não apenas nos palanques, mas entre torcedores partidários de um e outro lado. A vitória de Antônio Luiz Neto foi mais do que esperada e demonstrou que apesar de suas falhas, muitas, aliás, a sua gestão esteve longe de ser um fracasso. No futebol, apesar de nossa justa impaciência com Zé Teodoro, conquistamos dois títulos pernambucanos e um acesso. Para quem considera que o campeonato pernambucano não vale nada, basta lembrar que ele é o responsável direto pela renovação da torcida e seu crescimento. O sport deu um salto de 1988 para cá, porque, com o dinheiro, vieram os títulos. Digam o que disserem, sinto prazer em ser campeão pernambucano, ainda que o desejo de almejar vôos mais altos nos cenários nacional e internacional sejam maiores e, por enquanto, utópico. Esta eleição não me empolgou. Embora considere a figura de Joaquim Bezerra importante na tentativa de um processo de mudança de mentalidade com a busca inescapável de profissionalização do clube, sua chapa nem de longe chegou a me motivar. Não era preciso ter quaisquer dos ex-presidentes em suas fileiras, mas precisava ter mais personalidade, pessoas com perfil de gestor na base de seu grupo, que tornassem mais sólido o seu projeto. Também considero que sua campanha cometeu equívocos que o afastaram ainda mais da cadeira de presidente do Santa Cruz. O tom elevado além da conta, que se iniciou com o um termo chulo atribuído a Sandro, atrapalhou. Quando o campo de batalha torna-se pessoal, há dificuldades em se distinguir a razão da emoção. Tive a oportunidade de dizer isso a alguns de seus partidários no dia da eleição, contudo, era só a minha opinião, não necessariamente a mais abalizada, como se diz no jargão do futebol. Do lado vencedor, Antônio Luiz Neto já apresentou virtudes e imperfeições. Já é possível saber, por exemplo, que o seu lado político dificilmente permitirá grandes mudanças administrativas no clube. Também não espero uma revolução no Estatuto. A propalada união, que coloca gatos e cachorros no mesmo lado e que pouco me agrada, pois mantém representantes do LEF dentro do clube, não permitirá grandes avanços. E embora não atribua a derrota de Joaquim Bezerra – uma sonora goleada, aliás – a questões eleitoreiras, é preciso vontade de promover as mudanças que deem...

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Quase a mesma amizade

Quase a mesma amizade

Voltamos, dessa vez em definitivo… eu acho. Está bem, o início deste artigo é paradoxal e demonstra insegurança e insatisfação, mas o momento foi mesmo de turbulência interna. Na fase mais crítica, houve chantagem e ameaças de saques em nossa redação, como se tivéssemos algo de valor para ser subtraído. Enfim, seja como for, voltamos para ficar(?), pois aqui é o nosso lugar. Infelizmente, contudo, o processo eleitoral do Santa Cruz e o bate-boca entre situação e oposição ficaram em segundo plano, assim como os comentários pendentes de moderação, pois não havia condição mínima de trabalho de nossa equipe. Os olhos apontavam para o nosso próprio umbigo, um grande umbigo, já que há tempos estou fora de forma, para resolver um problema interno que se anunciou no meio do ano. O antigo servidor, onde nosso site estava hospedado, encrespou com a gente, cismou do cão de manter o TC sob rédea curta. Primeiro reclamou do tráfego. “Trânsito é problema de Geraldo!”, argumentei. Aí a coisa (não aquela rebaixada) fedeu depois de uma reclamação formal do volume de nossos arquivos. Somos um blog de massa, querem o quê, caras-pálidas?! Soube que surgiram boatos que uma das chapas à presidência do Santa Cruz (ou as duas!) havia nos sabotado. Descartei de imediato, pois, tanto de um lado quanto do outro, há pessoas que tenho enorme consideração e tenho certeza que a recíproca é quase verdadeira. Acho mais plausível a versão que atribui a culpa ao Blog do Santinha, não pelo medo da concorrência, como insinuam os mais maldosos, mas pela sacanagem pura e simples. Sexta-feira vou tomar algumas com Gerrá e tirar isso a limpo. Se for verdade, darei o troco e cobrarei danos morais, tendo como tribunal uma mesa de bar. Contudo, porém, todavia, entretanto, a verdade é que o servidor, onde o nosso site se hospedava até o último dia 28 de novembro, prometeu armazenamento e tráfego ilimitados e que o espaço em disco iria crescer na hora certa, mas não foi assim que aconteceu. O Termo de Serviço, Backup e Armazenamento desdizia a propaganda oficial. É preciso se ater as coisas miúdas, as letrinhas pequenas do contrato, as cláusulas que tornam finito o infinito. Fui ao Tribunal Especial de Pequenas Causas alegar propaganda enganosa, mas quando me perguntaram o endereço da empresa e eu comecei a dizer www, me aconselharam a desistir da ação e a mudar de...

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