Na final, afinal!

Na final, afinal!

Combinamos, Paulinho e eu, de assistir ao jogo do Santinha juntos no Arruda. Temos características similares, conversamos pouco e observamos muito a partida. Por isso, quando Nó Cego me ligou se convidando para ir conosco, considerei a sua companhia indesejada, pois tenho me esforçado para ver o trabalho de Zé Teodoro com bons olhos – o esquerdo é bem melhor do que o direito, pois é com ele que, depois da cirurgia de miopia, passei a enxergar longe – e queria ir a campo para dar o meu sincero apoio à equipe coral, pois, por amor ao Santa Cruz, intuí que havia chegado a hora de dar uma chance à paz, ao menos na reta final do Campeonato Pernambucano. Com Nó Cego por perto, é impossível agir como um genuíno torcedor de arquibancada, apoiar incondicionalmente o time e vibrar com a vitória, ainda que magra, com um gol de mão do juiz. Além de tudo, com ele, corro perigo. Nó Cego sempre se mete em confusão e, invariavelmente, sou eu quem paga o pato. Saí de casa arrastando, pela coleira, Dalila – uma cachorra de rua da raça Chihuahua que peguei para criar e que tem complexo de superioridade, mas morre de medo de cobra – porque Nó Cego queria utilizá-la como cão-guia, já que o seu morrera acidentalmente em um jogo do Santinha no Arruda, depois que seu dono foi tirar satisfação com integrantes de uma torcida organizada. Provavelmente esta tenha sido a razão para que Dalila, quando soube do papel que lhe caberia, tenha dado um pique lascado para debaixo da cama e só tenha saído de lá tão logo eu enfiei um mastro de uma vassoura no seu rabo. Contornado o problema, Dalila pôs-se a andar toda arreganhada em direção à porta e seus olhos quase saltaram da cara assim que Nó Cego, ao avistá-la, fez-lhe um carinho com a gentileza de um estivador. Depois de Nó Cego chamar de ridícula a peruca da minha cachorra e rirmos um bocado, saímos em direção ao Arruda. Nó Cego me chamou de fresco assim que eu comprei um ingresso de cadeira cativa – “É por causa do meu reumatismo”, expliquei inutilmente – e exigiu que, por causa do inconveniente, eu comprasse um para ele também. Comprei o ingresso contrariado, me sentindo com cara de trouxa, e partimos para as cadeiras. Nó Cego arrastava Dalila em rédea curta, enquanto...

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Do protesto à tietagem

Do protesto à tietagem

Estava metido numa importante reunião de trabalho nas primeiras horas da manhã, no instante em que o meu celular tocou. Rejeitei a ligação por três vezes, como Pedro a negar Cristo, mas o toque do aparelho ao som do hino tricolor atravessou a sala troando como um trovão e, inevitavelmente, paralisou o andamento das tratativas. Meu chefe, um intragável rubro-negro com cara de leão-marinho, por causa do tremendo bigodão e do corpo roliço, demonstrava severos sinais de irritabilidade e cobrava, com a gentileza do olhar de um castrador de touros, o fim de tamanho inconveniente. Espremido entre os colegas de trabalho e sem saber a localização exata do botão silencioso no celular, não me restou outra alternativa a não ser atender a ligação ali mesmo, para não ter que passar por debaixo de umas seis cadeiras que ficavam entre a porta e eu. — Um instantinho aí, chefia… Alô?! Fala, Perrusão! Artur Perrusi, renomado psiquiatra e conhecido pesquisador dos hábitos extravagantes das lendárias tartarugas marinhas de Intermares, dava notícias de seu paradeiro depois de outro longo período afastado da civilização. Aliás, foi Perrusi quem recentemente descobriu, através de seu ensaio Os ‘paraíbas’ não torcem pelos paraibanos, a relação entre os quelônios e os torcedores-parabólicas. — Doido… Nunca encaro com naturalidade o fato de um psiquiatra me chamar assim. Talvez isso queira dizer alguma coisa além de uma carinhosa demonstração de amizade. — …Segui a trilha das tartarugas até a praia de Boa Viagem e descobri que elas vieram assistir ao treino do Santa Cruz. Esses quelônios têm um bom gosto do carai! De fato, tinham. Além de tudo as tartarugas eram bem mais informadas do que eu, que leio jornais todos os dias, mas não sabia de nada. — Doido, vem te embora pra cá tomar uma cerveja! Disse, como se estivesse sozinho na sala, que entre uma cervejinha na praia e uma reunião com um rubro-negro com cara de leão marinho, preferia a primeira opção. Desliguei o celular e, enquanto todos me olhavam abismados, sem pestanejar botei as duas mãos no rosto e, lágrimas de crocodilo nos olhos, anunciei que precisava sair imediatamente por causa da morte do primo do irmão do faxineiro da minha escola nos tempos de infância. Disse ainda que eu ficaria bem e que finalizassem tão agradável reunião sem mim. Depois, passei por debaixo das cadeiras e, antes de sair, ainda disse com profunda...

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O repórter cara-de-pau!

O repórter cara-de-pau!

Depois da desclassificação do Santinha na Copa do Brasil, da distribuição de tapas na torcida, durante o treinamento do time profissional, e da declaração de Zé Teodoro de que Léo não estava comprometido, o Torcedor Coral despachou o despachado Paulo Peroba, o repórter cara de pau, para o Arruda, a fim de apurar os fatos da semana para, em seguida, enviá-lo à agradável cidade de Belo Jardim, com o objetivo de acompanhar a equipe coral na cobertura de mais uma rodada do campeonato pernambucano. Sobre as lapadas no toutiço de que foi alvo um grupo de tricolores na realização de um protesto nas sociais, durante o treinamento comandado por Zé Teodoro, nosso repórter cara de madeira apurou que o presidente está em São Paulo, onde acompanha a esposa em tratamento de saúde, alheio, portanto, à troca de gentilezas entre torcedores e seguranças. Apesar disso, considerou oportuno ouvir a declaração de algum dirigente sobre o assunto e saber quais providências foram tomadas pelo clube. Vários diretores conseguiram escapar de Peroba, mas ele pegou na carreira Rodolfo de Orleans, Diretor Musical do Santa Cruz, que, forçado, deu a seguinte declaração: “Nossa torcida não é a mais apaixonado do Brasil? Então… tapa de amor não dói, não é verdade?” Para testar a teoria do dirigente, Peroba deu-lhe um tabefe no pé do ouvido e depois perguntou com carinho se, além de vermelha e inchada, sua cara também doía. “ Tá doendo, não, porra!”, declarou amavelmente o dirigente. Peroba também ouviu o agressor do Arruda, pois, como bom repórter, quis publicar a sua versão dos fatos, por mais idiotice que pudesse parecer. Depois de dar-lhe um peteleco na orelha, deu início a seguinte entrevista: Paulo Peroba — De onde vem essa mania esquisitona de bater? Agressor do Arruda — Ah, desde criança sempre tive vontade de bater em gente, mas mamãe não deixava. Como não consegui entrar para a polícia, por causa do exame psicotécnico, vim dar a minha humilde colaboração ao Santa Cruz. No Arruda, realizei meu sonho. Peroba — Mal elemento, você é ou não é funcionário do clube? Agressor do Arruda – Mais ou menos… Peroba — Se explica melhor, corno velho. Agressor do Arruda — Sou e não sou… é que estou mais para amigado. Nosso repórter aproveitou a visita ao clube para ouvir Léo, volante metrossexual, cujo técnico o acusou de descomprometido. O jogador não queria falar, mas...

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DEFCON 1

DEFCON 1

O Torcedor Coral teve acesso a um documento ultra-secreto que transita no Santa Cruz e foi elaborado pelas mãos de especialistas em segurança patrimonial, alguns deles com formação em Harvard. O objetivo é garantir a paz e harmonia entre dirigentes, comissão técnica, jogadores, torcedores e cambistas nas Repúblicas Independentes do Arruda, custe o que custar, e evitar a instalação de uma crise que possa abalar as estruturas e as finanças do clube. O documento é, na verdade, uma minuta endossada por uma alta patente coral, que, infelizmente, não pode ser revelada em garantia ao sigilo da fonte. O TC espera que os procedimentos adotados pelo clube, a partir desse documento crucial, possam trazer a paz de volta ao Arruda e evitem cenas com as dos vídeos abaixo. Código de conduta aplicado a torcedores e outros subversivos Em virtude dos últimos acontecimentos, que envolveram torcedores, jogadores e comissão técnica, o Santa Cruz Futebol Clube resolve elevar a segurança para DEFCON 1, nível de alerta máximo, de maneira que o pau poderá cantar, sem a necessidade de autorização prévia, se houver vaias, protestos, xingamentos, arremesso de cuspe em direção ao banco de reservas ou a tribuna de honra, agressão física ou qualquer outro movimento suspeito que seja considerado apupo. Será considerada vaia a emissão de qualquer som monossilábico que se pareça com as vogais A, E, I, O e U pronunciadas de maneira que possa transparecer forma pouco amistosa de comunicação ou falta de modos do torcedor. Entende-se por protestos as manifestações contrárias à diretoria, comissão técnica, jogadores, funcionários e cambistas sob qualquer forma, de maneira que fica autorizada a segurança do clube recolher bandeiras, cartazes, folhas de caderno, embrulhos de padaria e lencinhos de papel que possam caracterizar infração a este código de conduta. São exceções à regra prevista no item anterior os cartazes que contenham dizeres similares a “Galvão ou Rembrandt ou Globo, filma nóis!”, de maneira que não comprometa a nossa boa relação com a referida emissora de TV. Serão considerados xingamentos os palavrões, como filho da puta, frango, fresco e suas derivações, entre outros, ou palavras com significados incompreensíveis aos ouvidos dos seguranças, de maneira que não podem ser pronunciados nem mesmo nos banheiros do clube. Cão sarnento e burro, entre outros, são equiparados a palavrões, de maneira que também não podem ser pronunciados dentro do estádio. Não serão consideradas palavras incompreensíveis aos ouvidos dos seguranças aquelas...

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Entrevista com o Professor Pardal

Entrevista com o Professor Pardal

O Torcedor Coral sempre teve um desejo incontrolável de ficar à beira do campo e também de participar das entrevistas coletivas, a fim de estudar a conduta de jogadores e treinador, na tentativa de buscar, através de pesquisa comprovadamente científica, compreender as razões de uma vitória ou de uma derrota. Não seria interessante descobrir, através de perguntas sinceras, por exemplo, o que motivaria um treinador a escolher essa ou aquela escalação, o esquema tático e as substituições? Não seria oportuno analisar o desempenho de uns e de outro, jogadores e técnico, e responder questões relevantes do futebol, ainda mais em tempos tão esquisitos como o que vivemos, de planos táticos ininteligíveis e escalações sem nexo, onde cem entre cem torcedores não fazem a menor ideia aonde o treinador quer chegar? Infelizmente, enquanto a mídia esportiva institucionalizada recebe lanchinho à beira do gramado, durante os treinamentos, aos blogues não são permitidas participações tão próximas do departamento de futebol. Cansados de esperar uma autorização que nunca virá, o Torcedor Coral convidou o repórter esportivo, Paulo Bocão, formados nas ruas, nos bares e nos clubes de fofoca, para furar esse bloqueio e conseguir, custe o que custar, acesso a essa turma graúda. Sua primeira missão foi conseguir uma entrevista exclusiva com o técnico coral, a quem ele, como todo torcedor, chama carinhosamente de Professor Pardal. De tocaia na saída do estacionamento do Arruda, Paulo Bocão bloqueou o veículo do treinador com um carrinho de mão utilizado na reforma de sua garagem, que agora terá banheiro privativo e sala de chá, e conseguiu essa entrevista exclusiva. Paulo Bocão – Professor, o senhor fez algum teste psicotécnico para ser treinador do Santa Cruz? Professor Pardal – Claro que não. Por que a pergunta? Paulo Bocão – É que suas escalações, substituições e esquemas táticos não fazem sentido nenhum. Professor Pardal – Tudo isso faz parte de um planejamento estratégico que o senhor, por não ter formação no futebol, não tem condições de compreender. Paulo Bocão – É por causa desse planejamento estratégico que os jogadores tiveram quase dois meses de férias? Professor Pardal – Sim. Está provado que o repouso é necessário para a recuperação física do jogador. Paulo Bocão – Não é por isso que esse time é descansado demais em campo, não? Professor Pardal – Pretendo deixar o time ainda mais relaxado com uso de outros meios avançados da medicina esportiva. Quero...

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Caso de polícia

Caso de polícia

No último sábado à noite, por volta das nove, recebi uma ligação em que Nó Cego me noticiava um assalto de que teria sido vítima. Por isso, com uma singular gentileza, como é de seu estilo, convocou-me a acompanhá-lo a uma delegacia de polícia para prestar queixa e servi-lhe de testemunha. ― Como é que eu posso testemunhar, se nem estive na cena do crime? ― Deixa de ser frouxo, tira essa bunda do sofá e vem comigo, que eu tô com pressa! Estava bastante apoquentado com o empate com gosto de derrota do Santa Cruz contra os menudos de Rosa e Silva, por isso, pretendia beliscar uns quitutes que havia guardado em minha geladeira há mais de 3 anos, abrir uma garrafa do melhor vinho francês já produzido em Petrolina e entorná-lo de uma só vez até pegar no sono. Contudo, não me pude furtar a amparar um amigo em um momento tão dramático de sua vida. Assim, a contragosto, porém douto do valor de minha inestimável solidariedade, devolvi o vinho ao refrigerador, dei os pitéus dormidos a Dalila – uma cachorra de rua que eu peguei pra criar, que tem complexo de superioridade, usa peruca e pensa que é uma leoa, apesar do seu latido indisfarçável – peguei a chave do carro e saí em seu socorro. Nó Cego, bengala na mão, me esperava à porta de sua casa com a resignação de um paciente do SUS na fila de atendimento do Hospital da Restauração e, tão logo ouviu a minha voz, deu-me as boas vindas com amável saudação. ― Vai demorar assim lá na casa de carai! No caminho, fomos parados por uma blitz da polícia de trânsito e tive medo de alguma reação inoportuna de sua parte. Quando o praça se aproximou do carro e pediu para eu soprar o bafômetro, Nó Cego perguntou-lhe que merda era aquela, uma vez que dirigir bicado estava liberado geral. E citou a jurisprudência criada a partir do caso de um Secretário de Estado que, mesmo sem conseguir fazer um “4”, andar em linha reta, acertar o próprio nariz com o dedo indicador e após derrubar um agente público na base do grito, ou melhor, do bafo, havia sido indultado e abençoado pelo poder público. O guarda, com toda pureza d’alma, perguntou-me então se por um acaso eu não seria alguma autoridade do primeiro escalão do Governo e, diante de...

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