Justiça, ora, a justiça!

Justiça, ora, a justiça!

Não existe justiça no futebol. Talvez o esporte imite a arte, como a arte imita a vida. Na vida nem sempre prevalece o justo e muitos são os atalhos para se tomar o certo por errado. Tem-se a impressão, aqui e acolá, que mais vale a destreza do advogado do que a verdade dos fatos ou a interpretação do juiz que o texto da lei. A lei, me ressinto em dizer, não serve à justiça. Serve, quando muito, à própria lei. Não. Não existe justiça no futebol. Se houvesse, algum tribunal desportivo daria, por unanimidade, a vitória ao Santa Cruz no Clássico das Multidões. O resultado final não valeria, porque não seria justo, nem verdadeiro. Ontem, o Santa Cruz pôs o rival sob seu jugo. Foi soberano. Saiu de um primeiro tempo equilibrado para um segundo absoluto. Sobrou em campo. Foi tamanha a superioridade que o empate serviu à torcida adversária como um título de copa do mundo. O Santa, apesar da empáfia do lado de lá, mandou no jogo. Tanto que abusou. No final da partida, eu gritava em vão para o time segurar a bola no ataque. Minha voz foi abafada pelos gritos de olé! Grita-se olé!, quando muito, numa goleada, onde não mais é possível dar chances ao azar. Em um clássico, tudo pode acontecer até o apito final. Cada jogo do passado está aí para provar. Dizia a Paulinho, segundos antes do lance capital, que só um milagre tiraria a vitória. O milagre nasceu de um tolo desejo de vingança dos que, em campo, engoliram calados, durante toda a semana, o outro lado cantar de galo. Deixaram, então, de fazer justiça para serem justiçados. Da vingança fez-se a soberba, que tombou castigada nos minutos finais. Eis a justiça no futebol. O pênalti não foi cometido por um só jogador, mas por todo o grupo. Começou no ataque com uma tentativa de drible desnecessária, passou por um vácuo na lateral direita até terminar na área, desmantelado no chão. O correto seria prender a bola e gastar o tempo. O tempo, ah!, o tempo, compositor de destinos e regente de movimentos precisos. Faltava uma réstia de momento, um triz de minuto. Que os segundos passassem com a bola em nossos pés. Na arquibancada, explodi impaciente e demorei a me acalmar. Não se pode contar com a vitória antes do fim. A soberba nos tirou a liderança e...

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Desconstrutivismo

Desconstrutivismo

  Ando lento para escrever ultimamente, por isso, tenho preferido ver, ler e ouvir. O último artigo que publiquei aqui completou aniversário de um mês no dia 04. Não lembro, sinceramente, de passar tanto tempo ausente. Dá nisso, quando a obrigação se impõe ao prazer. Além do mais, o nosso site tem atravessado problemas de estabilidade, gerado trabalhos adicionais, redobrado os esforços, que, apesar de bem-sucedidos, ainda vão longe de uma solução definitiva. No Santa Cruz, os primeiros frutos do trabalho de Martelotte começam a aparecer e a criar boas perspectivas para a Série C, apesar de alguns defeitos reparáveis. Incorrigíveis, apenas os privilégios de Dênis Marques, sua falta de profissionalismo e mesmo de educação, que o levam a se ausentar de treinos sem avisar diretamente ao seu chefe imediato e a criticar publicamente a atitude sensata do único homem no clube com coragem suficiente para botar o jogador em seu devido lugar. Esforço em vão, é verdade, dada a complacência irresponsável de diretores com atos de indisciplina, especialmente de Antônio Luiz Neto, que, ao passar a mão sobre a cabeça do jogador, desconstrói o trabalho do treinador. Fosse ou não a atitude do atacante justificável, o correto seria o seu contato diretamente com Martelotte. Ainda mais apropriado, depois da entrevista desastrada do jogador, seria que o técnico, mesmo com riscos de perder os jogos e o cargo, deixasse o atacante fora da partida de ontem e do clássico de domingo. Quem sabe assim, o presidente aprendesse, ainda que do modo mais duro, que é preciso ficar do lado de quem tenta moralizar o futebol no clube. Ontem estive no Arruda e gostei do que vi. O último time coral que saía da defesa para o ataque sem dar chutões, recordou bem Artur Perrusi, nosso dileto e letrado cronista, foi armado por Dado Cavalcanti. O rapaz, infelizmente, carecia de mais experiência para treinar um time de massa, além de esbarrar em Raimundo Queiroz, um dos piores diretores de futebol da história do clube. Mas o Santa de Martelotte aprende, dia-a-dia, a tocar a bola, a construir jogadas e a sair em velocidade. O meio, nosso ponto mais fraco na era Zé Teodoro, torna-se, enfim, nossa fortaleza. São evoluções apreciáveis que devem ser creditadas ao trabalho persistente do treinador. Claro, tenho minhas restrições e preferências, como Nininho na lateral, e não compreendo a injustificável ausência de Tavera dos gramados por...

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Luz cinza

Luz cinza

Foi um fulano, amigo de um beltrano, ainda na arquibancada, quem elevou o meu estado de consciência. Foram poucas palavras, um desabafo igual a tantos outros que já ouvi depois de uma derrota, mas que, daquela vez, pegou o meu espírito desprevenido. — É melhor se acostumar, pois o Santa Cruz de hoje também será o de nossos filhos. Distraído, voltei meus pensamentos para casa e lembrei dos pequeninos. A mais velha, de quatro anos, se ilumina diante de bandeiras e símbolos corais, canta o hino e tudo mais, e acha nossos adversários a coisa mais feia que já pisou na face da terra. O menor, de dois, ao ver o escudo do Santa diz logo com a sua voz miudinha: “Olha… Cuz!”. Talvez, por isso, pego com o coração sangrando, não pude imaginar a transferência das minhas profundas decepções no futebol para eles, porque o Santa tem essa qualidade de desapontar a gente quando mais e menos a gente espera. Esqueci a raiva e a intensa decepção e ali, em meio a trinta mil pessoas, depois de assistir assombrado a mais uma desonrosa eliminação, dobrei-me à obviedade dos sinais espalhados em cada canto do estádio, em cada parede do Arruda e profetizada por um desconhecido ainda na arquibancada, no apagar das luzes: o Santa Cruz grande, que nos encheu de orgulho na década de setenta, morreu em 1981, quando perdeu para o Bahia por cinco a zero na Fonte Nova e foi sepultado para o futebol. O que se vê nos gramados são fantasmas zanzando com a bola de um lado para o outro, nada mais. Tanto mais é estarrecedora a consciência de alguma coisa, quanto mais óbvia ela for. Daquela partida para cá algo se quebrou. Desde então ando desinteressado do Santa Cruz. Assisti ao jogo contra o Belo Jardim na TV, é bem verdade, mas como quem assiste a um filme na Sessão da Tarde: um troço meio sem graça que você já viu milhares de vezes, mas não tem nada melhor para fazer. Ontem, sequer ouvi o jogo. Soube do resultado, mais tarde, quando cheguei em casa e nada me surpreendeu. Nem a inércia de Antônio Luiz Neto em esperar que o time se resolva sozinho, nem o despreparo da diretoria de futebol ao montar uma equipe tão franzina, nem a inabilidade de Marcelo Martelotte no comando técnico, nem a qualidade dos jogadores que não...

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De saudade e de silêncio

De saudade e de silêncio

Espero o verão ir embora para ficar mais à vontade. Gosto do sol, mas não do calor imenso. Já foi o tempo em que deitava nas areias da praia para morenar o que já é moreno. Prefiro agora a brisa refrescante que vem da minha janela nas estações suaves e também a noite fria, que me permitem refletir e descansar um pouco mais. Contudo, não desfaço do verão, fonte de vida de nossa juventude colorida pelo sol. Nesta estação, vivo dentro d’água como um peixe de coral e, entre um mergulho e outro, molho a garganta em refrescantes goles de cerveja. Ah! Isso é que é vida. Vocês hão de concordar. Fora disso, a sensação não é boa, apenas o trânsito flui melhor. Pinga em minha testa um suor corrente como a nascente de um rio, que prega na minha roupa um cheiro um tantinho azedo que me tira o sono. A copa das árvores não se movem, porque não há ninguém para soprar. Lá em casa também nada sopra. O ar condicionado foi vencido pelo calor e mesmo o ventilador parece mais puxar o ar com a boca, para se refrescar, do que para empurrar na direção da gente. No verão também não há futebol. Não há gente a lotar os estádios e a colorir a cidade com bandeiras descomunais e uniformes do seu time. Ao menos havia o consolo da Copinha. Agora não há mais. Se serve de consolo, fomos bem, mesmo com a eliminação na segunda fase da competição. O adversário foi superior, mas se não fosse o juiz, quem sabe aonde iríamos chegar. E já que mencionei a arbitragem, sinto falta até mesmo dos gritos de “ladrão!”. Um estádio vazio é como um cemitério na madrugada, onde só os mortos perambulam, pois o gramado, se não repararam ainda, tem um aspecto de sepulcro natural. A gente olha de cima da arquibancada e jura que viu um vulto de um craque do passado passar por um, tabelar com outro e fazer um belo gol. Mas tudo está vazio. Não há ninguém por lá, só a saudade de ver a bola rolar e um homem sentado na arquibancada a coçar o queixo e a meditar. — Onde estão todos? — Quem sabe escondidos a lamentar o ano que passou, senhor. — Ninguém mais por aqui grita gol? — Não tenho ouvido não, senhor. — É tão triste...

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Eleições e sectarismo

Eleições e sectarismo

Chegaram ao fim as eleições no Santa Cruz e com elas, assim espero, também termina a batalha campal que se instalou não apenas nos palanques, mas entre torcedores partidários de um e outro lado. A vitória de Antônio Luiz Neto foi mais do que esperada e demonstrou que apesar de suas falhas, muitas, aliás, a sua gestão esteve longe de ser um fracasso. No futebol, apesar de nossa justa impaciência com Zé Teodoro, conquistamos dois títulos pernambucanos e um acesso. Para quem considera que o campeonato pernambucano não vale nada, basta lembrar que ele é o responsável direto pela renovação da torcida e seu crescimento. O sport deu um salto de 1988 para cá, porque, com o dinheiro, vieram os títulos. Digam o que disserem, sinto prazer em ser campeão pernambucano, ainda que o desejo de almejar vôos mais altos nos cenários nacional e internacional sejam maiores e, por enquanto, utópico. Esta eleição não me empolgou. Embora considere a figura de Joaquim Bezerra importante na tentativa de um processo de mudança de mentalidade com a busca inescapável de profissionalização do clube, sua chapa nem de longe chegou a me motivar. Não era preciso ter quaisquer dos ex-presidentes em suas fileiras, mas precisava ter mais personalidade, pessoas com perfil de gestor na base de seu grupo, que tornassem mais sólido o seu projeto. Também considero que sua campanha cometeu equívocos que o afastaram ainda mais da cadeira de presidente do Santa Cruz. O tom elevado além da conta, que se iniciou com o um termo chulo atribuído a Sandro, atrapalhou. Quando o campo de batalha torna-se pessoal, há dificuldades em se distinguir a razão da emoção. Tive a oportunidade de dizer isso a alguns de seus partidários no dia da eleição, contudo, era só a minha opinião, não necessariamente a mais abalizada, como se diz no jargão do futebol. Do lado vencedor, Antônio Luiz Neto já apresentou virtudes e imperfeições. Já é possível saber, por exemplo, que o seu lado político dificilmente permitirá grandes mudanças administrativas no clube. Também não espero uma revolução no Estatuto. A propalada união, que coloca gatos e cachorros no mesmo lado e que pouco me agrada, pois mantém representantes do LEF dentro do clube, não permitirá grandes avanços. E embora não atribua a derrota de Joaquim Bezerra – uma sonora goleada, aliás – a questões eleitoreiras, é preciso vontade de promover as mudanças que deem...

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Quase a mesma amizade

Quase a mesma amizade

Voltamos, dessa vez em definitivo… eu acho. Está bem, o início deste artigo é paradoxal e demonstra insegurança e insatisfação, mas o momento foi mesmo de turbulência interna. Na fase mais crítica, houve chantagem e ameaças de saques em nossa redação, como se tivéssemos algo de valor para ser subtraído. Enfim, seja como for, voltamos para ficar(?), pois aqui é o nosso lugar. Infelizmente, contudo, o processo eleitoral do Santa Cruz e o bate-boca entre situação e oposição ficaram em segundo plano, assim como os comentários pendentes de moderação, pois não havia condição mínima de trabalho de nossa equipe. Os olhos apontavam para o nosso próprio umbigo, um grande umbigo, já que há tempos estou fora de forma, para resolver um problema interno que se anunciou no meio do ano. O antigo servidor, onde nosso site estava hospedado, encrespou com a gente, cismou do cão de manter o TC sob rédea curta. Primeiro reclamou do tráfego. “Trânsito é problema de Geraldo!”, argumentei. Aí a coisa (não aquela rebaixada) fedeu depois de uma reclamação formal do volume de nossos arquivos. Somos um blog de massa, querem o quê, caras-pálidas?! Soube que surgiram boatos que uma das chapas à presidência do Santa Cruz (ou as duas!) havia nos sabotado. Descartei de imediato, pois, tanto de um lado quanto do outro, há pessoas que tenho enorme consideração e tenho certeza que a recíproca é quase verdadeira. Acho mais plausível a versão que atribui a culpa ao Blog do Santinha, não pelo medo da concorrência, como insinuam os mais maldosos, mas pela sacanagem pura e simples. Sexta-feira vou tomar algumas com Gerrá e tirar isso a limpo. Se for verdade, darei o troco e cobrarei danos morais, tendo como tribunal uma mesa de bar. Contudo, porém, todavia, entretanto, a verdade é que o servidor, onde o nosso site se hospedava até o último dia 28 de novembro, prometeu armazenamento e tráfego ilimitados e que o espaço em disco iria crescer na hora certa, mas não foi assim que aconteceu. O Termo de Serviço, Backup e Armazenamento desdizia a propaganda oficial. É preciso se ater as coisas miúdas, as letrinhas pequenas do contrato, as cláusulas que tornam finito o infinito. Fui ao Tribunal Especial de Pequenas Causas alegar propaganda enganosa, mas quando me perguntaram o endereço da empresa e eu comecei a dizer www, me aconselharam a desistir da ação e a mudar de...

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