O canto do cisne

O canto do cisne

Com a volta do LEF, a janela de oportunidade, que se abrira aos tricolores democratas, fechou-se definitivamente. Fomos defenestrados do clube, por assim dizer. A janela era pequena, mas promissora. Era uma oportunidade histórica; na verdade, única. Tínhamos, enfim, a chance de mudar o Santinha. Fracassamos de forma espetacular. Era uma crônica anunciada, o nosso fracasso? Talvez. Nunca conseguimos mudar de fato a correlação de forças. Sempre fomos minoria. É só recapitular a história e, com isso, entender o que se passou. Escrevia o seguinte, em 28/07/2007, no texto Chutando o pau da barraca: Antes, uma recapitulação, para que a minha posição fique mais nuançada. Assim, volto ao tempo. Durante as articulações para a formação de chapas, houve aquele momento em que Edinho e Romerito tentaram uma recomposição. Fui totalmente contra pelo seguinte motivo: já se estava fazendo uma composição com a situação. Edinho e quejandos tinham sido da direção passada e representavam uma filosofia de gestão que não rompia, em termos de ideias e mentalidade, com o passado do clube (daí, quem sabe, toda a ambiguidade de Edinho em relação a Romerito — o segundo acusa, o primeiro finge que não escuta. Há um silêncio da presidência em relação à gestão passada que, dadas as circunstâncias, não tem explicação. E, afinal, a auditoria não encontrou nada?!). Claro, há uma espetacular diferença aqui: estava-se compondo com a parte benigna da antiga diretoria. Dada a situação do Santinha, a honestidade tinha um valor estratégico fundamental. (Aos poucos, fui descobrindo que, infelizmente, honestidade é condição necessária, mas não suficiente para mudar o clube do Santo Nome) Assim, na minha cabeça, a próxima diretoria seria de transição, visando à formação de uma base de dirigentes e a práticas de gestão que pudessem implementar uma nova configuração no clube, mais democrática e profissional. Mas achava que necessitaria, para que tal objetivo fosse viável, de algumas pré-condições: a) Edinho e sua ala largassem o amadorismo e uma visão ainda um tanto centralizadora de gestão; b) a ala, representada por Fred Arruda, conseguisse força política e fosse se tornando hegemônica no clube; c) o Conselho Deliberativo fosse ativo e pendesse politicamente para a democratização e profissionalização do clube. Nada deu certo e, em 18/11/2007, pedia a renúncia do diminutivo no artigo Renúncia Já!. Não houve renúncia, tudo continuou errado, e escrevi, em 02/05/2008, um artigo (Nosso futuro) sobre o fim da “revolução do Arruda”: A...

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A profecia

A profecia

Fiz uma profecia — faz tempo. Eu a disse. Inicialmente, só queria chatear Geo, já que o cabra estava apoplético, depois de alguma derrota tricolor. Depois, fui percebendo que algo estava errado — mas, só depois. Geo não se chateou, propriamente, apenas se calou e me olhou muito triste. Seus olhos marejavam. Geo é poeta, logo, sensível a vaticínios. Detesta previsão e destino, mas  os teme como o diabo. Acho que entendeu tudo, na hora. Tentou falar e não conseguiu. Parecia pedir ar. Como disse, estava apoplético e, agora, mudo feito um ornitorrinco – sim, é um bicho mudo, não posso fazer nada, vi na Discovery Channel. Dimas, ao lado, meneava a cabeça. Não tinha entendido, nem escutado a profecia, mas sabia que era séria. Imaginou logo o que fosse. Pela sua cara preocupada, compreendi que algumas revelações não devem vir à tona – deveriam ser, na verdade, esquecidas. Revelações improferíveis ou esquecidas moram no purgatório do tempo. Diante do indizível, que fiquemos calados, parecia implorar Dimas. Uma revelação dita vira profecia, destino e futuro. Digo logo que fazer uma profecia não é fácil. É preciso muito desespero ou ter comido gafanhotos no deserto ou  mascado um mandacaru no sertão. Não tinha comido gafanhoto, embora a comida do bar tivesse algum parentesco; não tinha mascado um mandacaru, embora a cerveja Frevo fosse absolutamente psicótica – estava, isto sim, era desesperado. O desespero é uma forma de clarividência. É a consciência absoluta da condição de lascado; a lucidez do fodido; a catarse da evasão impossível. Sei que não deveria ter proferido a profecia. Liguei, desse jeito, a máquina do destino, uma engrenagem que mói expectativas, esperanças e otimismos. Uma vez ligada, nada pode pará-la — tão ligados?! Não deveria, mas fiz. Sou culpado, mas não responsável. Um desesperado que faz uma profecia não é responsável pelo enunciado. O profeta do desespero apenas verbaliza Outro, um além que está lá, nalgum lugar, absolutamente inatingível. Sim, não sou eu o responsável pela profecia e sim a PQP, o espírito maligno do Santinha. A PQP falava por mim e dizia horrores. Minha boca exalava um futuro fedido e nojento. Parecia um cadáver. Minha enunciação tornava o impossível uma possibilidade, o possível uma probabilidade, o provável uma certeza. Dimas conseguiu balbuciar: _porra, Artur, por que dissesse isso? _Não fui eu. Foi a PQP… _PQP, um carai! – falou, enfim, Geo. _Não foi a PQP...

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Esquecer

Esquecer

Depois da eleição tricolor, procuro o esquecimento. Quero recalcar a esperança, colocar a vadia lá no fundo do meu inconsciente. Não será um recalque duradoiro, é certo. Dois anos é pouco tempo, e qualquer sofá fubeca de psicanalista aguenta o tranco. E nem preciso disso, cá entre nós, pois uma cervejinha resolve todas as angústias. E, se não resolver, um choramingo pinguço, numa mesa de bar e contanto com a paciência de um ombro amigo, sempre deixa a gente mais leve. Claro, de vez em quando, um pesadelo aqui, um sonho meio esquisito acolá, mas nada que me desestabilize. Espero não sonhar com cobras — pega mal. O fato é que preciso esquecer. Mas o quê? (…) Eita, quase me esquecia. Antes de apagar tudo da minha memória, escrevo sobre… (…) Esquecerei o sonho de democratizar o Santinha. A palavra “democracia” é tabu lá no Arruda – mais do que proibida, é uma palavra vã. Somos uma “república independente”, o governo do faça-nos rir. Pena, pois democratizar o clube seria a única forma de contar com a torcida sem demagogia, sem ufanismo, sem instrumentalizá-la. Discurso politiqueiro, esse de falar da torcida. Discurso cínico. Por que não falam de participação, de associar a massa, de democratizar as decisões no clube? Nunca falarão, pois nosso verdadeiro regime político é a oligarquia – por isso, não conseguimos nem mesmo realizar uma eleição decente. Tanto quanto o futebol, o que mais me decepcionou em FBC foi sua dificuldade ou incapacidade  em esboçar sequer um tiquinho de democratização no clube. Reflexo de suas concepções políticas? Talvez. FBC não estava nem aí. Nunca esteve. Sua política foi a de nivelar tudo. Com isso, os tricolores perderam uma conquista preciosa: depois de tanta desgraça, sabíamos quem era quem no clube. Sabíamos quem era o LEF – demos até seu apelido. Dois anos de FBC e tudo foi esquecido, todos os gatos ficaram pardos, novamente, e o discurso hipócrita da união e da conciliação pôde reaparecer com força. Agora, o ex-salvador da pátria será o presidente do conselho, de um espaço deliberativo que não vale nada, pois foi feito para funcionar assim, na base da fidelidade canina ao executivo e da desmobilização. No fundo, é seu espelho, embora não precisasse de sua presença. Aliás, pra quê?! Sua ausência preencheria, certamente, uma lacuna no conselho. Esquecerei o estatuto. Pra que democratização, logo, pra que um estatuto decente? Pelo...

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Exorcizo te

Exorcizo te

A descoberta de que era um pé-frio caiu como uma bomba. Foi de  lascar. Virou minha vida de cabeça pra baixo. Vejo, agora, tudo esquisito, e não é por causa da cerveja Frevo. Sinceramente, há muito, acho amaldiçoado o nosso clube, mas jamais imaginei que eu era a causa. Pois, saibam, que minha alma está contaminada pelos demônios do futebol. Dimas poderia ter me poupado dessa notícia — há estórias que não podem ser reveladas, somente esquecidas. A sensação é estranha. É um misto de culpa com incredulidade. Sendo um pé-frio, minha presença significa desgraça para o clube – mas, sem querer! Sinto-me, assim, injustiçado, ao fazer uma injustiça, mesmo involuntária. Quase telefono para algum dirigente do Santinha, tentando me justificar, explicar tudo, que o problema não era a incompetência da gestão, e sim o coitado aqui, que cometeu algum pecado contra os deuses do futebol e virou um amaldiçoado, um leproso do Arruda. Sim, um pé-frio, embora defenda que estou, logo, não sou um miserável azarento. Creio que meu azar é temporário, fruto de alguma imprevidência. Cometi algum pecado, eis meu argumento. Desse modo, passei dias insone, tentando me lembrar do que tinha feito, afinal, para ser um agente da urucubaca. E, um dia, como um raio que cai do céu azul, lembrei-me — um sonho no qual aparecia uma mulher lindíssima, que ficava deitada ao meu lado. Descobri, agora, que aquela mulher era um succubus, “aquela que está deitada sob”, um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens e peca — peca muito. Pois é, aceitei-a e não ofereci resistência.  Mas o sonho era apenas um prenúncio. Talvez, por isso, outra mulher, mais linda do que um gol no final de uma prorrogação, apareceu nas sociais assim, sem mais, nem menos. Era de uma beleza sideral e tinha a capacidade de seduzir quem bem entendesse. Fui sua vítima, seu prato, seu manjar, sua comida. Ali, nos labirintos das sociais… meus olhos, adrenalina, minhas pupilas, midríase! razão some (desejo assome), loucura do olhar; vou levado, afasta-se, seguro-a com força, balanço-a com firmeza, cede (pede). cabelos em desalinho, caindo e escondendo olhos de sonsa, vergonha? inocência? s-a-f-a-d-e-z-a! rasgo o seu vestido, desnudo seus seios; luta longa, corpocontracorpo, vejo-me apertando a palma de uma mão deliciosamente branca, desejandotocaraquelecorpo, mais do que subjugá-lo. mas tenho ânsias como qualquer mortal: beijo os seus lábios, agarro a sua nuca, abro...

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Deforete

Deforete

Não sei… Fico pensando sobre o que escrever, agora. Escrever sobre o Santinha? Mas essa semana foi tão difícil… Há um desânimo tão grande no ar, embora saiba que todo tricolor alimenta-se de luz. Caso o time consiga um bom resultado contra o Confiança, por exemplo, a esperança aparecerá linda, resplandescente e com um vestidinho prendado. A esperança é nossa virtude e nossa desgraça — nosso ópio. (aliás, perdoem-me a expressão, mas transformamos a esperança numa vadia. Banalizamos e profanamos constantemente a coitada. Chega a ser um assédio a nossa busca e avidez pela esperança. Há algo desesperado nessa taradice) Pois é, foi uma semana simbolicamente pobre para um escrevinhador esportivo das horas vagas. Gostaria de escrever  sobre meu clube, sem esse amargor no coração. Assim, decidi encarar umas cervejas Frevo, essa bomba psicodélica, que me faz ter delírios febris. Dopado, tento pensar nalgum assunto… E me lembrei da saudade — quando triste, fico saudoso por qualquer motivo. Fiquei com saudade de um bom domingo de futebol. Faz tempo que não experimento essa iguaria. Sinceramente, os últimos jogos não contam; além do mais, nos derradeiros, saí de casa e fui direto ao jogo. E um bom domingo de futebol exige um mar e uma cervejinha. E sol, claro. Sem sol, é de lascar. Como nosso clube é amaldiçoado, geralmente, chove em dia de jogo do Santa — aliás, não choveu nas duas últimas partidas, mas deixa pra lá. Continuemos… Uma praia e uma cervejinha é um programa insuperável. Recife não é Paris, mas tem praia — filosofo após a segunda garrafa de cerveja Frevo. (Paris?! Aaah, sinto agora o efeito alucinógeno da Frevo. Os beatniks americanos não sabem o que é droga. E sem sugesta. Pego mais uma garrafa na geladeira e continuo com a ruminação) Pobre daqueles humanos que não desfrutam de uma praia na sua cidade… é deles o reino dos céus. Olhando o mar e bebericando, fica-se com uma tremenda pena dos mineiros e dos paulistanos. Creio que é o programa perfeito para se inventar uma identidade regional – “Orgulho de ser nordestino”; “Pernambuco, aqui é o meu lugar”. E vai-se bebendo, e vai-se filosofando. Sim, uma praia e uma cervejinha… Lugar ideal para aguar nossas raízes mais superficiais! Na praia, fica-se entre a Cidade do Recife, hábitat do provincianismo e do novo-riquismo, e o mar, horizonte do cosmopolitismo. Sim, estou na praia, agora. É uma...

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Agonia

Agonia

Concluo logo todo o argumento: algo se quebrou, algo está se quebrando. Bem, como é difícil dizer e escrever, produto de uma resistência um tanto óbvia, serei mais explícito: nunca encarei, de frente, o fim do Santa, pois julgava essa ideia absolutamente irracional — o fim de um clube  tradiconal e grande. Era uma resistência emocional braba, uma espécie de veto absoluto; em suma, simplesmente, não pensava sobre isso, ou melhor, emocionalmente, não assumia essa desgraça, embora pudesse discutir de forma racional, mesmo que me desse um nítido mau humor. Mas, agora, o fim não é uma ideia, e sim uma possibilidade — convenhamos, a possibilidade não é a realidade, mas não deixa de ser uma forma de realidade. Já escrevi textos propositivos. Todo mundo no TC fez isso. Não só aqui, mas também no Blog do Santinha (afora todos os comentários que tentavam discutir e propor novas práticas no nosso clube). Estamos todos cansados. Parece que o Destino conspira contra nós. Nada do que é feito dá certo.  Quando tudo parece óbvio… e, no entanto, toda solução dá errado, toda ação gera  o contrário, estamos diante… aliás, desculpe colocar vocês no meio,  retifico a frase: estou diante do imponderável. Estou cansado, basta de análise e… torcida. Um pouco de testemunho, um desabafo, uma melancolia. O Santinha está agonizando; está morrendo. É duro escrever, mas é muito mais difícil assumir. Deneguei esse fato, juro, inclusive na última desclassificação do Santa na série D. Ali, disse a Dimas que não escreveria mais, que não aguentava mais futebol, etc e tal. Voltei a pé pra casa, porque queria me acalmar. Moro perto do Mercado da Madalena. Foi uma baita caminhada. Andei pra desopilar. Pensei sobre a futilidade de estar naquele estado, tão puto e desesperado, por causa de um clube de futebol. Porra, estava de luto – como é que podia? Caminhando pela Madalena, lembrava-me o tempo todo da frase magistral do irlandês Bill Shankly, que foi técnico e manager do Liverpool: “Futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”. A frase me acalmava e, ao mesmo tempo, deixava-me mais triste ainda. Por quê? Ora, por que… se o Santa acaba, morre toda uma parte de minha vida. Dá uma vida inteira. É esse o preço assustador do fim do nosso clube. Sinceramente, não consigo encarar esse fato. Tem amigo meu, fanático pelo...

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