Sandro pode dar certo?

Sandro pode dar certo?

Quando converso com os amigos, sempre defendo a tese de que o Santinha é incompreensível. Digo que mesmo Tirésias, o adivinho cego da antiga Grécia, teria um colapso profético, se tentasse predizer o futuro de nosso clube. E olhe que Tirésias era um protegido de Zeus, possuindo o dom da adivinhação. Imaginem, então, um mortal comum tentando pressagiar o que acontece no Santinha — acho-o inescrutável. Dimas mesmo, depois da quinta garrafa, diz que vê vultos e vozes, mas é incapaz de perscrutar como seria o dia de amanhã no Mais Querido. Seria imprevisível, randômico, aleatório, errático, inesperado demais. Até a teoria do Caos não dá conta do Clube do Santo Nome. O Efeito Borboleta não funciona no caso de uma cobra coral. E o coeficiente de Lyapunov é mil vezes maior do que 01 — não sei o que significa, mas sei que é muito grave. Não há verdade no Arruda. A ilusão é a única realidade e a certeza, a grande impostora. Em suma, o Santinha estaria além da capacidade de compreensão dos zerumanos. Por isso, talvez, os tricolores enlouqueçam quando se tornam dirigentes do clube. Há algo lá, talvez medonho, bem lovecraftiano, que deixa todo mundo doido de pedra. Naquela piscina, sim, naquela piscina tem algum monstro tentacular com poderes telepáticos. Muitos foram os que se banharam naquelas águas turvas e despirocaram — há boatos de que Edinho, o demente, tomava banho ali nos dias de Lua cheia. Não consigo pensar naquela piscina sem estremecer com as possíveis criaturas que, neste exato momento, esfregam-se e se espojam no leito lamacento. Estremeço ao imaginar que tais seres arrastam para o fundo, com seus tentáculos fétidos, tricolores endoidecidos pelo pandemônio universal do nosso clube. O Arruda seria um lugar de horrores, eis o meu medo — o reino da insensatez. E digo que só alguns — muito poucos, apenas os escolhidos — seriam capazes de contar o que há nos subterrâneos do Arruda (não sabiam? O Arruda tem cavernas, rios e lagos secretos; ah, sim, tem catacumbas, lotadas de beneméritos). Porque, caros amigos, o que os dirigentes fazem no Santinha não pode ser catalogado propriamente como burrice, e sim como, parece-me notório, a mais completa loucura. Claro, a loucura pode dar certo. E tem dado algum resultado. É incrível, mas é veraz. O tricampeonato está aí para comprovar a tese de que gestos tresloucados podem trazer conquistas. Afinal,...

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A volta do recalcado

A volta do recalcado

Tenho que escrever algo… Ordens de Dimas. Mas escrever é um ócio muito trabalhoso. E meu salário só vale uma merreca. Enfim… Acordei, espreguicei e fui ao banheiro. É praxe, talvez de muita gente. Olho, aponto e me desafogo. A manhã começa com um alívio. Foi meu primeiro pensamento filosófico do dia. E não errei a pontaria. Quem erra é machista? Faço a primeira pergunta das 24 horas. E parece feminista. Tô inspirado. Saio, entro na cozinha e bebo um copo d’água em jejum. Faz bem aos rins, segundo algumas crenças mágicas da medicina. Aproveito e tomo pantoprazol. Escutei que faz bem. E sou aditivo. Botou um comprimido na minha frente, engulo imediatamente. Sou dos poucos zerumanos do planeta, por exemplo, que tem barato com aspirina. Se não me causasse gastrite, seria viciado no acetilsalicílico. A “Marcha da Aspirina” — é meu primeiro pensamento político do dia. Realmente, tô bem, tô bem… Sento à mesa, como pão, ovos e tomo café. Preciso da cafeína e de seus efeitos espasmódicos, senão não cago. Sair de casa, ir ao trabalho, mas sem cagar, não é comigo. Sem o gesto banal, passo o dia tapado do cu e do entendimento (desculpe a linguagem chula, mas minha avó dizia isso quando eu fazia alguma burrice). Tem amigo meu que passou 10 anos na análise e, hoje em dia, caga pela manhã que é uma beleza. Sua prisão de ventre matinal era produto do seu Complexo de Édipo, ou seja, a culpa era da mãe. Mas não preciso de análise. Sou psiquiatra, logo, tecnicamente, louco são os outros. Além do mais, se tenho constipação, tomo o famoso chá “Bateu-Cagou”, indicação de Ducaldo — embora especialista em caldinhos, o dito-cujo seria um apreciador de infusões exóticas. Pois bem, levantei-me do trono e olhei o espelho. O reflexo me inquiria. O que é, porra?! O espelho ficou calado, pois o silêncio faz parte de sua natureza. Os americanos inventaram um que fala. São phodas, os americanos. Sabem de tudo, esses caras. Olhei o reflexo. Será que os doidos estão me espionando lá da América? Óia aqui pra tu, Obama! E mandei uma dedada. Era bom começar o dia com um gesto anti-imperialista. Ideologiaaa, eu quero uma pra viver, cantava pro espelho — começar o dia com Cazuza é boiolice; mas, paciência, ninguém escolhe o dia ou a vida. Minha imagem não era muito boa. De manhã,...

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Dia de jogo

Dia de jogo

Estava com parte da família Lins, essa família-comunhão, com Murilo e Felipe. E Dimas? Perguntei. Dimas, rapaz, está naquela cidade horripilante, que é Paris. Numa decisão? Como é que pode? Exclamei completamente incrédulo. Barbie, Dimas virou Barbie? Pois é… O TC ficará rosa? Trocar uma decisão por uma reles viagem? Imperdoável. Não entendia e ainda não entendo. Escolhi a dedo a camisa. Tem que ser a mais surrada, a mais lascada, aquela que daria fim no mesmo dia. Contra a Coisa, acabo com todas as camisas, pois fedo que nem bode. Meto polvilho Granado nos suvacos, mas não adianta nada. Nervosismo fede, dizia Freud, que explicava tudo, mas não o que era torcer pelo Santinha. Por isso, não sou das companhias mais agradáveis, infelizmente, apesar de toda a simpatia. Ducaldo mesmo, espírito sensível, desistiu de ir a jogo comigo. E decisão é phoda… Foco, mentalizo, racionalizo, preocupado com o destino de minh’alma. Fico até calmo, mas os suvacos talvez paguem pela sublimação espiritual. Levei uns grampos de nariz para Murilo e Felipe. E fomos encher a cara no Caldinho do Bonitão — o nome é um gigantesco contrassenso, aviso logo, embora a vida não seja propriamente regida pela lógica. É um boteco notório, cerveja gelada e petiscos baratos. E perfeitamente honesto: olha-se o caldinho de camarão e se encontra, de fato, crustáceos decápodes. Estão vivos? Perguntei. Não, não, é tua colher que está mexendo. Camarões vivos e sem casca não existem. Aaah… Perguntaria sobre o que se movia, afinal, mas achei desnecessária a indagação. Mania de perguntar, carai. Felipe lançava prosélitos na mesa. Adora assistir à Discovery Chanel. É muita ciência, defende. E contava que uma manada de búfalos se move com a velocidade do búfalo mais lento. Quando a manada é caçada, são os búfalos mais fracos e lentos, em geral doentes, que estão atrás do rebanho, e que são mortos primeiro. Essa seleção natural é boa para a manada como um todo, porque aumenta a velocidade média e a saúde de todo o rebanho pela matança regular dos seus membros mais fracos. De um jeito muito parecido, o cérebro humano pode operar apenas tão depressa quanto seus neurônios mais lentos. Beber álcool em excesso, como nós sabemos, mata neurônios, mas naturalmente ataca primeiro os neurônios mais fracos e lentos! Neste caso, o consumo regular de cerveja elimina os neurônios mais fracos, tornando seu cérebro uma máquina mais...

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A Martelotte o que é de Martelotte

A Martelotte o que é de Martelotte

Rapaz, pensei que iríamos perder. Já tinha preparado meu espírito. Li os estoicos. Não desejei o que não dependia de mim. Escondi a esperança no fundo de minha alma. Um sábio não espera, ainda mais tricolor — não se espera nada do Santinha, porque tudo é possível. Um paradoxo? A vida é paradoxal, meus caros. Cá entre nós, faço críticas, já desci o cacete no técnico, mas dessa vez… Martelotte acertou. Vou me beliscar e  repetir: Martelotte acertou. Achou a escalação. Foi na mosca. Com os três meias, o meio-campo do Santinha engoliu a Barbie. O técnico viu o óbvio – não temos um segundo atacante de qualidade; porém, foi mais além. Poderia jogar com três volantes, mais fechado e, consequentemente, com o bumbum na parede. E preferiu colocar três meias, atrás de DM. Houve revezamento na linha de armação e de marcação. Além da organização tática, o que gostei mesmo foi essa postura. Não teve medo da Barbie, o melhor time, em tese, do campeonato. E discordo completamente, absolutamente, totalmente: não jogamos aberto, pois os três meias voltavam e fechavam o meio. E, com a bola, saíamos no toque e na rapidez. Sem dúvida, foi surpreendente. Ainda estou surpreso. Incrível, o time tocou a bola. Não recuou. Jogou na consciência. Martelotte, inegavelmente, foi corajoso. E houve postura tática, algo inexistente até então. Enfim, posicionamento! Olhava a partida e não acreditava – não reconheci o time. Vi várias vezes Martelotte acabar com o jogo, por causa de suas mediocridades. Ainda acho uma “invenção” colocar Sena na lateral, mas o garoto está jogando tanto que não compromete – colocaria o rapaz ou na zaga ou como volante. Porém, na zaga, William jogou muito; Tozo, também (será muito útil). E Sorriso, apenas razoável na marcação, embora bom no passe e na saída de bola. E vejam vocês: no time, durante a partida, jogaram seis pratas da casa: Éverton Sena, Nininho, Natan, Leo, Renatinho e Jefferson Maranhão. Sinal dos tempos? Espero que sim. E, desta vez, Martelotte utilizou bem o banco. Espero que, agora, a razão tome posse do nosso técnico. Que essa postura não tenha sido excepcional. Que seja a regra. A vitória dará tranquilidade, diminuindo a pressão. A torcida voltará a apoiar, como sempre. Que fique a lição. Hoje, Martelotte merece uma boa dormida, numa boa. Está de parabéns. Bons sonhos. (jogando mal, a crítica continuará vigilante, pois aqui não tem...

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Um sentimento que desonra

Um sentimento que desonra

Tive meu momento de raiva. Foi logo depois do gol do Águia. Fiquei puto até algum tempo depois de terminada a partida. Não gosto desse sentimento. Deixa-me mal, o mundo fica cinza. Com a raiva, fico mais irritado. Sou capturado por um circuito que retroalimenta raiva e irritação. Tudo isso por causa do Santinha? Sim, respondo com raiva e irritação. Por causa de futebol? É de lascar, convenhamos. Torcer não devia gerar isso… Fiz um esforço enorme para parar a raiva. Ter é fácil; parar é difícil pra danar. Exige um autocontrole que pede algum preço. Fica-se cansado, quase exausto. Não ter raiva cansa. Mas, depois da raiva, assaltou-me outro sentimento. Sinceramente, preferia ter raiva. E senti uma imensa e inominável… vergonha. Foi tão cavalar o sentimento que, inicialmente, não sabia bem o que sentia. Estava ruborizado e não sabia a razão. Parei embaixo da mesa, como se quisesse me esconder. E não tinha ninguém na sala, mas achei minha sombra um acinte. Sentia-me desonrado. Porra, perdi a honra? Que honra? Era uma desonra que ultraja e humilha. Comecei perigosamente a ter falta de apreço por mim mesmo, uma espécie de desprezo pelo mundo e pela minha insignificância. Estava torpe da vida. Parecia que recebia um insulto e o aceitava passivamente. Pior, concordava com o insulto. A vergonha é um sentimento penoso. Faz-nos sentir inferiores. É indecente e gera indignidade. É uma merda, a vergonha. Foi aí que comecei a ter medo do ridículo. Fiquei absolutamente inseguro. Não conseguia nem me olhar no espelho. Tive receio que ele, o espelho, zonasse com minha cara. Quase entro em pânico com a possibilidade do julgamento do espelho, logo, dos outros. Desejei ser uma ostra – o ser vivente mais tímido do reino animal. Tranquei-me no banheiro e tive uma crise de timidez, acanhamento, recato e decoro. Repetia baixinho ao rolo de papel higiênico: ficamos atrás do Treze! Ficamos atrás do Treze… Juro que o rolo deu um sorriso irônico. Rasguei-o em pedaços. Detesto papel higiênico metido à merda. Que situação indecorosa e vexatória. Como iria falar com meus amigos burro-negros; afinal, passei a semana gozando com suas caras. Pensei em me esconder lá na mata de Dois Irmãos. Mas pensei nos macacos… os macacos são grandes gozadores. Zonariam comigo, certamente. E pensei na frase de um filósofo: “o que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha”....

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O peru e o jogo

O peru e o jogo

Estava sóbrio. O mundo fica muito estranho. Para vivê-lo com alguma lucidez, precisamos estar chapados. Apareci, uma vez, no Carnaval, completamente de cara. Vi a Matrix, estava tudo preto e branco, uma morgação total, e até o maracatu era uma série incompreensível de equações matemáticas. Tomei umas, as cores voltaram, a matemática virou partitura, a partitura, som, e o som, música. Por isso, minha angústia: estava sóbrio num jogo do Santinha. Jogo do Santa é pior do que Carnaval, pois sua matrix é perigosa, revira o estômago e pode endoidar. Uma vez, na série D, fui a um jogo de cara… er… bem… deixa pra lá. Com Frevo-Cola, um toque de Rivotril, tudo muda, e até o gramado fica verde. Mas cometi o erro, é fato. Cheguei atrasado ao Caldinho do Bonitão (nome cheio de encanto sensual, e que, inclusive, atrai todas as gatinhas tricolores à procura de novos mundos, novos objetos, etc e tal), lugar onde Ducaldo realiza sua compulsão aditiva por caldinhos e onde fica, habitualmente, a família Lins. O pessoal já ia embora. Não dava tempo nem de tomar um copo de cerveja. Sim, a família Lins estava lá. Bebericara cerveja  e sorvera infindáveis caldinhos. Sorver?! Justo, pois Ducaldo defende que “sorver” é o verbo correto para beber-aspirando-com-ruído. E não discuto com o Senhor dos Caldos. Já o vi fulminando com um raio o poeta-doutor De Paula por causa de uma querela sobre violão. Pois bem, o contato sóbrio com a família Lins, ainda mais chapada de cerveja, seria mais estranho do que o Carnaval e o Santinha sem bebida. Não é de ficar otimista com o gênero humano, posso garantir. Vê-los, assim, assado, sem álcool no sangue, sei não. Caros tricolores, a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo da família Lins tomada pelo etilismo. Olhava sobriamente meus amigos e morria de terror. Até a morte pode morrer, diante desses cabras, pensei. Felipe parece um Odin. Olha do alto, sempre calado. Existe algo irônico no seu silêncio. Constrangido, sem saber o que dizer, tenho a necessidade injustificável de me justificar. E falo qualquer besteira. E sinto que Felipe deseja apenas o silêncio e que eu fique num estado de quem se cala ou se abstenha de falar. Como eu insistia, pois, nervoso, viro uma matraca atômica, Felipe...

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